Sake – Nossa história oficial
4 Capítulo 4
Jake Ritter escutou o celular apitar em algum lugar às suas costas. O conteúdo da mensagem era tão previsivelmente agressivo, que não se incomodou em parar o que fazia para checá-la. Esticou um dos braços e correu a mão em um movimento circular pela superfície embaçada do espelho do banheiro. Quando conseguiu ver o próprio reflexo, tinha os lábios puxados para o canto direito em um sorriso arteiro.
Ajeitou a camiseta branca na altura dos ombros e, com o tecido alinhado sobre eles, passou a mexê-los no ritmo da música que vinha alta do quarto. A melodia ia do rap para um rock acelerado, que o fez se levantar dos calcanhares algumas vezes para flexionar as pernas e se mover sem ritmo, à procura do spray de cabelo. Chacoalhou a lata enquanto terminava de cantarolar a parte mais animada e a posicionou na frente da boca para usá-la como microfone.
Balançou os ombros alternadamente para cima e para baixo assim que o trecho mudou e desistiu de tentar acompanhar a letra. Em vez de admitir para si mesmo que não a conhecia bem, o orgulho o fez fingir estar distraído demais com o cabelo para conseguir se concentrar nela. Puxou a franja levemente para o lado esquerdo com a ajuda de um pente. Depois, largou-o na pia para se enfiar em uma nuvem de fixador com cheiro desagradável e ajeitou a parte de trás dos fios com os dedos.
O corpo voltou a se mover com um refrão de Zebrahead. Trouxe o tubo de aerossol de volta para a frente dos lábios e fez a voz sair esganiçada do fundo da garganta. Não era alta o suficiente para o vizinho de baixo ouvir, não mais do que o aparelho de som. Com os olhos fechados, emitindo ruídos aleatórios para acompanhar as sílabas mais memoráveis da fala do vocalista, o dedo indicador deslizou firme pela válvula.
O som do spray foi o menor responsável pelo susto do instante seguinte. Com o jato subindo pelo nariz, o homem forçou uma tosse alta, em ameaça de vômito, na tentativa de limpar o gosto que já parecia descer até a garganta. Jogou a lata na pia e abriu com pressa a torneira, enquanto escutava o frasco de alumínio rodar com um tilintar alto sobre o mármore. Debruçou-se e encheu as mãos, a fim de enfiar o rosto na água e assoprar a ponto de fazer bolhas. Gargarejou o líquido limpo até perder a impressão de que tinha acabado de engolir um litro de veneno perfumado.
Fechou a torneira e ainda grunhiu com um som sufocado, vindo do fundo dos pulmões, ao ficar vesgo para confirmar a si mesmo que havia sido a pior sensação de sua vida. Mexeu a boca em movimentos de abre e fecha e a língua para dentro e para fora, até se acostumar com o gosto ruim, então saiu do banheiro. Desligou o som e apagou as luzes. Juntou o celular e a carteira no bolso dos jeans escuros, pegou um blazer preto e o vestiu na direção do hall. O caminho até lá era longo, mas já estava acostumado a fazê-lo, sempre com a mesma distração: imaginar como cada cômodo ficaria quando estivesse finalmente terminado.
O elevador descia da cobertura, o único andar acima do seu. Aguardou até que a porta se abrisse e sorriu discretamente para a família que lhe assistia entrar. Os pais aparentavam uma média de quarenta anos, vestiam roupas sem graça de marcas caras e tinham o nariz empinado em sua direção.
Não era a primeira vez que Jake recebia olhares como aqueles desde que havia se mudado para o prédio. Era como se o achassem algum tipo de criminoso por ter conseguido comprar um apartamento ali, com apenas vinte e seis anos. Gostava de acreditar que não tinha culpa nenhuma nisso ao contar uma versão diferente para cada morador que vinha lhe perguntar com o que trabalhava. Fofoqueiros intrometidos.
Deu um passo para dentro e ouviu a porta se fechar atrás de si. O filho mais velho do casal aparentava estar na metade da adolescência, enquanto a garota mais nova não tinha saído da infância. Havia acabado de se colocar de costas para a família e apertar o botão térreo quando uma vozinha fina encheu seus ouvidos em um sussurro alto, tão indiscreto que a tentativa de murmúrio era apenas um desperdício:
— É o moço do trailer que você fica assistindo e assistindo e assis...
A informação repentina o fez erguer as sobrancelhas e voltar a olhar o casal de irmãos por cima do ombro. Nem sequer sabia se havia escutado direito. A menina agora tinha a boca tampada pela mão do irmão, que se mantinha em silêncio com a atenção voltada aos próprios pés. Já os olhos castanhos dela, arregalados, fixavam-se aos seus. Jake lhe lançou um sorriso e, ao perceber que a conversa não se estenderia, voltou a observar os números que passavam no painel.
Térreo. Saiu para o hall de luzes amareladas e cores de terra, cumprimentou o porteiro e, por fim, encontrou a área externa. O frio o fez fechar os botões do blazer ao descer as escadas para o portão, que se abriu no momento em que pisou o último degrau. Atravessou a rua e seguiu na calçada à direita, na direção do restaurante localizado a três quarteirões dali. Melanie falara sério quando dissera que ele pagaria caro por não ir à sua festa. Embora tecnicamente estivesse lá, ela o culpara por ter quase perdido o ritual do parabéns, enfiado no quarto a noite toda. Agora, obviamente não só por isso, estava destinado a largar muitas verdinhas para assistir à sua primeira apresentação, sobre a qual não aguentava mais ouvi-la falar.
