Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras
28 O Despertar Divino de Samael
Notas iniciais
O salão era um disco branco perfeito, sem colunas, sem portas, sem teto visível. O chão tinha um brilho leve, quase de pedra polida, e o ar era limpo, frio, sem cheiro de ferro ou poeira. Shaina foi a primeira a testar a borda: o espaço curvava, mas nunca se abria; cada passo lateral devolvia ao centro, como numa arena feita para que ninguém fugisse.
— Atenção — disse Mei, baixo. — Ker recuou, mas isso aqui cheira a teste.
A luz adensou alguns passos adiante e tomou forma humana. Athena surgiu como Saori: cabelos castanhos, olhar firme e calmo, o corpo envolto por um vestido claro, simples, que parecia emitir sua própria claridade. Não havia ferimentos, nem cansaço evidente. Só uma serenidade que prendia a atenção sem esforço.
— Vocês chegaram longe — disse, a voz a meio caminho de carinho e sentença. — Mas aqui, a missão que conhecem acaba. Eu não preciso ser protegida; não aqui.
Sonia cruzou os braços, sem esconder a desconfiança. — Então por que estamos diante de você?
— Porque o tabuleiro me usou para manter seus cosmos acesos neste lugar — respondeu Athena, sem rodeios. — Eu os alimentei até agora. Se escolherem continuar… eu retiro a bênção.
A frase veio com uma onda de luz que atravessou o salão e tocou cada um. A sensação foi instantânea: o cosmo de Shaina vacilou; o de Yuzuriha encolheu; a Taça de Aeson perdeu brilho; o Portão de Mei esfriou por dentro; o ruído de Sonia ficou difuso.
— Ela está tirando o nosso cosmo — disse Yuzuriha, já abrindo os pés para compensar a vertigem.
— Eu não posso ajudar vocês contra mim — disse Athena, serena. — A escolha é de vocês. Fiquem… ou avancem sem mim.
Shaina respirou em quatro tempos para estabilizar o corpo. — Se não há mais “proteger”, então o que há?
— Sobreviver — disse Athena. — E pagar o preço de cada escolha.
O silêncio que veio depois não foi vazio: foi pesado. Cada um sentiu, por um segundo, o que seria lutar sem cosmo naquele lugar. Mei tentou acender uma chama no peito e mal conseguiu um fio. Aeson ergueu a Taça e viu a luz se apagar como se alguém soprásse a vela. Sonia estalou os punhos e sentiu os golpes “afundarem” no ar.
Foi quando o chão vibrou, primeiro leve, depois como uma batida lenta de tambor. Algo deslizou nas bordas do disco — muitas coisas. Cobras. Saíam de frestas que ninguém viu, contornando a arena em círculos alinhados, silenciosas, os olhos acesos num verde úmido. O ar mudou de temperatura e cheiro; não era ferro, não era mirra — era terra molhada, como se um jardim proibido tivesse sido aberto.
No centro do disco, a luz se dobrou como tecido empurrado de baixo para cima. Dali surgiu Odisseu.
Ele caminhou dois passos e parou. A presença dele fazia o espaço parecer menor. A armadura… Shaina prendeu o ar. Era Ofiúco, mas não a versão que ela vira quando criança em livros velhos, nem a que tinha sentido pulsar nele no início do tabuleiro. Esta era evoluída: placas douradas polidas como lâminas, ombreiras erguidas com serpentes em relevo enrolando até a clavícula; elmo aberto em formato de cabeça de cobra, sem cobrir o rosto, com presas estilizadas marcando as têmporas; peitoral largo estampado com o símbolo de Ofiúco em alto-relevo; braceletes com escamas gravadas; a cintura cingida por uma cauda dupla que descia e se cruzava como faixa viva ao redor das coxas; grevas com linhas serpentinas até os joelhos; uma capa curta, irregular, que ondulava com qualquer movimento, presa por broches de serpente dourada. Nas bordas das placas, corriam runas finas, não desenhadas — vivas —, como se cada letra respirasse.
