Notas iniciais
Depois do “despertar”, as cinco torres mostraram o rosto. Nada de corredores infinitos: agora cada campo é íntimo como um segredo. Shaina caminha sob relâmpagos na mata; Yuzuriha cruza pontes sobre águas paradas; Mei encara o Etna vivo; Aeson pisa em um templo de mármore e ouro; Sonia respira um breu que sabe seu nome. Não haverá vitória total… mas cada um vai descobrir a chave para derrubar a própria torre.

Um clarão riscou a floresta. Shaina atacou no mesmo compasso do trovão.

Garras do Trovão!

As lâminas elétricas passaram rente ao elmo de Geist, que respondeu com um giro serpentino; a cauda metálica lascou um tronco e o estilhaço cortou a bochecha da amazona. O cheiro de terra molhada e metal quente misturou-se no ar.

— Você joga contra o céu, Shaina — sussurrou Geist. — E ele não te ama.

Shaina ajustou a base, joelho flexionado, ombro ferido colado ao corpo. Observou. A cada investida, Geist “respirava” em três tempos: estalo das presas, vibração da cauda, avanço do tronco. Ritmo.

Outro relâmpago. Shaina não atacou — esperou. No intervalo entre a vibração e o avanço, pisou curto à esquerda e afundou os punhos no flanco.

Garras do Trovão!

O golpe mordeu metal e arrancou faíscas. Não o bastante para derrubar, mas o suficiente para ouvir um sibilo diferente: surpresa.

“Ela abre o corpo por um instante antes de fechar a guarda. É ali.”

No jardim de pontes, Yuzuriha encarava Yato de Unicórnio Sangrento. Ele sumiu, reapareceu num rasgo carmesim.

Investida Sangrenta!

A amazona baixou o eixo, o tecido do manto girou num arco cortante — Pena Cortante! — e desviou a ponta do chifre. O corrimão estourou atrás, água subiu em leque.

— Você ainda lê meus passos — disse Yato, a voz embotada.

— E você ainda pisa mais forte quando vai trair a direção — respondeu Yuzuriha, com calma.

Ela fechou os olhos um piscar. Telecinese como um fio invisível, do tornozelo dele ao poste da ponte. Quando Yato explodiu outra vez, o passo “grudou” por um átimo; o corpo veio com força, mas sem eixo.

Yuzuriha rodou o tronco, o tecido zuniu pelo ar.

Língua de Grou!

A lâmina de pano abriu faixas na couraça carmesim. Yato recuou dois passos, surpreso, e riu — um som curto, nervoso.

— Então vai amarrar meu pé até o fim?

— Não. Vou amarrar a sua raiva ao chão.

O Etna respirava pesado. Mei avançou em saltos curtos entre placas de basalto, sentindo o calor zombar das canelas. Tífon ergueu um braço como falésia.

Punho do Tártaro!

O impacto rachou o chão, vapor subiu como grito. Mei girou no ar, caiu de joelho e mão, e o cosmo gelou a pele.

Portão da Purificação!

A cortina espectral abriu-se, correntes de luz amarraram o punho de magma. Tífon sacudiu, rindo.

— Correntes de mortos não pesam em mim, pequeno.

Mei não discutiu. Olhou além do braço — para as fissuras que cuspiram lava ao atacar. “Ele draga o calor por baixo antes de socar. O solo avisa.”

Quando a crosta inchou, Mei já não estava ali. Deslizou para as sombras entre pedras, como espírito.

Corredor da Penitência!

Espectros ergueram um corredor estreito onde Tífon precisou recuar um passo para não afundar. O gigante recuou exatamente onde o solo não inchava.

“É isso. Forçar o recuo para a parte fria. Cortar a forja.”

No templo de mármore, Aeson girou a Taça; a luz líquida formou um aro à frente do antebraço. Eris estalou dedos; espelhos nasceram das colunas, multiplicaram Aeson com seus medos.

— Olhe como você é belo quando obedece — disse ela, passeando descalça. — Não quer voltar a doer menos?

— Dói lembrar… mas é meu — respondeu ele.

A deusa tocou a maçã; os reflexos distorceram a voz de Aeson, puseram na sua boca frases que ele não disse. O aro de luz cortou dois espelhos — e eles nasceram de novo.

Aeson parou. Observou a maçã: nenhum reflexo a tocava. Em todo o salão de falsos Aesons, só um objeto não se duplicava.

— Você precisa de um eixo, Eris. — Ele ergueu a Taça. — E seu eixo é um.

— Tente — sussurrou ela, sorrindo com os olhos.

No breu, Sonia respirou o próprio medo sem engolir. Nix avançou como quem não toca o chão.

— Sua existência é um ruído — disse a deusa. — E eu sou o silêncio.

— Então me cale. — Sonia ergueu os punhos. Clarões roxos, no ritmo de um coração ferido.

Nix apagou os clarões como quem apaga velas num sopro sem vento. A criação caótica oscilou — e sorriu de canto.

“Ela apaga luz e som. O que não se apaga?”

