Saint Seiya: O Vazio do Submundo / Parte 2

4 Os Ensinamentos dos Cavaleiros de Bronze


Kebechet está de sari e uma blusa branca, seu semblante é sério e tristonho; embora os olhos estejam mirados em pássaros urbanos lutando por migalhas, ela nada vê, perdida em seus próprios cenários da mente. Seu corpo, no entanto, está sentado em um banco de praça arejada, debaixo de uma árvore carregada. À frente dela, todos seus dilemas e o punhado de pombos comendo restos.

Um jovem alto senta-se ao seu lado. Olha fixamente para ela, mas não encontra os olhos da garota.

— Keb.

Ela olha para baixo e pega na mão dele, mas é ele quem fala olhando para ela com um rosto dolorido.

— Não vá. Não me deixa aqui, Keb, não faz isso comigo.

— Het, sabe que… Não posso.

Ele ajoelha-se diante dela, buscando seu olhar, já que ela faz um esforço monumental para não encará-lo. Não disse nada até que ela tivesse coragem de olhar para ele nos olhos. Ela o evitava, pois sabia até onde ia o amor de Hetepheres por ela.

— Keb, Keb. Escute. — dizia ele, tentando convencê-la a manter o olhar. — Irei com você, então.

— Não, Het, você não faz ideia do que está falando. — ela sabia que ele diria isso, por isso fugia tanto dos seus olhos tristes.

— Não faço, mas eu irei até o Inferno pra ficar com você, Keb. Você sabe disso.

Kebechet parece sentir dor ao ouvir as palavras dele.

— Não. Não posso deixar.

— Não pode decidir por mim.

Ele segurou as duas mãos dela nas dele.

— Está feito. Se para estar ao seu lado eu preciso ir, então não há o que discutir. Ficarei ao seu lado. — ele beijou as mãos de Kebechet. — Pra sempre.

Ela finalmente olhou-o fundo nos olhos, um homem moreno de cabelos curtos, mas rebeldes. Ela, carinhosamente, deixou escapar um sorriso e arrumou os cabelos dele por trás da orelha. Mas então ele queimou instantaneamente e apenas restou o cadáver calcinado nas suas mãos.

Kebechet olhou adiante e a praça não existia mais, apenas uma planície laranja coberta de cadáveres em chamas. Ao longe ela pôde distinguir claramente a figura de uma mulher vestindo uma Armadura de Ouro. Era ela. Tinha sangue em suas mãos.

Gritava com seu crânio sendo pressionado contra sua vontade e ajoelhou-se brigando contra aquela dor insuportável. Ikki deixou o corpo de Nachi no chão e comentou para ele, pouco ligando para o sofrimento da garota que esperneava perto dali.

— Humpf. Você lutou bem, Nachi. Não parece mais aquele inútil que eu venci quando nos conhecemos. — sorriu ele.

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Apep já retirava-se da câmara quando notou que Ban ainda estava vivo e tentando pôr-se de pé, o som de sua armadura metálica era inconfundível se movendo. Ela sentiu um enorme desânimo com a situação, mas simplesmente não conseguia seguir sem matá-lo finalmente, odiava que suas presas sobrevivessem. Respirou em reprovação e voltou para ele.

— Seria mais fácil se fingir de morto, sabia?

Ele sorriu com dores no corpo.

— Sabe… Eu tenho alguns amigos que… bem, eles conseguiram fazer muitos milagres. Venceram guerreiros infinitamente mais fortes do que você. E mais fortes do que eles próprios. — sorrindo, cuspiu sangue no chão. O barulho do salto da guerreira continuava ecoando na câmara. — Sabe, não era para eles terem conseguido. Principalmente tantas vezes seguidas. O Ichi vive dizendo que foi sorte, já o Jabu acha que nasceram de forma especial, o Geki diz que treinaram bastante, mas eu tenho uma ideia diferente.

— E que ideia seria essa? Eu já vou te matar, então sugiro falar logo.

Ban riu.

— Eu acho que eles venceram porque sempre foram menosprezados.

Ela não pôde segurar um riso legítimo e desatou a correr para acabar de vez com o Leão Menor. Ban, no entanto e misteriosamente, começou a desviar das investidas da guerreira pela primeira vez; de todos os socos, voadoras, pontapés e cabeçadas. Ban simplesmente bailava sem ser atingido. Apep percebeu e perdeu sua paciência: colocou-se na posição ofídia que o Leão Menor conhecia e gritou:

— A Serpente do Nilo!

