Saint Seiya - Águia Dourada
42 Deucalin
Notas iniciais
A fumaça densa continuava rodopiando pelo templo, subindo pelas colunas rachadas e cobrindo o chão como um manto vivo. Marin sentia o peso do ar, cada respiração era uma luta, e as placas trincadas de sua armadura denunciavam a intensidade do combate.
O eco dos passos de Deucalin parecia vir de todos os lados.
— Está ficando sem fôlego, Águia — a voz dele cortou a névoa como um trovão abafado.
Marin apertou os punhos. Ele ainda se escondia atrás da fumaça, a mesma fumaça que ela associava à destruição de tudo o que amava.
— Não vou cair aqui... não contra você.
Deucalin emergiu lentamente da névoa. A Nota de Elbrus reluzia num brilho cinza profundo, carregada de cosmo sombrio. Os traços do seu rosto eram frios, quase serenos, como se o combate fosse apenas mais um teste.
— Ryuku também dizia isso. — Sua voz ficou mais baixa, como se conversasse com um fantasma. — Ele acreditava que nada poderia derrubá-lo... até perceber o que o Santuário fazia com seus próprios cavaleiros.
O nome de Ryuku bateu no peito de Marin como uma lança.
— Cale-se!
Deucalin avançou alguns passos, a névoa se movendo com ele, como se estivesse viva.
— Eu era o cavaleiro de Cinzel, treinado por Ryuku. Éramos irmãos de armas. Ele tentou mudar o Santuário... eu tentei destruí-lo.
Cada palavra aumentava o rancor dentro de Marin. Ela se lembrava do abrigo, da voz paciente de Ryuku, das lições e da promessa de que ela se tornaria forte.
— E na sua arrogância, matou Pérola! — gritou, sentindo o cosmo crescer. — Você queimou minha casa!
Deucalin não hesitou.
— Pérola morreu defendendo algo que já estava condenado. Você só não percebeu isso ainda.
As imagens da vila destruída se formaram diante dela: as vozes das amazonas mais jovens, o som das folhas, a sombra de Pérola diante das chamas da Atmosfera Maligna. E no centro de tudo, Deucalin.
O cosmo de Marin explodiu com força, e a pressão fez tremer as paredes do templo. Um som seco ecoou perto de seu rosto. A máscara de Marin, intacta desde que se tornou amazona, trincou de fora a fora.
O rosto não se revelou, mas a fenda era o sinal de que a fúria de Marin havia alcançado o limite.
— Não há justificativa para massacres, Deucalin! — gritou, a voz carregada de ódio. — Você traiu seus companheiros, destruiu o Santuário e matou aqueles que acreditavam em você!
Deucalin não recuou. Sua voz ficou mais grave, carregada de orgulho.
— Eu carrego a Nota de Elbrus, Águia. A mais poderosa do exército de Prometeu. Forjada na montanha onde o titã foi acorrentado, onde o fogo e a fumaça nunca se apagam.
Marin sentiu o cosmo dele pulsar com as palavras. Fazia sentido: a névoa sufocante, o calor invisível no ar, a sensação de estar enfrentando não só um homem, mas uma montanha inteira prestes a explodir.
— Elbrus é fumaça... — disse Marin, o olhar firme. — E como toda fumaça, vai se dissipar.
Deucalin riu.
— Então tente.
Ele ergueu o braço, e a Atmosfera Maligna cobriu o chão como um mar escuro. Marin avançou, mas a fumaça dificultava a respiração.
— Está sentindo, Águia? — disse Deucalin. — Este é o peso de lutar contra um mundo inteiro.
Golpes invisíveis vieram da névoa, lâminas cortando o ar. Marin desviou por pouco, respondendo com Meteoros, mas a Nota de Elbrus absorveu o impacto.
A luta se intensificou. A cada avanço, Deucalin desaparecia na fumaça e surgia em outro ponto. Seu cosmo parecia estar em todos os lados.
Mas Marin se lembrou das lições de Ryuku. Ele dizia que a força não estava na velocidade, mas na paciência. Fechou os olhos e sentiu o fluxo da fumaça. Quando a pressão mudou, ela avançou.
Seus Meteoros cortaram a Atmosfera Maligna, abrindo um caminho na névoa. A armadura de Cinzel foi atingida em cheio.
O impacto lançou Deucalin contra uma coluna, que se partiu com estrondo. Ele caiu de joelhos, respirando com dificuldade.
— Ryuku... — disse ele, quase como um suspiro.
Marin ergueu o cosmo pela última vez. A energia cortou a névoa, atingindo Deucalin em cheio. A Nota de Elbrus rachou e se desfez.
Então, em silêncio, a armadura de Deucalin começou a se dissolver. Como fumaça sendo levada pelo vento, partículas cinzentas caíram ao chão. Ele não tinha mais nada: nem armadura, nem Nota... nem vida.
Deucalin tombou lentamente, como se finalmente descansasse.
— Morreu pelas mãos da verdadeira discípula de Ryuku — disse Marin, baixando o cosmo.
Ela respirou fundo. A armadura estava danificada, a máscara trincada, mas seus passos seguiam firmes. O castelo de Prometeu a esperava.
Acima, o Fogo do Relógio já havia se extinguido completamente. Acabou o tempo.
A próxima nota a ser revelada é a de Elbrus, vestida por Deucalin.

A Nota de Elbrus, moldada na forma de um morcego de cabeça para baixo, representa o predador oculto nas sombras, paciente mas letal. Suas asas afiadas envolvem o núcleo da armadura como garras prestes a rasgar o véu da realidade, e seus chifres curvos apontam para o mundo inferior, onde a justiça toma formas impiedosas.
Ao vesti-la, Deucalin obtém controle absoluto sobre névoas, fumaças e poeiras corrosivas, manipulando o campo de batalha com precisão cirúrgica. Pode cegar, sufocar, corroer e desintegrar com tempestades de partículas ocultas, envolvendo seus inimigos em uma morte lenta ou explosiva. A cada ataque, a névoa se espalha, se condensa, se adensa — e julga.
Prometheus a descreveu como "a nota que sufoca a esperança e impõe o veredito no primeiro golpe."
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