Saint Seiya Gaiden: Orfeu
1 Capítulo 1 - Autômatos
Notas iniciais
[1980 — 6 anos antes da batalha das 12 casas]
Templo do Grande Mestre – Santuário de Atena, Grécia
As portas do grande salão se abriram e dois jovens cavaleiros de prata entraram no recinto.
— Grande Mestre o senhor nos chamou? — Perguntou um dos jovens. Ele era magro, de estatura média, pele clara, olhos azuis e cabelos azul claro caindo nos ombros. Trazia uma lira debaixo do braço e trajava uma amadura branca com detalhes dourados.
O outro rapaz, que caminhava ao seu lado, tinha semelhante porte físico e trajava uma armadura de cor prata com detalhes azuis. Seus cabelos pretos eram curtos e seus olhos eram castanhos claros.
— Orphée! Daidalos! Sim, eu os chamei. — disse o Grande Mestre. Os jovens se ajoelharam diante do sacerdote de Atena, que estava sentado em seu trono. — Entre os novos cavaleiros de prata, vocês dois tem se destacado bastante, por isso eu tenho uma missão importante para dar a vocês dois.
— Uma missão, senhor?! E o que seria?— Perguntou Daidalos.
— Há alguns dias atrás eu recebi um relatório informando que dois ex-aspirantes a cavaleiros haviam deserdado do santuário, e durante a fuga assassinaram dois cavaleiros de bronze que tentaram impedi-los.
— Eu ouvi a respeito. — disse Orphée. — Os dois coitados foram achados mortos no fundo de um precipício.
— E como se não bastasse terem cometido esses crimes... — continuou o Grande Mestre. — Eles estão prestes a cometer um grande erro, que pode desencadear uma Guerra Santa. Ao que parece, eles possuem a intenção de despertaros Autômatos adormecidos do deus Hefesto.
— Mas porque eles fariam isso? — questionou Daidalos.
— Talvez tenham o intuito de provar que eles eram dignos de serem cavaleiros. — disse o Grande Mestre. — Ou pode ser apenas por uma questão de ambição e vingança.
— Mestre... O senhor falou sobre os Autômatos. Do que se trata? — Perguntou Orphée.
— Eu já li um pouco a respeito. — disse Daidalos. — Autômatos eram criaturas mecânicas poderosas criadas pelo deus Hefesto e alguns dos seus discípulos. É como se fossem o exército particular do deus Hefesto.
— E não é só isso. Um autômato também pode vir a servir como uma armadura. E essas armaduras podem fornecer ao seu portador um grande poder. E ao que parece é isso o que eles querem. — Completou o Grande Mestre.
— Então é isso?! Já que não conseguiram uma das 88 armaduras, eles vão atrás de outros trajes? — perguntou o amigo.
— É normal que alguns ex-aspirantes tenham essa postura. Eles se sentem frustrados por terem falhado no teste final depois de passarem tantos anos em um treinamento mortal. — disse o Grande Mestre. — É esse sentimento que leva muitos a procurarem as armaduras negras na Ilha da Rainha da Morte.
— Compreendo... E o que mais o senhor sabe sobre os desertores? — Perguntou Orphée.
— Esses dois ex-aspirantes estavam invadindo e saqueando vários templos a procura de algo que pudessem usar. Durante os saques, eles tiveram acesso à informação da existência dos autômatos, assim como a localização deles. Nossos informantes tentaram impedi-los, mas acabaram sendo massacrados. Não podemos deixar que eles despertem essas armaduras bestiais. Isso poderia desencadear uma catástrofe ou até mesmo despertar a fúria do deus Hefesto, que é um deus com quem Atena tem um bom convívio. Se eles conseguirem roubar essas armaduras, seria como se o Santuário estivesse declarando guerra.
— Perdão Grande Mestre, mas não pude deixar de notar que a missão parece ser de extrema importância, então por que o senhor não envia um dos cavaleiros de ouro? — perguntou Daidalos.
— Estou evitando deslocar os Cavaleiros de Ouro no momento. Sinais de mal presságio estão começando a aparecer na leitura das estrelas. Por isso estou enviando os dois mais poderosos Cavaleiros de Prata desta Era. Eu sei que vocês dois tem capacidade para resolver essa situação.
— Sim senhor. — Respondeu Daidalos, mas não parecia que ele estava muito confortável com aquela situação.
— E neste momento, onde esses dois rapazes estão? — perguntou Orphée
O Grande Mestre colocou a mão dentro da manga do seu manto e retirou um rolo de pergaminho, lançando-o no ar. O rolo se abriu, pairando diante dos cavaleiros de prata, revelando um mapa e algumas anotações escritas em grego.
