Saint Seiya - Um conto de passagem

2 2. NOATH - O Cavaleiro da Justiça


Perto do crepúsculo, Noath já não via a silhueta do Santuário, o que significava que estava a menos um dia de viagem. As palavras do Grande Mestre eram bem claras; Ephos de Touro, seu mestre, havia saído em missão há algum tempo e já deveria ter regressado, cabia agora ao pupilo encontrá-lo. O cavaleiro de Unicórnio sabia que Atena e Afrodite estavam em guerra, mas não conseguia entender a razão. Não entendia a razão de qualquer guerra. Pensava que seria muito menos trabalhoso se cada um cuidasse da própria vida.

Isso o fazia se recordar do motivo pelo qual se tornara um cavaleiro. Certamente não se tratava de guerrear. Era só uma criança, não maior que a urna da armadura de Unicórnio, seus cabelos esverdeados eram cintilantes e cheios de vida assim como os olhos; criado somente pela avó, não tinha dinheiro para comer mais que pães e salsicha todos os dias, quando a sorte ajudava e sobravam algumas moedas, Noath e a avó, Iris, iam à feira comprar maçãs. Noath sempre a ajudava com o trabalho em uma floricultura no centro do vilarejo; o dia havia sido benevolente e rendera mais moedas que o esperado, então e em uma noite chuvosa, caminhavam de volta pra casa quando um trio de homens com gorros negros e olhos recheados de maldade interditaram a passagem. O garoto nada pode fazer quando os bandidos tomaram à força a bolsa com remendos e moedas de Iris; a senhora lacrimejava enquanto clamava pra que a deixassem em paz; Noath tentou ajudar, inutilmente, foi arremesso com um empurrão para a lama.

Os bandidos, após o furto, riam da senhora pobre que chorava na chuva e do garoto que tentou impedi-los. Como se os céus tivessem ouvido as preces de Iris, devota de Atena e de seus santos, viram surgir das sombras um sujeito armadurado que trazia consigo justiça. O cavaleiro sem muito se esforçar apanhou a bolsa de moedas e a devolveu à senhora; os bandidos não tiveram sucesso na fuga, capturados, foram entregues às autoridades do vilarejo. Quase dez anos depois, Noath se lembrava de cada detalhe da cena como se o visse todas as noites antes de dormir.

Passaram-se dois anos do episódio quando Noath perdeu a avó. Sem ela, o garoto não tinha pra onde ir ou como comer, seu teto passara a ser as nuvens e sua cama as pedras. A maioria das pessoas que passavam por ele o ignoravam como se fosse uma fruta podre que acabara de cair do galho, vez ou outra uma alma lhe dava pães e água, nada mais que isso.

—Ele está aqui! Ele está aqui! – ouviu de outras crianças que brincavam pela rua.

Quando Noath se deu por conta, todas as pessoas rumavam para a mesma direção, excitadas de certa forma. O garoto estava faminto e pouco interessado no que havia de tão importante para além dali, até que ouviu de um homem largo e barbudo:

—Vamos! Vamos! Não é todo dia que um cavaleiro de ouro aparece no vilarejo.

Como não podia ser diferente, aquelas palavras acenderam uma luz na cabeça de Noath, que tão imediatamente correu para junto da multidão; logo fazia parte de uma grande massa de pessoas que desejavam a sorte de serem olhados pelo cavaleiro, para a maioria delas qualquer “bom dia” servia, mas o rapaz ansiava por algo mais, queria ser como ele, salvar idosas e crianças de bandidos como vira acontecer dois anos atrás. Quando adormecia, no frio ou no calor, em seu sonho predileto trajava uma armadura dourada, tinha uma capa longa que se esticava varrendo o chão e era respeitado por cada um que o trombasse.

Então, o responsável pela multidão estava tão próximo quanto estivera há dois anos; era o mesmo cavaleiro, ele podia reconhecer tanto pelo rosto, quanto pela armadura, mas especialmente pela energia que emanava, carinhosa e repleta de sabedoria. O cavaleiro visitava um orfanato no vilarejo quando viu a aglomeração o rodear; por respeito, ninguém o incomodava com toques e abraços, apenas o viam passar, usufruindo da oportunidade de vê-lo caminhar pelo vilarejo feito uma obra de arte em movimento.

