Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras
22 A luz dourada de Ofiúco
Notas iniciais
A água pingava do galho mais alto. Shaina mediu a respiração — quatro batidas, pausa curta, três batidas. Do outro lado, Geist se alongou, placas de metal roçando umas nas outras como escamas vivas.
— Você está mais atenta… — sussurrou a amazona sombria. — Mas atenção não salva ninguém que nasceu para ser apagado.
As Garras do Trovão se acenderam nos dedos de Shaina. Ela não avançou. Ouviu. O mesmo compasso: presas, cauda, tronco. Quando o segundo tempo abriu, ela entrou por dentro do bote.
— Garras do Trovão!
O clarão riscou de baixo para cima, acertando o flanco. Faíscas, uma ombreira voando. Geist caiu de lado, mas girou no chão e ficou de pé numa fluidez ofídia, a cauda estalando.
— Boa. — A voz vinha com um sorriso fino. — Agora me mostre como pretende sobreviver às outras centenas de noites.
Geist esticou os braços. Da couraça brotaram três cabeças serpentinas que se cruzaram como um trançado de aço.
— Ninho do Submundo!
O feixe fechado de mordidas veio como uma rede. Shaina pulou para trás, raspou o ombro num tronco, caiu de joelhos e levantou num só gesto. O corte ardeu. Tudo nela pedia o contra-ataque bruto — mas uma imagem cortou a mente, seca e brilhante: Odisseu encostando dois dedos no ar, como se “costurasse” uma linha invisível entre o inimigo e o chão.
“Ele não só batia. Fixava.”
Shaina fechou a mão, apagou as garras por um instante e abriu os dedos no vazio. Tentou “pegar” a vibração de Geist antes da cauda chicotear. O ar tremeu entre as folhas — e Shaina sentiu a linha.
— Laço da Serpente… — murmurou, mais para o próprio corpo do que para a floresta.
Quando Geist vibrou a cauda, o tornozelo da amazona sombria enroscou em algo que não estava lá um segundo antes — um anel de cosmo pálido, quase invisível, que puxou seu peso um palmo fora do eixo. A mordida tripla bateu torta no tronco, abrindo cavidades. A brecha apareceu como uma lanterna.
Shaina entrou.
— Garras do Trovão!
O golpe acertou entre as placas do peito. Geist recuou dois passos. O eco na madeira trouxe de volta outra imagem de Odisseu: o mesmo fio que prende, fecha; a mesma costura que imobiliza, cura.
“Ele costurou a Mayura… ele me puxou de volta à vida… ele me segurou no nada.”
A memória veio com cheiro de óleo e sangue lavado. A floresta girou uma fração; não de tontura, mas de entendimento. Shaina abriu a outra mão no ar, como quem fecha um nó.
— Sutura Cósmica de Ofiúco!
O anel de cosmo se multiplicou em três voltas, agora firmes, correndo do tornozelo de Geist ao joelho, do joelho ao quadril, amarrando o impulso do corpo por meio segundo. Meio segundo que, numa luta, é uma eternidade. Shaina deu um passo, ergueu o calcanhar e bateu curto, seco, na lateral da armadura.
O impacto rachou a peça, e um sopro de ar frio saiu da fenda como se ali houvesse mais do que metal — algo preso fazia tempo demais.
Geist soltou um riso que não era alegria.
— Você… aprendeu a prender.
Relâmpago. O céu mostrou a sombra alongada de duas serpentes novas se formando nas ombreiras partidas. Shaina sentiu o peso do corpo pedir descanso; o ombro latejou. Não deu. Geist veio como água brava.
— Mordida do Mundo dos Mortos!
Foi a pressão, mais do que a velocidade, que fez o ar estourar. Shaina cruzou os braços, girou o tronco, deixou a mordida roçar a máscara — estilhaços caíram, a fenda antiga se abriu um pouco mais. A amazona recuou, pés afundando na lama, e o ressoar da Armadura de Ofiúco cresceu.
O som não vinha de fora. Era dentro. Pequenos toques, como dedos batendo numa porta. “Abra.”
Odisseu, de novo: a mão em forma de gancho, o giro com o calcanhar, a linha que sobe ao redor da presa, prende o ombro e derruba sem quebrar. Não um golpe para ferir — um golpe para decidir.
— Você hesita — provocou Geist, avançando de lado. — Ouro não hesita.
