Saint Seiya Gaiden: Orfeu
2 Capítulo 02 – Khryseos e Argyreos
Notas iniciais
Capítulo 02 – Khryseos e Argyreos
Santuário de Atena, Grécia – Uma semana antes
— Você está certo disso?! Se formos pegos... Seremos mortos. — disse o jovem ao seu amigo enquanto eles se esgueiravam pelas sombras do Santuário. O garoto tinha cabelos loiros curtos, olhos cor de âmbar, pele morena e corpo esguio.
Já era tarde da noite. Os treinamentos já haviam sido encerrados, as tochas foram acesas e o Santuário de Atena estava mergulhado em um profundo silêncio. Os dois caminhavam se escondendo entre as colunas e edifícios enquanto se afastavam da região central do santuário.
— Gaius, você quer mesmo aceitar essa derrota? — ele virou-se para o amigo cochichando. Era um jovem um pouco mais alto e forte, cabelos ruivos e olhos vermelhos-alaranjados. — Fomos humilhados perante todo o santuário, depois de anos de treinamento infernal. Nós merecíamos aquelas armaduras.
Eles vestiam trajes de treinamento. Camisas e calças brancas, ombreiras, proteção peitoral e luvas escuras de tecido grosso e bem desgastados, o que significa que aqueles aspirantes treinavam no santuário já há algum tempo.
— Está bem. Eu só estou um pouco nervoso. — disse Gaius. — De qualquer forma Marcus, estamos chegando nos limites do santuário. Devemos ficar atentos.
— É... Eu sei. Por isso não podemos cometer deslizes. — disse Marcus olhando para os lados, verificando se estavam sendo seguidos. — Caso contrário seremos presos e provavelmente a nossa punição será a morte.
Para não serem pegos, Marcus e Gaius saíram se esgueirando pela noite evitando passar próximos aos pontos fixos de vigília dos soldados, e das rotas conhecidas do patrulhamento noturno, que é feita por alguns cavaleiros e soldados rasos. A intenção era chegar até a fronteira do Santuário sem chamar atenção ou levantar suspeitas. Estavam contando com a sorte.
Mas talvez eles tenham abusado um pouco dessa sorte. Gaius, que estava mais atento aos detalhes devido a sua grande preocupação, teve uma forte sensação de perigo.
— Marcus... esses cosmos próximos são de... — disse em um tom alarmante.
— Sim... — Marcus se encostou na parede rochosa. Ele avistou o caminho que tiraria eles de lá. Uma passagem estreita que serpenteava dividindo uma montanha ao meio. Mas entre os aspirantes e a passagem havia um extenso e profundo precipício. — Escute... São cavaleiros. E pelo visto estão próximos, mas a nossa saída está logo ali. Vamos fazer como combinamos. Essa é a hora decisiva! Está bem?
— Certo.
Dando o sinal com a cabeça, Marcus correu e Gaius o seguiu logo atrás. Eles elevaram sutilmente seus cosmos para intensificar a sua velocidade e pegar mais impulso para o salto.
— É agora… Vamos! — Gritou Marcus.
Os aspirantes pularam e conseguiram chegar ao outro lado. Caíram embolando, mas logo se levantaram sorridentes.
— Conseguimos! — disse Gaius, animado olhando para Marcus.
— É... conseguimos. — ele olhou para o outro lado eufórico e avistou o topo da montanha do Santuário. — E esse é só o começo, mas não podemos parar para comemorar agora. Não podemos nos dar o luxo de sermos apanhados.
— Sinto muito em lhe desapontar. — Falou uma voz feminina.
Os garotos arregalaram os olhos e procuraram ao redor de onde havia vindo aquela voz. O coração de Gaius acelerou. A expressão empolgada de Marcus também desapareceu, dando lugar a preocupação. O cosmo que eles haviam sentido há pouco tempo, e achavam que haviam deixado para trás, agora os rodeava.
— Quem está aí? — perguntou Marcus.
— Atrás de vocês... Desertores.