— Segundo as nossas informações, eles foram vistos pela última vez em Washington, EUA, em uma região próxima ao Monte Santa Helena.
— Monte Santa Helena? Um vulcão?! — perguntou Orphée — Então é lá que todos os autômatos estão?
— Não exatamente. Ao total existem 12 autômatos que estão espalhados em vulcões ao redor do mundo. Nas oficinas de Hefesto. — explicou o Grande Mestre. — De acordo com os registros, existem pelo menos dois autômatos na região onde eles foram vistos.
— Então devemos partir imediatamente! — disse Daidalos. — Antes que eles os encontrem.
— Sim. Não há mais tempo a perder. Eu estou contando com vocês, jovens cavaleiros. — disse o Grande Mestre.
Os dois jovens cavaleiros de prata fizeram reverência e se retiraram, deixando o Grande Mestre sozinho.
“Você acha que eles não vão conseguir ter sucesso na missão, não é? — uma voz misteriosa ecoou pelo salão. — Você acha que está enviando eles para a morte.”
O salão estava vazio, mas o Grande Mestre não pareceu surpreso com aquela voz ecoando em sua mente e pelo salão.
— E estou. — respondeu o sacerdote, sorrindo. — Eles podem estar em um nível muito além de um cavaleiro de prata, mas não serão páreos para enfrentar alguém trajando um Autômato. Depois que os dois prodígios de prata estiverem mortos, eu enviarei um dos Cavaleiros de Ouro para resolver o problema. E assim, aos poucos, vou deteriorando o exército de Atena.
“Você está enganado. Orphée e Daidalos vão lhe mostrar do que os Cavaleiros de Atena são capazes.”
— Veremos. — disse o Grande Mestre sorrindo.
—...—
Do lado de fora do templo, Orphée e Daidalos pararam no topo da escadaria e olharam o horizonte além do Santuário. No alto da grande montanha dava para ver a cidade de Atenas, banhada pelo Marde Creta.
— Eu fiquei curioso sobre uma coisa... — disse Orphée. — Como você conhecia tanto sobre os Autômatos?
— Meu mestre comentou um pouco sobre a mitologia que envolve meu nome. Daidalos na Era Mitológica foi um dos discípulos de Hefesto, e também um grande inventor. Inclusive ele criou alguns dos autômatos que podemos encontrar nessa missão. — Falou Daidalos, meio sem graça.
— Entendi. E então... Vamos? — perguntou Orphée descendo as escadas. — Temos um longo caminho.
Os dois seguiram em frente, descendo as escadarias e passando por cada uma das doze casas. Pedindo autorização aos seus respectivos guardiões para passarem novamente. Ao chegar na Casa de Áries, a qual estava vazia, Daidalos resolveu perguntar algo que estava lhe incomodando:
— Você acha que nós vamos conseguir realizar essa missão? Digo... Parece estranho o Grande Mestre não convocar um dos Doze Cavaleiros de Ouro para esse serviço. Os autômatos de Hefesto são poderosos e ainda podem ser utilizados como armaduras. Com certeza isso está acima do nível de um Cavaleiro de Prata.
— O Grande Mestre é um homem sábio e bom. — disse Orphée. — Se ele acha que nós somos capazes, eu confio em seu julgamento. Todos no Santuário o respeitam e confiam completamente nele. Graças a sua perspicácia e a proteção da deusa Atena, o Santuário vem mantendo a Terra em paz.
Daidalos olhou para o amigo e abaixou os olhos ainda mais pensativo.
— É que... Eu não paro de ter a sensação de que essa tarefa parece estar acima das minhas capacidades. Mas talvez... Talvez essa desconfiança seja por causa de um sentimento estranho que eu senti ao entrar naquele templo. E também tem os boatos sobre ele e...
Orphée enrugou o cenho olhando para o amigo.
— Do que você está falando?
— Sinto que há uma onda crescente de desconfiança sobre o Mestre. E ao entrar lá... Eu não sei explicar. Senti algo estranho. Foi só uma intuição.
— Você chegou há poucos dias aqui no santuário depois que terminou seu treinamento. E é a primeira vez que você conhece o Grande Mestre pessoalmente. Talvez esteja com medo, ou se sentiu intimidado por estar diante dele e receber uma missão direta. É normal. Eu também estou nervoso, mas não se preocupe. Apenas confie no julgamento dele. Sobre os boatos... As pessoas falam demais. Não dê ouvidos a isso.
Daidalos não se convenceu, mas não quis retrucar. Ele sentia que havia algo de estranho no Santuário. E ouvir a sua intuição, o seu sexto sentido, foi algo que ele aprendeu a fazer em seus treinamentos. Também havia mais uma coisa que ele queria comentar. Algo que ele havia escutado a respeito do Grande Mestre quando chegou no Santuário, mas talvez fosse arriscado comentar sobre isso dentro do território das Doze casas.
