O salão parecia vivo. O chão irregular pulsava sob os pés, como se um coração oculto marcasse o ritmo da sala. As paredes, curvas e retorcidas, lembravam costelas de um animal colossal fossilizado ali. Cada passo ecoava abafado, e o ar carregava um cheiro de metal oxidado e poeira antiga.

Shaina avançava na dianteira, Sonia um passo ao lado, e um pouco atrás vinha Mei, com a postura tensa. O silêncio era cortado apenas pelo som distante de correntes se arrastando.

De repente, uma presença forte e autoritária se fez sentir. À frente, emergindo de um clarão dourado, Minos de Grifo Dourado apareceu, ereto e firme. Sua armadura emitia reflexos duros, como se cada linha e ângulo fosse moldado para transmitir ordem absoluta. As asas metálicas se abriram lentamente, produzindo um ruído cortante.

— Então é isso… — Minos falou, sua voz grave carregada de desdém. — O tabuleiro me envia vocês. Peões… tentando jogar fora do seu alcance.

Shaina cerrou os olhos, mas antes que pudesse responder, Mei avançou, parando entre ela e o inimigo.

— Essa luta é minha.

Minos ergueu uma sobrancelha, como se analisasse um inseto curioso.

— Por quê? O que faz pensar que pode me enfrentar sozinho?

Mei inspirou fundo. Aquela presença despertava lembranças adormecidas — e dolorosas. A Gigantomachia. As batalhas contra titãs. O frio constante do mundo dos mortos. A voz de seu mestre, Máscara da Morte, surgia como um sussurro zombeteiro: “Se quiser vencer, aprenda a conversar com a morte… ela responde melhor do que os vivos.”

— Porque já caminhei pelo mundo dos mortos… e voltei. — Sua voz soou firme. — E hoje vou te mostrar o que aprendi lá.

O cosmo de Mei se expandiu, tingindo o ar com um verde espectral, frio e vibrante. Minos avançou, rápido como um corte de espada. O choque inicial entre eles sacudiu o chão, arrancando pedaços de pedra e espalhando faíscas douradas e verdes.

Shaina recuou, puxando Sonia junto. Mas percebeu algo: Sonia estava inquieta, os olhos se desviando para os cantos da sala, como se procurasse um caminho de fuga.

— Está pensando em correr? — Shaina perguntou, dura.

Sonia demorou a responder.

— Eu… só quero sobreviver. — Sua voz saiu baixa. — Não quero acabar como os outros… descartada.

Shaina não replicou, apenas manteve os olhos na luta.

Mei se movia como um predador paciente.

Ondas do Inferno! — bradou, fazendo o chão sob Minos rachar e abrir fendas. Mãos espectrais surgiram, tentando puxá-lo para as profundezas.

O grifo dourado resistiu, batendo as asas com violência, afastando as almas.

— Interessante… — sorriu. — Você conhece as portas do Hades. Mas ainda é só um aprendiz jogando com correntes de fantasmas.

Mei cerrou os dentes e avançou novamente.

Corredor da Penitência! — Correntes etéreas envolveram Minos, arrastando-o para uma escuridão sufocante, onde gritos e lamentos ecoavam. Por um instante, o dourado desapareceu na sombra. Mas logo um clarão intenso explodiu, libertando-o.

O impacto do contra-ataque fez Mei bater contra a parede. Ele tossiu sangue, mas se ergueu.

— Meu mestre me ensinou que a morte não é o fim… é apenas mais um campo de batalha.

Enquanto Minos o observava, Mei ergueu os olhos para o teto, como se visse além do salão.

— Sabe qual é minha constelação? — perguntou, com um tom quase calmo. — Cabeleira de Berenice. Na lenda, a rainha Berenice cortou os cabelos para oferecer aos deuses, pedindo a salvação de seu amado. O sacrifício foi tão grande que sua cabeleira foi eternizada no céu. — Ele sorriu levemente. — E hoje… vou cortar meu próprio destino e jogá-lo aos céus, se for preciso, para vencer.

O cosmo dele se acendeu, não apenas verde, mas com reflexos dourados e prateados, como fios de cabelo flutuando no vazio.

— E, assim como na lenda, este salão será o céu… e você, Minos, será a oferenda.

O grifo rugiu e avançou. Mei não recuou.

Portão da Purificação! — Uma imensa porta espectral surgiu atrás dele, abrindo-se lentamente. De dentro, uma torrente de luz e almas puras explodiu, envolvendo Minos por todos os lados. O impacto foi tão intenso que o som pareceu desaparecer por um instante.

Quando a luz se dissipou, Minos estava no chão, a armadura rachada e sem brilho. As asas douradas, outrora símbolo de autoridade, caíram pesadas. Ele tentou se erguer, mas Mei cravou o punho no seu peito, encerrando a luta. O corpo do grifo se desfez em partículas de luz, sugadas pelo tabuleiro.

O silêncio tomou a sala. Sonia, ainda pálida, deu um passo à frente.

— Então… você venceu.

Mei, ofegante, ergueu a cabeça. Seu cosmo estava diferente — mais forte, mais estável. Ele havia ascendido de peão para cavalo.

Mas a vitória durou pouco. Uma presença gelada invadiu o salão. Das sombras, uma figura surgiu: cabelos brancos curtos, pele escura, olhos como lâminas de luz.

— Fraca… — Nix disse, fitando Sonia. — Sempre soube que você não passava de um erro.

Sonia deu um passo atrás, mas Nix já erguia a mão. Um golpe de cosmo negro, letal, se formou.

— Não! — Shaina se colocou à frente sem hesitar.

O impacto atravessou sua defesa, rasgando a armadura de Ofiúco e lançando-a ao chão. Um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente. Mei correu até ela, mas o olhar de Shaina estava distante, fixo no nada. Um fio de sangue escorreu de sua boca.

Nix recuou lentamente, sumindo nas sombras como se nunca tivesse estado ali. Sonia ficou imóvel, chocada. O salão parecia mais frio, como se algo vital tivesse sido arrancado dali.

Notas finais
Mei conquistou o posto de cavalo, mas a vitória veio com um custo terrível. Sonia, dividida entre fugir e lutar, viu Shaina sacrificar-se por ela. E Nix mostrou que, nas sombras, pode atacar a qualquer momento. Agora, com Shaina à beira da morte, o grupo precisa decidir: seguir em frente e arriscar perder mais… ou parar, e talvez nunca sair vivos do tabuleiro.