Notas iniciais
Os cavaleiros são arremessados em um outro nível. Enquanto isso, peças maiores sussurram pelos cantos.

A escuridão durou tempo demais para ser um simples piscar. Depois, veio um vento curto, um cheiro de ferro e poeira, e então o chão se firmou sob dois pares de botas.

Yuzuriha abriu os olhos primeiro. O teto era alto, sustentado por colunas que lembravam patas de um animal gigantesco. As paredes tinham marcas em ferradura. Escutava-se, distante, um som de cascos batendo. Ela virou o rosto.

— Aeson?

Ele estava sentado, encostado na base de uma coluna, respirando devagar. O olhar, que antes tinha pressa, agora era fundo e parado. Parecia ver longe, para além do que estava ali.

— Estamos… no nível do cavalo — disse Yuzuriha, levantando-se. O manto caiu sobre os ombros e ela o ajustou como quem prende as próprias ideias no lugar. — Consegue ficar de pé?

Aeson assentiu e se ergueu sem pressa. O modo como apoiou os pés no chão parecia ensaiado, como se ele tivesse praticado cada gesto por séculos.

— Como está? — ela insistiu.

— Com tempo — ele respondeu, simples.

Yuzuriha segurou a língua. O efeito da prisão de Tokisada ainda estava nele. Aquilo não ia sumir. Talvez nunca.

A sala era de pedra clara, com corredores abrindo em quatro direções. Não havia portas, só passagens inclinadas. No centro, um mosaico mostrava um cavalo em movimento, quebrado em ângulos. Parecia sempre no meio de um salto.

— Odisseu nos separou — Yuzuriha disse, analisando as saídas. — Ele nos tirou do nível anterior à força. Isso aqui é outra camada, outro ritmo. E sem ele por perto, vamos ter que improvisar.

— Ele ainda está lutando — Aeson falou, sem emoção. — Ou lutou. Ou terminou. Os três verbos cabem.

— Ótimo. Então ficamos com “não sabemos”, por enquanto. — Ela inalou o ar. Tinha gosto de metal. — Vamos nos mover. Ficar parado, aqui, é pedir para uma peça maior pisar na gente.

Saíram pelo corredor à esquerda. O piso irregular obrigava a apoios diagonais. Yuzuriha seguiu na frente, leve, o manto cortando o silêncio. Aeson acompanhou, mais calmo do que antes, mas preciso. A cada bifurcação, o mosaico no chão repetia a ferradura como um aviso: nada de frente, sempre de lado.

Em outra sala, mais escura e mais baixa, Shaina acordou com a mão instintivamente na couraça. A Armadura de Ofiúco respondeu com um pulso seco, como um “estou aqui”. Ela se levantou de um salto. No teto, cordões de pedra pendiam como espinhos. No chão, as mesmas ferraduras riscadas. Havia uma luz azul fraca vindo de rachaduras nas paredes.

— Mei? — chamou.

— Aqui. — Ele saiu de trás de um pilar, limpando poeira do ombro. — Dois andares do tabuleiro em um só capítulo. Estamos subindo rápido.

— Não por escolha. — Shaina apertou os punhos. O toque do metal trouxe calma. — Consegue sentir o cosmo do Odisseu?

Mei parou, fechou os olhos por um segundo, depois abriu e deu de ombros.

— Não. E, honestamente, é melhor considerar que ele não está disponível. Se aparecer, ótimo. Se não, a gente precisa andar.

Shaina assentiu. A armadura pulsou mais uma vez, um tique fraco que lembrava o eco de passos que já foram. Ela inspirou fundo e seguiu para a abertura mais estreita, sem esperar a opinião do ambiente.

— Esse nível é feito para quebrar grupo — Mei comentou, observando as setas desenhadas nas paredes. — Saltos, diagonais, ataques por flanco… Cavalos. Combina com quem pula regras.

— Combina com problemas — Shaina rosnou. — Vamos.

Caminharam em silêncio. A cada curva, Shaina sentia a mesma coisa: o mundo tentando empurrá-los para um padrão de movimento que não era o deles. Ela forçava o corpo a não ceder. Chute baixo, base firme, respiração curta. Nada de inventar.

— Você está pensando nele — Mei disse, sem olhar para ela.

— No Odisseu? — Shaina não fingiu. — Sim. Ele me deve respostas. Mas eu não espero respostas de quem não quer dá-las. Eu cobro no ringue.

