Notas iniciais
Mayura se recorda de seu treinamento com Shaka de Virgem, e percebe o seu papel na história, bem como o de Hesíodo. Ela então planeja uma forma de salvar Alma do controle do réquiem.

“Você sabe muito bem, Mayura. Essa história não é sequer a principal deste universo. Toda essa questão de Prometheus, de Héstia, de seus amigos, de você, de Alma e até mesmo de mim, é apenas um grão de areia dentro de um universo muito maior, infinito. Todo que está acontecendo é apenas uma história sendo escrita, que será lida mas cairá em desconhecimento, sufocada por um universo maior e de outras infinitas realidades possíveis.”

...

Por um milésimo de segundo, Mayura se recorda das sábias palavras daquele homem que encontrara. Aquele homem que parecia ser tão sábio, mas tão limitado ao mesmo tempo. Se tratava de Shaka, o cavaleiro de ouro que a treinara por algum tempo, antes mesmo de chegar ao monte Cáucaso.

No Cáucaso, a situação era delicada: Mayura estava com Alma em seus braços, que havia sido torturada pelo réquiem Hesíodo. Não muito longe, Marin enfrentava Deucalin, o líder dos réquiens. Shaina se encontrava desacordada após uma batalha intensa, e Orfeu já não se encontrava mais neste mundo. Por falar em mundo, ele estava a beira de um colapso: pouco a pouco os humanos voltavam a se tornar ignorantes: Seres presos em seus próprios relatos, mas que graças ao poder de um titã, estavam perdendo seus dons e definhando, até regredirem ao status de apenas animais sem qualquer inteligência.

Mayura e Marin, o destino da humanidade dependia totalmente das escolhas de cada uma. Enquanto Marin utilizava sua força para tentar abrir caminho até o salão de Prometheus, Mayura via Alma em seus braços, se recordando de sua trajetória e questionando sua existência:

Alma, quem é você? Por quê eu me importo com você? Você é apenas um fantoche criado por este homem, então eu não deveria estar me importando tanto. Afinal, o que sou eu? O que são esses sentimentos? O que é essa máscara que cobre o meu rosto? E essas ataduras que prendem meu corpo? Quem afinal é Athena? Ela não deveria estar nos ajudando em um momento tão difícil? Onde estão os cavaleiros de ouro? Por quê nos deixaram essa responsabilidade em batalha? O que eu devo fazer a partir de agora? Afinal, o que sou eu?

“Por favor, me mate!” – Saíam palavras da boca da pequena alma. Apesar de brutalmente torturada, a pequena criança sorria e fazia com tranquilidade esse pedido à amazona que a segurava em seus braços. Com dificuldade de falar, pois fios invisíveis prendiam seu pescoço, a pequena ainda repetia a frase: “Por favor senhorita Mayura, acabe logo com minha vida!”.

A amazona de prata de pavão se recorda do momento em que passou com Alma: No Tibete, a criança a seguia enquanto buscava um dos riscos dos deuses.

— É verdade! Estávamos buscando os riscos dos deuses, para impedir Prometheus de voltar à vida. Infelizmente não conseguimos impedir isso, e agora estamos nessa situação. – Relembra a amazona de prata.

De volta à sua memória, ela se recorda da aventura que teve com Alma: a curiosidade infantil, a vitalidade e o bom-humor daquele pequeno ser a fazia lembrar dos tempos antigos onde conviva com sua pequena irmã. A inocência da criança também a ajudara a derrotar Devi uma falsa deusa que atormentava a vila onde Mayura crescera. Ela se lembra também de quando percebeu que Alma era apenas uma pintura gerada pelos poderes de Hesíodo, e que não era nada além de um borrão de tinta em forma humana, criada pelas mãos de seu inimigo na intenção de estudar os poderes da amazona. Neste momento, Mayura volta à consciência, retornando ao salão da Sangria, com Alma em seus braços e Hesíodo em sua frente.

— Então, amazona. Você não irá atender ao pedido da pequena criança em seus braços? – Questiona Hesíodo.

— CALADO! Você não tem o direito de dirigir a palavra a mim, seu verme insolente que se diz um réquiem de Prometheu. – Grita Mayura.

— Ora, então quer dizer que já está furiosa? Ainda nem comecei a brincar com você!

