Santuário, dia seguinte.

Os soldados do Santuário recolhiam os destroços da última batalha. A noite fora tranquila, mas havia trabalho a ser feito. Eles recolhiam pedaços de pilastra, rochas médias e grandes e outros restos de destroços.

Um grupo havia se deparado com uma rocha grande. Por mais que tentassem, não conseguiam removê-la.

– E agora, o que faremos? — perguntou um soldado.

– Deixem comigo. — disse Shiryu. O cavaleiro estava sem camisa, e parecia estar sujo de poeira.

–Não precisa, senhor Shiryu! — disse outro soldado.

– Para trás!

O Cavaleiro ergueu sem dificuldade a rocha e a jogou no ar. Ela caiu e se espatifou.

– Caramba...!

– Espero ter ajudado.

Shiryu não precisava enxergar para poder compreender o mundo. Ele se sentia em harmonia com o mundo a partir de seu cosmo. Sua mente e sentidos o guiavam no lugar de seus olhos. Ele ainda era um Cavaleiro e podia lutar sem problema.

Porém, havia uma pessoa que se preocupava muito com Shiryu. Shunrei suplicava sempre para que ele parar de lutar, ainda mais que sua visão estava prejudicada. Mesmo que insistisse estar bem, ela continuava rezando por ele. Mesmo achando que ela se preocupava demais, ele gostava dela estar se preocupando, rezando pela alma dele.

Shiryu colocou sua blusa de novo e carregou a Caixa de Pandora da sua armadura nas costas. Ele estava se preparando para sua meditação num lugar mais isolado do Santuário.

Bem ao longe, Shiryu sentou-se em posição de lótus e se concentrou. Sentiu seu cosmo se elevar e tudo veio ao mesmo tempo. Sentia o vento bater em seus cabelos, o calor daquela manhã, o solo vibrando com o trabalho de remoção de destroços. Era como se ele e a natureza fossem um só, mas seus pensamentos são interrompidos pela voz de Hyoga.

– Shiryu?

– Sim?

– Eu estou interrompendo alguma coisa?

– Imagine.

– Você é um exemplo, Shiryu.

– Por quê?

– Porque mesmo depois de ter perdido sua visão, você continuou a lutar, e ainda desenvolveu suas habilidades sensoriais.

– Ah, que isso. Ainda sou o mesmo de anos atrás.

– Humilde como sempre.

Hyoga admirava Shiryu por sua determinação, vendo nele um prova de superação de limites. No entanto, a percepção de Shiryu mostrou-se admirável. Ele havia sentido uma presença maligna de relance se aproximar. Ele correu até o centro do Santuário desesperado. Então, ele sentiu uma onda de calor se aproximar, e desviou, mas em seguida veio outra. Ele teve que desviar de várias, até que ele gritou:

– Apareça de uma vez, maldito! Sei que está aí.

O marciano estava no alto do muro do Santuário. Ele saltou e aterrissou no solo, de frente com Shiryu. Ele usava uma vestimenta também preta e vermelha, mas tinha detalhes diferenciados. Usava uma tiara em formato de uma Salamandra. Tinha cabelo curto laranja e olhos laranja-escuro.

– Então você é o tal de Shiryu. Você deve ser da trupe do Seiya. Pensei em reduzir o rastro do meu cosmo para não chamar a atenção, mas não teve jeito...

– E você, quem é?

– Sou César de Salamandra, um Alto Marciano, a elite do exército de Marte. Soube dos seus feitos, e vim comprovar a sua força. E se possível, arrancar alguma coisa de Atena.

– Você não vai encostar um dedo em Atena! — respondeu Shiryu. – Vamos, Armadura de Dragão!

A urna se abre e revela um dragão imponente, que se desmonta e veste Shiryu. Era idêntica à armadura que ele usou em Hades, só que sem o sangue de Atena. Mesmo assim, ela se manteve resistente, diferente das Armaduras de Bronze convencionais.

César criou chamas com seu cosmo e começou a acumular calor. Quando chegou ao ponto certo, ele esbravejou:

–Salamandra Flamejante!

César liberou duas chamas em forma de salamandra, mas Shiryu desviou virando-se para o lado, saindo ileso do ataque.

– Você desviou desse golpe com precisão, mesmo sendo cego... Como você faz isso?

– Eu perdi a visão na batalha contra Poseidon. De lá para cá, despertei o Sétimo e Oitavo Sentido. Minha percepção extrassensorial se tornou mais precisa, aumentando minha capacidade de sentir as coisas ao meu redor.

