O Sol se escondia no céu nublado da manhã, enquanto as rodas da carroça rangiam agudamente. Os dois cavalos eram lentos e de forma vagarosa amassavam a grama no caminho; Magrelo e Carniça, como eram chamados pelo velho Abner caminhavam lentamente, quase parando, eram já de muita idade e percorreram juntos boa parte do país. Noath diria que chegaria mais rápido se rumasse com os próprios pés, com a urna e uma montanha nas costas.

—Devia ter ficado calado ontem – sugeriu – Teve sorte que pude lidar com aqueles caras, a maioria não conseguiria.

Abner riu.

—Sou velho, mas não sou burro.

—O que quer dizer?

—Eu vi essa caixa grande – referindo-se à urna da armadura de Unicórnio – A reconheci imediatamente. Não é o primeiro cavaleiro com quem trombo por aí, rapaz. É o dever de um cavaleiro de Atena ser justo e defender aqueles que precisam, não é? Contei com isso.

Fazia sentido, a urna não era nada discreta.

Ele tivera uma boa noite de sono, não pelo conforto do colchão ou pelo silêncio da madrugada, longe disso, a cama era dura e do quarto no terceiro andar podia ainda ouvir os bêbados badernarem, alguns deles falavam alto demais e riam dos companheiros nocauteados. Tratava-se então de uma rara sensação de orgulho. Afinal, fora para noites como aquela que um dia quis ser cavaleiro; ajudar quem precise de sua força, ser aquele que traria justiça, defendendo aqueles que não podiam se defender com as próprias mãos. Seu peito se estufava de lembrar, não negava, e nem podia, que gostou de ser um herói.

—Procuro pelo meu mestre, Ephos de Touro. Ele saiu do Santuário e já há muito tempo devia ter retornado; a única pista que temos é seu caminho. Afrodite e Atena estão se estranhando, sabe-se lá o motivo, e meu mestre foi enviado em nome de Atena a fim de promover uma trégua. Afrodite, ela é a única que poderia me ajudar.

Abner assentiu.

—Pelo que se fala por aí, Afrodite não é das mais dóceis; não duvido que ela tenha assado cada membro do corpo do pobre coitado que você chama de mestre.

—Se tem uma coisa que ele não é, essa coisa é pobre coitado – disse Noath em tom bem humorado.

Não era fácil explicar, mas Noath estava certo de que estavam sendo seguidos. Não viu nenhum vulto, e fora eles a pastagem não havia sinal algum de vida por ali. Com Ephos aprendera a identificar cosmos, que não era somente um indicativo de poder, mas de personalidade; quando se lê o cosmo de alguém, rapidamente percebe se é agressivo ou carinhoso, alegre ou triste, quente ou frio. Naquele dia, Noath não podia, como se procurasse pela essência certa em meio a uma centena de perfumes no ar.

—Não tem a sensação de que há mais alguém por aqui? – indagou.

—Mais alguém?

—Sim... alguém nos vigia, posso sentir.

—Está certo, garoto, nos vigiam. Do céu nossos entes do passado estão de olho em cada passo nosso, e quando anoitece, seus olhos se transformam em estrelas.

Noath lembrou-se bem desta noite, quando, ainda sem sono, admirava a noite. As estrelas da constelação de Touro brilhavam mais do que nos dias comuns, elas miravam sua luz no quarto do Unicórnio, e ela atravessava pela janela. Não sabia o que podia significar, mas era claro pra ele que devia o quanto antes se encontrar com Ephos.

O por do Sol tingia de rosa o céu, estava prestes a escurecer, e não demorou até que avistassem a bifurcação que separaria seus caminhos.

—E agora, rapaz? Sabe pra que lado vai?

—Não estou certo – grunhiu – Pra onde vai com os cavalos?

—Pra cá – Abner apontou com um olhar.

—Está certo – Noath vasculhou com os olhos o caminho do velho, não lhe parecia que daria em algo de interessante, além do que, se cansara da lentidão dos cavalos e tinha alguma pressa – Bem, devo seguir pelo caminho oposto. Algo me aguarda pra lá.

Eles então se despediram com um cumprimento de mãos.

—Torço pra que encontre o que procura em sua jornada, rapaz. Quando nos encontrarmos de novo, contará todo o resto da história.

—Como sabe que iremos nos encontrar? – perguntou Noath.

Abner contemplou o entardecer e o apreciou.

—Estou em todo lugar, cavaleiro de Atena, em alguma das minhas andanças, nos esbarraremos.

Cada um então seguiu seu caminho, e o velho tinha razão, acabariam por se encontrar mais uma vez não muito tempo depois.