Saint Seiya: O Vazio do Submundo / Parte 2
5 A Terrível Batalha Entre Fênix e Benu
Ele cai, ele se levanta.
Jabu vê que o guerreiro adiante tem uma armadura de ouro facilmente remetida à figura de um cachorro; seu elmo, principalmente. Mas seu primeiro golpe contra o oponente já avariou uma parte daquela armadura dourada que ficou no chão quando este levantou.
— He, eu sugiro que desista, você não tem qualquer chance contra mim. Veja só o estado de sua armadura.
O homem não responde nada. Há um silêncio breve na câmara, logo cortado pelo latido frenético dos cães, que pulam da escuridão do lugar para atacar o Cavaleiro de Unicórnio; são cachorros absolutamente horrendos, magros e odiosos. Jabu esquiva-se dos primeiros cães, mas esses são animais ferozes que atacam em bando e, ao mesmo tempo, sem medo algum de abocanhar o punho sônico de Jabu. Então, se ele derruba um, há pelo menos dois outros pendurados no seu braço, mordendo-lhe a carne desprotegida da armadura.
Ele chacoalha para que caiam, mas ainda que sua cosmo energia seja o suficiente para derrubá-los, o ataque repentino colocou Jabu em distração e com várias mordidas pelo corpo. Ocupado com os cães, ele é surpreendido por uma investida surpresa do guerreiro dourado: o homem pula em seu pescoço e joga-o para longe usando o momento a seu favor. Jabu voa até praticamente a entrada, espatifando-se contra uma pilastra, e os cães vão atrás para cear na carne do Cavaleiro de Unicórnio e mordê-lo até sua morte.
Imediatamente após ter afastado Jabu para longe, o Guerreiro de Ouro desata a correr para o outro lado, alcançando a saída de sua câmara para iniciar a perseguição aos outros dois Cavaleiros de Bronze e Atena. Jabu, por sua vez, finalmente queima o seu cosmo de Unicórnio e faz desabar a matilha toda com uma descarga violenta de eletricidade. Arfando, abocanhado em vários pontos e sangrando, Jabu vai atrás do agressor, mas não o alcança senão já quando ele desce as escadarias.
E ali os dois começam a lutar novamente, presos entre paredes estreitas demais para suas habilidades.
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Duas aves cruzam o céu egípcio e se chocam, lançando labaredas para todos os lados.
A luta entre Ikki e Takelot é absolutamente devastadora pelo nível de poder dos dois guerreiros. Os seus punhos chocam-se no chão, ora suas pernas cruzam-se no ar; Benu consegue desviar do tiro certeiro de Ikki usando suas asas douradas e, não fosse essa habilidade que sua armadura lhe provia, ele estaria agora agonizando sob os efeitos do Golpe Fantasma.
Após uma troca parelha no ar, ambos pousam novamente; um de cada lado, e Kebechet desacordada entre eles.
— O que Anúbis quer com este mundo?
— Nada.
— O quê?
— É isso que você ouviu. Nada.
Ikki fica confuso, pois de uma coisa ele tinha certeza: os Portões do Inferno foram abertos trazendo o trânsito daqueles que morreram para andar entre os vivos nos quatro cantos do Mundo, causando toda sorte de confusão nos povos próximos a esses sítios antigos. E havia algo mais.
— E o que ele pretende com os Portões do Inferno? O que ele pretende com essa movimentação toda? — perguntou Ikki, referindo-se ao enorme exército que movimentava-se do lado de fora.
— Isso não lhe diz respeito.
— Ah, é? Então suponho que eu terei que arrancar a verdade de você à força. — brandiu o dedo na direção de Benu. — Vou entrar no seu cérebro e fazê-lo sofrer de um jeito que você implorará por uma chance de me contar a verdade para que eu faça parar o terror em sua mente! — ameaçou a Fênix.
Mas aquilo não pareceu balançar a ave egípcia.
— Tente.
E Ikki urrou e voou rente ao chão pra cima de Takelot com um punho de fogo tão poderoso que a Benu, muito confiante de si mesma, pensou que poderia pará-lo somente guardando o chão e segurando o fogo de Ikki. Quando finalmente julgou que aquilo seria impossível pelo tamanho de força que Ikki representava, ele teve pouco tempo para esquivar; tentou desviar da fúria que lhe vinha adiante, acabou varado pelo punho de fogo que o levou aos céus. No ar, Ikki o acertou com uma joelhada no baço e fez com o cotovelo que o pássaro dourado caísse novamente ao lado de Kebechet, abrindo uma cratera menor no chão.