— Boa. — Mei sorriu de canto. — Então vamos achar um ringue.

Bem acima daquele labirinto, onde o tabuleiro parava de fingir que era pedra e virava ideia, três tronos esperavam. O do centro era de mármore negro, liso como espelho. À esquerda, um trono claro com olhos vendados entalhados nos braços. À direita, um trono velado por um tecido translúcido que escondia mais do que mostrava.

Ker chegou primeiro. A presença dela apagou todos os pequenos ruídos do lugar. Não havia vento, não havia eco. Só ela e o silêncio que trazia.

— O primeiro nível foi apagado — disse, sentando-se sem cerimônia. A voz dela soou como um sino coberto. — Xeque-mate. Sumiu.

Justitia, no trono claro, ergueu a cabeça. A venda entalhada nos braços parecia encará-la.

— Confirmo — ela disse. — Não há registros. Não há peso, não há passado. Foi como se aquele nível jamais tivesse existido.

O véu da terceira rainha ondulou, mas nada mais. A figura encoberta não falou.

Ker continuou, com um sorriso curto, quase satisfeito:

— Derven, Subaru, Jan e Tokisada… todos fora do espaço-tempo. Removidos da história. Nem destino, nem memória. Nem para deuses, nem para homens.

Justitia fechou a mão no braço do trono. O gesto era discreto, mas estava lá.

— Um xeque-mate apaga o tabuleiro parciais, não as regras. — Ela soltou. — A partida continua.

— Sempre continua — Ker respondeu, inclinando o rosto de leve para o trono velado. — E algumas peças se movem melhor quando a casa fica vazia.

A figura encoberta não reagiu. Preferiu o silêncio. Ker assentiu, como quem recebe permissão tácita.

— Então que corram — ela disse, divertida. — Estão no nível do cavalo, não estão? Hora deles aprenderem a pular.

No labirinto claro, Yuzuriha e Aeson pararam diante de um salão mais amplo. No centro, uma plataforma quadrada com bordas altas. Em volta, quatro portas, cada uma com uma ferradura entalhada virada para um lado.

— Arena — Yuzuriha disse. — De teste, de mostra, de caça… tanto faz. Vai chamar alguma coisa.

— Já chamou — Aeson falou, olhando para cima.

Da sombra do teto, algo caiu sem barulho: não era um Lúcio, não era um cavaleiro comum. Era uma peça do tabuleiro — uma estátua com armadura incompleta, sem rosto, movida por um comando ausente. Avançava em zigue-zague, travando e destravando como um relógio quebrado.

Yuzuriha puxou o manto. O tecido cortou o ar como lâmina e arrancou um pedaço do braço do boneco. Ele não reagiu à dor (não existia dor), só reajustou o ângulo e veio de novo, agora pelo flanco.

— Não tem cosmo — Aeson disse, calmo. — Engrenagem oca.

— Oca morde — Yuzuriha respondeu, chutando o joelho da peça para dentro, travando a base. O boneco caiu de lado. Aeson completou com um soco curto no centro do peito, afundando a couraça. A coisa parou.

— Foi fácil demais — Yuzuriha avaliou. — Só para aquecer.

A porta à frente abriu com um rangido longo, como quem concorda.

— E vamos pular — Aeson disse, seguindo.

No corredor escuro, Shaina e Mei encontraram o mesmo tipo de plataforma, mas menor e cercada por correntes no chão. Havia marcas de batalha nas paredes. Aquilo já tinha sido usado. Shaina pisou na borda. O metal das correntes vibrou.

— Isso aqui está vivo — ela disse.

— Ou faminto — Mei completou, tocando um dos elos com cuidado.

Da abertura oposta, luz e ruído. Dois bonecos iguais ao que Yuzuriha enfrentou, mas reforçados, avançaram em diagonal. Shaina não esperou. Entrou no meio dos dois, chute baixo no primeiro, giro no calcanhar e “Garras do Trovão” no segundo, descarregando o golpe no peito vazio. O estalo ecoou como um trovão em sala fechada. O boneco voou contra a parede e trincou até o pescoço.

— Bonito — Mei disse, já passando pelo primeiro com dois golpes secos nos pontos “mortos”: base de pescoço e centro de peito. Caiu também.

— Esses são só o corredor — Shaina falou, recolhendo a guarda. — O cavalo de verdade não é isso.

— Concordo. — Mei apontou para cima. Havia uma sombra do tamanho certo, parada, observando. — E está olhando.

