Já distante do velho Abner, Noath ainda sentir um cosmo estranho nos arredores, como se alguém o perseguisse, espreitando-se por de trás das moitas e do matagal, esperando o momento certo de dar o bote. Além disso, o Unicórnio sentia que estava no caminho certo, era como se pisasse onde Ephos pisou, e sua consciência dizia que as pegadas dele estiveram ali. Antes da sair pelos portões do Santuário, o Grande Mestre informara que a entrada para o Castelo de Afrodite se encontrava na floresta, e que seria fácil de identificá-la quando visse; ele tinha razão, Noath podia avistar uma floresta tão verde e corpulenta como nenhuma outra, e ela o chamava, ainda que estivesse distante.

Noath se lembrava da última coisa que ouvira de seu mestre, era algo ainda muitíssimo nebuloso, como um enigma. O Unicórnio estava sentado nas arquibancadas do Coliseu do Santuário, observando atentamente ao amanhecer, naquele momento, uma infinidade de pensamentos lhe vinham à cabeça; não fazia mais de um mês que conquistara sua armadura, e com ela o título de cavaleiro, seu coração era recheado de inseguranças e temia que não fosse capaz de cumprir seu papel. Sentiu então a chegada de alguém. Ephos nada disse e nada fez senão se sentar junto ao pupilo.

—A luz da aurora me faz bem – dissera Noath – me faz pensar.

—Sobre o que pensa agora? – indagara Ephos.

—Nada de muito organizado. Imagino que se Atena é uma deusa, devia ser mais forte que todos nós, então por que precisa que a defendamos?

Ephos riu.

—Não está totalmente errado. Atena cuida de nós, da Terra, da justiça e do amor, então nós cuidamos dela. Até mesmo os deuses precisam de uma mãozinha aqui e ali.

O Sol já aparecia quase por inteiro, iluminando seus rostos e todo o Santuário. Noath estava quieto, assim como seu mestre, que apenas aguardava a hora certa de dizer qualquer coisa. Não era bem seu estilo, é claro, mas sabia bem como ler os momentos de Noath, e aquele parecia um momento de ouvir e só depois falar.

—Eu não me sinto ainda, bem... um cavaleiro – murmurara Noath.

—O que quer dizer?

—Sabe, às vezes me olho no espelho e não encontro alguém capaz de fazer o que você faz. No espelho, mesmo que vestido com a armadura, sou tão incapaz quanto era no vilarejo.

—O espelho faz isso, nos transforma em crianças de novo. Mas, no fim do dia, cumprimos todos com nosso objetivo. Noath, ouça-me bem, está com medo, e é normal, somente os tolos e os mortos não temem. O que nos faz cavaleiros é justamente nosso poder de enfrentar os medos e inseguranças que os outros não podem.

—Eu nunca o vi assim. É sempre forte, sempre confiante.

—Isso é porque não me conheceu quando tinha sua idade – Ephos e Noath riram levemente – Com o tempo, com as batalhas e com as vitórias, aprendemos a nos conformar com o medo, ele passa a ser parte do nosso dia e se torna um aliado. Então esqueça o espelho, não confie no que vê, no que ouve ou no que cheira; feche os olhos e sinta. É o único caminho.

Noath nada disse, apenas deixou que as palavras entrassem pelos ouvidos e ecoassem dentro da cabeça. Passou-se um tempo de silêncio, onde apenas se ouvia o canto das aves, quando o cavaleiro de bronze escutou sua barriga rugir.

—Estou faminto – dissera – Tem tempo pra um almoço com seu pupilo favorito?

—É o único que tenho – Ephos respondera sorrindo – De qualquer forma, vim até você para avisar que estou de partida. O Grande Mestre me encarregou de ir até Afrodite e levantar uma bandeira branca.

—Por que diabos sempre que o assunto é Afrodite é você quem eles chamam?

—Talvez nunca saibamos. Seja como for, regressarei ao Santuário em breve, sequer vão sentir minha falta – fora a última coisa que dissera Ephos antes de se despedir e partir para o Castelo de Afrodite.

Já próximo da floresta, podia sentir uma presença ameaçadora chegar perto, era um cosmo intenso e poderoso, carregado de benevolência e muitas doses de ambição. Noath aguçava os sentidos a fim de encontrar aquele que o seguia desde o velho Abner, mas nada via senão o céu limpo e próximo do anoitecer, os galhos das árvores que dançavam suavemente com o vento fraco que batia, e seu caminho limpo, com somente pedregulhos espalhados aleatoriamente pelo chão. Não havia ninguém por ali, era o que seus olhos diziam. Contudo, não se tratava de enxergar, mas de sentir.

A cada segundo ficava mais evidente, o cosmo era sereno e eufórico, como nunca sentira antes. Finalmente um clarão se espalhou pelo céu e fez com que Noath apertasse os olhos; então, o vento que agitava o galho das árvores se enfurecera e uivava uma melodia de guerra. O cavaleiro o viu distante, mas ainda estava perto o bastante para reconhecer suas vestes e sua aparência.

—Zeus! – exclamou.

Noath conhecia as histórias, e sabia que aquilo não poderia ser um bom sinal. Não demorou a vestir a armadura de Unicórnio, já que o perigo se encontrava em sua frente.

Zeus se aproximou, arrepiando Noath por toda a extensão de sua espinha. Tinha medo, e não era pra menos, não era somente uma trupe de bêbados idiotas, como enfrentara antes, o patamar subiu sem que pudesse escolher.

“Devo enfrentá-lo”, pensava, “Devo enfrentá-lo”.