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Jabu e o homem de Armadura de Ouro avariada continuavam lutando nas escadas espirais que levavam da sua Câmara à próxima, em que Atena, Ichi e Geki já deveriam estar chegando. Jabu não sabia da extensão daquela descida.
Ora Jabu recuava subindo alguns degraus, ora ele fazia o homem descer outros mais; trocavam também de lado, uma vez que estar acima dava a quem estivesse ali uma ligeira vantagem sobre o outro. De todo modo, era um lugar estreito para uma luta entre duas forças sobre-humanas como eram ambos, portanto, em um primeiro momento, os dois quebravam grande parte dos degraus, das paredes e do teto, incapazes de controlarem seus poderes em um ambiente tão confinado.
— Esse não é exatamente o lugar mais apropriado para lutarmos.
— É você quem quer lutar.
Jabu surpreendeu-se com a resposta dele. Era verdade que, naquela batalha, o guerreiro cuja armadura lembrava a de um cão mais parecia preocupado em defender-se (e levar a luta cada vez mais para baixo, cada vez mais próximo da saída, o seu real objetivo). Notando a hesitação de Jabu e para confirmar o que ele pensava, o guerreiro dourado desatou a pular e a descer os degraus da escada novamente. Sentindo Atena em perigo, Jabu foi atrás dele, odiando-se pelo segundo que deu ao seu inimigo.
A escada descia em espiral larga e mais aberta e, julgando ser mais rápido, Jabu correu pelas paredes, e assim que avistou seu oponente descendo os degraus, um feixe azulado saiu de seu punho obrigando o homem a virar-se e defender-se de sua investida; foi o suficiente para Jabu saltar da parede e atingí-lo com uma joelhada na cara, arremessando-o ainda mais abaixo.
Jabu aterrissou e ameaçou começar correr até o homem, mas foi surpreendido por uma luz branca que subiu atravessando-o sem lhe causar qualquer dano. Antes disso, ainda discerniu a voz do homem profunda e calma, de longe:
— Descanse em Paz.
O Cavaleiro de Unicórnio, que antes perseguia o guerreiro de ouro com os dentes rilhando e uma vontade inabalável, simplesmente parou onde estava, olhando adiante como se a sua mente houvesse esvaziado. Sua respiração cessou, a posição de guarda em que estava foi desfeita; seu punho, antes armado, caiu ao lado do quadril, e o soco se desfez. Não demorou muito para que ele mesmo simplesmente caísse sentado no degrau acima. Sua cabeça pendeu para baixo como se acometido de imensa tristeza.
Ele simplesmente parou.
Subiu o guerreiro de ouro e seus passos foram ouvidos no silêncio que a escadaria foi jogada; veio ele lentamente e parou degraus abaixo de Jabu, de modo que ele, de pé, estava na altura dos olhos do Cavaleiro de Unicórnio, que no entanto não o encaravam de volta.
— Dizem que o chacal dourado representava a depressão, a tristeza e a solidão em algumas partes de Canaã. — menciona ele. — Essa técnica lhe deixará em um estado em que não sentirá vontade de fazer nada a não ser sumir da existência, encostar nessa escada e esperar a vida passar. Não é eterno, como pode imaginar, mas… — ele levantou o rosto de Jabu para que pudesse olhá-lo nos olhos. — Eu não quero ter que matá-lo. Você é um exímio guerreiro, não vejo necessidade para isso. Mas essa é a minha missão; eu não posso simplesmente deixar que passem pela minha câmara e, mais importante que isso, eu não posso deixar que ninguém, que dirá uma Deusa como Atena, chegue até a Câmara dos Mortos.
Ele ensaiou começar a descer e falou já de costas.
— Espero que entenda. — e talvez tenha falado mais para si do que para qualquer outra pessoa. — Talvez eu tenha até mesmo que matar, se precisar, para que não cheguem.
Jabu reagiu à ideia de Atena morrer, mas foi apenas um tremelique involuntário, como se um frio lhe subisse a espinha. Mas de resto, Jabu sentia-se não incapaz, mas sem a menor vontade de, inclusive, levantar-se. Sua voz, no entanto, falou tremida.
— Espere.
O homem parou.
