Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras
25 A Sala dos Tronos
Notas iniciais
O som de passos ecoava em um corredor que parecia se estender infinitamente, sem curvas, sem portas, apenas paredes de pedra polida que refletiam uma luz dourada suave. Não havia tochas, nem janelas. Era como se o corredor fosse iluminado por uma fonte invisível, difusa, quase divina. O silêncio só era quebrado pelo atrito das botas contra o piso e pelo leve tinir das armaduras.
Shaina caminhava na frente, seu olhar fixo no horizonte vazio, como se a qualquer momento algo pudesse surgir. Atrás dela, Yuzuriha mantinha a postura ereta, mas seus olhos pareciam vagar, atentos a cada detalhe. Mei vinha logo depois, com passos firmes, como quem quer terminar aquilo rápido. Aeson e Sonia fechavam o grupo, trocando olhares rápidos, silenciosos, como se conversassem sem palavras.
Não havia cheiro de sangue, poeira ou ferro. Ao contrário, o ar era puro, quase fresco, e trazia um perfume suave de flores — uma fragrância estranha para um lugar onde tantas batalhas foram travadas. Isso inquietava mais do que confortava.
O corredor terminou abruptamente, abrindo-se para um salão tão vasto que o teto se perdia na penumbra. Três tronos de pedra branca estavam dispostos sobre degraus largos, alinhados lado a lado. No centro, sentada com uma postura serena e mãos apoiadas no colo, estava uma mulher de beleza tranquila e imponência natural. Seus cabelos castanhos, longos e lisos, desciam como um manto até o chão. Os olhos, de um castanho claro que parecia carregar eras de história, transmitiam uma mistura de compaixão e cansaço profundo.
Eles a reconheceram imediatamente.
— Athena… — murmurou Shaina, dando um passo à frente.
A deusa sorriu, um sorriso pequeno, mas cheio de calor. Sua voz soou como uma melodia suave quando falou:
— Sejam bem-vindos, meus nobres cavaleiros. Eu os esperava.
Os cinco se entreolharam. Era a mesma Athena que juraram proteger, e ao mesmo tempo… não era. Havia algo diferente ali. A forma como ela estava sentada, sem pressa, sem urgência, sem aquela aura de vulnerabilidade que sempre a acompanhava no mundo exterior. Aqui, ela parecia completa. Intocável.
— Minha deusa… — Shaina respirou fundo — nós viemos para levá-la de volta.
Athena inclinou levemente a cabeça, como quem ouve algo gentil, mas já conhece a resposta.
— Voltar? — ela repetiu, com um tom quase triste. — Não há para onde voltar. Não para mim.
O silêncio pesou como uma muralha invisível. O som dos corações parecia mais alto do que o da respiração. Athena se levantou do trono, descendo dois degraus com passos suaves. Sua presença enchia o salão, não pela força física, mas pela certeza absoluta de quem ela era.
— Eu sou uma contraparte — explicou, olhando nos olhos de cada um. — Após retornar no tempo, permaneci aqui, enquanto outra versão minha vive no mundo que vocês conhecem. Sou o motivo pelo qual puderam usar o cosmo neste lugar. Mas fora daqui… — ela fez uma pausa, quase imperceptível — … eu não existo.
Aeson franziu o cenho. As palavras soavam como uma sentença, e ele se lembrou de algo que Odisseu havia dito muito tempo antes: “O tabuleiro não é um campo de batalha, é uma sentença.”
Mei apertou os punhos.
— Então… você não precisa que a protejamos.
— Não. — Athena sorriu, mas havia um peso em sua voz. — Aqui não há inimigos externos, apenas aqueles que o próprio tabuleiro decide trazer. Vocês lutaram bravamente… mas, neste lugar, o título de cavaleiro não significa nada.
As palavras ecoaram como um golpe invisível. Para Shaina, foi como se o chão se movesse sob seus pés. Toda sua vida girou em torno de proteger Athena. Se essa missão não existia mais, o que restava? Yuzuriha desviou o olhar, sentindo o orgulho ferido; Sonia manteve a postura rígida, mas o desconforto era claro. Aeson apenas baixou a cabeça, em silêncio.
Athena desceu o último degrau e parou diante deles. Estava tão próxima que eles podiam sentir um calor leve irradiando de seu corpo, uma energia calma e reconfortante, mas também paralisante.
— Vocês chegaram ao coração do tabuleiro. Daqui em diante, não há missões para cumprir. Apenas verdades para aceitar. Descansar é uma escolha… e talvez a única que lhes reste.
A frase ficou suspensa no ar como um feitiço. A ideia de descanso, depois de tudo que passaram, parecia tentadora… mas ao mesmo tempo errada. Sonia foi a primeira a romper o silêncio:
— E se não quisermos descansar?
Athena não respondeu. Apenas deu um passo para o lado, voltando lentamente em direção ao trono. Seus cabelos se moveram como seda, refletindo a luz dourada, e cada passo parecia medir não apenas distância, mas tempo.
Foi então que Shaina sentiu. Não havia nenhum som, nenhum movimento visível, mas algo a observava. Seus olhos se voltaram instintivamente para o trono à esquerda de Athena. Uma figura estava lá, imóvel, envolta em sombras. Apenas o contorno do rosto e o brilho cortante dos olhos eram visíveis. E aquele leve sorriso… como se soubesse exatamente o que aconteceria a seguir.
Mei também percebeu.
— Quem é aquele? — ele perguntou, mas Athena não olhou para trás.
— Descansar… — disse a deusa, sentando-se novamente. — Talvez seja o maior desafio de um guerreiro.
O salão voltou ao silêncio. Mas, dentro de cada um deles, a tranquilidade oferecida por Athena carregava algo perturbador, como um convite para largar as armas… antes da guerra mais perigosa de todas.
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