Saint Seiya - Um conto de passagem
5 5. EPHOS - O Julgamento dos Céus
A silhueta das montanhas tapava o pôr do Sol, que lentamente se punha a dormir. Havia chovido por ali, Ephos sentia a terra lamacenta dificultar seus passos e as gotas cristalinas escorriam pelas folhas das árvores. Há muito não via chover. Desde que Zeus declarara sua guerra contra Atena, as nuvens se esquivavam do Santuário, por lá a única sombra era dos pilares e do concreto. Ephos gostaria de saber a razão pela qual Zeus estaria tão aborrecido, mas tanto Atena quanto o Grande Mestre negavam-se a abrir a boca pra isso; fora eles, apenas Valanir de Virgem sabia de algo a respeito, afinal era a voz de sabedoria dos cavaleiros de ouro e os ouvidos mais sensatos entre eles.
Não havia então outra coisa a se fazer senão defender Atena e acatar suas ordens. Afrodite não era uma mulher fácil de lidar, seu ego não era dos menores, como pode imaginar. A guerra contra Afrodite era diferente, tratava-se de uma derrota moral. Há um ano, um galante sujeito enviado por Hefesto aparecera no salão dos deuses, no Olímpo, para reivindicar a mão da deusa de maior beleza que pudesse encontrar. Afrodite, é claro, estufava os seios e o seduzia com o olhar, o que não impediu a instantânea paixão do rapaz pela deusa ao seu lado, mais meiga do que sensual, mais pro frio que pro quente. Atena então teve sua mão beijada. A recusa em aceitar a verdadeira beleza, segundo Afrodite, era imperdoável; assim, ela o enjaulou nu, tirou com uma faca sua masculinidade e deixou que apodrecesse diante de uma tela pintada com a beleza da deusa.
Afrodite tinha o homem que quisesse e quando quisesse, e por isso não podia aceitar a afronta que era ser preterida por uma deusa de tão escassa sensualidade. O curioso é que sequer havia se interessado pelo rapaz, sua paixão era mais antiga. Por não ter um exército, Afrodite não podia combater com espadas sua agora rival, o que fazia parecer mais um conflito mal resolvido entre irmãs. Sobrara então para Ephos a tarefa de levantar a bandeira branca, pois podia se ouvir a sede de Zeus à distância, e havia de se concordar que se tratara de uma batalha mais real.
Enfim Ephos já sentia chegar o fim de sua jornada.
Ephos não esperava ter que combater no caminho, essa viagem ao Castelo de Afrodite se tornara especialmente aventureira, até mesmo para um cavaleiro de Ouro. Já naquele ponto do caminho, podia ver mais flores colorindo a noite e o aroma era agradável como um perfume que trazia boas lembranças. Há poucos passos dali se encontrava a floresta que lhe daria passagem para o Castelo; Ephos a apelidou carinhosamente de “Cantinho de Amor”. Ele ainda se lembrava do rosto angelical de Afrodite desde a última vez que o vira, e não podia negar, era um rosto que deixa nas pessoas o desejo de encontrá-la novamente.
Curiosamente o céu até então somente recebia os ornamentos das estrelas e do luar, quando um grosso punhado de nuvens carregadas começou a se formar, encobrindo os astros e trazendo consigo uma aura divina. Quando as nuvens rugiram, um raio arrebatador desceu rasgando os céus e estremeceu a Terra até seu átomo mais longínquo, de forma que sua violência amedrontasse até mesmo os mortos.
Ephos, que estava tão próximo do raio, tapou seus olhos com o braço, e mesmo que tentasse não podia impedir a fúria de Zeus, que caíra em seu colo como um doce presente.
No exato ponto onde a luz beijara o solo, queimando-o por completo, via-se a figura serena e imponente de um sujeito que certamente não gostaria de ter de estar ali. O Touro sequer podia medir a força de seu cosmo, tendo a certeza que nem mesmo Atena desfrutava de tamanho poder. Os fios louro-platinados de Zeus reluziam mesmo sem o agraciar da Lua, tais quais seus olhos tão claros como leite; sua robe não era diferente, reluzia por si só, cheia de asas e pontas, a armadura emanava algo além do que qualquer humano poderia compreender. Com a voz sóbria e impetuosa, Zeus lhe disse:
—São poucos os que têm a honra de me fazer sair de meus aposentos para tratar do assunto pessoalmente. Considere-se um afortunado.