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Geki, Ichi e Atena finalmente terminaram a longa escadaria que separava a Câmara dos Chacais para a próxima; era tão longa que eles chegaram ao final das escadarias sem ter ideia de que uma luta já começava a se desenrolar no topo da escada.
Essa câmara era absolutamente a mais alta até então e também carregava um aspecto muito mais natural e cavernosa do que as outras, que eram muito corretamente bem acabadas. Muito das paredes ainda eram a própria pedra da terra abaixo da pirâmide; havia muita areia espalhada por todo o lugar. À esquerda, um enorme muro de tijolos claros levantava-se imponente e iluminado por archotes acima de seu cimo; uma grande pintura rupestre, exatamente ao estilo do Egito Antigo, mostrava a figura de uma enorme balança nivelada, a figura de um chacal abaixo dela e diversos sacerdotes acima vestindo branco.
A saída era uma grande passagem ao final de um corredor, iluminada de laranja pelo que quer que queimava nos andares abaixo. Lá, uma figura dourada já os esperava. Ele caminhou na direção dos três que estacaram, inclusive Atena.
— Esse cosmo…
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Jabu se levantou e olhou para ele; seu semblante era absolutamente sereno, pacífico, beirando a tristeza.
— Não posso deixar que mate Atena. — lamentou-se ele, lentamente.
— E, no entanto, não pode também evitar.
Ele começa a descer os degraus muito lentamente.
— O que está fazendo? — espanta-se o homem de ouro.
— Não posso deixar que mate a Saori. — diz Jabu, lentamente.
— O que está fazendo?! Eu posso ver nos seus olhos que não há qualquer vontade de lutar. Porque persiste? Porque continua tentando mesmo assim?
— Me ajude…
— Eu já disse…
Jabu desce mais degraus e o homem recua, nunca havia visto aquilo.
— O quê é isso? Porque insiste tanto? Eu tirei qualquer vontade que tinha de lutar, qualquer raiva, ira. Nada sobrou em você; um homem precisa ser muito desalmado e frio para, mesmo assim, ter sede de sangue.
— Não quero lutar. Eu quero simplesmente parar. Se possível deitar. E ficar. — dizia a voz de Jabu, quase irreconhecível e quase sem sentido, como se aquela desolação que tomava conta de seu corpo fizesse tremer até mesmo as palavras de sua boca, quase tirando o sentido do que ele falava. — Você pode me tirar a raiva, a vontade, o fogo nos meus olhos; mas não vai conseguir tirar de mim o quanto eu preciso, e eu sei que preciso, proteger a Saori.
— Quem?
E ele continua descendo, agora seu cosmo está alto e forte, iluminando a escadaria. Ele ataca o Guerreiro, que desvia.
— Vai lutar sem ter a menor vontade? Que tipo de homem é você?
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Takelot foi arremessado no meio do pátio da galeria. Ikki caminha até seu oponente perdido dentro da terra quando é surpreendido por três esferas gigantescas de fogo que se materializam a partir da cratera para cercá-lo no céu do Egito. As esferas o rodeiam trocando labaredas de fogo entre si; Ikki dá dois passos para trás e é nesse momento que é surpreendido pela ave dourada, que ascende da cratera feito um cometa, desferindo um gancho poderosíssimo no queixo de Ikki, rasgando-o de fogo por completo.
— Explosão da Coroa Solar! — vibra a voz gutural do homem.
Ikki é arremessado com violência para o ar; em seguida, vê-se tomado pela explosão orquestrada das três esferas de fogo do céu liberando uma avalanche de fogo que o cobre por completo. Aquilo o transformaria em cinzas, mas é justamente de cinzas que a Fênix é feita, e talvez essa não tenha sido a estratégia mais esperta por Benu, ou talvez ele não soubesse disso. A Fênix é ardilosa no fogo e a enorme tempestade que o céu se transformou simplesmente revoluteou feito ondas gigantescas de um tsunami de lava e finalmente assumiu a forma de uma gigantesca fênix desenhada no céu egípcio. Seu grito lancinante ecoou nas paredes da pirâmide e a silhueta de um homem apareceu no fogo batendo as asas; era o vôo imortal do homem cujos olhos estava completamente gravado em chamas de ódio. Sua voz retumbou no lugar todo e a fênix reagiu com violência.
— Ave Fênix!!!
Dos punhos de Ikki, um impacto monumental atingiu Takelot no chão, levantando-o e cobrindo-o daquela enorme manifestação de fogo; a técnica simplesmente obliterou a galeria de entrada da pirâmide por completo.