Sonia fechou os olhos. Caos sussurrado, quase sem brilho, como se o golpe fosse só intenção. Uma borda de realidade levemente deslocada, sem clarão.

Nix franziu o cenho.

— Interessante.

— O erro que você não consegue ler — disse Sonia, baixo. — O ruído de fundo.

A floresta tremeu. Geist abriu o torço em arco; da armadura brotaram cabeças serpentinas que morderam o ar ao redor de Shaina.

Ninho do Submundo!

Shaina mergulhou sob uma raiz, rolou, saiu com o calcanhar na direção do joelho da inimiga. O peso travou a base de Geist por um segundo. Um segundo.

Relâmpago.

— Agora. — Garras do Trovão!

O golpe acendeu em diagonal, no meio do tempo da serpente. Uma ombreira voou, presas tilintaram no chão. Geist riu, mas a risada soou mais alta do que queria — nervosa.

— A amazona que “só bate” aprendeu a ouvir.

— E a serpente que “só morde” acabou de me contar o passo — retrucou Shaina, firme.

Yuzuriha recuou até o centro da ponte circular. Yato, num semiagachamento, inclinou o corpo até desaparecer e reaparecer a um palmo do rosto dela.

Chifre Carmesim!

O manto rodou, mas desta vez a amazona não cortou — amarrou. A telecinese fechou o tecido na canela dele por um instante, o bastante para a ponta tremer e errar a linha.

Yato estacou, olhos ardendo por trás da máscara.

— Você quer me prender ao que sobrou de mim.

— Quero que você se veja sem a raiva — disse Yuzuriha, e os dedos abriram no ar, como quem solta um pássaro.

O Etna explodiu em respingos vermelhos. Tífon baixou os dois braços, mirando esmagar; Mei não recuou: avançou para dentro do movimento.

Portão da Purificação!

Dessa vez, não em frente — de lado. As correntes de luz pegaram o cotovelo do gigante, trancando a dobradiça no momento do golpe. O punho caiu dois palmos antes do chão, a lava cuspiu por fendas erradas e apagou ao tocar rocha fria.

Mei sentiu. Sorriu curto.

— Seu fogo precisa respirar. Vamos sufocar.

Os espectros ergueram paredes translúcidas sobre as fissuras quentes. O campo virou uma câmara de ecos. Tífon rugiu, mas o rugido soou baço.

Aeson encarou o altar. Espelhos o rodeavam, repetindo versões dele de armadura quebrada, de mãos vazias, de olhos sem brilho. A maçã não tinha sombra dobrada.

Maré da Taça!

A luz líquida subiu em espiral, depois caiu como chuva dourada numa única linha — sobre a maçã. O altar absorveu, mas a fruta brilhou num tom que nenhum espelho reproduziu.

Eris estalou a língua, divertida.

— Descobriu meu brinquedo. E o que fará com isso?

— Parar de te seguir.

Ele virou de costas e correu contra uma parede de espelhos. O aro de luz abriu caminho. Quando parou, estava atrás do altar, onde não havia reflexos — só pedra e a coisa que não duplica.

— Você está me negando… — a voz dela veio com raiva, pela primeira vez.

— Estou me escolhendo.

No escuro, Sonia manteve o golpe próximo da pele, do tamanho da própria mão. Um “defeito” de cosmo, uma borda torta que não brilhava. Tocou a noite de Nix sem luz. A deusa não apagou — sentiu.

— Você aprende rápido, erro.

— Eu fui feita do seu descarte — disse Sonia. — Sei ser resto.

Shaina pressionou, curta e seca, golpeando entre os tempos da serpente. Geist alongou o tronco, tentou enlaçar; Shaina girou o quadril e encaixou um chute no externo da coxa. A serpente perdeu linha.

Relâmpago.

Garras do Trovão!

O golpe abriu a outra ombreira. A floresta respondeu com cheiro de ozônio.

Yuzuriha espalhou a telecinese por toda a ponte, fios invisíveis ligando cada tábuas às juntas do pé de Yato. Ele avançou… e a própria ponte o desacelerou.

— Você está usando o cenário contra mim — disse ele, numa risada sem humor.

— Estou usando o que sobrou de nós.

Mei fechou as “janelas” quentes, uma a uma. Tífon socou o vazio; a montanha não devolveu fogo.

— Agora é força contra força — disse o cavaleiro, baixo. — E, sem a forja, você ainda é só pedra.

Aeson estendeu a Taça, agora sem aro: só a coluna de luz tranquila, sem arma.

— Eu não vou te atacar, Eris.

— Covarde.

— Curador. — Ele sorriu de lado. — E livre.

Sonia encostou a fronte no escuro e sussurrou:

— Me apague.

O breu tremeu. Nix não apagou.

— Insolente.

O tabuleiro vibrou, satisfeito. As chaves estavam dadas: tempo, eixo, forja, passo, ruído. Nenhuma vitória selada — mas cada peça agora sabia onde ferir.

Notas finais
As cinco lutas começaram de verdade. No próximo capítulo, uma luz dourada surge de onde sempre existiu.