Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras
21 Rancor em movimento
Notas iniciais
Um clarão riscou a floresta. Shaina atacou no mesmo compasso do trovão.
— Garras do Trovão!
As lâminas elétricas passaram rente ao elmo de Geist, que respondeu com um giro serpentino; a cauda metálica lascou um tronco e o estilhaço cortou a bochecha da amazona. O cheiro de terra molhada e metal quente misturou-se no ar.
— Você joga contra o céu, Shaina — sussurrou Geist. — E ele não te ama.
Shaina ajustou a base, joelho flexionado, ombro ferido colado ao corpo. Observou. A cada investida, Geist “respirava” em três tempos: estalo das presas, vibração da cauda, avanço do tronco. Ritmo.
Outro relâmpago. Shaina não atacou — esperou. No intervalo entre a vibração e o avanço, pisou curto à esquerda e afundou os punhos no flanco.
— Garras do Trovão!
O golpe mordeu metal e arrancou faíscas. Não o bastante para derrubar, mas o suficiente para ouvir um sibilo diferente: surpresa.
“Ela abre o corpo por um instante antes de fechar a guarda. É ali.”
No jardim de pontes, Yuzuriha encarava Yato de Unicórnio Sangrento. Ele sumiu, reapareceu num rasgo carmesim.
— Investida Sangrenta!
A amazona baixou o eixo, o tecido do manto girou num arco cortante — Pena Cortante! — e desviou a ponta do chifre. O corrimão estourou atrás, água subiu em leque.
— Você ainda lê meus passos — disse Yato, a voz embotada.
— E você ainda pisa mais forte quando vai trair a direção — respondeu Yuzuriha, com calma.
Ela fechou os olhos um piscar. Telecinese como um fio invisível, do tornozelo dele ao poste da ponte. Quando Yato explodiu outra vez, o passo “grudou” por um átimo; o corpo veio com força, mas sem eixo.
Yuzuriha rodou o tronco, o tecido zuniu pelo ar.
— Língua de Grou!
A lâmina de pano abriu faixas na couraça carmesim. Yato recuou dois passos, surpreso, e riu — um som curto, nervoso.
— Então vai amarrar meu pé até o fim?
— Não. Vou amarrar a sua raiva ao chão.
O Etna respirava pesado. Mei avançou em saltos curtos entre placas de basalto, sentindo o calor zombar das canelas. Tífon ergueu um braço como falésia.
— Punho do Tártaro!
O impacto rachou o chão, vapor subiu como grito. Mei girou no ar, caiu de joelho e mão, e o cosmo gelou a pele.
— Portão da Purificação!
A cortina espectral abriu-se, correntes de luz amarraram o punho de magma. Tífon sacudiu, rindo.
— Correntes de mortos não pesam em mim, pequeno.
Mei não discutiu. Olhou além do braço — para as fissuras que cuspiram lava ao atacar. “Ele draga o calor por baixo antes de socar. O solo avisa.”
Quando a crosta inchou, Mei já não estava ali. Deslizou para as sombras entre pedras, como espírito.
— Corredor da Penitência!
Espectros ergueram um corredor estreito onde Tífon precisou recuar um passo para não afundar. O gigante recuou exatamente onde o solo não inchava.
“É isso. Forçar o recuo para a parte fria. Cortar a forja.”
No templo de mármore, Aeson girou a Taça; a luz líquida formou um aro à frente do antebraço. Eris estalou dedos; espelhos nasceram das colunas, multiplicaram Aeson com seus medos.
— Olhe como você é belo quando obedece — disse ela, passeando descalça. — Não quer voltar a doer menos?
— Dói lembrar… mas é meu — respondeu ele.
A deusa tocou a maçã; os reflexos distorceram a voz de Aeson, puseram na sua boca frases que ele não disse. O aro de luz cortou dois espelhos — e eles nasceram de novo.
Aeson parou. Observou a maçã: nenhum reflexo a tocava. Em todo o salão de falsos Aesons, só um objeto não se duplicava.
— Você precisa de um eixo, Eris. — Ele ergueu a Taça. — E seu eixo é um.
— Tente — sussurrou ela, sorrindo com os olhos.
No breu, Sonia respirou o próprio medo sem engolir. Nix avançou como quem não toca o chão.
— Sua existência é um ruído — disse a deusa. — E eu sou o silêncio.
— Então me cale. — Sonia ergueu os punhos. Clarões roxos, no ritmo de um coração ferido.
Nix apagou os clarões como quem apaga velas num sopro sem vento. A criação caótica oscilou — e sorriu de canto.
“Ela apaga luz e som. O que não se apaga?”
Sonia fechou os olhos. Caos sussurrado, quase sem brilho, como se o golpe fosse só intenção. Uma borda de realidade levemente deslocada, sem clarão.