Sobrou de um lado apenas o corpo de Ikki ajoelhado e de outro o de Takelot deitado em cima do corpo de Kebechet. Protegendo-a.
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Jabu já não sabia que tipo de homem ele era, perdido em imensa desvontade de viver, em sua imensa tristeza.
Enquanto não sabia se definir, ele desatou a lutar; e a batalha reinicia na escadaria cada vez mais afundando-se nos degraus e descendo adiante. O Guerreiro de Ouro não está atento, tamanho seu choque em notar que Jabu persiste em lutar mesmo que seu corpo inteiro, seus olhos, mesmo seu cosmo diga algo completamente contrário; justamente por isso, o Guerreiro de Ouro começa a ser surpreendido por ele. É quase como lutar com alguém que você simplesmente não consegue ler, não consegue compreender, nada faz sentido para ele.
O tamanho de vontade, o tamanho de persistência, o tamanho do senso de dever de um homem deve ser maior do que sua própria natureza para que ele aja passando por cima do que ele quer para si próprio, e nesse caso, apenas deitar e morrer, pois é exatamente assim que a solidão depressiva acomete o corpo humano. E aquele Guerreiro de Ouro sabia muito bem disso. É verdade que, assim como ele alertara Jabu antes, o efeito não era eterno, pois o seu próprio cosmo não era assim magnânimo, ele precisaria ser um Deus para imputar semelhante efeito longevo. Mas tampouco Jabu estava livre de sua técnica; não, era muito pior e mais incomodante: ele continuava lutando. Sem querer.
Perdido no que aquilo poderia significar, o Guerreiro de Ouro, desatento, ainda teve uma terrível sorte, pois acabou pisando em falso em um degrau quebrado, levando-o a desequilibrar-se de modo tolo. Foi o suficiente para Jabu pular, apoiar-se na lateral da escada com a enorme figura do Unicórnio atrás de si e a sua perna descer como um raio dos céus no peito dele.
A violência do impacto, o desequilíbrio, o despreparo para lutar contra alguém assim fez com que ele estivesse completamente desguardado e o chute de Jabu estourasse o gorjal de ouro e grande parte daquela armadura, e o arremessasse muitos, mas muitos degraus adiante; não próximo da saída, nem próximo de Jabu.
A figura desolada de Jabu continua de pé, tremendo, como se fizesse um imenso esforço para simplesmente não cair em desolamento. Dali, ele escuta o homem agonizando. E então ele começa a descer a muito custo os degraus até aquele homem, o sangue se espalha pela escada enquanto ele desce, aumentando de quantidade.
Ao fazer a curva, percebe o corpo estatelado e sangrando de seu oponente, encostado na parede interna da parede. Muito sangue verte de seu corpo avariado. Ele ainda vive seus últimos suspiros.
— Você luta… incrivelmente bem. — tentou ele. — Seu senso de dever é… incomparável. Estou admirado. — tossiu sangue para o lado. — Qu… Quem é você? — perguntou o homem. — Seu… nome…
Jabu refletiu sobre a pergunta e sentou no último degrau olhando para o homem agonizando, de forma que passou por sua cabeça o que havia acabado de fazer, sobre como havia sido capaz de lutar e matar um homem absolutamente contra sua vontade. É verdade que nunca fora sua vontade matar alguém, ele bem sabia disso, mas naquele momento, nem de lutar ele tinha vontade. Era diferente. Embora de profunda tristeza, ele não podia negar que a técnica daquele homem era de uma paz que talvez ele nunca havia sentido e talvez jamais sentiria novamente. Pois ele sempre vivera uma vida de dever e débito para com a senhorita Saori. E era um sentimento horrível ter ocupado essa paz com aquele derramamento de sangue. Pensou que melhor seria ter-se afundado na tristeza.
— Jabu de Unicórnio. — respondeu ele, frêmito, mas quando a resposta saiu de sua boca, o homem já havia morrido. E o gigantesco agradecimento que Jabu sentiu que deveria àquele guerreiro, ele sentiu-se dolorido por saber que jamais poderia cumprí-lo, tampouco saber seu nome.
Era Ramsés de Chacal.
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Quando Ikki pôs-se de pé, no entanto, ele foi crucificado. Por chamas negras.
Takelot estava ajoelhado; um braço no estômago, de onde um sangue escapava por entre as placas douradas, e o outro esticado na direção de Ikki. Seu corpo todo tremia.
