Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras
27 O fio do destino
Notas iniciais
O vento mudou antes mesmo de o pé de Shaina tocar o novo piso. O chão era um mosaico de pedras negras, cortadas por linhas prateadas que se estendiam em diagonais infinitas, como rachaduras que alguém decidiu preencher com metal. O céu não era céu: era um tecido cinza, com fios negros e brilhantes descendo de vez em quando, tocando o solo e se retraindo como antenas vivas.
— Fiquem juntos — disse Mei, baixo.
Um estalo percorreu o mosaico, de uma ponta a outra, e as linhas prateadas brilharam como trilhos acesos. O estalo virou um rasgo. Dele, saiu Ker.
Ela não caminhou; caiu no centro do salão como uma lâmina cravada. O manto escuro não fazia sombra, absorvia sombra. A pele, pálida. Os olhos, duas fendas retas. Quando respirou, os fios do céu tremeram.
— Um de vocês é o rei — disse, sem apresentação. — Se eu o matar, eu saio.
Sonia deu um passo à frente, punhos cerrados. — Vai ter que tentar.
Ker moveu o pulso. Um fio negro desceu do teto, fino como cabelo e duro como aço. Ele cortou o ar e atingiu o mosaico a um palmo do pé de Sonia. A pedra se abriu em silêncio, como se o som tivesse sido cortado junto.
— Corte Fatal.
Ninguém esperou a segunda demonstração. Shaina avançou à esquerda, Yuzuriha subiu num passo leve à direita, Mei e Aeson dividiram a retaguarda, e Sonia entrou pelo centro, rápida. Ker ergueu a mão — não para golpear, mas para marcar. Três fios desceram e se cruzaram no ar.
— Trama Iminente.
O cruzamento de fios não bateu em ninguém, mas puxou as rotas de todos. As pernas obedeceram meio centímetro para o lado, e foi o suficiente para o primeiro ataque falhar. Yuzuriha raspou a lâmina do tecido no vazio; Shaina passou dois dedos das Garras do Trovão onde a garganta de Ker deveria estar; a Maré da Taça de Aeson curvou um grau errado; o Portão da Purificação de Mei abriu meio palmo atrás; a Dilaceração Invertida de Sonia cortou só vento.
— Ela não desvia de nós — disse Aeson, recuando. — Ela nos desvia de nós.
Shaina não pediu explicações. Tornou a entrar, baixo, sentindo a armadura vibrar com o perigo. — Garras do Trovão! — O golpe varreu o flanco de Ker, que inclinou a cabeça um nada e deixou o relâmpago riscar o manto sem tocar. Um fio desceu e tocou o dorso da mão de Shaina.
Foi frio e seco. Quando ela recuou, havia uma linha cinza marcada na pele, como cicatriz antiga.
— Marca de Queda, para a que mais insiste — disse Ker, sem emoção. — Seu próximo erro será o que você nunca cometeu.
— Ela está escrevendo o nosso futuro — Yuzuriha sussurrou, prendendo um tremor.
Mei fechou a base, olhos fixos nas mãos de Ker. — Olhem os dedos. Quando ela estala, o fio obedece. Cortem o comando.
— Entendido — disse Aeson, erguendo a Taça. — Cristal de Puro Cosmo!
O feixe saiu como lança clara. Ker não se moveu; cortou o feixe com dois dedos. A luz se partiu em dois filamentos e passou por seus lados como rios obedientes. Com a outra mão, ela traçou no ar um semicírculo rápido.
— Curva do Fim.
O semicírculo bateu no chão e viajou sob o mosaico. A onda emergiu sob as botas de Mei, quebrando a base dele como se os pés tivessem pisado numa década de cansaço. Yuzuriha puxou-o por telecinese um palmo para trás, salvando o joelho do impacto.
A amazona de Grou respondeu. — Pena Cortante!
O tecido-lâmina pegou um dos fios que descia e o entortou numa guinada impossível. Ker olhou para ela pela primeira vez. A voz veio sem peso:
— A que sabe dobrar vento.
Dois fios caíram, um por cada lado de Yuzuriha, tentando fechar como parênteses. Sonia entrou na linha e “sujou” o ar com ruído de cosmo.