— Bem, deve ser isso mesmo. Você está certo. Vamos indo.
—...—
18 de Maio de 1980 — Condado de Skamania, Washington – EUA
Já era final do dia. O sol estava se pondo no horizonte, a oeste do Monte Santa Helena, que se erguia coberto de neve em meio a uma floresta de altos pinheiros.
Dois jovens caminhavam por uma trilha íngreme chamada Climbers Bivouac Trailhead, que corta a floresta e leva ao cume do vulcão.
— Tem certeza de que esse é o caminho certo, Marcus? — perguntou um garoto de cabelos loiros curtos, olhos cor de âmbar e pele morena. Ele vestia camisa branca e calça marrom escura, e possuía um corpo esguio.
— Não se preocupe, Gaius. Eu sei o que estou fazendo. — respondeu Marcus.
Marcus caminhava alguns passos à frente carregando um mapa nas mãos. Ele era um pouco mais alto e forte, possuía cabelos ruivos, olhos vermelhos-alaranjados e vestia uma roupa semelhante à de Gaius.
— O mapa diz que existem dois autômatos nessa região. Ele não especifica onde exatamente, mas... acredito que seja no interior do monte. No coração do vulcão.
— Finalmente! — disse Gaius, cerrando o punho. — Aqui nós encontraremos a nossa redenção, e também a nossa vingança.
— Sim! — disse Marcus dobrando o mapa e guardando no bolço. — Se a lenda sobre os autômatos for verdadeira... Seremos tão poderosos quantos os Cavaleiros de Ouro. E poderemos provar o nosso valor. O Grande Mestre vai perceber o erro que cometeu ao nos negar uma das 88 armaduras.
— Falando no Grande Mestre... Ele já deve saber sobre a nossa deserção. Deixamos um rastro ao sair do Santuário.
— Você se preocupa demais. — disse Marcus saltando por cima de um tronco caído. — Cedo ou tarde o Santuário iria enviar alguém atrás de nós. Não por causa do que fizemos na fuga, mas sim por causa disso... — disse dando dois tapas em cima do bolso onde guardava o mapa. — Com certeza o Grande Mestre já está ciente. Ele vai querer de volta, mas talvez a gente faça o favor de levar para ele pessoalmente.
Depois de caminhar por mais alguns metros, a trilha estava terminando. Eles haviam chegado ao limite da floresta, o caminho rochoso agora estava coberto de neve, e o topo da montanha já se mostrava sinuoso diante deles.
Marcus fez sinal para que Gaius se escondesse atrás de uma árvore e apontou para o topo do vulcão. Havia um pequeno grupo de soldados fazendo vigília.
— São soldados do Santuário. — cochichou Gaius.
— Sim, são. Mas não acho que eles estejam aqui por causa de nós dois. Provavelmente o Santuário mantem este local sob vigilância por causa dos autômatos. Então isso significa que estamos no lugar certo.
— São apenas soldados. Eles não são páreos para nós.
Marcus deu um sorriso no canto da boca.
— Exatamente meu amigo... — seu cosmo se elevou. — Eles não são. Vamos!!
Marcus saltou e avançou em direção ao topo do vulcão em alta velocidade, deixando um rastro de cosmo durante seu percurso. Ao seu lado, Gaius seguia em semelhante avanço.
Os soldados avistaram os dois jovens e se preparam, mas não tiveram a menor chance. Os punhos velozes de Marcus e os ventos cortantes de Gaius aniquilaram os guerreiros do Santuário em segundos.
— Lá embaixo. — disse Marcus, olhando para o centro do vulcão.
O centro do Monte Helena é formado por um terreno relativamente plano e uma ilha de rochas vulcânicas no centro, como se fosse um pequeno vulcão, de onde sai vapores por suas frestas. Marcus e Gaius desceram por uma escadaria desgastada que serpenteava pelas paredes íngremes da montanha até o terreno. O solo da planície ao redor da ilha de rochas era coberto por uma grossa camada de neve.
Os dois desertores arrastaram suas pernas cortando a neve até chegarem no centro do vulcão. O relevo era irregular e o terreno se erguia com mais de dez metros de altura formando um segundo monte.
— Deve ter alguma entrada por aqui. — disse Marcus tateando o solo.
— Talvez seja aqui. — disse Gaius. — Veja.
Havia um símbolo marcado na rocha. Uma bigorna e um martelo.
— É o símbolo de Hefesto.