– Entendi... Você não precisa de olhos para “enxergar”, você se guia através de seu cosmo. Interessante!

César criou chamas nas palmas das mãos. Com velocidade, ele atacou Shiryu, que desviava dos golpes do Marciano, mas ele o golpeou no peito. Em vez de se abalar, o cavaleiro elevou seu cosmo e ergueu seu punho, resultando num gancho.

– Cólera do Dragão!

O golpe fez o Marciano voar longe, e ele caiu em seguida. Mas ele se levantou como se nada tivesse acontecido.

– Fico honrado em receber o famoso Cólera do Dragão, mas... Eu esperava mais. De cara, já notei que a sua técnica possui dois erros. O primeiro é que, ao executar esta técnica, você deixa a sua guarda exposta, e seu coração fica vulnerável a ataques. E o segundo é que essa técnica usa muito da sua força. Pela minha dedução, você só pode usar essa técnica mais uma vez. — disse César.

– E você está enganado sobre mim. — disse Shiryu.

– Como é?

– O Cólera do Dragão pode ser minha técnica principal, mas isso não quer dizer que eu dependo só dela!

– Então, me mostre!

César criou chamas mais fortes e os lançou rapidamente, em forma de espiral.

– Furação Ardente!

Foi tão repentino que Shiryu desviou, mas o golpe pegou de raspão, queimando levemente o seu braço. O Cavaleiro ficou perplexo, mas bolou um plano. César preparava-se para lançar sua técnica mais uma vez e ficou em posição. Levantou seu braço esquerdo e sentiu um cosmo se acumular. Quando César lançou o ataque, Shiryu moveu seu braço, simulando um corte. A técnica se dividiu em duas chamas distintas, com uma para cada lado.

– M-Mas o que aconteceu?! A minha técnica foi...

– Cortada.

– Hã?

– Você viu a Sagrada Espada Excalibur em ação. Eu recebi de um Cavaleiro de Ouro com o qual lutei no passado.

–Essa espada... Ela existe! E pensar que ela estaria com você...

O Marciano esboçou um sorriso maligno no rosto e criou uma esfera de fogo nas mãos e lançou contra Shiryu.

– Olho da Salamandra!

O cavaleiro criou novamente a Excalibur e ele interceptou o golpe com ela. O golpe foi cortado novamente e uma parte da técnica atingiu superficialmente César, arranhando o peito da Galáxia. O Marciano parecia perplexo.

– Acertei? — se perguntou Shiryu.

– Impossível! A minha Galáxia, tão resistente quanto as Armaduras de Ouro... Foi cortada?

O guerreiro se enfureceu e começou a elevar seu cosmo que estava cheio de ódio.

– Queime meu cosmo! Alimente as minhas chamas!

César criou potentes chamas ao seu redor e as reuniu com as mãos. Era um ataque preciso e letal.

–SALAMANDRA FINAL!

As potentes chamas foram disparadas, mas Shiryu foi bem mais rápido e desviou. Ele saiu ileso.

– A minha técnica mais forte foi desviada? Impossível!

– Uma onda de calor como esta é bem fácil de notar. Seria mais vantajoso se você tivesse usado uma técnica mais potente e menos chamativa. — Shiryu aponta seu dedo para César. – E agora, você vai morrer!

Shiryu começou a elevar seu cosmo ao limite. Então, ele fez um semicírculo com as mãos e as levou para trás. Ele abriu as mãos e as colocou na frente.

– CÓLERA DOS CEM DRAGÕES!

Centenas de dragões criados por Shiryu atingiram em cheio o Alto Marciano, jogando-o longe e destruindo sua vestimenta. No fim, ele caiu e pouco sobrava do guerreiro confiante que o desafiara.

–Então, esse é... O meu... Fim... Mas... Não foi em vão...

Uma joia vermelha saiu de um dos fragmentos da tiara e voou. Shiryu estava impressionado com um adversário como ele. Mas agora a batalha havia acabado, pelo menos para ele. Ele sentiu seus amigos se aproximarem.

– Você está bem, Shiryu? — perguntou Hyoga.

–Sim. Onde vocês estavam?

– Detendo soldados Marcianos do lado de fora do Santuário. — respondeu Ikki.

– Quem é esse aí caído no chão? — perguntou Seiya.

– César de Salamandra. Ele era um dos Altos Marcianos.

– Quantos mais deles virão? — perguntou Shun.

– Isso só o tempo dirá. Agora vamos, temos trabalho a fazer.- disse Hyoga.

A batalha daquela manhã havia terminado, mas os conflitos contra Marte estavam apenas tomando forma.