Saint Seiya: O Vazio do Submundo / Parte 2
2 O Começo de Um Novo Conflito
Shaina e Marin estavam ajoelhadas diante de Atena no Décimo Terceiro Salão do Santuário; ela, sentada em um banco lateral dos aposentos do salão que ficava além do trono do Grande Mestre.
— Marin? — perguntou brevemente Atena.
— Jabu e os Cavaleiros de Bronze cuidaram dos Portões mais graves; Lyfia e os Guerreiros Deuses trancaram todos os Portões do Norte.
— E as meninas?
— Elas cuidaram da América e da África. Mas, desde que você desceu ao Inferno, não tivemos mais nenhuma grande ocorrência.
Atena mudou sua atenção para Shaina.
— Como estão Shiryu e Hyoga?
— Eles já são guerreiros formidáveis, Atena; mas ainda vêem dificuldade em ver que você é uma Deusa. E, portanto, querem sempre estar ao seu lado para protegê-la. As Armaduras de Ouro ainda não os escolheram como seus legítimos donos.
Ela ficou pensativa, levantou-se de seu banco e andou até o centro do cômodo; tanto Shaina como Marin levantaram-se e olharam para ela, para as costas de Saori.
— Nós precisamos que o Santuário fique protegido.
Shaina compreendia, Marin também. Ela fez um silêncio e sua voz pareceu vacilar como há tempos não vacilava.
— Alguma notícia de Seiya?
Marin deu um passo adiante, pois ela era quem mantinha contato com o Japão; Shaina também aprumou-se para ouvir com atenção tudo que podia.
— Não. Ele continua catatônico desde a batalha contra Hades. — o nome feriu o coração de Saori, que sentiu um gelo lhe comer o peito. — Seika, por outro lado, recuperou completamente sua memória graças ao contato com o irmão. Pelo menos é o que ela disse a todos. Shun continua vigiando o amigo e cuidando dos dois.
Atena cabeceou de leve e Shaina respirou mais aliviada, olhando para o lado com medo de ser descoberta, como se precisasse esconder algo de Marin; como se ela já não soubesse do que Shaina sentia. Tentando desanuviar sua mente, foi Shaina quem continuou a conversa entre as três:
— Sinto que não foi por isso que nos chamou, Atena.
— Não. — concordou ela, virando-se para as duas. Olhou duro para ambas: — A Rainha do Submundo foi raptada novamente.
— O quê!? — assombraram-se elas.
— Enquanto eu estive no Inferno, fomos capazes de conter as investidas daquele que está por trás de tudo isso. Mas, assim que eu pisei fora do Submundo, ele agiu. Mais rápido do que eu previa. Não há dúvidas de que ela não comanda mais o Submundo de Hades.
— Mas não tivemos qualquer movimentação no Mundo dos Vivos. — disse Shaina.
— A não ser…
— Marin? — perguntou Shaina, virando-se para a amiga.
— Sim. Shoko e as garotas comentaram sobre uma estranha movimentação no Alto Egito.
— No Egito!? — assombrou-se Shaina.
— Não era exatamente um Portão do Inferno, mas havia uma certa comoção ao redor desse lugar, muitos egípcios peregrinavam para lá.
— Faz sentido… — ponderou Atena, ao que fizeram silêncio as duas, observando como Atena parecia resoluta — Está na hora de fazer aquilo que eu deveria ter feito durante todo esse tempo. — anunciou ela para desespero de Shaina.
— Vai novamente voltar ao Inferno, Atena?
— Não há outra alternativa. — respondeu ela, ao que Marin continuou:
— Os Portões do Inferno estão todos destruídos. O Caminho que a senhora utilizou também foi trancado assim que você desceu ao Submundo pela última vez e trancou todas as passagens para o Mundo dos Vivos. A única forma de ir ao Submundo é…
A Morte.
Suaram frio Marin e Shaina.
— Não pretendo morrer. — anunciou Atena, para alívio das duas. — Irei ao Egito; se ainda há um caminho para o Mundo dos Mortos, com certeza está lá. Peça para os Cavaleiros que me acompanhem.
— Shiryu e Hyoga ficarão… — Atena interrompeu.
— Não. Falo de Jabu, Nachi, Ichi, Geki e Ban.
Marin assentiu, Shaina compreendeu. A conversa morreu.
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Atena cravou o báculo na areia fina do Egito. Atrás dela, emergiram com suas Armaduras de Bronze muito danificadas os seus guerreiros protetores: Jabu de Unicórnio, Ichi de Hidra, Nachi de Lobo, Ban de Leão Menor e Geki de Urso.
Juntos eles marcharam pelo deserto até uma grande elevação onde muitos homens e mulheres também seguiam em procissão; muitas linhas serpenteavam ao longe, todas convergindo no mesmo destino. Uma grande pirâmide no horizonte.
