Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras

30 Yuzuriha e Mei enfrentam a justiça


Notas iniciais
Este capítulo marca o embate de Mei e Yuzuriha contra Justitia, a rainha que se conformou com a eternidade do tabuleiro e busca seduzir os guerreiros para o mesmo destino. Mais do que uma luta, é um confronto de ideais: permanecer em segurança ou arriscar tudo pela liberdade?

O salão abriu-se como um espelho de água sob os pés deles. O piso era tão liso que refletia o céu dourado, e a linha do horizonte se curvava como uma taça virada. Ao centro, sobre três degraus, Justitia sentava-se reta, vendada, uma balança pousada no colo. A lâmina curta, pendida na mão direita, brilhava sem fonte aparente.

Sejam julgados — disse, sem elevar a voz. — Ou reinem comigo. É simples.

A palavra “reinar” ecoou no peito de Mei como ferro quente. Um pedaço antigo dele — aquele que ficara calculando saídas no Etna, preso com Typhon, enquanto o tempo não passava — entendeu o conforto de ser o juiz em vez do julgado. Yuzuriha fechou os olhos por um instante, como fazia em Jamiel quando precisava que o vento obedecesse. Abriu-os com firmeza.

— Eu não vim buscar trono — falou. — Vim buscar a saída.

Justitia ergueu a mão livre. A balança tilintou; o salão estalou e mudou. À esquerda, montanhas negras cuspiam calor — Etna —, e o ar trazia cheiro de enxofre. À direita, o bosque de Jamiel, com pinheiros altos e vento frio; folhas esvoaçando como penas cintilantes. O centro era uma ponte estreita unindo fogo e neve.

— A justiça, como vocês, caminha entre extremos — disse a deusa, descendo o primeiro degrau. — O peso do vulcão, a leveza da pena. Escolham.

Correntes finíssimas saíram do piso, serpentearam pelos tornozelos deles. Não apertavam: pesavam. Mei quebrou a primeira com um soco curto que fez a pedra vibrar.

Ondas do Inferno! — A fissura correu sob as correntes; mãos espectrais surgiram e as seguraram, puxando-as de volta ao chão. A deusa inclinou um pouco a cabeça, impressa, mas não surpresa.

— Você conhece a porta — disse a Mei. — Gosta de estar do lado em que ela se abre.

Yuzuriha avançou pela ponte, o manto de Grou desenhando semicículos afiados. — Pena Cortante! — O golpe cruzou a distância num arco perfeito. Justitia ergueu a lâmina e tocou o ar. A pena cortou nada; a própria trajetória foi medida e cancelada.

— Vocês confundem movimento com avanço — disse a deusa. — Balança de Dois Mundos.

O chão dividiu-se em dois círculos que se separaram, arrastando cada um para seu lado: Mei foi lançado ao Etna; Yuzuriha, ao bosque. A balança flutuou entre eles, vendada, mas presente nos dois lugares ao mesmo tempo — como se a sala inteira fosse um veredito.

Mei aterrissou numa plataforma de rocha viva que respirava calor. Lembrou-se de Typhon. Não um rosto — um fardo. O ruído do gigante preso sob a crosta, o peso de existir com alguém que não morre. A voz de Justitia veio perto, mesmo longe.

— Você pode terminar aqui — ofereceu. — Eu te faço guarda deste fogo. Nunca mais será esquecido. Nunca mais será pequeno.

— Esquecido é quem para — disse Mei, tirando o sangue do lábio com as costas da mão. O suor já queimava os olhos, e a armadura brilhava de calor. Ele girou o ombro. — Corredor da Penitência!

Correntes etéreas brotaram e circundaram a silhueta da deusa, arrastando-a por um corredor escuro que se abriu na própria rocha. Mas a balança inclinou o prato oposto, e o corredor fechou na metade; Justitia saiu do outro lado sem pressa.

— Prender o outro é mais fácil que se soltar — disse. — Por que recusas ser juiz?

