Saint Seiya: O Vazio do Submundo / Parte 2
3 A Terrível Força da Vingança
O interior da pirâmide é uma grande e larga câmara onde chão e teto são de pedras bastante polidas, de modo que possam refletir a luz do fogo de tochas que se espalham pelas duas laterais acima de esculturas de um homem alto cuja cabeça era, na verdade, a de um cão de orelhas pontudas, o chacal. Em seus braços, as tochas pegavam fogo e iluminavam o local por completo.
Entraram Atena e seus Cavaleiros; primeiro eles, que correram adiante da Deusa para terem certeza de que nada a atingisse antes deles. Cada um de um lado observando as sombras da câmara que, embora as muitas tochas espalhadas, era notoriamente mais escura que a tarde alta do Egito. Preocupados tão somente para terem certeza de que nenhum perigo os esperava. E com certeza havia.
Era um Guerreiro de Ouro. Ou melhor: uma guerreira, mas não Kebechet que já lutava na galeria. Uma outra mulher; negra, de tom mais profundo do que de Kebechet, absolutamente careca, de olhos branquíssimos, grandes e delineados em ouro. Sua armadura dourada desenhava-se sinuosa e em diversas camadas; de tudo, destacava-se a cabeça de uma serpente no ombro direito e um escudo oblongo no formato do pescoço expandido de uma cobra-capelo no braço esquerdo. Também dela esvoaçava levemente o tecido branco que preenchia o vazio de sua armadura; uma brisa impossível subia de uma grande saída no fundo daquela câmara, absolutamente escura. Em seu gorjal dourado também inscrevia-se uma ankh, o símbolo da vida eterna.
Ban foi o primeiro a ver e o primeiro a colocar-se adiante de todos.
— Eu ficarei para enfrentá-la. Sigam junto de Atena.
— O que significa isso? — perguntou ela, notando a posição de ataque de Ban. — Ninguém passará por aqui!
— Eu serei seu oponente; eu, Ban de Leão Menor!
— Então você será o primeiro cadáver, idiota! — ralhou ela de volta.
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O corpo de Nachi foi arremessado contra uma das pilastras; Kebechet pousou no lado contrário e olhou para seu oponente de forma penetrante.
— Não pode fazer nada com esse braço quebrado, garoto. Desista!
E virou-se correndo já para a entrada da pirâmide a fim de alcançar Atena e impedir que ela seguisse templo adentro. Nachi levantou-se dos escombros sem muitos problemas e saltou imediatamente a frente dela, ensaiando um soco potente com seu braço bom; o outro pendurado, inútil, causando-lhe imensa dor. No entanto, Nachi apenas socou o líquido que Kebechet havia se transformado, desviando por completo daquela investida e passando por ele como se nada fosse; quando Nachi olhou para trás novamente, a forma de Kebechet reapareceu e já ia entrando na pirâmide.
— Droga!
Queimou seu cosmo de Lobo e proferiu sua técnica voadora com o braço que lhe restava:
— Uivo Mortal!
A técnica cortou o ar com violência e Kebechet não se deu nem ao trabalho de virar-se para ele em evasiva, apenas se liquefez novamente para escapar, mas não contava que a técnica atingisse completamente a área que ela estava (líquida ou não), portanto o ar cortante revoluteou o líquido com violência, tanta violência que Kebechet metamorfoseou-se imediatamente de volta para a guerreira dourada e foi lançada ao ar pela técnica de Nachi. Caiu perdendo seu elmo que rolou pedra adiante.
— Não fuja! A luta ainda não acabou. Vou terminar com você da mesma forma que terminei com seus amigos na Turquia. — e Nachi ascendeu seu cosmo ameaçadoramente.
Kebechet sentiu uma pontada de ira profunda nos olhos e levantou-se respirando forte.
— O que você disse? Você estava na Turquia?
— Sim, e lá enfrentamos dois guerreiros egípcios, e os dois morreram por estarem protegendo o Portão do Inferno. Desista aqui e agora de seguir Atena ou serei obrigado a mandar você para o mesmo lugar!
— Você…
Lembrou-se de Hetepheres.
Lembrou-se de seu sorriso antes de partir.
Lembrou-se da flor que ele lhe dera.
E como prometera que voltaria.
Não voltou, e Nachi era o culpado.
Kebechet ascendeu também seu cosmo, de matiz branca, estalando o ar ao redor e trazendo o universo atrás de si.
Urrando de raiva, ela partiu pra cima de Nachi, decidida a matá-lo; chegando muito próximo dele, ela repartiu-se como a água do Nilo e Nachi pode sentir que todo seu corpo era atingido por punhos invisíveis, e ainda assim poderosíssimos. Ele não tinha como esquivar, a água tomava conta do seu corpo e o atingia por todos os lados; sua armadura, inclusive, quebrou em mais pontos.