Seus cabelos longos tinham um tom entre o grená e o vermelho, repousava o elmo com chifres entre os braços e a cintura quando viu Noath surgir diante dele. Assim que notado, Noath sentiu a língua travar, assim como o resto do corpo; suas pernas tremiam e suava mais que o comum. “E agora?” pensava, enquanto todo o vilarejo o fitava. Alguns murmuravam palavras de reprovação, outros parabenizavam a atitude do rapaz, mas a maioria apenas observava em silencio.

—Como se chama, garoto? Eu sou Ephos – disse o cavaleiro, em tom amigável.

—No-No-Noath, senhor – gaguejou – Quero ser um cavaleiro.

Não demorou pra que Ephos visse na criança ajoelhada em sua frente algo que as outras não tinham; o Touro o levou para o santuário e o treinou pra que pudesse ser um cavaleiro justo e forte e anos depois sentiu o orgulho de ver seu pupilo trajando uma armadura, a de Unicórnio.

Anoitecia quando Noath viu luzes acesas perto dali. Havia beirando a estrada um prédio onde as pessoas podiam repousar durante a noite, o rapaz não comera nada desde que saiu dos arredores do Santuário, podendo ouvir seu estômago rugir faminto. A pousada não lhe parecia um lugar muito agradável; o guichê da recepção era também um balcão de bar, onde se pagava pela noite dormida e belas cervejas tomadas. Os bêbados estavam aos montes, urrando feito ursos, quebravam copos e jogavam cartas. O homem de trás do balcão tinha um bigode engraçado, era muito alto e tinha dificuldade em passar pelas portas, em seu ombro esquerdo um pano de lavar pratos e com a mão direita rabiscava algumas contas num pedaço pequeno e gasto de papel.

—Com licença – disse Noath, timidamente – Gostaria de um quarto.

O sujeito o fitou com um soslaio de menosprezo e voltou a fazer suas contas.

—Tenho dinheiro – Noath agitou um pequeno saco de pano com moedas pra que ouvissem o som do metal tilintando.

—Se insiste... Temos dois quartos vazios; um no primeiro andar e o outro no terceiro. Para alguém da sua idade, recomendo o terceiro, onde os bêbados não podem chegar e perturbar seu sono.

—E por que fariam isso?

—Essa casa não é bem um lugar amistoso para rostos como o seu, aqui não temos bons exemplos. Temos todo tipo de criminosos por aqui. Vê aquele velho gordo? Procurado pelas autoridades por diversos furtos e assassinatos. O careca da direita... vendeu a filha pra comprar ópio. E esses são os mais amigáveis.

Noath preferiu não questionar a razão de acolherem tantos bandidos, talvez fosse a única forma rentável de manter o lugar, que já parecia pronto pra desmoronar; talvez até fossem todos criminosos, até o balconista. De qualquer forma, além de uma cama, Noath precisava abastecer o estômago.

—Me dê a chave do quarto no terceiro andar então. E o que tem pra comer? Estou faminto.

Enquanto mastigava um pedaço de torta de nozes surpreendentemente saboroso, alguns homens o encaravam com desdém, como se ali não fosse um bom lugar pra uma criança estar, e que logo mostrariam o porquê. Noath, é claro, já não era mais uma criança, tinha dezesseis. Ano retrasado tomara seu primeiro gole de cerveja e já beijara até aqui duas garotas, uma aos treze anos e outra aos quinze, no Santuário mesmo; além disso, ostentava uma armadura, que era mais do que qualquer marmanjo dali poderia fazer em toda a vida.

Então, na mesa onde se sentava, uma mulher quarentona, com cabelos loiros e desgrenhados, cheia de bijuterias e dentes de ouro, arrastou uma cadeira e pousou uma garrafa de whiskey e um copo.