CASTIGO DE PIGMENTO. – Hesíodo aperta ainda mais as cordas no pescoço de Alma, torturando-a ainda mais.

Mayura levanta, dá um passo a frente e diz:

— Ser inferior, você apenas tortura essa pequena criança pois sabe que é uma criação sua, feita de tinta, e não uma criança de carne e osso. Você é apenas um covarde sem qualquer poder, um fantoche nas mãos de uma bela armadura. Você também é apenas uma pintura, uma obra mal-feita, uma história mal-contada.

— Sua idiota, acha que suas palavras podem me machucar? – Diz Hesíodo. CASTIGO DE PIGMENTO! – O réquiem ergue seu pincel, lançando gotas de tinta afiadas em direção à amazona.

Mayura se livra facilmente dos ataques de Hesíodo, apenas balançando seu braço.

— Isso não é... não é possível! – Amedronta-se Hesíodo.

— Escute, Hesíodo. Eu sempre me questionei do meu papel nessa história. O meu encontro com Marin, Shaina e Orfeu... nada parecia fazer sentido. Eu parecia não me encaixar nessa história, ou sequer fazer parte dela. Até que me encontrei com um sábio homem não faz muito tempo. *Mayura recorda-se de Shaka*.

— Hã? – Questiona-se Hesíodo.

— Este homem me fez abrir os olhos sobre o que é a realidade: Na realidade eu, Alma, e até mesmo você, só existimos dentro de uma vã narrativa. Eu, você, Alma, Marin e até mesmo Prometheus fazemos parte de uma linha do tempo escrita, como peões em um tabuleiro de xadrez. Peças que tentam se conectar, através de um tempo ou espaço. Na imaginação de alguém ou nas palavras de um tolo. Ou seja, tudo isso aqui está acontecendo por uma razão.

— Você por acaso ficou louca? – Hesíodo volta a se questionar.

— É por isso que, a partir de agora, eu irei apenas cumprir meu papel. Eu tenho total certeza que fui colocada aqui, nessa situação, para lutar contra você e para me encontrar com Alma por uma razão. E agora eu compreendo essa razão. Eu preciso te mostrar o SEU papel nessa história! TÉCNICA OCULTA: QUEBRA DA QUARTA PAREDE DIMENSIONAL!

...

A técnica de Mayura penetra na mente do réquiem. Dentro de suas memórias, surge a amazona de prata. Hesíodo se percebe dentro de seu próprio pensamento, em um ambiente totalmente escuro e infinito, onde no centro há apenas um quadro em branco, pronto para ser pintado.

— Mas...mas... o que é isso? Amazona? Me tire daqui agora mesmo e vamos iniciar nossa luta!

— Tolo... não percebe que nossa luta já se iniciou há muito tempo? Antes mesmo de que eu chegasse ao Cáucaso. A batalha ocorre mesmo dentro de você. Perceba que você é isso: um quadro em branco.

Hesíodo olha para o quadro, e se pergunta do que está acontecendo. Seria aquilo apenas uma ilusão? Ele deveria mesmo acreditar nas palavras daquela amazona de prata, que claramente quer vê-lo derrotado?

— Agora Hesiódo. Eu quero que você se pergunte: Quem é você? Qual o seu passado? Qual história triste você possui para me contar? Qual o seu papel nessa história? Por que você luta por Prometheus?

Hesíodo se desespera, enquanto continua olhando fixamente para o quadro em branco. Ele não consegue se lembrar de nada. A história dele não havia sido escrita, ou pintada. Tudo que sabia de si era que se chamava Hesíodo, e que era o réquiem que vestia a nota de Chkhara. Não sabia nenhum detalhe sobre seu passado, sobre quem tinha sido, suas motivações, ambições ou mesmo traumas ou qualquer tipo de emoção. Hesíodo era literalmente um quadro em branco.

— Hesíodo, a minha técnica apenas me trouxe para dentro do seu pensamento. Nada disso foi criado por mim. Tudo que está aqui dentro é tudo que você é. E você é isso: um quadro em branco. Literalmente inserido neste ponto da história.

— Não... não pode ser.. eu sou apenas.. um personagem destinado a morrer? – Hesíodo cai ajoelhado no chão, totalmente quebrado.

— Isso mesmo. O seu próprio nome é um trocadinho infeliz dos deuses que escrevem nossa história. Hesíodo, na mitologia, foi um poeta grego, famoso por suas obras onde coloca si mesmo como um mero personagem com um papel a desempenhar.