Uma enorme serpente de fogo levantou-se do corpo da guerreira, sibilando furiosamente; foi na direção de Ban, mas ao encontrar seu alvo o punho de Apep na verdade não chocou-se contra nada, já que o Cavaleiro de Leão Menor estava atrás dela. Ele saltou um mortal para trás e prendeu o pescoço da guerreira com as duas pernas; sua impulsão fez com que ela fosse arremessada com força brutal contra as estátuas de cão que seguravam as tochas.

Ele chegou a cambalear, fruto dos recentes ferimentos, mas estava pronto para mais luta.

— Um golpe não funciona duas vezes contra um Cavaleiro de Atena.

Apep saiu do meio dos escombros quente de raiva.

— Levou todos os golpes só pra aprender?! — ralhou ela.

— Pff. Conheci um cara que deixou que tirassem todos os sentidos dele só pra vencer. — ela nem respondeu, apenas soltou um sibilo furioso.

Seu cosmo branco como o dia ascendeu e ela colocou-se diante das pedras quebradas bailando feito uma serpente no ar.

— Se acha que sou feita apenas do que já viu, prepare-se para sentir a fúria da serpente egípcia, a serpente que levantava-se toda noite para devorar a carne dos deuses, a serpente que vai…

E não finalizou, pois o punho do grandalhão Ban atingiu-a brutalmente no estômago e ela foi novamente arremessada.

— Tenho um outro amigo que bate primeiro e pergunta depois.

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Jabu, Ichi, Geki e Atena, nessa ordem, desceram alguns lances de escada em espiral até um andar inferior, onde uma câmara abria-se toda sustentada por pilares; estendia-se livre desses pilares apenas um corredor imediatamente da entrada até a saída, ao fundo. Podiam sentir um cosmo estranho presente no lugar, embora ninguém estivesse à vista. Foi colocarem o pé na câmara, no entanto, que um rosnado começou a se fazer ouvir de vários lados do lugar.

— Eu ficarei para lutar, vocês seguem com Atena.

— Jabu…

— Nem adianta discutir, Geki. Você é a melhor proteção para Atena.

Eles seguiram adiante com cautela, pois o rosnado só crescia e se aproximava conforme avançavam; Geki andava na retaguarda deles, olhando para além das pilastras que se jogavam em escuridão. Ichi ia na frente e Jabu ficou mais atrás para ter uma visão ampla do lugar, dividindo a atenção de quem quer que fosse o atacante daquela câmara.

Cães saltaram para atacar Atena, mas Geki e Ichi defenderam-se perfeitamente e a Deusa pôde alcançar a saída logo após. Perto do fim, finalmente garras douradas precipitaram das sombras, perfeitamente à vista de Jabu, que esperava que algo realmente acontecesse. Geki defendeu as garras douradas sendo arrastado para atrás, mas Jabu veio com sua voadora certeira no guerreiro de ouro.

— Argh, Unicórnio Galopa!

O galope azulado do Unicórnio cruzou o corredor com força, jogando luz por todos os pilares e atingindo o guerreiro em cheio. Ele foi arremessado para acima da saída e foi pregado fundo na pedra pela violência. Jabu olhou para Geki e Ichi, eles entenderam e seguiram Atena, que já descia os lances de escada.

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Ikki ainda olhava como Kebechet sofria com as dores em sua mente, não havia um esgar de preocupação nele; tampouco gostava de ver sua vítima sofrer tanto. Teve sua atenção tirada por Nachi, que já ia acordando do outro lado; ele levantou o tronco e viu a silhueta de Fênix diante de si.

— Ikki…

— Vamos, levante-se e vá proteger a Deusa Atena.

Nachi lentamente se recompôs; ensaiou agradecer a Ikki, mas ele sabia que seria inútil. Também seria inútil tentar convencê-lo a ir com ele pirâmide adentro para ajudar nas batalhas, afinal de contas seria sinal de vitória certa, mas não havia diabo que mudasse o que Ikki fosse fazer dali em diante. Nachi sabia disso. Olhou apenas fundo nos olhos dele, agradeceu com um leve menear de cabeça e, trôpego, foi adiante para entrar na pirâmide.

Ikki observou Nachi se perder na escuridão; foi ele virar as costas para ser atingido de maneira devastadora. Ainda teve um quadro da imagem de Kebechet se contorcendo e no instante seguinte, estava seu rosto destruindo pedras, uma vez que havia sido jogado com força. Ikki foi surpreendido por um balaço dourado nas costas. Estava atento, em guarda e, mesmo assim, não percebeu nada ameaçador vindo de qualquer lugar, o que claramente era um sinal de que algo muito perigoso estava acontecendo.