Nix franziu o cenho.
— Interessante.
— O erro que você não consegue ler — disse Sonia, baixo. — O ruído de fundo.
A floresta tremeu. Geist abriu o torço em arco; da armadura brotaram cabeças serpentinas que morderam o ar ao redor de Shaina.
— Ninho do Submundo!
Shaina mergulhou sob uma raiz, rolou, saiu com o calcanhar na direção do joelho da inimiga. O peso travou a base de Geist por um segundo. Um segundo.
Relâmpago.
— Agora. — Garras do Trovão!
O golpe acendeu em diagonal, no meio do tempo da serpente. Uma ombreira voou, presas tilintaram no chão. Geist riu, mas a risada soou mais alta do que queria — nervosa.
— A amazona que “só bate” aprendeu a ouvir.
— E a serpente que “só morde” acabou de me contar o passo — retrucou Shaina, firme.
Yuzuriha recuou até o centro da ponte circular. Yato, num semiagachamento, inclinou o corpo até desaparecer e reaparecer a um palmo do rosto dela.
— Chifre Carmesim!
O manto rodou, mas desta vez a amazona não cortou — amarrou. A telecinese fechou o tecido na canela dele por um instante, o bastante para a ponta tremer e errar a linha.
Yato estacou, olhos ardendo por trás da máscara.
— Você quer me prender ao que sobrou de mim.
— Quero que você se veja sem a raiva — disse Yuzuriha, e os dedos abriram no ar, como quem solta um pássaro.
O Etna explodiu em respingos vermelhos. Tífon baixou os dois braços, mirando esmagar; Mei não recuou: avançou para dentro do movimento.
— Portão da Purificação!
Dessa vez, não em frente — de lado. As correntes de luz pegaram o cotovelo do gigante, trancando a dobradiça no momento do golpe. O punho caiu dois palmos antes do chão, a lava cuspiu por fendas erradas e apagou ao tocar rocha fria.
Mei sentiu. Sorriu curto.
— Seu fogo precisa respirar. Vamos sufocar.
Os espectros ergueram paredes translúcidas sobre as fissuras quentes. O campo virou uma câmara de ecos. Tífon rugiu, mas o rugido soou baço.
Aeson encarou o altar. Espelhos o rodeavam, repetindo versões dele de armadura quebrada, de mãos vazias, de olhos sem brilho. A maçã não tinha sombra dobrada.
— Maré da Taça!
A luz líquida subiu em espiral, depois caiu como chuva dourada numa única linha — sobre a maçã. O altar absorveu, mas a fruta brilhou num tom que nenhum espelho reproduziu.
Eris estalou a língua, divertida.
— Descobriu meu brinquedo. E o que fará com isso?
— Parar de te seguir.
Ele virou de costas e correu contra uma parede de espelhos. O aro de luz abriu caminho. Quando parou, estava atrás do altar, onde não havia reflexos — só pedra e a coisa que não duplica.
— Você está me negando… — a voz dela veio com raiva, pela primeira vez.
— Estou me escolhendo.
No escuro, Sonia manteve o golpe próximo da pele, do tamanho da própria mão. Um “defeito” de cosmo, uma borda torta que não brilhava. Tocou a noite de Nix sem luz. A deusa não apagou — sentiu.
— Você aprende rápido, erro.
— Eu fui feita do seu descarte — disse Sonia. — Sei ser resto.
Shaina pressionou, curta e seca, golpeando entre os tempos da serpente. Geist alongou o tronco, tentou enlaçar; Shaina girou o quadril e encaixou um chute no externo da coxa. A serpente perdeu linha.
Relâmpago.
— Garras do Trovão!
O golpe abriu a outra ombreira. A floresta respondeu com cheiro de ozônio.
Yuzuriha espalhou a telecinese por toda a ponte, fios invisíveis ligando cada tábuas às juntas do pé de Yato. Ele avançou… e a própria ponte o desacelerou.
— Você está usando o cenário contra mim — disse ele, numa risada sem humor.
— Estou usando o que sobrou de nós.
Mei fechou as “janelas” quentes, uma a uma. Tífon socou o vazio; a montanha não devolveu fogo.
— Agora é força contra força — disse o cavaleiro, baixo. — E, sem a forja, você ainda é só pedra.
Aeson estendeu a Taça, agora sem aro: só a coluna de luz tranquila, sem arma.
— Eu não vou te atacar, Eris.
— Covarde.
— Curador. — Ele sorriu de lado. — E livre.
Sonia encostou a fronte no escuro e sussurrou:
— Me apague.
O breu tremeu. Nix não apagou.
— Insolente.
O tabuleiro vibrou, satisfeito. As chaves estavam dadas: tempo, eixo, forja, passo, ruído. Nenhuma vitória selada — mas cada peça agora sabia onde ferir.
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