A água finalmente desvencilhou-se de Nachi e transformou-se no corpo de Kebechet, que virou no ar e desferiu uma incrível voadora no rosto do Lobo. Ele voou para quebrar mais pilares.
— Vai pagar! Vai ter que pagar! — e novamente foi Kebechet para cima do Cavaleiro de Lobo.
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Ban jogou-se como uma rocha incandescente na direção da Guerreira de Ouro; ela saltou para não ser atingida pela técnica de Ban, e essa foi a janela que Atena precisava para correr junto de seus guerreiros, seguindo adiante para a saída mórbida de onde subia uma brisa que não deveria existir. Uma rajada de fogo ainda cruzou o salão vinda da guerreira, mas Ban desviou ela para o teto do lugar, abrindo um buraco por onde entrou a luz do sol.
— Já disse que terá que lutar comigo.
A mulher fez uma pose imitando uma cobra e retrucou, apresentando-se:
— Então morra nas mãos de Apep, seu verme!
Saltou até Ban e os dois trocaram um soco certeiro que chocou-se perfeitamente no meio da arena, criando uma esfera de fogo. Ela expandiu-se com violência e rapidez pela câmara até dissipar-se no ar, deixando alguns pilares e alguns cantos irregulares do chão em chamas. Encararam-se brevemente, certamente ponderando que o destino havia posto ambos para lutarem, cujo elemento fundamental era o mesmo: o fogo.
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Kebechet estava montada no tronco de Nachi, socando seu rosto sem piedade; guardava no rosto uma face irascível. Nachi ainda tentava interromper a surra com os braços, mas vários punhos escapavam, encontrando seu rosto que já inchava-se de tanta porrada; ele deu uma joelhada forte nas costas da guerreira, que cuspiu sangue em cima dele. Foi o momento que ele teve para dar uma cotovelada em seu rosto rosto e jogá-la para o lado. Ele mesmo cuspiu sangue e levantou-se cambaleando; ela, mais graciosa, pôs-se de pé também.
Ele estava muito mais ferido, o braço quebrado fazia diferença, e nesse cenário de desvantagem em que ele se encontrava ele sabia perfeitamente que se Kebechet quisesse seguir adiante para a entrada do Templo, ela poderia. Algo a segurava ali e a fúria naqueles olhos fez Nachi compreender que se tratava de vingança. Ele tinha um ponto fraco: seu braço, mas ela havia acabado de lhe revelar o seu: a sede por vingança.
Ela se liquidez novamente, com certeza pronta para atacá-lo de algum lugar, mas Nachi foi inteligente: saltou, e usando seu braço bom concentrou todo seu cosmo e soltou uma grande armada de foices aérea; sua voz ecoou no local, ainda que nem pudesse, talvez reverberando no cosmo do universo.
— Uivo Mortal!
O líquido grosso, que era na verdade o corpo de Kebechet, foi totalmente envolto pelo turbilhão afiado do golpe de Nachi. Tal era a violência que ele depositou naquele golpe, como se fosse uma rara chance de ser vencedor, que o líquido foi sugado dos grandes blocos de pedra, no qual parecia tentar se esconder; rompeu, quebrou, levantou blocos de pedra e o líquido simplesmente pareceu ser agitado violentamente, até que ele por completo juntou-se numa única massa antes de materializar-se no corpo de Kebechet, que gritava de dor. Ela foi arremessada para o alto e caiu, quebrando partes de sua armadura dourada novamente.
Nachi aterrissou do outro lado confiante. Respirou fundo.
Lentamente, no entanto, Kebechet lutava para levantar-se novamente. Seu cosmo branco apareceu ao redor de seu corpo, e crescia mais e mais. A duras penas ela conseguiu pôr-se de pé, de tal modo seu cosmo estava forte que a luz era forte o suficiente para esconder seu rosto nas próprias sombras dos cabelos.
E foi assim que Kebechet levantou-se novamente com um cosmo que Nachi não podia acreditar ser possível.
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A Guerreira de Apep caminha com tranquilidade pelo salão, seu cosmo apaga-se como se houvesse acabado de usá-lo com tudo; o corpo de Ban cai estatelado com parte da armadura desmontando e sua roupa de baixo completamente dilacerada, sangue pelo corpo, marcas de queimaduras. Ele ainda tenta levantar-se; Apep pisa na sua cabeça com seu salto.
— Não era você que queria lutar? Talvez não tenha considerado a possibilidade de morrer, não é, moleque? Não pense que não vou acabar com seu corpo, queimá-lo por completo e dar de comer aos cães apenas porque é um moleque.
E pisou mais forte, Ban chegou a achar que seu crânio racharia no meio.