Ephos encontrava-se em uma situação delicada. O próprio Imperador dos Céus e rei de todos os deuses estava ali, diante de seus olhos, afrontando-o, certamente. Não sabia exatamente o que fazer. Enfrentá-lo não é menos que suicídio; correr lhe traria desonra. Por via das dúvidas, decidiu por ganhar tempo.
—Poderia saber o motivo de sua visita? Estou atarefado no momento, se puder, mande-me uma carta amanhã – É claro, não seria diante de Zeus que perderia sua postura arrogante que lhe rendera tanta fama.
—Soube de seu talento, cavaleiro de Touro, venho para parabenizá-lo – como se as palavras de Ephos não fossem mais que um incomodo zumbido – Seu segredo, porém, pouco me perturba. Segundo os boatos, Ephos de Touro é o único cavaleiro em toda a história a ser treinado por três mestres, sendo estes todos cavaleiros de ouro. Touro, não fugindo do óbvio, Gêmeos, e mais um. Este último me desperta curiosidade.
—Então minhas qualidades o perturbam, deferente do que diz...
—É engraçado, além disso. Que homem incrível é você.
Zeus então andou vagarosamente em direção a Ephos, que se estremecia por dentro a cada passo. Não havia como deixar de lembrar do Raio do Terror Divino, a tão afamada e assoladora técnica que se perpetua na história por ser tão voraz. São poucos os que sobreviveram a ela, na realidade, somente um. Na primeira Guerra Santa, Zeus tentou tomar o poder de Atena, a fim de expandir ainda mais sua soberania perante os demais deuses; sozinho ele derrotara todo o exercito de Atena e cada aranha que lhe desafiou pereceu diante sua fúria, todos eles tiveram seus corpos arrasados, os ossos se rompiam como se fossem de plástico e as poderosas armaduras de ouro se faziam como vidro quando recebiam o Raio do Terror Divino. Zeus estava prestes a concluir sua tarefa, quando o cavaleiro de Pégaso, o primeiro deles, o confrontou. Não demorou até que o Imperador dos Céus o julgasse, o golpe devorou a armadura e toda a pastagem que o rodeava; então, quando Zeus se via prestes a acabar com Atena, ouviu um gemido baixo e relutante vindo do corpo queimado do Pégaso, que se pôs de pé para lutar mais uma vez. Não foi necessário. O deus, diante do sacrifício de um mero cavaleiro de bronze, reconheceu a derrota. Agora, bem, Ephos devia fazer o mesmo.
—Matou dois de meus servos mais fieis e não saiu com um único arranhão – prosseguiu Zeus – Vejo em você um obstáculo, uma pequena pedra no sapato. Lidar com isso pessoalmente não estava em meus planos iniciais, devo confessar, mas agora que estou aqui, não posso evitar de lutar.
—Também não estava em meus planos matá-lo tão cedo – disse Ephos, irônico – Será uma guerra com o fim rápido, e eu serei o herói.
—Gosto de suas piadas, contudo, elas não escondem seu nervosismo e o medo da morte. Não deve temê-la cavaleiro, morrerá neste chão com alguma honra.
Com o coração recheado em um misto de temor e coragem, Ephos preparou-se para lançar o Grande Chifre, teria de ser o tiro mais preciso e robusto de todos, e mesmo que fosse poderia não ser o bastante, provavelmente longe disso.
—Grande Chifre! – disparou.
A explosão do Touro foi troncuda e vibrante, carregada com todo o cosmo que Ephos poderia oferecer; o impacto sobre o deus fez com que as flores se desvencilhassem de suas raízes e o tronco de algumas árvores mais próximas se partissem. A massa de luz então cessou, e nada de diferente se via em Zeus, que permanecia de pé, imponente e nobre; nem mesmo sua armadura havia sentido o golpe, que não passara de um abraço caloroso.
Em nada surpreendeu Ephos, que sentia os calafrios da morte lhe agraciarem na espinha.
