Saint Seiya - Um conto de passagem

4 4. EPHOS - Inverno antigo


Ephos despertou com a luz do Sol batendo em seus olhos pela manhã. Podia ouvir ainda os galos cacarejarem e o ruído dos móveis se arrastando no quarto ao lado; já no andar de cima, o som da cama rangendo estalava em seus ouvidos e junto aos gemidos.

—E agora lá é hora pra isso? – resmungou.

Então levou as mãos a um balde de água limpa e lavou o rosto. A vista da janela não era das mais belas, isso não importava, já que o preço pela noite no quarto não era cara; pode dormir por apenas duas moedas de bronze, por mais uma ganha um café da manhã que inclui um copo de leite e um pão velho com manteiga e ovo, e por mais uma moeda de prata podia levar uma das garotas da pousada para um momento de amor. Esta última definitivamente não valia à pena, testara a opção uma vez, no ano retrasado; Ephos dizia que as mulheres dali trepavam mal, pulavam e quicavam feito galinhas, e era só.

Desceu assim para o refeitório, e até lá passou por rostos estranhos e mal-encarados; o cavaleiro não temia o olhar de brucutu dos hóspedes, via piores no Santuário. O lugar, afinal, não era amigável, e nem precisava ser; tudo que Ephos precisava era uma cama e um teto para passar a noite. Tratou então de apanhar seu copo de leite e o pão com manteiga e ovo, este levemente passado do ponto; sentou-se por fim à mesa mais próxima da saída, era uma mesa de madeira maciça e antiga, recheada de ranhuras, marcas de unha e batidas nas pontas. Só queria terminar seu café da manhã e voltar para a estrada.

—Olha quem apareceu – disse uma voz feminina vindo em direção a Ephos.

—Não estou interessado em seus serviços hoje, Helena, obrigado.

—Bom dia pra você também – ironizou ela.

Helena era uma moça bonita, de olhos cor de caramelo, com os cabelos encaracolados e negros caindo sobre os ombros como uma chuva de molas. Vestia-se sempre com roupas decotados e cheias de cor; não era muito alta, mesmo usando seus sapatos de salto. Ephos a via como uma companhia agradável, pois tinha boa conversa, o que atrapalhava era seu hálito. Ela então se sentou de frente ao Touro, que encarava o copo de leite.

Vendo que Ephos não lhe dava atenção alguma, Helena murmurou:

—Pelo jeito acordou mal humorado, se preferir, posso me sentar em outra mesa.

—Fique – disse ele – Estou apenas com a cabeça em outro lugar.

—Diga-me o que te incomoda. Uma boa puta é também uma boa ouvinte.

Ephos por muito pouco não engasgou com o pão, não esperava que fosse escutar algo assim logo pela manhã, mas, afinal, fazia algum sentido.

—Bem – prosseguiu o cavaleiro – Desde que parti do Santuário, penso que não preparei meu pupilo bem o bastante para ser um cavaleiro. Ainda o vejo verde. É curioso que ele consiga executar cada golpe e cada tarefa e ainda sim seja tão garoto. Por mais força que tenha, por mais capacitado que seja, não consigo deixar de ver em seu rosto uma criança tímida e com medo; receio que não esteja pronto, que lhe falte maturidade... Bem, em suma, é esse o pensamento que não me foge.

—Isso não e problema. Basta que ensine ao rapaz o que falta quando voltar ao Santuário – disse Helena.

—Não sei se voltarei – Ephos murmurou, pessimista.

—Mas Atena precisa de seus cavaleiros.

—Queria que fosse simples assim. Há dois dias, enfrentei um homem enviado por Zeus. Eu o derrotei, mas tenho a sensação de que não acabou. Ele devia ter me matado e não o fez, duvido muito que Zeus esteja satisfeito, não desistirá assim tão facilmente.

Um breve instante de silencio tomou conta da conversa.