— Isso... é muito cruel... eu fui criado... por quem? Por Prometheus? Eu.. devo... matar Prometheus? Ou você... você deve me matar! – Diz o réquiem.

— Olhe quem está implorando por piedade agora! Pobre personagem. Foi incluído como um ser cruel que atormentava a pobre Alma, mas não passa de um quadro em branco sem qualquer história ou tela. Sem qualquer memória para se orgulhar. Apenas um bastardo criado para ser derrotado. Demonstrarei minha misericórdia por você.

A amazona de prata novamente se recorda do treinamento que teve com Shaka de Virgem:

— Mas Shaka... então, o que sou eu? O que é esse demônio preso dentro de mim? Eu não consigo entender onde me encaixo nessa história! O que será de mim? O que será de quem estiver ao meu redor?

— Você sabe muito bem, Mayura. Essa história não é sequer a principal deste universo. Toda essa questão de Prometheus, de Héstia, de seus amigos, de você, de Alma e até mesmo de mim, é apenas um grão de areia dentro de um universo muito maior, infinito. Todo que está acontecendo é apenas uma história sendo escrita, que será lida mas cairá em desconhecimento, sufocada por um universo maior e de outras infinitas realidades possíveis.

— Isso quer dizer que... meu destino... já está escrito?

— O seu destino é incerto, nada está ainda escrito. Neste momento, a sua história ainda está sendo escrita, não há futuro. Não são os deuses que criam o futuro, mas sim você. Os deuses apenas te criam, mas quem faz sua história é você. E é esse o sentido da nossa existência. Os deuses não podem interferir em nosso destino. Eles apenas podem interferir em nossa criação. É por esse motivo que você deve continuar! Dê um sentido à sua existência! Dê um sentido ao demônio que está preso em seu corpo! Ressignifique! Não deixe que o pincel do destino escreva sua história.

— Shaka...

De volta ao pensamento de Hesíodo, Mayura decide:

— Hesíodo. Eu aprendi com aquele homem que nós podemos dar sentido à nossa própria existência. Por isso, eu concordo em lhe conceder o descanso que você merece. Mas não posso fazer isso sem antes deixá-lo arrumar toda a bagunça que você fez nessa história. Para isso, tenho um plano em mente. Preciso saber se você concorda.

— Mayura... você... – Diz o réquiem totalmente derrotado ao chão.

Mayura então conta ao réquiem sobre seu plano. O Réquiem concorda em executá-lo. Ele dá um sorriso, pega seu pincel e desenha algo em seu quadro.

Logo após, Mayura concentra seu cosmo e libera seu poder ao máximo. As bandagens se rompem, revelando a pele queimada da amazona. Sua máscara se quebra, revelando o poderoso demônio interior, que ela tanto recusava a existência. O demônio de Mayura existe, é poderoso e pode ser controlado pela amazona. Mas nesse momento, ele não precisava ser controlado. Mayura libera sua raiva em forma de um golpe certeiro que atinge diretamente o corpo de Hesíodo, que se transforma em pó. O quadro em branco continua intacto.

Mayura então retorna ao seu corpo no mundo real, no salão da Sangria, que era protegido por Hesíodo de Chkhara, no monte Cáucaso. No local, não havia nenhum sinal de batalha. Não havia sangue, apenas um salão gigantesco com várias tochas acesas. Era como se Mayura estivesse passando por um salão vazio, que não era protegido por nenhum réquiem.

A nota de Chkhara, que possuía a forma de um pintor com seu quadro em mãos, aparece como num passe de mágica no salão de Prometheus. Strella cerra seus olhos ao avistar o objeto. Pometheus passa por ela, como se também não notasse o que havia ocorrido.

— Meu mestre Prometheus, por qual motivo essa nota não possui um usuário? Não há nenhum réquiem que possa utilizar essa armadura?

— Strella, não existe e nunca existirá ninguém capaz de vestir a armadura de Chkhara. Você não compreenderia como funcionam os poderes desta nota. Quem sabe um dia você compreenda.

— Entendi, meu caro mestre.

Strella e Prometheus passam pelo salão. A nota de Chkhara nunca havia saído daquele castelo. Ninguém jamais havia vestido aquela armadura ou jamais vestirá. Ou talvez, quem sabe, quando algum poeta mitológico resolver escrever uma história sobre isso.