— Não fosse a minha armadura… eu estava morto. Quem é você que tem um poder que pode chegar ao nível de um Sacerdote de Anúbis?!
Ikki, embora crucificado, ainda consegue falar.
— Sou seu pior pesadelo.
— Está preso pela crucificação Ankh e ainda assim sua língua continua solta, não é?
Takelot solta uma esfera de fogo que atravessa o corpo de Ikki, fazendo-o sofrer com as queimaduras; ele está avariado pela terrível luta contra Takelot e também preso de maneira que, ainda que tente, seu cosmo não parece suficiente naquele estado para desvencilhar daquelas algemas cósmicas.
— Você vai morrer, Sacerdote de Anúbis. Eu não sei como, mas eu vou sair daqui, e vou fazer você arder no fogo do Inferno, seu demônio!
O Benu Dourado ponderou sobre aquela ameaça e deixou cair seu braço; Ikki continuou crucificado, de costas para ele em uma cruz negra. O homem virou-se para Kebechet que, com a insanidade e a potência daquela batalha, já voltava a si, arfando e suando. Takelot pegou-a nos braços, ajoelhado, e viu perfeitamente que era como se sua sanidade fosse aos poucos voltando ao seu corpo. Na verdade parecia mesmo que o corpo inerte fosse aos poucos retornando à vida: primeiro a respiração mais forte, os olhos fechados começaram a revirar-se por debaixo das pálpebras, ela começou a mover o corpo todo até que finalmente acordou sobressaltada e de olhos abertos.
Gritou em desespero, como se acordando do maior pesadelo do qual poderia ver-se vítima. Ela gritava a plenos pulmões.
— Het! Het!
Seu grito era fino e desesperado.
— Keb. Keb! Sou eu, Tak! Takelot! Olhe para mim. Olhe pra mim!
Ela aos poucos recobrou a condição mais normal.
— Ah, Takelot. Eles, eles…
— Eu sei… Respire fundo. Você precisa seguir adiante, precisa ajudar sua Mãe.
Ela finalmente nota o corpo crucificado e, ainda que estivesse virado, queimado, ela reconheceria o causador de sua tormenta mental de toda maneira. Imediatamente, Takelot percebeu a ira tomar conta dos olhos da garota.
— Não! — bradou ele e segurou-a firme. — Eu irei cuidar dele. Você vá atrás de sua mãe!
Kebechet ensaiou uma resistência, mas foi contida pelo homem, que ainda sangrava.
— Ei. Ei! Ele vai para o Mundo dos Mortos. Você confia em mim, não é? Sabe que ninguém pode me vencer.
— Takelot…
— Eu prometo. — disse ele. — Agora vá. Sua mãe vai precisar de você.
E foi ele quem quebrou o abraço que a restrição havia se tornado. Ela afastou-se dele e correu na direção da entrada da pirâmide sem nem ao menos olhar para o corpo de Ikki crucificado, embora quisesse mesmo era cobrir-lhe de porrada. Ela entrou, finalmente.
Takelot levantou-se e caminhou até para onde pudesse encarar Ikki, que não se debatia mais naquela cruz.
— Como se sente fazendo uma promessa que não poderá cumprir?
— O que disse, seu maldito?! — o cosmo de Takelot levantou-se com força e ele atravessou a cruz com seu punho de fogo, torturando Ikki. E voltou novamente, trazendo ainda mais dor à Fênix.
Encarou-o.
— Vou acabar com sua miséria. A lendária… não, não, a Ave Fênix Imortal vai ser morta pela Garça Real do Egito.
Seu cosmo então levantou-se com fúria naquela galeria, seu corpo ainda vertendo sangue, mas sua mente decidida a acabar com a vida de Ikki. E seu cosmo iluminou de estrelas o firmamento, a figura da garça voou do infinito para suas costas e um grande fogo destruidor pintou-se no céu ao seu comando. Sua voz bradou no Egito todo:
— A Explosão da Coroa Solar!
O fogo todo pintado no horizonte convergiu para uma gigantesca esfera flamejante, que navegou violenta pelo ar para atingir a cruz que mantinha Ikki cativo. Era o seu fim.
Mas então foi detida no último momento por uma enorme explosão dourada que manifestou-se exatamente à frente do Cavaleiro de Fênix; ele reconhecia aquele tom, aquele sino da esperança, aquele chamado, sobretudo aquele cosmo de ouro.
— Ah… A Armadura… de Ouro!
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