A força pressionou Ikki contra as paredes de pedra da montanha que circundavam aquele pátio. Quando a energia dourada cessou, ele foi ao chão, mas logo levantou-se. Tentou encontrar seu atacante e tudo que pôde ver foi o corpo de Kebechet no mesmo lugar que estava, ainda sofrendo.

Procurou e não viu ninguém naquele pátio; apenas quando notou uma sombra cortar o sol rapidamente foi que ele olhou para cima e então pôde divisar uma figura alada chegando rapidamente.

— Ele conseguiu me atingir com essa força dessa distância?!

A criatura pousou no pátio quebrando algumas pedras. Tinha uma armadura absolutamente linda e dourada, asas grandes, mas de penas separadas entre si que subiam pouco mais acima dos ombros, caindo pouco antes dos calcanhares; vestia um elmo pontiagudo. Sua proteção era muito maior do que a de Kebechet, notou Ikki. Não usava nenhum tecido, seu gorjal era menor e a Ankh estava também no seu peito. Era negro e tinha um cabelo trançado para trás.

Levantou e foi direto para Kebechet, mas Ikki saltou das pedras para atingí-lo com seu punho de fogo; o homem saltou feito uma ave com as asas abertas e desviou do ataque. Mais próximo, Ikki percebeu como aquela armadura de ouro era muito mais imponente e tinham pedras cravadas em alguns pontos para ornamentá-la em desenhos que se assemelhavam a chamas; era quase evidente de que se tratava de uma patente maior do que a de Kebechet.

— Quem é você? — perguntou a voz de trovão do homem.

— Sou a Ave Fênix.

O guerreiro sorriu.

— Eu sou o Takelot, o Stm Dourado de Benu.

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Ban e Apep tentavam se bater; ele desviava dela, ela dele. Quando se afastaram, Apep não demorou nem um instante para levantar seu braço direito, fazer seu cosmo branco aparecer e a sua voz ecoar com exatidão:

— Aniquilação de Fogo!

Sua armadura de ouro abrilhantou-se feito o fogo e seu cosmo, antes uma energia serena e branca, transformou-se exatamente em uma pira fortíssima de chamas; ela então socou o chão violentamente, esparramando um mar de fogo por toda a arena e obrigando Ban a saltar, que era exatamente o que ela queria.

No ar, ele foi envolto pela serpente de fogo do Nilo que o constritou com raiva; queimando e quase quebrando os seus próprios ossos. Ban ainda pôde sentir o bafo quente de Apophis atrás de si; um braço apertando-lhe o pescoço, o outro apertando-lhe o baço e as pernas travadas no quadril, realmente tentando esmigalhar-lhe os ossos enquanto o queimava. Girando um mortal invertido, no entanto, Apep fez Ban cair violentamente sobre a cabeça no chão, quebrando a pedra e causando imenso dano ao elmo de Leão Menor.

De pé novamente, Apep caminhou até Ban, decidida a quebrar-lhe o crânio, dessa vez a pisadas.

E pisou, e pisou, e pisou.

“Eu vou morrer” — pensou Ban, sozinho, conforme sua mente ia esvaindo-se para a inconsciência que fatalmente o tiraria a vida.

Uma voz, no entanto, falou-lhe no cosmo, lembrando-se de que ainda vivia:

— Ban, Ban… levante-se, Ban.

Era a voz de seu mestre, ele sabia.

— Não pode ser vencido pelo fogo. — repetiu a voz de seu mestre. — Não pelo fogo.

E Ban, quase inconsciente, lembrou-se de quando retornou ao Kilimanjaro após a Guerra Galáctica; e como estava furioso com seu mestre de não ter-lhe instruído nos segredos do Cosmo com exatidão, e também como sentia-se humilhado pelos resultados do torneio.

— O Cosmo?! — espantou-se o homem já velho. — Ban. O Cosmo não é nenhum segredo. — respondeu ele.

E em seguida, retirou um tição da fogueira em que estava sentado para se esquentar e jogou na direção de Ban, queimando-o.

— Ei!

— O Cosmo é o que vai fazer com que o fogo não o fira. — e jogou novamente o tição; Ban pegou-o nas mãos, mas queimou-se do mesmo jeito.

A esse ponto, impaciente, Apep já socava as costas de Ban também; ela poderia certamente matá-lo, mas parecia decidida a fazê-lo sofrer.