—Então, garoto – disse ela, sem disfarçar a embriaguez – O que faz aqui? Sabe que não é um lugar para crianças. Onde estão seus pais?

—Não tenho pais. E pelo visto também não terei paz.

A mulher gargalhou alto, para que o restante dos homens rissem idiotamente.

—Ouviram isso? Ele quer paz! – gritava.

Depois que todo o riso cessou, ela prosseguiu:

—E isso aqui? – indicando para a urna da armadura de Capricórnio – É sua mala? Grande desse jeito, imagino que queira ficar por muito tempo.

“Eu só queria um lugar pra dormir e algo pra comer. É pedir demais?” pensava Noath, impaciente.

—Deixem o menino, é só uma criança. Deve estar perdido – disse uma voz rouca e fraca vindo da sua direita. Ao virar-se, Noath viu um senhor de pelo menos oitenta anos, que bebericava em uma garrafa de rum tão pacificamente que parecia estar em algum paraíso. Ele já mal tinha fios de cabelo, os que tinha eram cobertos por um chapéu de couro, estava corcunda e as marcas da idade se espalhavam pelo rosto. Deixara sua bengala repousada no canto da cadeira, próxima ao corpo.

A mulher não demorou a se irritar, assim como os homens que a acompanhavam na zombaria de Noath. Ela dirigiu-se ao velho, cheia de marra.

—O que uma tartaruga como você pensa que está dizendo? Por acaso prefere apanhar no lugar no garoto?

Sete dos marmanjos e criminosos dali se levantaram, também em direção ao senhor, que parecia pouco amedrontado. Eles o cercaram e começaram a fazer questionamentos que seria mais inteligente se não fossem respondidas. Até que, por alguma razão, um sujeito barbado, com tatuagens e uma curiosa cara de peixe se irritou, golpeando a garrafa de rum das mãos do velho. A garrafa se estilhaçou no assoalho, derramando com ela o pouco da bebida que ainda restava

Noath certamente não gostava do que via, preparou-se para ajudar ao velho, quando, enquanto se levantava, sentiu uma mão em seu ombro. Ao olhar pra trás, o Unicórnio viu o rosto negativo do balconista, como se dissesse “não” com os olhos.

Um dos homens esbravejava cheio de ira contra o senhor, que desejava apanhar sua bengala e subir as escadas rumo ao cômodo onde passaria a noite; o homem, que tinha um enorme e avermelhado nariz, bateu com os punhos fechados na mesa, despejou algumas palavras de ameaça e, antes que terminasse a frase, sentiu a sola do sapato de Noath em sua bochecha. O impacto do golpe o derrubara duro como chumbo no chão e demorou a voltar a si.

Mais uma vez os olhos de todos se voltaram contra Noath, que recheado de confiança, chamava cada um dos bandidos dali pra um confronto.

—Por que não brigam com alguém que pode revidar? – disse – Não que vocês possam fazer isso.

Assim, cada um dos criminosos que há pouco oprimiam o velho, agora visavam o garotinho, que já não aparentava ser tão indefeso. Alguns deles estalavam os ossos do punho, outros ajeitavam as mangas, enquanto o restante apenas destilava olhares hostis, que poderiam parecer até fome.

—Vou jantá-lo, rapazinho – grunhiu um deles

—Pode jantar, Monk, eu prefiro a sobremesa – murmurou outro.

—Estou esperando – respondeu Noath, provocando-os.

Vendo de longe, a cena fazia parecer que um grupo de bulldogs estava prestes a dilacerar toda a carne e os ossos de um delicado chihuahua que caíra no canil errado.

Assim como começou, a briga não demorou a terminar. Todos os cães fortes, grandes a furiosos avançaram contra o cãozinho. Noath, com um único disparo de cosmo, iluminou o salão e desacordou cada um que gostasse de uma boa briga. Não foi bem uma luta justa, Noath não seria derrotado nem por centenas deles. De pé, para que pudessem testemunhar melhor a sova, restara somente o velho, o balconista e a mulher. Ela, em choque, logo correu para o quarto e rezou para que durante a noite ninguém batesse em sua porta.