Notas iniciais
O brilho dourado de Mei iluminou o salão enquanto Minos de Grifo Dourado desaparecia em luz, derrotado. A ascensão de um novo Cavalo parecia um avanço, mas a vitória durou pouco. Nix, surgindo das sombras, julgou Sonia como fraca e se preparou para eliminá-la. No último instante, Shaina se colocou à frente, recebendo o golpe mortal. Agora, enquanto o corpo imóvel da amazona repousa no chão, a tensão se espalha. Em outro ponto do tabuleiro, Yuzuriha e Aeson enfrentam Sorento de Virgem Despedaçado. Mas o Aeson que surge diante do inimigo não é o mesmo de antes — e nem o que seus companheiros esperam reencontrar.

O corredor onde Yuzuriha e Aeson caminhavam parecia se estender infinitamente, as paredes decoradas com relevos distorcidos que lembravam figuras humanas presas no tempo. Passos firmes ecoavam, quebrando o silêncio — não o de Aeson, mas de Sorento, que avançava lentamente, a armadura quebrada em simetrias irregulares, como se tivesse sido recomposta várias vezes.

— Então… — Sorento ergueu o olhar, a voz carregada de um desprezo frio. — O tempo trouxe vocês até mim.

Yuzuriha ajustou a postura, mas Aeson ergueu a mão para que ela recuasse.

— Deixe comigo. — Sua voz não tinha a mesma energia de antes. Era baixa, mas carregada de uma calma estranha, quase inquietante.

Sorento riu de leve.

— Acha que pode me enfrentar sozinho? Ou melhor… acha que ainda é o mesmo, depois de ter provado o vazio?

O olhar de Aeson não vacilou.

— Eu não sou o mesmo. — Ele fechou os olhos por um instante. — E é por isso que vou vencer.

O ar se encheu de cosmo. Sorento avançou primeiro, sua aura criando rajadas que distorciam a luz ao redor. Mas, para surpresa dele, Aeson se moveu antes que o golpe pudesse alcançá-lo, desviando com uma precisão quase impossível. Seus movimentos eram rápidos, porém calculados, como se cada passo já tivesse sido ensaiado milhares de vezes.

Yuzuriha observava em silêncio, o coração acelerado. A última vez que vira Aeson lutar, ele ainda era impulsivo, direto… Agora, cada gesto dele parecia fruto de uma paciência mortal.

Sorento lançou uma sequência de golpes, mas Aeson apenas ergueu o braço, bloqueando com um escudo de cosmo que vibrou como cristal.

— No vazio, não havia nada além de mim… e do meu cosmo. — Aeson avançou, atingindo Sorento no peito com um golpe que reverberou pela sala. — Eu tive tempo… mais do que qualquer ser deveria ter.

Sorento cambaleou, surpreso.

— Isso… não é possível.

— O tempo é só mais uma prisão… — disse Aeson, seu cosmo expandindo até cobrir todo o chão da sala. — E eu aprendi a quebrar grades.

O golpe seguinte foi devastador. Uma onda de energia pura, concentrada, atravessou o corpo de Sorento, despedaçando fragmentos da armadura e fazendo-o cair de joelhos. Antes que pudesse reagir, Aeson aplicou o golpe final, encerrando a luta.

Yuzuriha correu até ele, o rosto iluminado por um raro sorriso.

— Você… mudou tanto.

— E vou mudar mais. — Aeson respondeu sem desviar o olhar de onde Sorento havia desaparecido em luz. — Aqui, só sobrevive quem evolui.

Enquanto isso, na sala de Mei, o silêncio era pesado. O corpo de Shaina estava caído, imóvel. Sonia recuava, ainda tentando entender por que a amazona tinha se sacrificado por ela. Mei se ajoelhou ao lado de Shaina, a respiração acelerada.

— Não… — ele murmurou, sentindo o cosmo dela quase desaparecer.

Mas então, algo aconteceu. A armadura de Ofiúco começou a emitir um brilho dourado intenso, banhando todo o salão. O ar se encheu de calor, e as rachaduras na armadura se fecharam sozinhas, como se fossem costuradas por fios de luz. Os ferimentos no corpo de Shaina começaram a desaparecer.

Sonia deu um passo atrás, os olhos arregalados.

— Isso… não é possível.

Dentro de sua mente, Shaina despertava em um lugar que não reconhecia. Havia apenas um campo dourado infinito, e o som de uma respiração profunda que não vinha de nenhum lado específico. Ela sentia a armadura vibrar sobre sua pele, como se fosse um coração vivo.

E então, uma sensação conhecida: a presença de Odisseu. Ela não o via, mas sentia o mesmo peso e calma implacável de antes. Ao mesmo tempo, uma dor aguda atravessou seu corpo, como se uma flecha invisível a tivesse atingido. Sua mente voou para um momento distante — o instante em que se jogara na frente de Poseidon para salvar Seiya, sentindo a ponta de uma flecha perfurar seu corpo. A mesma sensação. A mesma força.

— Você não pode parar aqui… — a voz de Odisseu ecoou, firme.

O campo dourado desapareceu, e ela abriu os olhos. Mei e Sonia se inclinavam sobre ela.

— Shaina! — Mei exclamou, ajudando-a a se sentar. — Você estava morta.

Ela respirou fundo, ainda sentindo o peso daquela flecha imaginária.

— Talvez eu ainda esteja… em algum lugar.

O brilho dourado diminuiu, mas a energia dela continuava forte. Ela olhou para Sonia, que desviou o olhar, envergonhada.

— Eu… não teria feito o mesmo. — Sonia admitiu, a voz baixa.

Shaina não respondeu, mas havia algo nos olhos dela que dizia que ainda não havia desistido daquela mulher.

De volta ao corredor de Yuzuriha e Aeson, um leve tremor percorreu o chão. A voz de Ker ecoou distante, como se atravessasse as paredes do tabuleiro.

— Xeque-mate no primeiro nível. Todas as peças inúteis… apagadas.

Yuzuriha sentiu um arrepio.

— O que ela quer dizer com “apagadas”?

Aeson olhou para a frente, o rosto impassível.

— Que alguns não existem mais. Nem mesmo na memória do tabuleiro.

O silêncio voltou, mas dessa vez, o peso dele era diferente. Havia a consciência de que cada passo dali em diante poderia ser o último — não apenas no jogo, mas na própria existência.

Notas finais
Aeson retorna ao combate não como o homem que foi, mas como o guerreiro que o vazio forjou. Sua vitória sobre Sorento marca uma nova fase, enquanto Shaina, ressuscitada pela ressonância de sua armadura, reencontra forças que não entende completamente. Ker anuncia o apagamento do primeiro nível, e o peso dessa revelação se espalha. O tabuleiro continua, mas agora a luta não é apenas por vitória — é pela permanência na própria realidade.