...

Voltando ao Salão Sangria, Mayura caminha em direção à saída do local, apertando seu punho. Ela se recorda do que houve, mas não pode comentar com ninguém. Havia acabado de retornar de uma das batalhas mais intensas de sua vida: uma batalha sobre existência e sobre sentido. Aprendera muito ali, e agora compreende melhor a imagem de seu futuro que havia visto anteriormente. Ela era privilegiada por ter um passado, um presente e um futuro.

A amazona então olha ao redor do salão, procurando por algo ou alguém. Ao chegar no fim do salão, ela encontra uma pequena criança. Pulando e cantando, a criança diz:

— Ei, moça! Nós não nos conhecemos, certo? Prazer, meu nome é... ugh, eu não me lembro de meu nome.

— Mayura se curva para ver a criança. Se tratava da pequena Alma, dessa vez livre de todo o sofrimento causado por Hesíodo, mas também sem nenhuma memória ou recordação. Era um novo quadro em branco. Ela se recorda, então, do plano que havia contado a Hesíodo:

— Hesíodo, sua existência é um erro sem sentido. Mas você criou alguém que está sofrendo. Você deu a existência a uma pobre criança criada por sua tinta, que agora agoniza querendo existir ou ao menos morrer. Alma não tem culpa de sua existência, mas ela é apenas um borrão de tinta. Uma pintura feita por alguém sem passado, sem sombra. Escute: para que eu acabe com seu sofrimento, preciso que você dê sua existência à pobre garotinha. Pintando o rosto de Alma neste quadro em branco, você deixará de existir na história. Você nunca terá existido e ninguém – exceto eu – se recordará de sua existência. Dessa forma, Alma poderá ter um corpo real, uma história, um futuro onde ela não é apenas um borrão de tinta, mas uma existência real pronta para ser o que quiser. Entregue sua existência à Alma, e eu terei compaixão por você.

Hesíodo dá um sorriso, pega seu pincel e desenha o rosto de Alma no quadro.

...

— Ei, garotinha! Não se preocupe, você tem uma vida toda pela frente para escolher seu próprio nome e seu destino.

A garotinha dá um salto no salão, corre por alguns minutos e volta à amazona:

— Eu quero me chamar June! E quero usar uma máscara igual você! Você parece ser forte! Quero ser igual você!

— June, não é? Esse é o nome da deusa da bondade! Achei um ótimo nome! Mas primeiro, temos que der um jeito de te tirar daqui de perto. Este local é muito perigoso, e não é onde uma garotinha como você deveria estar.

A expressão de Mayura era de felicidade e orgulho. Ela conseguira libertar a pobre Alma do controle do Réquiem. Ela então percebeu que seu papel havia se cumprido naquela história:

— Vamos, June! Irei te levar para um local seguro, onde conheço alguém que irá cuidar bem de você, e se você quiser mesmo se tornar uma amazona como eu, terá todo apoio!

A pequena June sai sorridente ao lado da amazona de prata. As duas partem em direção à ilha de Andrômeda, onde Mayura irá deixar June aos cuidados de Daidalos, um cavaleiro de prata de confiança, que também desconfia do santuário. Lá, June poderá viver sua nova vida, cedida por Hesíodo.

“Marin, deixo o restante agora com você. Tenho agora outros papeis a desempenhar e outras histórias para salvar. Mas sinto que em breve nos encontraremos novamente.”

A próxima nota a ser revelada é a de Chkhara, vestida por Hesíodo.



A nota de Chkhara representa um artista empuhando seu pincel e sua tela, prestes a realizar uma pintura. O réquiem que utiliza a nota adquire poderes de criação e manipulação de tinta, criação de ilusões e realidades, manipulação de formas, criação de vida e de realidades alternativas. É dito que ninguém até o momento nunca utilizou a nota de Chkhara, sendo descrita por Prometheus como uma "armadura com poderes além da compreensão". Porém, como é visto na história de Hesíodo, ele manipulou a própria existência para que ninguém jamais tenha vestido essa nota, inclusive ele mesmo.

Notas finais
Não perca no próximo capítulo: Os fogos no relógio do santuário se extinguem. Será o fim da existência humana? Deucalin faz uma dolorosa revelação a Marin.