Um par de olhos vermelhos brilhou nas sombras. Caminhando pela passagem entre a montanha, surgiu uma garota. Uma amazona. Sua armadura era branca com detalhes pretos e vermelhos. Diferente das outras amazonas de Atena, ela não usava uma máscara. Sua face era coberta pelo próprio elmo em forma de rosto de coelho, mas só cobria metade do seu rosto. Sua boca e queixo ficavam descobertos. Seus longos cabelos negros escorriam pelo ombro.
— Eu sou Sakra¹, a amazona de Bronze de Lebre.
— Droga!! Fomos seguidos?! — perguntou Marcus.
— Claro que sim! E nós ultrapassamos vocês dois antes mesmo que saltassem o precipício. — Falou outra voz, agora masculina, que vinha de um vulto que surgiu ao lado de Sakra. — Ou vocês acharam que passariam despercebidos? Agora me digam, o que vocês estão tentando fazer?
O jovem se revelou e mostrou trajar uma armadura de coloração dourada. Por um instante Marcus e Gaius foram tomados pelo medo e pelo desespero. A presença de um dos doze Cavaleiros de Ouro ali encerraria de uma vez por todas a fuga e os planos que eles idealizaram.
Mas após ele ser iluminado pela luz do luar, Marcus e Gaius ficaram um pouco mais aliviados. Apesar dele ainda ser um dos 88 cavaleiros, não era um dos Cavaleiros de Ouro. O rapaz usava uma armadura de bronze e o brilho dourado daquela armadura era inferior ao glamour ofuscante das armaduras de ouro.
Ele era alto e forte, tinha pele clara, cabelos curtos verdes e olhos violetas.
— Ryoshi² de Raposa!! — disse Gaius, reconhecendo o cavaleiro.
Mas ainda havia um pouco de temor na voz de Gaius devido a lenda do poder místico que envolve a armadura de bronze de Raposa.
— O que estamos fazendo?! — disse Marcus, cerrando o punho e enrugando o cenho. — Não é óbvio? Estamos deixando o santuário!!
— Vocês estão aqui no Santuário há bastante tempo e conhecem as regras. Deserção é um crime grave que pode ser punido com a morte. — disse Ryoshi.
— Mas talvez o Grande Mestre tenha misericórdia. — disse Sakra, tentando ser mais maleável. — Então por que vocês não nos acompanham de volta sem resistência, e assim a punição pode ser mais branda... Ou preferem que Ryoshi e eu acabemos logo com isso?
— Nenhuma das duas opções. Nós temos outras ideias em mente. — disse Marcus, avançando contra Sakra.
Vendo o amigo agir, Gaius também avançou, e se dirigiu a Ryoshi com o punho cerrado.
— E ficar no Santuário não está nos nossos planos!! — gritou Marcus.
Marcus aplicou um poderoso soco, mas a amazona de bronze bloqueou o golpe e sustentou o punho do seu oponente mesmo sendo arrastada para trás pela potência do ataque. Ela então expandiu os braços, se desvencilhando da pressão imposta por Marcus, e não dando brecha tentou revidar o ataque aplicando-lhe um soco, mas o desertor desviou, e logo em seguida tentou contrar-atacar com um chute, mas Sakra também foi capaz de se esquivar.
Sakra e Marcus entraram em uma frenética troca de golpes. Seus punhos colidiam enquanto seus corpos se moviam em alta velocidade.
Enquanto isso, Gaius e Ryoshi também entraram em um acirrado confronto. O cavaleiro de raposa conseguiu desviar dos punhos furiosos de Gaius, e facilmente encontrou uma brecha, aproveitando-a para aplicar um chute que lançou o garoto em direção a parede rochosa. O desertor então explodiu seu cosmo, interrompendo a força que o havia lançado, e intensificou a potência do seu avanço, partindo para cima de Ryoshi mais uma vez.
Ryoshi se preparou para interceptar o ataque e aplicou um chute, mas Gaius se abaixou esquivando-se, visando acertar a outra perna do cavaleiro de raposa, entretanto, Ryoshi deu um mortal para trás e tentou acertar Gaius com um chute. Mas o Desertor conseguiu esquivar-se do chute e se distanciou dando cambalhotas para trás.
