Notas iniciais
No salão onde Minos caiu, Mei ascendeu a cavalo e a luz ainda mal havia sumido quando Nix apareceu para julgar Sonia. Shaina se jogou na frente do golpe e tombou sem vida, mas a Armadura de Ofiúco brilhou dourada e a trouxe de volta, como se respondesse a um chamado antigo. Em outra ala do tabuleiro, Aeson venceu Sorento com sangue-frio e mostrou que o tempo, em vez de quebrá-lo, o forjou. Agora, separados em corredores que dobram sobre si mesmos, os quatro precisam decidir o passo seguinte — e Sonia, com novos motivos, encara o próprio caminho.

O corredor parecia ter sido construído por ondas. O teto era uma curva escura e úmida; as paredes, lisas e brilhantes, refletiam os vultos como água parada. O silêncio que ficou depois da vitória de Aeson não era paz — era aqueles segundos depois da tempestade, quando o mar resolve se lembrar do peso que carrega.

Yuzuriha encostou a mão na parede e respirou fundo. O cosmo dela, que antes parecia uma chama leve, agora tinha um centro mais denso, firme. A luta com Izo deixara marcas, mas também certezas.

— Você está mesmo diferente — disse, quebrando o silêncio.

Aeson olhava para o chão, como se estivesse calculando o tamanho do corredor. O olhar estava mais profundo. Não era frieza; era foco.

— O vazio me ensinou uma coisa — respondeu. — Quando tudo some, você descobre o que sobra. O que sobrou em mim foi o cosmo… e um tipo de paciência que eu não tinha.

Yuzuriha soltou um sorriso rápido.

— Fico feliz de ver você assim. — A expressão, no entanto, logo ficou séria. — Mas não posso fingir que não estou preocupada. O tabuleiro não nos separa à toa. Se nos cortou assim, é porque quer testar a gente em frentes diferentes.

— E quer que a gente se perca no caminho — disse Aeson, assentindo. — Então vamos fazer o contrário. Vamos pensar como peças que jogam juntas.

Ele seguiu à frente, e Yuzuriha acompanhou com passos leves. O chão amortecia o impacto como areia molhada. A cada curva, novos reflexos devolviam as silhuetas dos dois, alongadas e tortas. A sensação era de que alguém observava, mas a “pessoa” parecia ser o próprio lugar.

— Eu vou tentar de novo — disse Yuzuriha, fechando os olhos. — Aquela ligação.

A telecinese dela era silenciosa por fora, mas o corpo todo ajustava a postura, como se o ar pesasse diferente. O pensamento procurou portas, fendas, fios. Por instantes, ela sentiu um lampejo: algo quente, uma luz que não era sua. Ofiúco.

“Shaina?”

A resposta veio como um toque em água morna: “Estou aqui… ainda aqui.”

A ligação se rompeu como um fio que estala. Yuzuriha abriu os olhos, um pouco zonza, e segurou o ombro de Aeson para não cair.

— Conseguiu? — ele perguntou.

— Por um segundo — disse, sorrindo. — Ouvi a Shaina.

Aeson respirou mais leve.

— Então vamos.

Do outro lado do tabuleiro, o ar tinha cheiro de poeira queimada. A luz vinha de fissuras no teto, como se uma mão gigante tivesse apertado a rocha até ela rachar. Mei estava de pé, atento; Shaina se levantava devagar, ainda sentindo o coração acompanhar o compasso estranho que o dourado deixara no peito.

A Armadura de Ofiúco não brilhava mais, mas o metal parecia mais “acordado”. A cada movimento, placas ajustavam milimetricamente o encaixe. Era como se a armadura respirasse junto dela.

Sonia os observava a poucos passos, as mãos cerradas, o queixo tenso. Os olhos, porém, não estavam nos dois — estavam virados para um lugar que só ela via: uma sombra com cabelo curto branco e pele de noite. Nix.

— Você salvou minha vida — disse, enfim, a Shaina. A voz saiu áspera, como quem não gosta da própria gratidão. — Eu não teria feito o mesmo.

Shaina não respondeu. O golpe de Nix ainda ardia numa memória que parecia recente demais. Ela ajeitou o ombro direito, testando a amplitude do braço.

— Não fiz por você — respondeu depois de um tempo. — Fiz porque ela não decide quem fica e quem cai. Eu não aceito.

Sonia riu, sem humor.

