Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras

31 Sonia, a amazona de ouro de Escorpião


Notas iniciais
No silêncio distorcido do Tabuleiro, Sonia encara sua última prova. Diante dela, Ker, a deusa do destino, ameaça não apenas destruir tudo ao seu redor, mas apagar qualquer traço de sua redenção. É a batalha que decidirá se Sonia, outrora um Lúcio do Abismo moldado pelo caos de Nix, se tornará enfim uma existência sólida e justa… ou se será arrastada de volta às trevas que a criaram.

O corredor diante de Sonia era longo, estreito, e parecia se retorcer como uma serpente viva. O ar era pesado, carregado de murmúrios que não vinham de lugar algum e ao mesmo tempo ecoavam em todos os cantos. As paredes, feitas de um mármore negro e espelhado, devolviam-lhe o reflexo de si mesma — e não o reflexo atual, mas a versão que um dia fora: os cabelos desgrenhados, os olhos tomados pelo vazio, a armadura de Escorpião Reverso pulsando caos e dor.

Ela não desviou o olhar. Havia aprendido, desde que Shaina lhe estendeu a mão, que fugir do passado era se condenar a revivê-lo para sempre. Lembrou-se de sua criação — Nix moldando seu corpo com um toque de trevas, soprando-lhe promessas de glória e poder absoluto. Lembrou-se de como, por muito tempo, viveu apenas para espalhar ruína, como se a destruição fosse o único sentido de existir.

Mas o dia em que viu Shaina lutar sem medo, mesmo diante de adversários impossíveis, algo mudou. Não de imediato. Sonia resistiu, se rebelou contra qualquer ideia de lealdade que não fosse consigo mesma. Porém, ao longo das batalhas no Abismo e no Tabuleiro, percebeu que Shaina não lutava por si — ela lutava por todos, inclusive por aqueles que ainda não mereciam ser salvos. Foi assim que Sonia começou a caminhar com os próprios pés, deixando para trás o manto de caos que Nix lhe dera.

No fim do corredor, o mármore se abriu para um salão vasto. No centro, Ker a esperava. A deusa tinha uma beleza cruel: cabelos longos e negros como um eclipse, olhos de um vermelho profundo, vestindo uma armadura que parecia feita de fios do destino entrelaçados, cada lâmina cintilando como uma sentença inevitável.

— Você não devia estar aqui, escorpião — disse Ker, com um sorriso que não tocava os olhos. — O caos que você carrega é meu aliado.

— Não carrego mais caos — respondeu Sonia, erguendo o queixo. — Ele ficou para trás.

Ker riu, mas havia veneno na sua voz.

— Não existe "ficar para trás" quando se é forjado pelo destino. Você é minha peça, quer queira ou não.

O cosmo de Ker explodiu, preenchendo o salão com correntes invisíveis que se enrolavam nas pernas e braços de Sonia. Cada corrente ardia como ferro em brasa, mas Sonia não recuou. Ao contrário, expandiu seu próprio cosmo, vermelho como um sol sangrento, e ergueu as mãos.

Agulha Carmesim! — gritou, liberando dezenas, centenas de agulhas de energia escarlate que cruzaram o ar em trajetórias imprevisíveis. Cada impacto contra Ker explodia em faíscas, forçando a deusa a recuar alguns passos.

Ker rangeu os dentes, quebrando parte das agulhas com movimentos rápidos, mas a pressão aumentava.

— Impressionante… — disse ela. — Mas agulhas não cortam o destino.

As correntes se multiplicaram, formando uma prisão de energia. Sonia caiu de um joelho, sentindo o peso esmagador da armadilha, mas em vez de lutar contra as correntes, fechou os olhos. Respirou fundo. Lembrou-se da primeira vez que Shaina lhe confiou as costas. Lembrou-se de lutar ao lado dela contra inimigos que pareciam deuses. Lembrou-se de que, pela primeira vez, não estava sozinha.

O cosmo explodiu novamente, agora mais puro, livre de qualquer resquício de caos. As correntes se desfizeram como poeira ao vento. Sonia abriu os olhos, ergueu as mãos e, com um grito que parecia romper os alicerces do Tabuleiro, lançou seu golpe final.

Turbilhão de Antares!

Das palmas de suas mãos surgiu uma correnteza massiva de energia destrutiva, um rio vermelho e incandescente que avançou como um furacão. Ker tentou conter a investida, mas a força do ataque era incontrolável. O impacto fez o salão tremer, colunas se partirem e o chão rachar.

Quando a luz cessou, Ker estava caída, sua armadura quebrada em várias partes, e um olhar de surpresa gravado em seu rosto.

— Então… você… é realmente livre… — murmurou antes de desaparecer em um feixe de luz que se dissipou no ar.

Sonia ficou parada por alguns segundos, sentindo o próprio coração desacelerar. Olhou para sua armadura e percebeu algo: não havia mais pulsos irregulares, vultos ou murmúrios ao seu redor. O dourado era puro, sólido, como se sempre tivesse sido dela. Ela não era mais o Escorpião Reverso. Agora, era Sonia, Amazona de Ouro de Escorpião.

Um sorriso pequeno, mas verdadeiro, cruzou seu rosto. Pela primeira vez, sentiu que não precisava provar nada a ninguém. Mas o corpo, exausto, finalmente cedeu. Sonia caiu de joelhos e depois para frente, desacordada, enquanto o silêncio do salão a envolvia.

Notas finais
A queda de Ker não foi apenas a vitória sobre uma deusa, mas o fim de um ciclo para Sonia. No próximo capítulo, um novo confronto se aproxima, e o destino do Tabuleiro será decidido. Mas até lá, o corpo da amazona dourada repousa, e sua alma, pela primeira vez, está em paz.