—Ouvi falar de um garoto extraordinário – disse Zeus, imponente – Um garoto capaz de rivalizar com deuses. Este garoto estaria destinado a ser o mais poderoso de todo o exército de Atena, e somente uma tragédia o derrubaria. É claro que os gregos são especialistas em tragédias – ironizou.

—Deve estar se confundindo. Não sou eu quem você procura, assim como não é você quem eu procuro.

Noath via Zeus esbanjar um gracioso sorriso de canto.

—Tem toda razão, não procuro por você, rapaz.

—Então sugiro que se afaste, siga seu caminho e deixe que eu siga o meu.

—É atrevido e corajoso, admiro isso em qualquer um. Muito convencido, por outro lado. Imagino que tenha se confundido, que em sua cabeça era de você que falava – Noath certamente não compreendeu, encarava o deus com olhos confusos e imaturos, e Zeus podia notar – Esse garoto de quem ouvi falar não se parece muito com você. Ele era determinado, intimidava somente com um olhar, como nenhum outro faria. Já o que vejo aqui não passa de uma criança com medo de lutar, de sangrar, e de morrer. Suas palavras não escondem seu olhar, não pense o contrário.

O Unicórnio cada vez mais se perdia no que dizia Zeus. O que significava aquilo? O que o deus fazia ali, se nada queria com ele? Quem, afinal, é o cavaleiro por quem procurava? Nenhuma dessas perguntas tinha resposta, e não as conseguiria parado.

—Pelo que vejo, deuses não gostam de ser claros. Gostam de enigmas, de jogos. Eu, por outro lado, tenho pressa.

—Não há motivo pra preocupação, tampouco pra ter pressa, já que não dará mais um único passo adiante.

Foi então que o famoso Raio do Terror Divino rompeu dos céus, golpeando Noath em cheio; o estrondo pôde ser ouvido à distância, e fez com que as formigas se encolhessem na terra. A potência do raio, contudo, não fora o suficiente, o Unicórnio ainda respirava, movia os dedos, então os braços e as pernas, e por fim, pôs se de pé.

—Pelas histórias, achei que fosse mais forte.

Noath, ferido, viu Zeus gargalhar.

—É engraçado, é como o garoto por quem procurava.

—Procurava? Quer dizer que já o encontrou.

—Isso não havia ficado subentendido? – provocou Zeus – Talvez não sejam os deuses tão enigmáticos, penso que sejam os humanos burros demais... O garoto, aquele que prometia ser o mais poderoso do panteão de Atena, cresceu, virou um homem verdadeiramente poderoso, capaz de coisas inimagináveis, coisas que os olhos duvidam, mas não se engane com o que ouve.

—O que quer dizer? – indagou Noath.

—Quero dizer que as histórias podem ser mentirosas, somente lendas. Certo dia, eu me encontrei com o cavaleiro que supostamente rivalizaria com um deus e aquilo não se provou bem verdade. Era forte, sem duvidas, mas sequer pôde me arranhar. É uma pena. Um cavaleiro que reúne os poderes de três, que faz mais do que se imagina que um homem comum faça.

Tão rapidamente, Noath sentiu em seu cosmo um clarão, intenso como aquele que trouxera Zeus. Eis então o que fizera com que Ephos jamais voltasse ao Santuário; entendera agora que seu mestre fora derrotado, morto por Zeus. O choque não poderia ser maior, pois tratava-se, de fato, do cavaleiro mais poderoso daquela geração, e era óbvio no pensamento de todos que seria o último a cair.

Noath enfureceu-se, assim como seu cosmo, que tremeluzia dourado. Serrava os punhos e franzia as sobrancelhas quando disparou:

—Grande Chifre!

Talvez tenha sido, até o momento, o golpe mais violento que já disparara. Podia sentir então o cosmo queimando no sangue que passava pelas veias, explodindo no coração; percebera, com isso, que ataques irracionais eram mais intensos e verdadeiros. Seu Grande Chifre, contudo, não foi repelido com muita dificuldade. Noath ainda via Zeus de pé, sem qualquer arranhão na pele ou na armadura.

—Não há motivo para se enraivecer – disse o deus – Afinal, seu mestre parecia vivo quando o deixei. Com minha permissão, ele pôde chegar até Afrodite.

“Se o que Zeus diz é verdade, meu mestre ainda pode estar vivo. Devo chegar logo até Afrodite”, era o que pensava Noath.

Em uma mistura de desespero, raiva e pressa, o Unicórnio lançou-se mais uma vez contra Zeus, ainda que as possibilidades estivessem jogando contra seus golpes. O disparo do Grande Chifre foi massivo, contudo, mais luminoso do que agressivo; pouco podia-se ver além da resplandescência, e Zeus sem qualquer dificuldade se livrou espalhando a rajada pelo ar como se fosse fumaça. Recheado de confiança, e de peito estufado, Zeus viu Noath surgir no ar; usando o fator surpresa ao seu favor, o cavaleiro avançou o pé esquerdo contra o rosto virgem de Zeus, que tentou se esquivar.

O galope, no fim, não o atingiu em cheio, mas foi o bastante para deixar uma marca vermelha em suas maçãs. O deus, cheio de incredulidade e embasbacado por ter sido golpeado por um humano comum, não reagiu. Por sua vez, Noath se orgulhava, tanto pelo ataque quanto pela coragem.

—Conseguiu, garoto – disse Zeus, enquanto deixava a mão direita sobre a ferida – Pôde me acertar um golpe. Mas não se gabe demais, voltaremos a nos ver, e as coisas serão diferentes de como imagina.

O deus então desapareceu com um resplandecer idêntico àquele que o trouxe, e Noath não pensava em outra coisa senão correr ao encontro de Afrodite, ela teria as respostas.