— Ótimo. Que desça.

A sombra recuou. Não tinha pressa.

No salão das rainhas, Ker cruzou as pernas, divertida com o próprio anúncio.

— A propósito, uma mudança de patente aconteceu no choque anterior — ela disse, como quem comenta o clima. — O cavalo “virou” torre, a torre “virou” cavalo. Troca legítima. Pena que o xeque-mate apagou o tabuleiro todo antes de eu poder guardar o registro como lembrança.

— A troca influenciou a saturação — Justitia respondeu. — O tabuleiro subiu o grupo para evitar travamento. Decisão automática.

— Automática com a nossa assinatura — Ker sorriu. — Ninguém sobe sem que uma de nós… concorde.

O véu ao lado moveu-se um pouco, como brisa. Nada foi dito.

Ker bateu de leve com a unha no braço do trono.

— Vamos ver se eles aprendem a saltar sem quebrar as pernas.

Yuzuriha e Aeson chegaram a um terraço que dava para um pátio aberto. O céu ali era um teto de engrenagens, e, de vez em quando, uma peça no alto se soltava e voltava ao lugar certo sozinha. Aeson parou, observando o movimento com interesse calmo.

— Eles querem que a gente erre o tempo — disse. — Que chute antes ou depois. Quem chuta no segundo errado… cai.

— Eu não caio — Yuzuriha respondeu, firme.

— Eu também não. — Ele olhou para ela. — Mas posso demorar.

— Então eu pulo primeiro.

Ela correu. O pátio tinha ilhas de pedra, cada uma deslocada da outra por um passo “em L”. Yuzuriha usou o manto como cauda de equilíbrio, pisou, girou, pisou, girou, até chegar à borda oposta. Um portão alto de ferro respirava, como se abrisse e fechasse com o bater de um coração. Ela tocou o metal. O portão acordou de vez.

Atrás, Aeson saltou. Nem rápido, nem devagar: no compasso dele. Cada apoio encaixou, como se o pátio tivesse esperado por aquela sequência por milênios. Ele chegou ao lado dela e encostou a mão no portão. O ferro entendeu que eram dois.

— Prontos? — Yuzuriha perguntou.

— Agora é um bom momento. — Os olhos dele tinham a tranquilidade de quem aceitou o calendário.

O portão abriu.

Shaina e Mei avançaram por um corredor estreito que desaguava numa sala circular. Havia três saídas, todas trancadas por grades em forma de ferradura. No centro, um pedestal com um tabuleiro pequeno entalhado na pedra. Vazio.

— É isso — Mei disse. — Posição de cavalo. A sala espera o salto.

— Então salta — Shaina respondeu, e pisou no quadrante diagonal.

As três grades subiram ao mesmo tempo. O ar mudou. Alguém batia passos do lado de lá. Não bonecos. Passos de gente.

— Finalmente — ela sussurrou, abrindo um sorriso de canto.

O primeiro a entrar trazia uma capa curta e uma máscara sem expressão, com dois cortes onde deveriam estar os olhos. A armadura era irregular, como se tivesse sido montada às pressas com peças diferentes. Ele não falou. Circulou em “L” antes de parar na frente de Shaina.

— Eu luto — Shaina avisou. — E eu cobro.

Ele inclinou a cabeça, como quem aceita.

— Vem.

Ninguém sabia onde Odisseu estava. Nenhuma parede dizia. Nenhuma sala revelava. O tabuleiro, porém, lembrava. E, em algum lugar entre uma casa e outra, entre um segundo e o seguinte, um par de passos caminhava como se a pressa fosse outra peça.

Muito acima, no escuro que fica atrás das colunas, uma máscara dourada brilhou. O reflexo tremeluziu como sol batendo em água.

— Odisseu — disse Ormenos, o Silente, com a boca quase imóvel. O nome ficou pendurado no ar. — Jogue.

Notas finais
O grupo está em dois flancos do Nível do Cavalo: Yuzuriha e Aeson passam pela arena de saltos; Shaina e Mei abrem a sala do primeiro adversário “vivo”. Acima, Ker confirma que o nível anterior foi apagado: Derven, Subaru, Jan e Tokisada não existem mais. Odisseu não aparece, mas o tabuleiro reage como se ele ainda movesse algo entre as casas. No próximo capítulo, o primeiro cavalo adversário entra em cena — e o salto errado não perdoa.