O cavaleiro de bronze avançou contra Gaius, então ele apoiou uma mão no chão e girou seu corpo, aplicando vários chutes giratórios que lançou o Cavaleiro de Raposa contra a montanha e arrancou o elmo de Ryoshi, porém o cavaleiro de bronze não colidiu contra a parede, conseguindo se equilibrar ainda no ar. Ryoshi girou e pousou arfando.
Gaius recuou e esbarrou as costas em Marcus, que também havia recuado após ter trocado golpes com Sakra. E assim como Gaius, Marcus estava com várias escoriações. Já Ryoshi e Sakra, não tiveram qualquer dano graças à proteção das suas armaduras.
— Desistam. — disse Ryoshi. — Vocês só estão piorando a situação. Olhem para trás... Só existem dois caminhos. Ou vocês voltam com a gente para o Santuário...
— Ou então serão mortos e jogados nesse precipício. Assim como aconteceu com o traidor Aiolos há 7 anos atrás. — disse Sakra.
— Vocês têm uma visão muito limitada sobre opções. — disse Marcus. — Existe um terceiro caminho. E vocês dois estão obstruindo-o. Saiam do nosso caminho, se não acabarão mortos.
Ryoshi cerrou o punho.
— Seu insolente! — disse avançando contra Marcus. — Irá se arrepender durante a queda!!
Ryoshi planejava atacar Marcus, mas Gaius se lançou na frente, desviou do punho do cavaleiro, em seguida segurou em seu braço e golpeou sua perna, erguendo o corpo do bronzeado e o lançando para o precipício. Ryoshi foi jogado sob os gritos de Sakra.
— Ryoshi!!! — gritou a amazona, que correu em direção ao abismo, mas Marcus surgiu diante dela para interceptá-la.
— Se preocupe com você — disse Marcus.
O desertor aplicou centenas de socos. Sakra conseguiu bloqueá-los no início, mas para sua surpresa a potência e a velocidade dos golpes começaram a aumentar. Em um momento de descuido ela deixou uma brecha, Marcus agarrou aquela oportunidade e concentrou seu cosmo para aplicar nos próximos socos.
O primeiro golpe acertou o estômago da amazona, fazendo-a cuspir sangue, e o segundo atingiu o rosto dela em cheio, lançando-a com força. O corpo de Sakra rasgou o chão até parar em um amontoado de terra.
— Vamos, Marcus! Essa é a nossa chance!!
Os dois desertores começaram a correr, mas a amazona se levantou, correu pela lateral andando pela parede montanhosa, e saltou aterrissando diante deles.
— Eu já disse que vocês não vão sair daqui!! — Sakra elevou o cosmo, um cosmo vermelho como sangue e o expandiu, arrastando Marcus e Gaius para trás.
Os dois ex-aspirantes a cavaleiros ficaram surpresos com o poder da amazona. Sakra então levou a mão até o elmo danificado e o retirou, jogando-o no chão.
— Ela... Ela revelou o rosto!! — disse Marcus. — Então...
— Isso significa que ela está disposta a nos matar a qualquer custo. — disse Gaius, elevando o cosmo.
— É uma tola se acha que sozinha pode dar conta de nós dois.
— O que dois aspirantes covardes como vocês podem fazer?! Garotos... Eu os matarei por deserção e por terem tirado a vida do Ryoshi. Recebam o meu golpe... — os punhos de Sakra foram envolvidos pelo seu cosmo vermelho sangue. — Estrela Carme...
— Espere Sakra!!
A voz masculina veio de trás dos garotos, do fundo do precipício. Marcus e Gaius se viraram incrédulos quando uma coluna de chamas se ergueu e tomou a forma de uma raposa.
Ryoshi pousou diante deles, ainda com o cosmo elevado.
— Im-Impossivel!! — disse Gaius. — Você deveria estar morto com aquela queda.
— Na próxima vez, certifique-se de que realmente matou seu oponente. — disse o Cavaleiro de Bronze.
— Não haverá uma próxima vez, Ryoshi. — disse Sakra, ainda furiosa. — Eu já tomei uma decisão. Eles vão morrer.