Gaius passou o dedo por cima do símbolo e a marca reagiu emitindo um brilho alaranjado. Houve um pequeno tremor de terra e a rocha se abriu diante deles, revelando outra escadaria que levava para o interior do vulcão. Sem hesitar eles adentraram. O caminho era um túnel escavado na rocha com altura de mais de 3 metros.
Após caminharem por alguns metros, a fraca luz do sol poente já não alcançava mais o interior do túnel e os dois ex-aspirantes elevaram seus cosmos para iluminarem o caminho a frente. As paredes de rocha escavada ficaram para trás e deram lugar a uma parede de tijolos estreitos intercaladas com grossas colunas de ferro que sustentavam o teto por todo o resto do percurso. Mais a frente eles avistaram uma pesada e alta porta dupla de ferro fundido.
Gaius hesitou, mas Marcus não pensou duas vezes e empurrou as portas. As dobradiças rangeram e a porta se arrastou pesadamente pelo piso. O espaço dentro era bastante amplo, como um galpão, e o ar era quente carregado por um forte cheiro de minério. No centro da caverna havia um poço de larva e ao lado do poço uma gigantesca bigorna repleta de espadas e pontas de lanças em cima.
Nas paredes havia mais armas penduras, pedaços de armaduras e correntes pendiam do teto. Marcus e Gaius percorreram toda a oficina do deus analisando as inúmeras forjas que havia ali dentro. Em cima de uma grande mesa havia uma pilha de pergaminhos abertos com anotações sobre trajes e armas. Inúmeros rascunhos desenhados pelo próprio deus Hefesto, mas parecia que o deus não visitava a sua oficina há séculos. Tudo estava empoeirado.
— Olhe só para isso, Marcus. — disse Gaius pegando um dos pergaminhos. No papel antigo havia o desenho de uma armadura segurando um tridente. Gaius puxou outro pergaminho, e nele havia a gravura de um outro traje com três pares de asas e uma espada na mão direita. — São autômatos? — Gaius puxou mais um papel velho que tinha o esboço de uma armadura puxada por 4 cavalos segurando uma lança na mão direita e um escudo no outro braço.
— Eu nunca ouvi falar sobre autômatos com essas aparências. Mas não perca tempo com esses pergaminhos. Temos que encontrar...
Marcus se interrompeu ao avistar no fundo da grande caverna um par de estátuas de cães ao lado de um imponente trono de ferro escuro. A estátua do lado direito era dourada e tinha os olhos vermelhos, já a estátua do lado esquerdo era feita de prata polido e tinha os olhos azuis.
Maravilhado com o que estava vendo, Marcus caminhou lentamente em direção ao trono.
— São os Cães de Alcínoo. — disse Gaius, surpreso, se aproximando do amigo.
— Sim. Khryseos e Argyreos. São os autômatos que o deus Hefesto criou para proteger o rei dos Feácios. — Marcus estendeu a mão para a estátua dourada. — Eu posso sentir... É um poder absurdo. É algo que supera qualquer armadura de bronze ou prata que poderíamos ter recebido no Santuário.
— Mas é um poder grande demais para vocês. — disse uma voz do outro lado da oficina. — Se afastem daí agora mesmo.
Marcus e Gaius se viraram assustados e se depararam com dois Cavaleiros de Prata no centro da Oficina. Orphée de Lira estava analisando os papeis em cima da mesa enquanto Daidalos estava mais próximo dos dois desertores.
— O-Orphée de Lira? — disse Marcus surpreso. — Então o Santuário enviou você?
— Vocês dois tem ideia do que estão fazendo? — perguntou Daidalos. — Violaram o santuário de um deus e estão prestes a roubar dois trajes sagrados. Desistam disso e recuem. Com sorte esse ato de vocês será perdoado pelo deus Hefesto e pelo Santuário.
— Você sabe que o Santuário jamais irá nos perdoar. — disse Gaius. — As regras são bem claras. Somos desertores. A punição é a morte.
— O Grande Mestre é um bom homem e pode livrar vocês dessa punição. O arrependimento pode ser visto com bons olhos. — disse Orphée.
— Quem você está querendo enganar, Lira? Dezenas de soldados e servos diretos do Grande Mestre já foram encontrados mortos nos arredores do Santuário. Você realmente acha que ele vai nos perdoar? — questionou Marcus. Daidalos olhou de relance para Orphée. Esse era um dos boatos que ele havia ouvido falar. — Não! O que nós estamos fazendo não tem mais volta. Saiam daqui! Se não terão o mesmo destino que o cavaleiros de bronze de Raposa e a amazona de Lebre.
Orphée levou a mão até a lira.
— Dessa forma vocês dois não nos deixam alternativa.
Gaius e Marcus elevaram seus cosmos, e Daidalos também.
— Vocês também não. — disse Gaius.
—...—
Fale com o autor