Por fim, sem pestanejar, o Imperador dos Céus lançou no cavaleiro seu julgamento. Trovoado e corpulento, o Raio do Terror Divino caiu sobre Ephos tão acintosamente que sequer pode ver sua chegada; ele tentava não gritar enquanto o golpe triturava a armadura e mastigava sua carne. Neste meio tempo, lembrou-se de Noath, seu pupilo, pois gostaria de ensinar-lhe uma lição que faltava, mas agora parecia certo de que não seria possível.
O raio sacudiu o solo de maneira que as rochas se partiram em vários pedaços e assim, quando o relâmpago se foi, a única coisa que Zeus via aos seus pés era o corpo queimado de Ephos. De cima pra baixo, como um homem olha uma galinha prestes a ser abatida, Zeus declarou:
—É aqui onde se separa os homens dos meninos, ou, melhor dizendo, os deuses dos humanos. Sei o que faria se chegasse ao Castelo de Afrodite, as ordens de Atena são justas, e sei também a razão pela qual tentará se reerguer. Eu não o faria se fosse você.
O silêncio de Ephos satisfazia as vontades de Zeus, que estava prestes a partir. Ouviu, no entanto, a respiração ofegante do Touro e os ruídos do mato seco enquanto tentava se levantar.
—Soberbo – murmurou Ephos, com a voz fraquejada.
A cena, como não podia ser diferente, fazia o deus se recordar do antigo Pégaso, muitas centenas de anos atrás. Apesar da semelhança, as diferenças entre eles eram o que mais lhe comovia. Daquela vez, o Pégaso lutava para se manter de pé e era claro em seu olhar o espírito de luta, aquele rapaz estava ainda mais vivo que antes; agora Ephos se punha de pé se agarrando ao resto de vida que lhe sobrara, e ambos sabiam que não era o bastante.
—Vejo que se recusa a morrer.
—Essa é minha função, não é mesmo? Continuar lutando, não é isso? – a voz debilitada de Ephos disse.
—Não haverá mais luta pra você, cavaleiro de Atena. Entregue-se e descanse, é o melhor que tem a fazer.
—Sempre há uma última luta.
Por fim, mais uma vez o céu esbravejou e seu rugido apontava o alvo. As nuvens dispararam o segundo raio. De maneira oposta ao primeiro, agora Ephos pôde ver o clarão correndo para encontrá-lo, assim não havia outra saída a não ser revidar.
Uma luminescência esverdeada logo irrompeu do braço direito de Ephos, ascendendo contra o raio e rasgando-o. A fenda, afiada como uma lâmina, percorreu toda a extensão do raio de Zeus e livrou Ephos de ser atingido em cheio. Contudo, em nada chocou Zeus, que parecia esperar por aquilo com um sorriso de canto no rosto.
—Capricórnio, então.
A Ephos não restava muito senão um último esforço para continuar respirando. A Excalibur havia por levar a última semente de energia do cavaleiro, que agora repousava o corpo no gramado com as costas viradas para o céu. “Maldito seja”, murmurava em pensamento, “Deixou que o raio caísse mais vagarosamente pra que eu tivesse a chance de contra-atacar. Maldito seja”. Podia-se dizer que resistira a dois dos golpes de Zeus, nem mesmo o Pégaso pode carregar essa ideia em seu currículo.
—Apesar de estarmos em guerra, respeito homens honrados como você – afirmou Zeus, mais uma vez, de cima pra baixo – Não escapará da morte, tenha ciência disso, apenas o Pégaso poderia, mas não se preocupe, como prova de minha benevolência, deixarei que chegue ainda vivo ao Castelo de Afrodite, com quem tem assuntos a tratar. Atena tem sorte com seus cavaleiros, nenhum outro deus em todo o panteão conta com um exército como o dela, e eu não nego que a invejo por isso. A Guerra, porém, deve continuar.
Lentamente o céu nebuloso se desfez, dando lugar às estrelas e a Lua, que deixava cair seu véu prateado sobre o corpo de Ephos, que já não sentia a presença de Zeus. Agora sua vista, que antes encontrava somente os pés de Imperador dos Céus, contemplava o horizonte e a floresta que estava ali ao seu alcance; por fim, a paisagem se borrava até que nada fosse claro. Ephos fechou os olhos e então estava tudo negro.
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