— Porque juiz que não reconhece a própria falha é ditador — devolveu Mei, e avançou com dois passos curtos, soltos. Portão da Purificação! — O selo abriu-se no ar como uma mandala de luz; o calor arrefeceu um tom. O feixe atingiu Justitia por cima. A lâmina ergueu-se um palmo. A luz foi colhida no prato, que encheu e esvaziou como se o golpe fosse água. — Você mede até o que te purifica — rosnou Mei. — Então vou te dar o que não tem medida.

Na floresta, Yuzuriha sentiu a temperatura oposta morder a pele. O vento de Jamiel sussurrou nas agulhas dos pinheiros, trazendo lembranças não lineares: Tenma passando correndo; Yato rindo alto; a escolha sem ironia de parar de lutar; o arrependimento silencioso da noite seguinte. A deusa estava ali também, a poucos passos, sem sombra.

— Você pode ter paz — disse Justitia. — Prometo uma eternidade de vento obediente. Você abrirá ou fechará as portas. Ninguém morrerá sem você permitir.

Yuzuriha respirou e deixou as lembranças do tabuleiro passarem: Tokisada e o corte do tempo que quase a partiu; Alice, um sorriso polido por cima de uma lâmina; Adão e Lilith, nomes de começo e ruína; Pollux anunciando regras no nível dos bispos; Goethe aceitando o fim com dignidade; e os ruídos distantes de Ker e Nix. Essa memória não era a de uma vida tranquila; era a de uma vida verdadeira.

— Eu não sou vento que protege de cima — respondeu. — Sou quem caminha ao lado.

Ela levantou o punho, e o tecido do manto desenhou uma elipse. Asa da Calmaria! — O ar junto à lâmina ficou silencioso, pesado o suficiente para segurar a sentença que vinha. Justitia moveu a lâmina como quem dá um ponto final.

Veredito Breve.

A linha de luz atravessou as árvores sem barulho. Yuzuriha inclinou o corpo, meia ponta de pé. A linha raspou o ombro e riscou a corteza atrás dela. Dor fina, limpa. O sangue saiu em traço curto e parou.

— Aprendeu a se dobrar — disse a deusa.

— Aprendi a não quebrar o que me fez chegar aqui.

As duas arenas distantes começaram a ouvir uma à outra. Em algum ponto do centro, as escolhas dos dois sincronizaram passos. A balança em suspensão oscilou.

— Gravar vontade… — murmurou Justitia, pela primeira vez com algo que lembrava respeito. — Quase ninguém chega a isso.

No Etna, Mei girou um punho e, sem aviso, cedeu um passo como quem abre espaço para um sopro. — Vácuo do Portão! — Não era ataque, era ausência: o golpe de Justitia caiu num ponto que não estava mais ali, e o calor redundou no próprio prato da balança, rachando sua borda. No bosque, Yuzuriha estendeu dois dedos no ar como quem tira pó da estante e redesenhou a rota de outra linha de veredito, que passou um milímetro do rosto sem tocar.

— A justiça mede o que existe — disse Yuzuriha, voz baixa. — Nós escolhemos existir fora do teu peso.

— Então pesarei a única coisa que resta — respondeu a deusa. — Eternidade.

As duas arenas voltaram a fundir-se. Etna e Jamiel se sobrepuseram: pinheiros em chamas de um lado, blocos de lava cobertos de neve do outro. A ponte reapareceu. Justitia elevou a balança. Os pratos brilharam como dois sóis frios.

Coroa do Juízo.

O brilho caiu como um dom — e com o dom vinha a armadilha. A visão de Mei emoldurou-se: ele, sentado acima das chegadas, apontando portas, nunca mais esquecido. A de Yuzuriha, também: ela, guardiã de um bosque onde ninguém precisava lutar, tudo sob sua guarda.

— Digam “sim”, e o jogo termina — prometeu a deusa. — Vocês serão o fim.

Mei fechou os olhos. Viu Subaru cair; sentiu Tokisada jogá-lo no vazio de mil milênios; viu Alice obrigá-lo a duvidar dos amigos; ouviu Pollux anunciar as regras do nível dos bispos; viu Goethe encarar a derrota sem barganha. O “sim” tinha gosto de alívio — e cheiro de abandono.