— Não perca a razão tão facilmente. Até porque não vale a pena gastar uma técnica especial com eles. Eu sei quem são. Eu me lembrei deles... E da humilhação que sofreram. Esses dois são aqueles que há alguns dias atrás falharam nas provas para virar cavaleiros, e depois tentaram subir as doze casas para pedir uma nova chance ao Grande Mestre pessoalmente.
Sakra recuou o seu cosmo.
— Então é isso?! É por isso que estão fugindo?
— O garoto loiro perdeu a luta final pela conquista da armadura. — disse Ryoshi, sobre Gaius. — Já o garoto ruivo... Ele venceu o combate, mas foi rejeitado pela armadura. E ela escolheu o outro cavaleiro.
— “É a vontade da armadura”... Eles me disseram. — Marcus cerrou os punhos com força. Ele estava frustrado e irritado. — Não importa!! Eu venci aquela luta! Aquela armadura era minha por direito!!
— Passamos anos infernais treinando aqui no Santuário. — disse Gaius. — Várias vezes no final do dia caíamos cansados no chão. Às vezes sem ter forças para nos levantar. Muitas vezes fomos arrastados. Outras vezes dormíamos lá mesmo. Para no outro dia levantar e treinar novamente. Mas para quê?! Para no final de tudo isso virarmos meros soldados rasos do Santuário? Fazendo patrulha e sendo humilhados pelos cavaleiros? Não!! — Gaius elevou o cosmo. — Não vamos aceitar isso! E é por isso que vamos sair do Santuário! E se vocês insistirem em nos atrapalhar... Irão morrer!
Marcus virou-se para Ryoshi, ficando frente a frente com ele, e de costas para Gaius, que encarava Sakra diante dele.
— Chega de nos conter, Gaius. Mostraremos o nosso real poder aqui e agora! Daremos a ele uma demonstração da nossa força.
— Real... poder? — disse Sakra, com tom de desdém. — O que dois meros aspirantes fracassados com sintomas de grandeza podem fazer contra nós dois, cavaleiros de verdade?
— Não se esqueça que treinamos para sermos Cavaleiros de Prata. — disse Marcus.
— Mas não se esqueçam que vocês dois falharam. — rebateu Ryoshi.
— Chega de conversa!! — disse Gaius. — Aquele que elevar mais o cosmo... Vence!
— Então se preparem!! — gritou Ryoshi.
O Cavaleiro de Bronze elevou seu cosmo intensamente, e Marcus respondeu com o mesmo empenho.
— Morra!! Garras retalhadoras de almas!!
Ryoshi saltou emanando seu cosmo em chamas e rasgou o ar com seus dedos, disparando feixes flamejantes cortantes. Marcus desviou do golpe, que acertou uma parte da montanha e cortou as rochas com extrema facilidade. O ex-aspirante disparou uma rajada de cosmo, mas Ryoshi lançou o corpo para trás e desviou. Em seguida Marcus atacou novamente, mas dessa vez ele aplicou uma sequência de socos em alta velocidade, superando mais de 1.800.oo Km/s.
Enquanto os Cavaleiros de Bronze normalmente se movem na velocidade de Mach 1, os Cavaleiros de Prata normalmente alcançam entre Mach 2 e Mach 5. Mas a sequência de socos de Marcus alcançou uma faixa mais veloz que Mach 5. É uma velocidade muito inferior à de um Cavaleiro de Ouro, mas é superior ao deslocamento de um prateado comum.
— Eu... Eu não consigo acompanhar os seus golpes. — pensou Ryoshi, enquanto era nocauteado. — Esses são os punhos de aspirante a Cavaleiro de Prata!?
A armadura de bronze foi seriamente danificada e Ryoshi foi lançado, já morto, no precipício. Marcus caiu exausto, e virou-se para acompanhar a luta entre Gaius e Sakra.
A amazona viu o amigo ser morto, mas não podia parar para lamentar, pois assim como Marcus, Gaius estava aumentando a sua velocidade gradativamente, ao ponto de Sakra ter sérias dificuldades para acompanhá-lo.