—Enfim, são assuntos chatos de deuses e guerras. Não é algo com que uma moça como você deva se preocupar – Ephos deu um ultimo gole em seu leite e deixou o copo na mesa; era uma manhã de calor e já estava quente demais no refeitório – É hora de partir. De qualquer forma, agradeço por ter deixado os ouvidos bem abertos e a boca bem fechada.

Sem entender, Helena o viu sair pela porta com a urna da armadura de Touro em suas costas.

Já distante de Helena, Ephos sentiu que a temperatura gradualmente caia. Não podia deixar de estranhar, estavam no verão e podia jurar que todos na pousada usavam roupas curtas para o calor. Tão repentinamente, seus braços pareciam se encolher por vontade própria e o vento uivava resfriando seu rosto; com o vento, flocos de neve surgiram dançando pelo céu feito bailarinas, repletos de graciosidade. Assim, a neve cobriu boa parte do solo, da copa das árvores e enfeitou os cabelos de Ephos como se estivesse no Natal. Por fim, quando se deu por conta, seus pés estavam congelados e presos ao chão, o gelo se espalhou pelo corpo do cavaleiro tão rapidamente como uma praga e logo não podia mover mais que a direção do olhar. E de dentro de um esquife de gelo robusto e sólido, Ephos se deparava com um antigo aliado.

—Matar um cavaleiro com minhas próprias mãos nunca foi o que gostaria de fazer, por mim o frio extinguiria sua força aos poucos até que seu coração parasse. Seria um fim muito mais belo. Contudo, tenho ordens e devo obedecê-las...

Levantou então os braços, unindo as mãos com um entrelaçar de dedos; seu cosmo frio emanava de seu corpo, liberando uma luz branca e ardente; às costas, a aurora boreal se formava como uma cortina verde se agitando ao toque de um vento suave. Antes, porém, que pudesse completar o golpe, viu o caixão de gelo em sua frente se estilhaçar. Furioso, Ephos se desfez do esquife como um Touro em uma jaula frágil; seu olhar era recheado de ira e então, com uma explosão de cosmo que desabrochava de sua força, derreteu toda neve que caíra. Neste instante, a armadura de Touro emergiu da urna e se vestiu no corpo de Ephos, devolvendo todo o calor que se fora do lugar.

—É uma tremenda ousadia aparecer em minha frente. Não lhe darei a chance de um perdão, espero que compreenda – disse o Touro a Edgaard.

Edgaard era, até pouco tempo, o cavaleiro de ouro de Aquário, conhecido como o Guerreiro do Inverno, sua expressão era sempre de imensa indiferença; escorrendo como um véu por toda a extensão das costas, seus cabelos eram fios prateados, lisos e finos como teias de aranha, enquanto sua pele pálida soava como uma casca sem vida. Era notória sua habilidade com o gelo e a forma como fazia deste seu aliado. Apesar disso, a frieza de Edgaard não se dava somente em seus golpes, tratava-se de um homem sem amigos, sem amor, imerso em uma solidão que era somente dele; sua sombra era sua companhia, assim como seus pensamentos. O Aquário gostava de viver em reflexão, distante do contato humano e de qualquer manifestação de calor que fosse. Agora sua armadura já não era dourada, embora se assemelhasse com a armadura de ouro que trajava, vestia-se agora com uma robe inteiramente prateada; estava na Noruega, seu país de origem, quando viu Zeus aparecer com o convite.

—Assim que ele surgiu diante de mim, não tive duvidas. Estou certo de que você também não teria. Seu poder é como nenhum outro, maior que o de qualquer outro deus, maior que o de Atena – argumentou.

—Lamento que tenha manchado a história do Santuário ao escolher o lado de Zeus – disse Ephos – Deveria ter morrido, assim como qualquer outro que o recusou. Seria lembrado como o homem escolheu a morte ao ter de lutar contra Atena; isso, Edgaard, é que seria um belo fim.

—Uma morte com teor de burrice – completou Edgaard – E eu não sou homem de cometer burrices.

—Talvez sequer seja um homem – declarou o Touro, em tom provocativo.