— Sempre foi um jogo de peças — disse Odisseu, voz firme, sem esforço. — E o rei estava aqui o tempo todo.
A palavra rei cortou o ar. Aeson avançou meio passo por reflexo, mas Shaina levantou a mão. Seus olhos não desgrudavam da armadura — e a armadura dela respondeu. Um eco interno, instintivo, a ponto de os dedos formigarem.
— Odisseu… — disse, quase num sussurro.
Ele não olhou para Athena. Olhou para os cinco. — Vocês caminharam sem pedir licença às linhas. Disseram “não” à eternidade fácil. E recusaram o destino desenhado por mãos velhas. — Abriu os braços. — Então recebam o que é de vocês.
As cobras avançaram. Cada uma saltou com velocidade impossível e mordeu a pele exposta de um dos cinco: ombro de Shaina, punho de Aeson, antebraço de Mei, clavícula de Yuzuriha, base do pescoço de Sonia. A dor foi aguda, metálica, seguida de uma onda quente subindo a espinha e explodindo atrás dos olhos.
— Despertar Divino de Samael — disse Odisseu. — O veneno mata o que vocês foram, e desperta o que podem ser. — Os olhos viraram duas facas calmas. — A partir de agora, o cosmo de vocês não depende de Athena. É próprio.
Athena fechou os olhos, resignada. — Eu não impedirei.
O chão tremeu sob as botas. Shaina sentiu o cosmo nascer de dentro, não como chama alimentada de fora. Era outra textura, outro peso. Os contornos da armadura de prata se desfizeram em linhas de luz e foram substituídos por placas douradas. Em segundos, ela estava trajando uma versão que espelhava a de Odisseu: ombreiras com serpentes em relevo, elmo em cabeça de cobra aberto, símbolo de Ofiúco no peitoral, braceletes escamados, cauda dupla na cintura formando uma saia viva, grevas trabalhadas, e a capa curta, irregular, presa por broches serpentinos. A diferença estava no tom: o dourado dela tinha nuance violácea em bordas e escamas, um brilho mais agudo, como relâmpago preso no metal.
Shaina fechou os punhos. O som não foi de metal comum; foi de escama. O cosmo subiu como raio que encontra caminho próprio. — Eu… sinto — disse, e o verbo não explicava.
— Vistam-se do que são — disse Odisseu, olhando os outros.
Sonia se endireitou. As bordas negras da antiga aura caótica sumiram. A armadura dela tomou forma de Escorpião refinado: vermelho-escarlate limpo, placas justas e elegantes, ombreiras em ponta, ferrão dobrado como adaga curta preso à lombar, garras discretas nos punhos — força sem ruído. Yuzuriha recebeu asas translúcidas de energia azulada sobre placas prateadas-esmeralda, o tecido agora bordado a traços de constelação que se acendiam quando ela respirava. Aeson viu a Taça em seu peitoral virar cristal líquido, irrigando veios dourados por toda a armadura; a viseira formou um arco suavemente curvado, como lábio de cálice. Mei ganhou um peitoral cruzado por uma mandala discreta nas costas — o selo do Portão —, e as placas escureceram no centro, com a borda dourada, parecendo absorver luz para depois devolvê-la.
— Testem — disse Odisseu.
Yuzuriha ergueu o braço. A asa espiritual respondeu ao pensamento e sustentou o corpo um palmo no ar sem esforço. Aeson abriu a mão e o Cristal de Puro Cosmo se formou sem pedir permissão a bênção alguma. Mei sentiu o Portão da Purificação existir antes do gesto, como músculo que respondeu antes da ordem. Sonia virou a mão e o ferrão prendeu na palma, pronto, leve, exato. Shaina ergueu os dedos e o Laço da Serpente desenhou dois anéis perfeitos — nenhum tremor, nenhum atraso.