Gaius acertou Sakra, lançando-a para o alto, mas a amazona equilibrou-se conseguindo pousar, porém para a sua surpresa, Gaius já havia se lançado contra ela para mais uma investida. O desertor também havia saltado e desceu desferindo um chute no estômago da amazona. Com a aproximação, ele desferiu um soco no rosto da garota, seguido por mais um soco no peito, e por fim girou e aplicou um chute, mas dessa vez Sakra cruzou os braços para se defender e elevou o cosmo, repelindo Gaius.
Sakra saltou para trás, fez zigue-zague saltando de um lado para o outro entre as duas paredes rochosas, e em seguida atacou.
— Estrela Carmesim!!
A amazona desferiu uma sequência espantosa de socos que mais pareciam com feixes de luz vermelha, deixando um rastro carmesim no ar. Ela fazia zigue-zague no ar, atacando incontáveis vezes. Mas Gaius reagiu, explodiu seu cosmo, liberando uma poderosa rajada de vento que arremessou Sakra contra a montanha, abrindo uma cratera.
Vendo que sua inimiga estava atordoada, Gaius concentrou o cosmo em seu punho e disparou em direção da amazona, atingindo seu peito, destruindo sua armadura e afundando Sakra cada vez mais na cratera.
Sem forças, a amazona vomitou uma grande quantidade de sangue e desmaiou. Gaius percebeu e recolheu o punho, ao fazer isso ambos caíram. Ele pousou com um dos joelhos no chão bem ao lado do corpo de Sakra. Ele arfava bastante.
— Você está bem? — perguntou Marcus, se aproximando e estendendo a mão para o amigo.
— E-estou. — respondeu se levantando e tentando recuperar o fôlego.
— Temos que sair daqui. A essa hora o Santuário inteiro já deve ter sentido os nossos cosmos. — Falou Marcus.
— Ce-certo!
Marcus e Gaius saíram às pressas rumo ao litoral da cidade de Atenas, desaparecendo na escuridão.
Poucos minutos depois dezenas de soldados do Santuário chegaram ao local em que havia ocorrido a batalha.
Um deles se aproximou de Sakra.
— É a amazona de bronze de Lebre. — disse ele se abaixando e verificando a pulsação de Sakra. — Está morta.
— O que aconteceu aqui? — perguntou um jovem de cabelos platinados e olhos vermelhos. — O Grande Mestre sentiu uma perturbação e ordenou que eu viesse conferir.
Os soldados se curvaram e se afastaram dando passagem. O jovem estava usando uma das doze sagradas Armaduras de Ouro com uma capa presa em suas ombreiras.
— Se-Senhor Deathmask de Câncer! — disse o soldado, surpreso. — Estávamos fazendo a nossa ronda quando sentimos um conflito de cosmos nesta região. Viemos verificar. Ao chegarmos encontramos essa cena de combate e o corpo já sem vida da amazona de Lebre.
Deathmask olhou para a amazona e para as marcas deixadas no confronto.
— Foram desertores que fizeram isso?
— Desertores? Ainda não sabemos.
— É provável. Os resquícios de cosmo estão saindo do santuário e não entrando. O que pode indicar que eram desertores. Esses covardes fracassados. — disse o Cavaleiro de Ouro, ríspido. — E onde está o outro corpo?
Os soldados trocaram olhares confusos.
— Senhor?!
— As marcas no chão e na parede da montanha... Indicam dois pontos de combate, o que sugere que foram dois desertores. Isso é sinal de que havia pelo menos um cavaleiro para cada desertor. Eu não sinto um terceiro cosmo saindo do Santuário, então onde está o segundo corpo? — Deathmask se virou e olhou para a borda do precipício. Havia marcas como se algo tivesse rasgado o solo até aquele ponto. — Formem um grupo e desçam. Existe um corpo lá embaixo. Precisamos descobrir quem traiu o Santuário e assassinou dois cavaleiros. — Disse ele olhando para o corpo da amazona de Lebre. — Preciso falar com os mortos.