Embora pudessem vê-la ao longe, os Guerreiros de Atena e sua Deusa precisaram atravessar um vale suspeito para acessar a planície desértica que antecedia a grande entrada principal; a estrada rudimentar fazia uma leve descida para o coração do vale, em que levantavam-se pedras antiquíssimas dos dois lados, uma curva acentuada fazia-se para cá e para lá, e só então levantava-se para a planície arenosa da grande pirâmide.
Foi justamente no ponto mais baixo do vale que foram interceptados por um homem que não fazia qualquer questão de esconder sua luzente armadura dourada; ele não estava abaixo no vale, mas de pé no ponto alto dele.
— Sejam bem vindos a Cinópolis.
Por um momento, Atena e os Cavaleiros pararam. A Deusa inclusive notou como Jabu estava a um instante de armar sua ofensiva, mas ela fez um gesto com as mãos para que se contivesse. Ele, a muito custo, obedeceu.
Atena apenas acenou em resposta ao guerreiro dourado acima do vale, e retornou sua marcha sem olhar para trás. Ichi ainda ficou olhando a figura dourada sumir enquanto faziam a curva, quase para se certificar de que nada aconteceria. E não aconteceu enquanto Ichi o tinha preso nos olhos. Foi quando ele virou para frente que ouviu um zunido forte no ar.
— E recebam um presente do Egito! — gritou a voz de longe.
Uma longa lança dourada varou o ar e atravessou o vale, passando pelos cinco Cavaleiros de Bronze e viajando feito uma bala para varar o crânio de Saori. Somente para estacar imóvel a centímetros do cabelo dela que, de costas, nem viu a cor da lança. O báculo brilhou levemente, a lança tamborilou no ar e, lenta e mortalmente, virou-se para seu atacante. Retornou com igual força, fazendo uma curva impossível e fincou na pedra logo abaixo de onde o homem estava; ele amedrontou-se ao ver a profundidade que sua lança entrara na pedra e sumiu dali.
Estavam todos atônitos.
Atena não. Atena seguiu caminho.
Um a um, deixaram de olhar a lança no alto da pedra e foram atrás de sua Deusa.
Finalmente emergiram do vale para uma grande planície de areia, para onde todas as filas e filas de homens e mulheres convergiam para, finalmente, tornarem-se uma multidão única e que caminhava junta e lentamente para a lateral leste daquela pirâmide. Não caminhavam decididos para a entrada da pirâmide, não, mas para a direita dela, onde havia, no deserto adiante, um grande contingente de pessoas.
Atena e seus cavaleiros romperam sem correria em direção certa da entrada daquele monumento; ela estava calma, mas Jabu e os demais estavam absolutamente tensos enquanto passavam por toda aquela gente, em alerta para qualquer ataque que pudessem sofrer no meio da multidão. Mas, então, todos irromperam adiante da primeira linha dos povos e puderam ver, claramente, a entrada da pirâmide.
Antes dela, uma grande rampa levantava-se levemente até um mezanino largo, de onde erguiam-se enfileiradas inúmeras esculturas de reis sustentando a galeria de entrada; todos talhados na pedra clara. Atena seguiu caminho e, como uma soberana em seu vestido branco e báculo de ouro, fez cintilar a luz do sol enquanto subia magnânima aquela rampa, seguida de seus cinco bravos guerreiros. A multidão que se deslocava lentamente para a esquerda chegou a parar para observar aquela mulher entrando onde eles jamais poderiam entrar.
Passada a galeria de reis, eles desembocaram em um grande pátio ao céu aberto; as quatro laterais sustentadas por pilares egípcios e, ao fundo do pátio, sem dúvidas a entrada profunda daquele templo: dos dois lados, sentados na pedra em guarda eterna, a figura de dois chacais. E atrás dos chacais levantava-se uma pirâmide alta, cujo bocal era um portal alto e escuro.
Havia apenas uma figura exatamente no centro do lugar. Uma mulher.
Atena avançou junto a seus guerreiros e foi recepcionada com cordialidade.
— Atena. — disse a voz de moça.
Mais próximo, Jabu reconheceu o mesmo tom de armadura de ouro que já enfrentara antes, também o gorjal de ouro no peitoral, e agora ficava mais clara também uma insígnia cravada no meio dele: um ankh. Estava sem o elmo, que carregava no braço; Jabu suspeitou que fosse por respeito à Saori.
— Sou Kebechet. — disse ela cordialmente. — A que devemos a honra de sua visita?
— Preciso falar com seu Senhor.
— Nosso Senhor não está presente, Atena.
— Leve-me até ele. — tentou Atena novamente.
— Infelizmente isso não é possível.
Ele está no Mundo dos Mortos, Atena sabia bem disso, mas esperava que pudesse contatá-lo em seu próprio Templo. Talvez não possa, ou talvez essa guerreira esteja apenas querendo atrasá-la.