Em seus delírios, Ban lembrou-se da primeira vez que seu mestre levou-o à boca do vulcão da montanha, o Shira. E então guiou-o pelas entranhas até onde estava exposta à lava do vulcão adormecido; Ban recorda-se de como a proximidade feria sua pele, doía-lhe os olhos, feria seus pulmões. Nas mãos de seu mestre, uma tocha inútil na caverna iluminada pela lava calma, incandescente, borbulhante, perigosa.

— Controle essa chama com seu cosmo, Ban. — ordenou o mestre.

Ban tentou. Falhou. O mestre, com uma mão, segurava a tocha e, com a outra, fez a chama deixar a ponta da tocha e flutuar na palma de sua mão; como uma bolinha, ele arremessou-a inutilmente para dentro do vulcão, que pouco se deu por tocado. Pediu para Ban repetir e ele não conseguiu. E dessa vez, o Mestre arremessou a bolinha nele. E o ritual foi repetido mais de mil vezes, sempre sem sucesso.

— Se você puder controlar essa pequena chama, poderá controlar esse vulcão todo, Ban.

— Isso é impossível!

— Não para o cosmo.

Ecoou a voz do velho chagga. Fazia já um bom tempo desde aquele reencontro.

E Ban voltou a si enquanto o pé de Apep voltara a cravar sua cabeça no chão daquela câmara.

Ela percebe que ele recobrou consciência e o chuta para um lado, fazendo-o sair do buraco que ia sendo enterrado e rolar para o lado.

— Humpf, é o seu fim. Aniquilação… de Fogo!!!

Seu cosmo novamente foi tomado por chamas e ela socou o chão, fazendo um mar incendiário expandir-se de seu punho para todos os lados, inclusive engolindo o corpo de Ban. As chamas crepitavam em contato com o corpo do Cavaleiro de Bronze e faziam sua armadura reluzir lindamente, embora mortalmente.

Eis então que algo incrível começou a acontecer.

O corpo semi-morto de Ban começou a levantar-se, um corpo absolutamente coberto de chamas, como se fosse feito de carvão puro. A própria maré de fogo que originava-se do punho de Apep e espalhava-se pela câmara começou a ser sugada ou convergida completamente para aquele corpo ígneo, que levantava-se na frente da guerreira de Ouro. Em certo momento, a câmara por completo ficou na escuridão, pois até mesmo as chamas das tochas que eram seguradas pelas estátuas caninas nas margens foram apagadas, pois Ban tomou suas chamas emprestadas.

Tudo convergiu para o corpo de Ban, que levantou um dos braços e todo o fogo se concentrou na palma de sua mão, como uma enorme esfera flamejante. Quando o fogo deixou seu corpo para formar essa grande esfera ígnea, ele arfava e tinha um cosmo alaranjado cobrindo seu corpo.

— Deveria ter me matado, Apep.

— O quê?!

— Explosão de Leão Menor!

Ele socou aquela gigantesca esfera de foco na direção de Apep que, ainda que tentasse esquivar, seria engolida pelo tamanho daquele fogo devorador. Feito um cometa de fogo, ele cruzou a câmara e atingiu a guerreira em cheio. Ao invés de atingí-la e espalhar-se por todo lado, o fogo todo consumiu o corpo belo e terrível de Apep, que ainda gritava de maneira excruciante no meio das chamas.

Tamanha foi a força que finalmente ela explodiu, sua armadura de ouro foi toda despedaçada e o corpo nu da guerreira de Apep caiu, finalmente morto.

Ban ainda arfava quando tudo silenciou. Ao final de sua técnica, as chamas, como se tivessem vida própria, voltaram para as tochas ao redor da câmara, iluminando tudo de volta. Ele teria caído, vencido pela estafa, não fosse Nachi segurar seu grande corpo, evitando chegar ao chão.

— Opa. Nada disso, grandão. Precisamos seguir.

— Nachi…

— É isso aí. Atena nos espera.

— Nachi, seu braço… — comentou Ban, reparando que Nachi tinha um dos braços inutilizado.

— Você também não tá muito melhor, não é?

Nachi reparou que segurar aquela esfera monumental de fogo teve seu custo, a mão de Ban estava completamente queimada e também fora de qualquer combate. Os dois sorriram e cumprimentaram-se com a mão boa.

— Vamos.

E foram.

Notas finais
Próximo Capítulo: Capítulo 5 — A Terrível Batalha Entre Fênix e Benu