— Ruptura de Fundo!
O ruído fez os fios vibrar fora do tom perfeito de Ker. A deusa crispou um dedo. A vibração parou.
— A que ainda não decidiu quem é.
Sonia sorriu de canto, sem humor. — Decidida o bastante pra te bater.
— Não se decide a escapar — respondeu Ker. — Só se escapa.
O manto abriu um centímetro. Três fios caíram de uma vez, mirando pescoço, coração, abdômen de Sonia. Mei tapou o meio com o Portão da Purificação, Aeson desviou o alto com uma curva da Maré da Taça, e Shaina bateu no baixo com o calcanhar — Sutura Cósmica em ponto curto, que travou metade da lâmina por um segundo.
— Agora! — gritou Yuzuriha.
As quatro investiram juntas por meio fôlego. Ker esticou os dois braços e os fios subiram, formando um X no alto.
— Enlace de Láquesis.
O X brilhou e caiu como grade. Não pesava, mas determinava. Shaina sentiu o corpo obedecer a uma ordem quieta: o golpe que deveria ser diagonal virou reto; o passo que deveria recuar avançou; o feixe de Aeson que deveria curvar endireitou. Ker não sorriu. Só assinou no ar com a ponta do indicador:
— Assento de Quer.
Foi a primeira vez que o mosaico sentou alguém. As pernas de Aeson cederam, e ele caiu de joelhos, não por dor, por decreto.
— Ajoelhar não é morrer — disse Ker. — É aceitar a forma.
— Eu não aceito forma nenhuma — Aeson rosnou, empurrando a Taça para o alto. O feixe subiu. — Coluna do Cálice!
A luz fincou no teto de fios, e uma parcela deles se queimou num estalo seco. Ker baixou o olhar, minimalmente contrariada. A mão desenhou outra letra no ar.
— Deferro.
A palavra invisível puxou a marca da mão de Shaina. A linha cinza ardeu e fez o braço falhar um milímetro. Ker entrou por esse milímetro como faca.
— Corte Fatal.
A lâmina de fio veio baixa. Yuzuriha travou o tornozelo de Shaina com telecinese, impedindo a queda, e, no mesmo gesto, girou o próprio corpo para interceptar. O fio cantou na borda do tecido, abrindo uma lasca no cabo.
— Ela envenena o futuro e colhe o golpe — disse Mei, entre dentes. — Então tomem emprestado outro futuro.
— Como? — Sonia.
— Criem ruído — Aeson. — Tirem o “tom” dela.
Shaina fechou os olhos um instante. A presença de Athena, longe, virou uma maré retraindo. Aqui, a deusa não ajudaria. A lembrança de Odisseu não vinha como voz, vinha como gesto. Pare o sangue. Ela cruzou os dedos no ar. Dois anéis do Laço da Serpente se formaram não em Ker, mas nas linhas do chão. Prenderam o cenário por meio segundo.
— Laço da Serpente!
Ker inclinou a cabeça, surpresa real pela primeira vez. Os fios que desciam obediência ao teto titubearam ao ver o chão preso. Foi meio segundo. Mas meio segundo, com cinco lutando, é uma vida.
— Garras do Trovão! — Shaina entrou, alto.
— Pena Cortante! — Yuzuriha cruzou, baixo.
— Cristal de Puro Cosmo! — Aeson travou, centro.
— Portão da Purificação! — Mei fechou, retaguarda.
— Dilaceração Invertida! — Sonia segurou o ruído por fora.
Os golpes bateram onde deviam bater. O manto de Ker rasgou numa faixa do ombro ao quadril. A pele por baixo não sangrou. Ficou marcada por um brilho escuro, como metal quente sob verniz.
Ker recuou três passos. Não de dor — de cálculo. Os fios do céu tremiam como harpa tocada por dedos nervosos. Ela olhou para cada um como quem marca uma página.
— Vocês não são peões, nem torres comuns — disse. — São anomalias. O tabuleiro erra pouco… mas erra.
— E você? — Sonia devolveu. — Vai errar bastante hoje.
— Eu não erro — disse Ker. — Eu escolho.