— Eu… prefiro ser esquecido e livre — disse, abrindo os olhos. — Do que lembrado e preso.

Yuzuriha olhou para a visão perfeita por um segundo a mais do que queria. Jamiel sem guerra, Yato deitado na grama, o vento obediente. O coração apertou. O vento não obedece sempre. E é assim que ele ensina.

— Eu prefiro caminhar sem dono — disse. — Mesmo que doa.

A balança tremulou. As correntes invisíveis que faziam a sala respirar no ritmo de Justitia falharam um compasso. Foi suficiente.

Agora, Mei!

Os dois se moveram juntos. Yuzuriha, à frente, avançou pela ponte num passo curto e diagonal, o tecido em torno do braço desenhando um numero oito apertado. — Pena Cortante! — Não no corpo, mas na haste da balança. A lâmina de Justitia subiu, mas a pena já tinha desviado o eixo. No mesmo instante, o chão sob a deusa se abriu, e Mei ergueu as duas mãos como quem levanta uma porta pesada. — Portão da Purificação!

A mandala branca subiu de baixo para cima e engoliu o prato esquerdo, drenando a energia do veredito. O prato direito afundou com o peso de nada. Justitia baixou a cabeça, a venda brilhando mais forte, como se buscasse uma medida nova. Não havia.

Corte da Asa e do Portão! — gritaram juntos.

A pena atingiu a haste de lado, e o Portão puxou o prato oposto. O eixo quebrou. A balança estalou e se abriu em duas metades, que caíram como pedaços de auréola trincada. O salão tremeu. Etna recuou um sopro; o bosque apagou as chamas. A ponte virou chão.

Justitia deu um passo atrás. Não sangrava, não gritava. A lâmina em sua mão ficou opaca. Ela inclinou o rosto na direção dos dois — vendada, mas vendo mais do que olhos costumam ver.

— A justiça não é o fim — disse, suave. — É um modo de terminar.

A pele dela brilhou por dentro, como se a luz voltasse ao lugar de onde veio. O corpo se desfez em silêncio, numa poeira dourada que não voava — assentava.

O barulho do triunfo não veio. Em vez disso, o vazio que sobra quando uma obrigação termina e outra — mais difícil — espera. Mei cambaleou. O esforço de manter o Portão aberto por tanto tempo cortou fino por dentro; os braços pesaram como pedra mergulhada. Yuzuriha ergueu a mão para tocá-lo, mas o próprio manto perdeu tensão nos dedos. A visão do bosque perfeito voltou por meio segundo e sumiu. Um beijo de vento gelado cortou-lhe a nuca.

— Yuzuriha… — Mei chamou, sem força na voz.

— Eu estou — ela tentou dizer “bem”, mas a palavra não saiu inteira. Os joelhos cederam. Ela caiu de lado, o manto desenhando uma curva lenta no ar antes de tocar o chão. Mei ainda tentou estender o braço na direção dela. — Fica… — quis pedir, e o mundo escureceu nas bordas.

Os corpos dos dois repousaram quase paralelos, a uma distância de duas mãos. A poeira dourada assentou-se nos cabelos e na armadura como uma neve que não era fria. Por um instante, o salão inteiro respirou no ritmo deles: lento, pesado, vivo.

Lá em cima, onde o teto jamais apareceu, uma linha passou — como a sombra de algo que observa. Poderia ser memória. Poderia ser o brilho do sol na máscara de alguém. Poderia ser os Três Ecos testando o peso de mais dois nomes.

A balança quebrada sumiu. O chão unificou-se num mármore claro. O vento de Jamiel foi embora de vez. O calor do Etna também. Ficou só o silêncio.

E, no silêncio, a certeza de que o próximo passo não esperaria muito.

Notas finais
Yuzuriha e Mei enfrentam Justitia e recusam o conforto perfeito: ela, a paz sem risco; ele, o poder sem culpa. Com o Corte da Asa e do Portão, quebram a balança — mas pagam o preço imediato: o corpo exige, e ambos caem desacordados. O salão apaga, deixando no ar o traço de um olhar que mede o fim.