Shaina apertou os dentes. O ouro latejou atrás dos olhos como um trovão contido. A lembrança da serpente dos sonhos passou como uma sombra branca no canto da visão. E a voz silenciosa de Odisseu, que sempre foi uma ausência que falava: “Primeiro, pare o sangue. Depois, pare a luta.”
Ela abriu os dedos outra vez. Uma, duas, três voltas. Desta vez, os anéis do Laço não foram só nos pés; subiram pelo braço principal de Geist, desenhando um oito que travou o cotovelo no meio do golpe.
— Laço da Serpente!
— Garras do Trovão!
Os dois nomes explodiram juntos. A corrente de Shaina guiou o próprio punho: ela “costurou” o trajeto do golpe antes de golpear. O estalo atravessou o tronco das árvores, e a armadura de Geist abriu outra fenda, dessa vez no ombro. Uma das cabeças serpentinas apagou como brasa molhada.
Geist recuou, a respiração mais pesada. O sorriso fino ficou mais fino ainda.
— Dói ver a luz… quando se viveu anos no porão.
Shaina não respondeu. O braço doeu de novo, e a floresta mudou de som — o barulho de chuva virou algo mais miúdo, como areia caindo. Não era chuva. Eram pontos de luz. O cosmo dourado começou a pingar no ar, primeiro tímido, depois constante, como se um pano invisível tivesse sido rasgado no alto.
A amazona franziu o cenho. O peito apertou. O corpo reconheceu antes da mente: Ofiúco Dourado. Não inteiro, não desperto, mas chegando.
— Você está pegando fogo… — disse Geist, com um misto de medo e desejo. — E o ouro não é seu.
— O ouro… é de quem se levanta — devolveu Shaina, baixando a base.
Geist jogou o corpo todo para a frente. A cauda veio baixa, as presas, altas. Ataque em dois níveis, sem tempo entre um e outro — o truque que derruba quem aprende o “ritmo”. Shaina não buscou o intervalo. Criou o intervalo.
Ela cruzou os anéis do Laço no chão, um à esquerda, outro à direita, e pisou fora deles. Forçou Geist a pisar dentro, com o peso invertido. A serpente mordeu onde não havia alvo; a cauda bateu onde não havia passo. O corpo da inimiga ficou meio aberto por um reflexo involuntário: o gesto de recuperar equilíbrio.
— Agora.
A luz dourada escorreu sobre as mãos de Shaina como uma luva breve. Não foi armadura. Foi sinal. Ela bateu com as Garras no peito de Geist, mas o golpe saiu mais denso — como se houvesse um segundo golpe dentro do primeiro, duas camadas, duas serpentes.
— Garras do Trovão — Trança de Ofiúco!
O som não foi um estalo; foi um rasgo. A armadura de Geist partiu em diagonal, do ombro ao lado do corpo. A amazona sombria caiu de joelhos, as três cabeças restantes se desfizeram em fumaça escura. O cosmo dela ondilou, vacilou, ficou.
Geist apoiou a mão na lama. Riu — não de deboche, mas de surpresa.
— Então é isso que dói… — murmurou. — O começo do ouro.
Shaina respirou fundo. O dourado pingante diminuiu, como chuva que passa. As mãos ainda tremiam; o Laço, imperfeito, escapava dos dedos em fios soltos. Ela sabia: não tinha o domínio de Odisseu — ainda. Mas o corpo já lembrava o caminho.
— Não acabou — disse Geist, firme, levantando devagar. — Torre não cai com um trovão. Cai com tempestade.
— Então eu vou chover.
Geist ergueu a guarda, e a floresta se contraiu ao redor, como se prestasse atenção. Shaina avançou um passo, e os anéis de cosmo obedeceram sem ranger. O raio iluminou a máscara rachada — e, por um instante, pareceu um elmo dourado.
O tabuleiro sentiu.
Longe dali, alguém também. Entre dobras de sombra, uma figura de armadura vermelha e máscara dourada em forma de sol-inverno inclinou a cabeça. Ormenos, o Silente, observando sem som. E, ao lado dele, um reflexo de lua com véu escuro — Selanar, o Eclipse — apertou os dedos no ar, como quem testa um tecido.
— Ela quase abre — sussurrou a voz envolta de lua.
Ormenos não respondeu. Os olhos por trás do ouro seguiram o fio invisível que saía das mãos de Shaina e prendia o mundo por meio segundo. O silêncio dele era a confirmação.
Na mata, Geist voltou com tudo, e Shaina entrou antes do bote, costurando linhas no espaço. Não era triunfo. Era trabalho. Ponto a ponto, golpe a golpe. Até a chuva virar temporal.
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