Ao fitar o antigo companheiro, Ephos se via impaciente. Havia duas classes de homens que, segundo ele, não eram dignos de qualquer demonstração de respeito: os covardes e os traidores; Ephos encaixava Edgaard em ambas.

—Vamos resolver isso de uma vez – O Touro então cruzou os braços e acendeu o cosmo que fluía dourado pela armadura; concentrou-se e disparou – Grande Chifre!

A imensa massa de luz que se lançava dos braços de Ephos em direção a Edgaard era bruta e impetuosa, violenta e recheada de ira. Era o próprio cavaleiro de Áquário que dizia que o Grande Chifre soava como o soco furioso de um titã. Ao final do golpe, o clarão se fora, e então, quando Ephos viu, uma escultura de gelo cheia de pontas, ondas e curvas se havia se formado ao redor de Edgaard, que sequer moveu um dedo.

—Mas como?! Como pôde bloquear meu golpe com tamanha facilidade?

—Eu jamais bloqueei seu golpe – respondeu Edgaard, sarcástico – O que vê diante de mim é o próprio Grande Chifre... congelado.

Em um piscar de olhos, a escultura em sua frente se explodiu em inúmeros pedaços, que se espalharam pelo solo. Incrédulo, Ephos acabava de ver seu poderoso Grande Chifre se despedaçar. Era como se fosse ainda um garoto em treinamento, quando seus socos não tinham potência o bastante para ao menos despedaçar uma rocha. Como isso era possível ele não sabia. O oponente agora parecia maior e os olhos de Edgaard refletiam toda sua confiança e autoridade; de repente, Ephos era uma criança que ainda não compreendia os perigos de ser adulto.

Era a vez do Aquariano revidar, e ele não demorou a fazê-lo. Posicionou novamente os braços acima da cabeça formando uma lança ao entrelaçar os dedos.

—Execução Aurora!

Uma imensa rajada de ar frio se propeliu de Edgaard, congelando qualquer átomo entre suas mãos e as mãos de Ephos, que tentava bloquear o ataque. A Execução Aurora se espalhava como uma furação pelo lugar, deixando-o decorado como se fosse um dia de geada. O inverno tomara conta do lugar, desta vez, não havia formiga na terra ou frutas nas árvores que escapassem, exceto, talvez Ephos.

—Parabenizo por ter se defendido do meu golpe. Mas veja o que fez, o frio foi repelido para todos os lados. Agora estamos lutando em um ambiente envolto em gelo, estamos na minha casa.

Edgaard avançou contra Ephos, que mal podia acompanhar seus movimentos. Quando o Touro o viu a um palmo de distancia do nariz, levou seu punho até o peito do oponente, mas atingiu somente o ar. Veloz como a luz, o Aquariano saltara por cima de Ephos, pousando em seu costado e engatilhando um golpe que derrotaria o cavaleiro de Atena. Antes que o fizesse, o Touro se esquivou rapidamente.

Após uma longa troca de socos e chutes, ninguém conseguiu de fato derrubar o oponente. Ephos não conhecia na prática a dificuldade que era enfrentar um cavaleiro de ouro; para cada movimento seu havia uma resposta de Edgaard, que se mostrava um verdadeiro empecilho. Seus pensamentos, contudo, eram outro entrave; mesmo em meio a um combate, não podia deixar de se embasbacar por ter visto seu golpe ser congelado com tamanha facilidade, feito uma onda de praia que cresce e bate vagarosamente contra o mar.

Distraído consigo mesmo, o Touro foi atingido por uma rajada potente de cosmo, que o arremessou contra o tronco de uma árvore, fazendo cair folhas e os flocos da geada que a encobriam.

Ele não sentiu dor, para fazê-lo sentir seria necessário muito mais que isso. Mas é verdade que o golpe o despertou para a luta. “O Grande Chifre não funcionou na primeira vez, que seja então, funcionará na segunda, se preciso também na terceira”, pensou enquanto se levantava. Apanhou do chão o elmo que caíra com o impacto e o recolocou na cabeça. O Guerreiro do Inverno, por sua vez, apenas observava com plenitude.