Abriu as mãos. Cinco fios desceram, um para cada rosto.
— Timbre de Átropos.
Os fios não cortaram. Carimbaram. Um toque na testa, gelado e instantâneo. Shaina viu um lampejo: ela, sozinha, em uma sala vazia, sem máscara, segurando o nada. Yuzuriha se viu num bosque onde o vento não respondia. Aeson se viu com a Taça vazia. Mei, diante de um portão fechado que ele mesmo não podia abrir. Sonia, em um espelho sem reflexo.
— Marcas — disse Ker. — Quando eu quiser, cada uma será verdade.
— Retira — rosnou Mei.
— Cobre — disse Aeson.
— Quebra — disse Shaina.
Ker fez “não” com a cabeça. — O destino não se tira. Se vence o instante antes de ele cair.
Ela ergueu o braço para um ataque maior. A densidade do ar mudou; os fios do teto se alinharam num feixe único. O mosaico riscou todas as diagonais ao mesmo tempo.
— Veredito Final.
— Espalhem! — gritou Mei.
Todos obedeceram sem pensar. Não foi fuga — foi desafinação. Cada um deu um passo fora do ritmo, cada cosmo soou em tom levemente diferente. O feixe perdeu a pureza. Em vez de uma lâmina perfeita, virou uma chuva de facas tortas. Doeu — cortes curtos e fundos, ardendo nos antebraços, ombros, coxas — mas ninguém caiu.
Ker baixou a mão, impassível. — Vocês aprenderam rápido.
A pedra sob seus pés estalou. Um círculo mais escuro apareceu, como quando um copo deixa marca na mesa. Ela olhou para a marca e, pela primeira vez, seu rosto mudou de verdade. Não por medo — por irritação.
Algo olhava o campo, de fora. Não era Athena. Não era Justitia. Não era o tabuleiro.
— Chega por hoje — disse Ker, seca. — O rei vai se mexer.
— Quem é o rei? — Yuzuriha.
Ker virou-se meio perfil. — O único que não nega a serpente quando ela oferece cura.
Shaina sentiu a armadura ferver por dentro, como se as escamas quisessem nascer. Uma lembrança quase inteira ameaçou abrir: mãos antigas, cobras, um nome proibido. Ela mordeu a bochecha para não perder o foco.
Ker ergueu dois dedos. Os fios subiram como se ninguém os tivesse puxado. O mosaico apagou metade das linhas prateadas. O vento calou.
— Ainda marcarei mais — disse Ker. — E, quando a marca cair, um de vocês deixará de ser.
Ela recuou um passo, foi engolida pelo rasgo por onde viera, e o selou como quem fecha um livro.
Sobraram o silêncio, o cheiro de ferro no ar e as marcas nas testas — frias, finas, como se alguém tivesse tocado com gelo e depois apagado o dedo.
— Todos inteiros? — Mei.
— Inteiros — Yuzuriha respondeu, mesmo pálida.
Aeson olhou para a Taça. A luz dentro mudou de tom — mais opaca. — Se formos contra Athena, perdemos o cosmo que nos resta.
— Então não seremos contra — disse Sonia, apertando a marca com a ponta do dedo. — Seremos além.
Shaina respirou fundo. A linha na mão ainda ardia. A marca na testa, fria. Por trás de tudo, um sussurro que não vinha do tabuleiro roçou o ouvido dela: não voz, gesto. Cobras cruzando. Pare o sangue. Depois, pare a luta.
— Ele está por perto — disse Shaina, sem perceber que falava. — Eu sinto.
Ninguém perguntou “quem”. Todos sabiam que certas respostas chegam antes das perguntas.
O teto cinza estalou, bem alto, como a casca de um ovo que se racha sem quebrar. E, pela primeira vez desde que entraram no domínio de Ker, o ar cheirou a algo que não era ferro: mirra. Ou era só a lembrança disso. Tanto faz. Mudou.
— Reagrupem — Mei ordenou. — Ela volta logo.
Eles se juntaram, punhos fechados, olhos no alto. O mosaico, por um instante, refletiu cinco figuras de pé apesar das marcas.
E acima deles, escondido entre dobras de sombra, algo esperava o segundo certo de descer.
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