Jake se encolheu dentro do blazer pelo restante do caminho. A casa de madeira e pedra parecia escura, exceto por algumas luzes amareladas que atravessavam as janelas. Enquanto passava pela frente de uma delas até chegar à porta fechada, que impedia que o frio entrasse no ambiente climatizado, descobriu que algumas dessas luzes vinham dos lustres pendurados nas paredes, ao passo que outras eram pequenas velas acesas em cada uma das mesas. Empurrou a maçaneta da porta de vidro e se colocou para dentro. O silêncio logo pareceu sugá-lo.
Era como se aquele fosse o melhor lugar do mundo. O barulho alto dos carros havia sumido completamente e só o que se ouvia eram as vozes educadamente baixas nas mesas ao redor, misturadas ao som do violão e da irmã ao microfone. Primeiro, reparou nos clientes. Havia apenas três mesas ocupadas naquele começo de noite. Duas delas abrigavam casais de meia-idade; a outra, um casal mais jovem, pais de uma garotinha que devia ter por volta de cinco anos, em seu vestido branco que reluzia no ambiente escurecido. Por fim, escolheu uma mesa afastada do palco, próxima a uma parede.
Foi quando se sentou na cadeira de frente aos músicos e olhou para a dupla que tocava, que finalmente descobriu quem era o novo parceiro da irmã. O homem, que mantinha os calcanhares espremidos lado a lado no apoio do banco alto, tinha a cabeça abaixada na direção do violão. Jake não o vira o suficiente para conseguir afirmar com tanta certeza que era o mesmo que fugira dele na noite anterior, mas talvez exatamente por isso tivesse o rosto dele gravado tão bem na memória.
Percebeu que não estava apresentável quando viu o blazer desalinhado nos ombros e a coluna do mesmo modo na cadeira. Ajeitou-se discretamente e procurou a melhor posição para os pulsos se apoiarem na quina da mesa. Parecia não conseguir se encaixar em si mesmo. Os olhos se cruzaram com os da irmã. Ela tentava lhe dizer algo com eles, mas, pela primeira vez em anos, não fazia ideia do que era. O cardápio chegou enquanto ainda tentava decifrar.
Mal conseguia fazer as contas do quanto gastaria entre as paredes de acabamento rústico naquela noite, mas o tanto que fosse parecia justo para pagar pelo cheiro que um conjunto de pratos havia acabado de deixar em seu nariz. Ele queria poder dizer que era seu lugar preferido no mundo quando conseguisse juntar dinheiro suficiente para fazer com que fosse seu primeiro na lista de escolhas para o fim de semana. Era esse o sentimento toda vez que precisava passar por ali com uma sacola plástica do supermercado desde que se mudara para aquela rua, no fim de outubro.
Mais uma música terminou junto com a chegada da bebida que pedira e aplausos de uma das mesas do local. Jake girou o rosto por cima de um dos ombros a tempo de ver a família sorrir na direção dos músicos. Voltou o olhar ao palco, com os lábios entreabertos, e decidiu demonstrar que concordava. Por algum motivo que desconhecia, não soube exatamente como fazer isso. Os braços se levantaram um a cada momento, como se não recebessem o comando certo, e as mãos se erraram algumas vezes na tentativa de baterem uma contra a outra. Sem coordenação, decidiu apenas juntá-las e repousá-las sobre o colo. Espiou os arredores para ter a certeza de que ninguém havia visto, então manteve um sorriso leve, enquanto se inclinava para pegar a taça de vinho.
De cima do palco, Sebastian alternou a atenção entre a criança de vestido branco, que sorria em sua direção, e o homem que parecia se unir à outra mesa nos aplausos. Ou talvez houvesse apenas se enganado e ele estivesse em algum tipo de ritual estranho. Franziu o cenho e cuidou para que o riso não soasse alto no microfone quando percebeu que o cliente bem vestido parecia desconfortável dentro dele mesmo. Então ele pareceu familiar no modo como apoiava um antebraço sobre a mesa e olhava para uma das paredes, mastigando um canapé do couvert.
Sebastian observou ainda por alguns segundos, como se a mente saísse do corpo, em um sentimento que o arrepiava nas poucas vezes que acontecia. Era como se já tivesse visto aquilo em outro lugar, como se o pensamento corresse para a lembrança e o abandonasse, até uma respiração forte trazê-lo de volta. Sentiu os olhos de Melanie sobre o próprio rosto e entendeu que precisava voltar a tocar. Não demorou a se lembrar da música seguinte e começar a dedilhá-la no violão, enquanto voltava a pensar no assunto de antes.
Talvez nunca houvesse presenciado aquela cena que jurara que sim, por um breve segundo, mas acabou por reconhecer o homem e virou o rosto na direção da irmã dele. Ela não tinha comentado que ele viria vê-los, talvez por achar que não se conhecessem. Nisso, ela estaria correta até certo ponto. Não podia dizer que conhecia Jake Ritter graças ao acidente desagradável da noite anterior, mas agora sabia quem ele era. E ela provavelmente não fazia a menor ideia disso.
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