Atena fechou os olhos e seu cosmo inundou o Egito e o mundo todo. Kebechet deu alguns passos para trás; Jabu e os demais sentiram-se reconfortados ao lado de sua Deusa, e todas as pessoas próximas não puderam deixar de sentir um bem estar, mas ao mesmo tempo uma perigosa admiração. Ao reabrir os olhos, Atena sentenciou:
— Há um último Portão do Inferno nesse lugar, não é verdade?
Kebechet hesitou.
— Sim. Isso significa que eu posso falar com seu Senhor se atravessar o Portão, não é mesmo?
— Espero que compreenda, Deusa Atena, que o acesso ao Mundo dos Mortos por este Templo está restrito somente aos filhos do Egito.
Houve um silêncio tenebroso; uma corda tensa esticava-se entre as duas. E a distância passou a diminuir, pois Atena simplesmente voltou a marchar na direção da entrada do Templo. Kebechet recuou um passo e ameaçou:
— Atena, não está em mim virar-me contra um Deus, mas farei o que for preciso para garantir as vontades de meu Senhor.
— E, no entanto, me atacou com uma lança de ouro antes mesmo de chegar aqui. — comentou Atena, dura.
— O quê? — perguntou Kebechet, em clara confusão. — Não, não houve qualquer pedido para que… — mas então ela, sozinha, pareceu compreender o que aconteceu. E a resposta não interessava aos visitantes.
Atena não adicionou mais nada. Ela já tinha a informação que precisava.
E, com isso, continuou caminhando; não com calma, mas a largos passos. Kebechet pôs-se em posição de batalha imediatamente, rangendo os dentes como quem não pode escapar de uma sina da qual não esperava ou queria. Colocou o elmo em claro sinal de combate, mas Jabu pulou adiante de Atena e prostrou-se diante da guerreira de ouro.
— Sou Jabu de Unicórnio. Nem pense em levantar seu punho contra a Deusa Atena! Vai ter que me matar se quiser ao menos tentar.
Ban, Ichi e Geki colocaram-se um de cada lado de Kebechet, também em posição de luta; Nachi compreendeu que deveria acompanhar Atena, e os dois simplesmente circundaram a roda e seguiram adiante.
Kebechet esboçou um meio sorriso.
— Nem pense nisso! — repetiu Jabu. Geki e Ban se aproximaram para evitar que ela tivesse mirada clara para Atena, que já seguia perto da entrada da pirâmide.
— Nós seremos seus oponentes. — disse Ban com dureza.
Ela sorriu novamente.
— Lamento desapontá-los. — a guerreira levantou os braços para o céu e simplesmente se liquefez, reduzindo-se a um líquido dourado que derramou-se contra o chão, sumindo completamente.
— Ela transformou-se em água, como isso é possível?! — anunciou Geki, indo na direção dela.
Próximo da entrada, Nachi viu com clareza como uma poça dourada simplesmente precipitou-se das entranhas da pedra do chão exatamente adiante dele e de Saori; o corpo de Kebechet materializou-se da água dourada secando-a completamente e já a meio-vôo de ataque para cima da Deusa Atena. Seu punho dourado e a força de seu golpe fez o cabelo de Saori levantar-se, empurrado pelo vento; mas foi o braço de Nachi quem parou o soco potente. Sua armadura do braço rachou-se no meio, mas ele usou a outra mão pra segurar Kebechet e lançá-la contras as pilastras da lateral longe deles.
Com um braço quebrado e sangrando, ele ordenou:
— Vão, sigam com Atena, eu cuido dela! — e partiu para próximo de onde o corpo de Kebechet derrubou um dos pilares para evitar que ela sumisse novamente.
Jabu e os demais seguiram para o fundo do pátio e entraram finalmente na pirâmide. Quando Kebechet levantou-se, ela olhou fundo nos olhos de Nachi.
— Sou Nachi de Lobo. E você não vai a lugar nenhum.
A figura do Lobo apareceu no cosmo de Nachi e a aura dourada de Kebechet levantou-se com força por entre as pedras da pilastra destruída.
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Debruçada na sacada da janela da Mansão Kido, June observava o fim de tarde cair no Japão, enquanto Seika levava Seiya por entre as flores do jardim. A Amazona de Camaleão, no entanto, olhava longe do jardim, com a certeza de que o cosmo profundo dos Cavaleiros entravam novamente em conflito.
— Shun. A luta começou. — comentou ela. — De novo.
— Sim. — comentou ele, pensando muito mais do que falava. June olhou abaixo para Seiya e Seika.
— Ele não esboça qualquer reação; ainda que Atena esteja diretamente em batalha, ele ainda continua perdido no seu mundo. — comentou ela com Shun, de certo modo cabisbaixa. Ainda olhando para ele, June encontra-se com o olhar de Seika, que lhe dirige um semblante de pesar. — Ela tem muita força pra ficar perto do irmão, fazendo tudo que ele precisa, completamente alheia aos reais perigos que assolam esse mundo. Às vezes eu chego a invejar, sabia, Shun?
Mas Shun não respondeu.
— Shun? — procurou ela no quarto. Não estava. — Shun? Ah, Shun…
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