— Eu aceito que a culpa é toda dela. — O olhar ficou mais duro. — Eu nasci de um erro que Nix quis manter. Ela me fez para destruir e me jogou aqui como quem joga lixo numa fogueira. Eu não vou esquecer.

Mei deu um passo à frente, o tom ponderado, sem perder firmeza:

— Se a sua raiva está apontada para Nix, então temos um objetivo em comum.

— Não — cortou Sonia, rápido. — Vocês têm os objetivos de vocês. Eu tenho o meu. — Ela olhou para Shaina, segurando a palavra antes que ela saísse. — Obrigada. Mas não espere que eu caminhe do seu lado.

— Não vou pedir — disse Shaina, simples.

Sonia começou a andar em direção à sombra de um arco quebrado, mas parou com metade do corpo engolido pela escuridão.

— Vou apagar Nix — disse, sem virar o rosto. — Ela e os Lúcios. Todos. É a única forma de apagar o motivo da minha existência. Se vocês cruzarem meu caminho quando eu estiver atrás dela… que não atrapalhem.

E desapareceu.

Mei soltou o ar devagar.

— Vai voltar — disse.

— Talvez — respondeu Shaina. — Mas, se voltar, não vai ser por nós. Vai ser por ela.

Eles ficaram alguns segundos em silêncio. O espaço parecia ouvir.

— Eu continuo um peão, Mei — Shaina admitiu, por fim. — Isso me pesa. Eu… preciso evoluir.

— Você quase morreu e levantou. Isso, para mim, é mais pesado que um emblema de patente — disse ele, com um meio sorriso. — E, por sinal, a sua armadura acordou coisas que eu não entendo. Talvez subir de patente seja só questão de encontrar a luta certa.

— A luta certa, na hora errada — Shaina murmurou, lembrando de Geist, do passado que ainda não cobrara tudo. — Vamos.

Seguiram pelo corredor, atentos ao som do próprio passo.

Aeson e Yuzuriha chegaram a uma sala redonda. O chão era de pedra clara, mas riscado por linhas finas que se cruzavam, formando um desenho que lembrava um relógio desmontado. Ao centro, um pedestal baixo, liso; acima dele, nada. Era como se algo invisível estivesse pousado ali.

— Ele é bonito, o silêncio de vocês dois — disse uma voz. Não era eco; era presença. — Mas a beleza não corta carne.

A figura apareceu como quem sai de trás de uma cortina, embora não houvesse cortina alguma. O cabelo branco caía em mechas retas até os ombros; olhos violetas; armadura de prata com reflexos lilás, desenhada como se a lâmina tivesse riscado o metal de dentro para fora. No punho direito, uma espada de guarda minimalista, lâmina fina, longa: Vorpal.

Yuzuriha reconheceu primeiro, pelo incômodo frio que correu a espinha.

— Alice de Vorpal.

Alice sorriu sem mostrar os dentes.

— A própria.

Aeson deu um passo à frente, instintivo. A presença dela cortava o ar, literalmente. A sala, antes lisa, agora tinha microfissuras que não estavam ali dois segundos atrás.

— Bispo — ponderou Aeson, baixo, mais para si do que para ela.

— Ah, então você entende o jogo — disse Alice, brincando com a lâmina, a ponta quase encostando no chão. — Lindo. A Rainha vai gostar de vocês.

— Qual delas? — Yuzuriha perguntou, seca.

— A que corta mais fundo — respondeu Alice, como se tivesse dito que a chuva vem molhada. — Mas acalmem o coração. Não vim colher. Vim medir.

Ela desapareceu do lugar sem mover as pernas. No mesmo instante, reapareceu ao lado de Yuzuriha, a lâmina descendo em silêncio absoluto. Yuzuriha alçou o manto; o tecido cantou um assovio agudo, veloz, e desviou o golpe por um fio. O corte pegou o ar — e mesmo assim o ar sangrou: uma linha invisível riscou a parede a três metros, a pedra se abrindo como papel.

Aeson entrou com o corpo, punho fechado, mirando o flanco de Alice. Ela inclinou o tronco, mínima, e o soco passou, roçando a placa da cintura. Um choque seco, sem eco.

— Bom ritmo — disse ela para Aeson. — O vazio te deu isso, não deu?

— Deu relógio — respondeu. — Sem ponteiro.