—É hora de resolvermos isso – disse Ephos – Tem me incomodado por tempo demais.

O Touro então se pôs em posição de combate, cruzou os braços e disparou:

—Grande Chifre!

Mais uma vez, a massa de luz que se lançava de Ephos para Edgaard rompia o ar e se resfriava quando se aproximava do antigo cavaleiro de Aquário, então a segunda escultura de gelo se formava diante dele, assim como fora anteriormente.

—Sua teimosia me impressiona – grunhiu Edgaard.

Ele, porém, não se gabou por muito tempo. Ephos surgiu como um fantasma em suas costas, aproveitando-se da barreira de gelo para se esconder dos olhos do oponente. Quando se virou, sentiu o sabor salgado do punho do Touro, que atingira seu maxilar com tamanha violência que despedaçara seu elmo em migalhas, perdendo-se junto ao gelo no chão. Edgaard assim foi jogado contra a escultura que acabara de erguer, que se estourou ao choque.

Estalando ossos do pescoço e da coluna, Edgaard se levantou e limpou o sangue que escorria pela boca.

—Jogada inteligente – disse.

Ephos separou o elmo da cabeça e o deixou carinhosamente no chão.

—Gosto de jogar em igualdade.

O momento da batalha era bastante nítido. Ambos concentravam o cosmo ao redor do corpo, reunindo energia para disparar o golpe com a maior potência que conseguissem. Ephos, como de costume, com os braços cruzados; assim como Edgaard apontava os braços para o seu, unindo as mãos em forma de lança. O cosmo que saía do Touro era dourado como o Sol, raiando como o meio-dia; o do antigo cavaleiro de Aquário não era menos intenso ou brilhante, mas reluzia prateado e frio como a Lua da meia-noite.

Eles anunciaram a técnica e ao mesmo tempo a dispararam contra o outro.

A colisão entre o Grande Chifre e a Execução Aurora era tão bela quanto era destrutiva; Ephos e Edgaard ascendiam o cosmo ao limite, não havia outra forma de vencer. Pelo nível tão alto e parelho entre cavaleiros de ouro, dizem que um conflito entre dois deles levaria a uma guerra que duraria mil dias e mil noites, mas ninguém jamais disse o que aconteceria no milésimo dia que faria um deles triunfar. No fim das contas, o que define a diferença entre quem levanta e quem permanece no chão é a razão pela qual estão se matando, cada um possui seu propósito, seu destino, e é o desejo de cumpri-lo que determina o resultado.

Ephos via algo de diferente no antigo cavaleiro de Aquário. Além da frieza em seus olhos, havia calor, um calor tão intenso que fez com que o Touro questionasse o que estavam fazendo ali. No fim das contas, ele não sabia das reais intenções de Edgaard, mas sabia das suas; estas não podiam esperar. Assim, centímetro a centímetro, o Grande Chifre ia superando a Execução Aurora, até que Edgaard não pode mais segurar o golpe de Ephos. Ao ser atingido, o aquariano foi lançado para bem longe, deixando o rastro de seu corpo no gelo do chão.

Edgaard se levantava com dificuldade; sangrava pelo corpo todo, tinha algumas das costelas trincadas e os ferimentos se abriam na pele.

—Eis o fim de todo traidor – disse Ephos – Confesso que me agrada saber que seu destino era esbarrar no meu. Se fosse tão inteligente como pensa que é, teria permanecido ao lado de Atena.

—Como você é patétic... – o antigo cavaleiro foi interrompido com uma tosse de sangue. Ephos o encarou com olhar de menosprezo – Estou ciente da decisão que tomei, garanto a você que não me arrependo. Por sorte Zeus veio até mim e não até você.

—Está dizendo que morrer defendendo Zeus é mais inteligente que morrer por Atena?

—Estou dizendo que simplesmente vi o caminho que devia seguir, e a decisão que devia tomar.

—Todos nós, cavaleiros, devemos nos virar contra Atena... Você é realmente um ser desprezível.

Edgaard não costumava sorrir, quando o fez, não pôde dizer mais uma palavra antes de cair.