— E agora? — perguntou Aeson, encarando Odisseu. — Você nos deu isso para… enfrentar as rainhas? Ou você?
Odisseu caminhou em arco, devagar, o som das grevas inconfundível. As cobras que cercavam o anel se ergueram até a altura do joelho, como guarda silenciosa.
— As três rainhas são pilares — disse ele. — Não caem com truques. Caem quando alguém lhes mostra um cosmo que elas não podem medir. — Parou. — Eu ofereci a vocês medida nova.
— E o preço? — Mei foi direto.
Odisseu sorriu de canto. — O preço é querer existir depois. E existir contra o que mantinha vocês de pé. — O olhar pousou em Shaina. — Você consegue?
Shaina apertou os punhos. Pensou em Marin, em Cassius, no toque de Ormenos, na máscara quebrada que ecoava de outro mundo, na serpente dos sonhos — e na armadura que agora vestia, tão próxima da de Odisseu que quase doía. — Consigo.
Athena deu um passo. A luz dela ficou um tom mais fria. — Se caminharem contra mim, o cosmo que vocês ganharam não será afetado. Mas eu não serei seu abrigo.
— Ninguém aqui quer abrigo — Sonia respondeu, sem ironia.
Odisseu abriu os braços. As cobras alinharam no chão, formando uma espécie de assento vivo. Ele se sentou, natural, como quem sempre pertenceu àquela posição.
— Então escutem a última regra deste nível — disse, e a voz preencheu o disco sem eco. — Rainhas não caem sozinhas. Vocês as pressionam. Eu, o rei, decido o final. — Inclinou levemente a cabeça. — E o meu final é só um.
— Qual? — Aeson.
— Vencer Athena — disse Odisseu, simples.
O silêncio que veio depois não foi de choque; foi de aceitação do tamanho do problema. Yuzuriha ajeitou a postura, asas recolhidas. Mei mediu o centro da arena com o olhar. Sonia conferiu a empunhadura do ferrão. Aeson testou um arco da Maré da Taça no ar e viu que a curva obedecia. Shaina, sem tirar os olhos de Odisseu, sentiu o coração bater no tempo certo.
— Se vamos enfrentar as rainhas — disse ela —, enfrentaremos juntos.
— Sim — disse Odisseu. — Por uma rodada. — Os olhos brilharam. — Depois… vocês enfrentam a mim.
A borda do disco escureceu como se a noite mordesse o branco. Três portais rasgaram o ar, um ao lado do outro, altos como portões de templo. Dentro de cada um, uma cor: dourado sereno, cinza-azulado e negro profundo.
— Athena. Justitia. Ker. — Odisseu apontou, de leve, com um aceno de queixo. — Escolham o primeiro passo.
Ninguém se mexeu por um segundo. Então Shaina ergueu a mão. — Ker primeiro. Ela já nos marcou.
— Concordo — disse Mei.
— Fechamos a conta dela — disse Sonia.
— Vamos — Yuzuriha.
Aeson respirou, assentindo. — Um de cada vez, todos juntos.
Eles se alinharam. Odisseu recostou no trono vivo, os olhos sem piscada.
— Mostrem-me se o veneno escolheu certo.
Shaina deu o primeiro passo. A armadura de Ofiúco dela brilhou como ouro recém-despertado — ombreiras serpentinas altas, elmo de cabeça de cobra aberto, símbolo de Ofiúco pulsando no peito, cauda dupla firme à cintura, capa curta agitando no tornozelo. Parecida com a armadura dele, sim. Pronta como a de um ouro.
Os cinco cruzaram o portal negro.
Odisseu ficou, e apenas quando eles desapareceram, falou baixo para a arena vazia:
— O rei moveu. Agora, vejam se sabem responder.
A luz do disco diminuiu um grau. Athena, no limite do salão, fechou as mãos como quem reza por um inimigo. E o tabuleiro, paciente, girou a próxima página.
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