Ele girou o quadril e engatou uma sequência curta, direta. Alice parou os dois primeiros com meia-guarda e, no terceiro, não bloqueou: abriu o peito, como se quem abrisse fosse o espaço. O golpe entrou… e sumiu. A mão de Aeson atravessou um vazio fino, um intervalo de dimensão. Ele perdeu o balanço por meio segundo — e meio segundo, contra alguém como Alice, é muito.

Vorpal veio de baixo para cima. Yuzuriha puxou Aeson pelo antebraço, fez o corpo dele deslizar pelo manto e rodou o tronco numa meia-lua. O fio da lâmina riscou o ar onde teria estado a carótida dele.

— Bonita dupla — disse Alice, com um brilho satisfeito no olhar. — Os bispos gostam de dança.

A espada chocalhou leve, como vidro batendo em vidro. Três cortes invisíveis surgiram no espaço e avançaram como rachaduras. Yuzuriha baixou o centro de gravidade, o tecido virou chicote; Aeson ergueu uma barreira de cosmo que estalou como gelo partindo. As rachaduras bateram e estouraram em estilhaços de vácuo, pequenas mordidas que tentavam devorar o que tocavam.

— Você não veio lutar até o fim — disse Aeson, aparando um quarto corte com o antebraço, o cosmo concentrado como uma placa translúcida.

— Vim lembrar que o fim não é hoje — devolveu Alice, encostando a lâmina no pedestal sem realmente tocá-lo. — Hoje é só o dia em que vocês descobrem o tamanho da própria linha do pescoço.

Ela escorregou o olhar para Yuzuriha.

— E você… a garça que virou vento. — Deu meio sorriso. — A Rainha tem convites para você. Depende do que você chamar de “sobreviver”.

— Eu chamo de andar com os meus — respondeu Yuzuriha. — E de achar a Shaina.

— Então guarde fôlego. — Alice girou a lâmina. A sala piscou. Ela estava, outra vez, onde tinha aparecido primeiro. — A próxima vez que eu vier, não vou medir. Vou escolher.

E sumiu. Não houve fenda, luz, fumaça. Num instante, estava; no seguinte, o desenho de relógio no chão tinha um risco novo — uma linha fina e lilás — e nada mais.

Aeson soltou o ar.

— Ela conhece a Rainha.

— Duas, talvez — disse Yuzuriha, passando a mão pelo corte raso que o manto ganhou. — E falou convite. Não gostei.

— Também não — assentiu Aeson. — Vamos achar os outros.

Mei e Shaina alcançaram um salão menor, aberto numa lateral, como se tivessem cortado um cilindro ao meio. No meio, um círculo de pedra gasto de tanto arrastar coisa pesada. E marcas. Muitas. Não eram só de luta. Eram de afiar lâmina, de arrastar armadura, de cair de joelhos.

— Lugar de espera — disse Mei, andando de lado, atento às sombras. — Peças ficam aqui quando o tabuleiro quer pensar o próximo passo.

Shaina se aproximou das marcas. Algumas pareciam antigas; outras, quase frescas.

— Sabe o que me irrita? — disse, meio rindo do próprio incômodo. — Continuo peão. O peso está nas costas. Quero subir. Quero… não ser arrastada pelo jogo.

Mei assentiu.

— A raiva ajuda a andar, mas não a mirar. — Ele apontou o queixo para a própria testa. — Mira aqui. A luta certa vem. E quando vier, você sobe.

— Eu lembro de alguém que não me deixava mirar — Shaina disse, pensando alto. — Ela me empurrava para o abismo até eu aprender a caminhar no ar.

— Quem?

— Geist.

O nome caiu como ferro no chão. O ar ficou um pouco mais frio. Mei abriu um sorriso curto, ciente do que o lugar fazia com nomes.

— Então mira nela quando chegar a hora.

Shaina ia responder quando um som atravessou o salão: um “tic” seco, igual a uma gota que cai de muito alto e encontra pedra. Depois, outro. E outro. Como se o tempo estivesse gotejando do teto. Eles se entreolharam.

— A gente não está só — disse Mei.

Do arco oposto, um vento frio soprou por dois segundos e morreu. Nada apareceu. Mas a Armadura de Ofiúco vibrou no peito de Shaina do mesmo jeito que vibrara perto de Odisseu. Uma ressonância conhecida — e desconfortável.

— Ele está perto — disse, sem certeza se falava de Odisseu ou de outra coisa mais antiga ainda. — Ou alguém que carrega o cheiro dele.

Mei preparou o cosmo, baixo e constante, como quem aquece a mão antes de abrir uma porta. Ficaram em guarda. O “tic” não voltou. O silêncio, sim. Silêncios desse tabuleiro tinham espessura.