— Não. Assim é muito fácil. — ela chuta o rosto de Ban e ele rola para o lado. — Levante-se e lute! — ordenou ela.
Não houve uma resposta imediata; na verdade Ban estava muito ferido, e mesmo assim tentava fazer seu cosmo vacilante aparecer e levantar como Cavaleiro que era. Inquieta, a mulher foi até ele e ajudou-o a se levantar. Ele era muito maior do que ela, tanto de altura como de largura, mas isso não fazia qualquer diferença, e logo que ele estava novamente de pé, ela deu uma voadora no rosto de Ban e ele foi aterrizar mais atrás ainda. Ela foi novamente até ele e fez com que se levantasse, ajudando-o.
Recuou.
— Vamos!
Ban queimou seu cosmo, sentindo-se humilhado, e repetiu para si mesmo ofegante:
— Vou… acabar… com você.
E foi adiante tentando acertá-la de todas as maneiras, mas, feito uma víbora ágil, a guerreira de Apep simplesmente desviava de todas as investidas, sem ao menos mover os braços cruzados atrás de si. Punho atrás de punho, voadoras, chutes; tudo que Ban tentava Apep simplesmente esquivava. Cansada daquela brincadeira, ela finalmente girou e deu uma joelhada no rosto de Ban (ainda com os braços cruzados atrás).
— Humpf.
Lembrando-se de seu dever, ela cuspiu no Cavaleiro de Bronze e virou-se para seguir pela saída atrás de Atena.
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Kebechet estava de pé; seu cosmo branco imenso havia roubado a cor do dia e povoado de estrelas cósmicas evocando a força dos mundos. Atrás dela, Nachi pôde ver a figura do guerreiro de ouro múmia que havia enfrentado na Turquia: a imagem era distorcida e originária da força vingativa que emanava do cosmo de Kebechet, tamanha era sua convicção que seu cosmo branco pintou a imagem de seu amante nas estrelas, e mesmo Nachi pôde compreender tudo. Ele deu um passo para trás.
E então decidiu atacar. Correu na direção de uma Kebechet que parecia em transe. Socou e socou, chutou e chutou, nenhum de seus golpes parecia transpor uma barreira invisível de um cosmo que não parava de crescer. Ela finalmente olhou nos olhos do Lobo e ele pôde ver toda a fúria e todo o amor alojados dentro de Kebechet. Sua voz soou rasgada e furiosa:
— Bálsamo de Ouro!
Os dois braços para cima; os pés de Nachi tremeram, pois o chão rachou abaixo dele e dali ele viu jorrar feito um gêiser de líquido dourado, depois outro, e outro, e outro. Sem que pudesse fazer nada, estava rodeado por uma barreira de ouro líquido; que foi fechando no seu corpo com violência até o ponto em que ele viu-se completamente envolvido por uma coluna de ouro líquido, afogando-o em seu interior. Seu próprio corpo deixou o contato com o solo e foi lentamente levantado pela coluna líquida.
— O Bálsamo de Ouro vai primeiro te afogar, e então preencherá seu corpo inteiro de ouro até que esteja morto completamente e não passe de uma estátua dourada inerte. Vai pagar pela morte de Hetepheres!
Seu cosmo intensificou, o cifão de ouro ficou mais violento. E mais, girava com fúria; tanta violência que parecia entrar em ebulição. Um vapor dourado começou a se desprender e, no meio da loucura vingativa de Kebechet, ela finalmente notou que algo estava errado. Não era para o ouro líquido estar tão quente.
— O que significa isso?! Será que o cosmo dele é tão quente a ponto de… a ponto de derreter o meu Bálsamo de Ouro?!
Mas era exatamente o que estava acontecendo. A coluna logo tornou-se um gêiser de vapor dourado, que tornou-se mais e mais quente e absolutamente alaranjado, até que algo inacreditável aconteceu: a coluna simplesmente explodiu em uma coluna de fogo completa. Kebechet afastou-se, assombrada. A coluna de fogo inclusive aumentou de diâmetro violentamente, fazendo Kebechet recuar ainda mais. O fogo estabilizou-se como uma grande fogueira eterna e quentíssima. De dentro dela, Kebechet pôde perceber claramente uma silhueta caminhando.
Ele pisou na luz, com o corpo de Nachi desacordado em um dos braços, e comentou debochadamente.
— Você vai me desculpar, mas eu não gosto muito do Ouro. — fez uma pausa o suficiente para abrir os olhos e fitar seriamente Kebechet. — Prefiro o brilho do cosmo de bronze.
A voz era duríssima e o olhar sobre Kebechet era como se uma montanha fosse depositada sobre si. O Cavaleiro apontou para ela com o indicador e tudo aconteceu tão rapidamente que Kebechet nem teve tempo de entender o que a atingiu.
— Golpe Fantasma de Fênix!
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