— Vamos sair antes que essa sala resolva nos tornar móveis — disse Mei, meio sério, meio brincando.

— Vamos.

No caminho, Yuzuriha tentou a ligação mais uma vez. O esforço trazia flashes, não frases: o brilho dourado, uma serpente desenhando um oito no vazio, a sensação de que um arco esticado segurava a respiração do mundo.

— Senti a Shaina de novo — disse para Aeson, agora com o passo mais apressado. — E senti… flecha. Não sei explicar.

— Explica lutando menos e chegando logo — respondeu ele, acelerando. O corredor adiante se curvava para baixo e, depois, para cima, como se alguém tivesse desenhado uma onda e esquecesse de apagar.

— A gente vai conseguir juntar o grupo? — Yuzuriha perguntou, num tom mais próximo de pedido do que de dúvida.

— Vamos — disse Aeson, sem drama. — Porque o tabuleiro precisa que a gente se junte antes de nos separar de novo. É assim que ele brinca.

Um zumbido curto, fino, passou pela sala. Não era ameaça. Era anúncio. Algo — ou alguém — aprovava o raciocínio.

Shaina e Mei dobraram um corredor inclinado e chegaram a uma plataforma estreita que dava para um vazio branco. Ao fundo, como uma ilha, outra plataforma. Entre uma e outra, nada. A distância não matava — provocava.

— Quer saber? — Shaina disse, olhando o “chão” que não existia. — Eu pulo.

— Eu sei — respondeu Mei, rindo. — Você sempre pula.

— É que agora eu tenho mais certeza.

Ela recuou três passos, aqueceu o cosmo nas pernas e disparou. No ar, por meio segundo, sentiu a armadura cantar. O corpo puxou o mundo para trás. O pouso foi firme, joelho flexionado, mão no chão. Mei veio logo depois, com menos barulho.

Ao erguerem o rosto, ouviram um som baixinho, sutil, que não era vento, nem pedra, nem água: era corte. Cortes finos, muitos, um em cima do outro. Ecoando de longe. Lâmina que atravessa dimensão.

— Aeson — disse Shaina, quase como se fosse certeza.

— E companhia — completou Mei.

O tabuleiro girou um dente invisível. Em algum lugar entre os níveis, três presenças sentiram o encaixe: Ker, que sorria como quem terminou de mover algo precioso; Justitia, que anotava sem caneta; e a terceira rainha, imóvel, como uma estátua que respira.

Ker falou sozinha, mas a voz percorreu as grietas:

— As peças que interessam não sobem por sorte. Sobem por insistência.

A luz do lugar mudou meio tom e acabou.

Sonia avançava por uma galeria estreita que cheirava a prata fria. O casco da armadura raspava de leve nas paredes em alguns pontos. O silêncio aqui não era pesado; era decidido. Cada passo era um “sim”.

Ela parou diante de uma abertura que dava para um vão profundo. Pensou em Nix e nos Lúcios. Pensou na mão que a criou e a jogou fora. Pensou no golpe que cortaria essa mão.

— Eu vou te apagar — disse ao nada. — E ninguém vai lembrar que você existiu.

Desceu.

Aeson e Yuzuriha chegaram a um cruzamento onde o ar parecia mais fino. O chão tinha marcas novas: rascos lilases de lâmina e, por cima, curvas de tecido que cortam como vento. Yuzuriha encostou os dedos no risco de Alice. O metal da sala ainda vibrava um pouco.

— Ela vai voltar — disse.

— E a gente vai estar esperando — respondeu Aeson. — Com todo o tempo do mundo.

Ele fechou os olhos por um segundo e, no escuro, viu a constelação da Taça vazando luz, como água derramada que não se esgota. Sorriu, coisa rara.

— Vamos achar os dois.

— Vamos.

Eles foram.

Notas finais
Aeson e Yuzuriha cruzam o rastro de Alice de Vorpal — e descobrem que, da próxima vez, ela virá para cortar, não medir. Shaina e Mei seguem juntos, cada um com um peso: ele, o de manter o foco; ela, o de ser ainda um peão que quer subir. Sonia some pelos corredores com um objetivo que não aceita desvio: apagar Nix e seus Lúcios. No alto, Ker moveu discretamente as engrenagens. O tabuleiro ouviu, guardou e cobrou: a próxima lâmina a cantar será a de Alice.