O cosmo dourado de Deathmask se elevou e a ponto do seu dedo indicador brilhou com intensidade. O Cavaleiro de Câncer ergueu o braço apontando para o céu e abriu uma fenda dimensional conhecida como “Sekishiki’, que leva ao vale do Yomotsu. A entrada do Mundo dos mortos. Os soldados do Santuário ficaram apavorados com os gritos dos mortos que vinha da fenda e com o ar gélido que tomou a região.
Deathmask saltou em direção a fenda e desapareceu. Após atravessar o portal, o guardião da quarta casa surgiu pairando no céu escuro do Yomotsu. Abaixo dele estava os caminhos tortuosos que leva a fileira de mortos até a colina do Yomotsu. Deathmask olhou com atenção para os mortos que caminhavam lentamente. Havia milhares de pessoas. Crianças, jovens, adultos e velhos. Ricos e pobres. Todos caminhando para o mesmo fim: O inferno.
Após alguns segundos ele avistou quem procurava. Uma garota de cabelos negros com o traje manchado de sangue. A amazona de Lebre, Sakra. Deathmask se teletransportou e surgiu diante da amazona pairando ao lado dela. Sakra estava morta, e como todos os outros mortos, ela não tinha mais reações e emoções. A morte arranca todos os sentidos antes que a alma caia no buraco do Yomotsu.
Naquele estado seria impossível fazer qualquer pergunta, pois ela não responderia, mas havia uma forma de arrancar as respostas. Deathmask encostou a ponta do dedo na testa da amazona e elevou seu cosmo, impondo sua vontade sob a alma de Sakra. Os olhos sem vida da amazona se arregalaram e brilharam tomados pelo cosmo do Cavaleiro de Ouro, e a boca muda abriu como se as respostas estivessem saindo no silêncio.
Telepaticamente Deathmask leu a mente da amazona e viu tudo o que ela presenciou nos últimos minutos antes de morrer. A alma da amazona começou a se contorcer ao se lembrar dos ferimentos que tinha sofrido durante a batalha, mas Deathmask parecia não se incomodar com aquilo e continuou assistindo o confronto, ouvindo as conversas, as motivações dos desertores e o desfecho do combate.
— Que patéticos. — disse o Cavaleiro de Ouro se afastando da amazona. — Mas acho melhor informar ao Grande Mestre.
A alma de Sakra seguiu seu percurso natural sofrendo espasmos a cada passo dado, como se nada tivesse acontecido, e Deathmask abriu novamente o “Sekishiki”, mas dessa vez a distorção dimensional mostrava o interior de uma das doze casas zodiacais. A quarta casa, a de Câncer.
—...—
18 de Maio de 1990 – Condado de Skamania, Washington – EUA
Orphée de Lira e Daidalos de Cefeu elevaram seus cosmos na tentativa de intimidar Marcus e Gaius e assim evitar um confronto, mas os desertores não recuaram e elevaram seus cosmos como resposta aos Cavaleiros de Prata.
Daidalos analisou os jovens com bastante atenção.
— Vou pedir pela última vez... — disse Daidalos. — Desistam e se rendam. Se afastem dos autômatos. Não cometam ainda mais crimes.
Marcus olhou para os autômatos por cima do ombro. Havia um de cada lado do trono de ferro do deus Hefesto. Os cães de Alcínoo que faziam a guarda divina. Os trajes de Khryseos e Argyreos. Marcus lembrou de tudo o que Gaius e ele passaram até chegar ali. Estavam a poucos metros de alcançar aquilo que tanto almejavam. Desistir agora seria tolice.
— Espero que isso aqui sirva como resposta. — Marcus cerrou o punho concentrando cosmo energia e avançou em direção a Daidalos.
Marcus aplicou um golpe, mas Daidalos bloqueou com apenas uma mão. Mesmo assim o desertou não recuou e tentou aplicar um soco direto, mas o Cavaleiro de Cefeu desviou tranquilamente dos consecutivos golpes que Marcus tentava aplicar.
— Lento demais. — disse Daidalos segurando o braço de Marcus e o arremessando contra a parede.
O desertor colidiu contra algumas carcaças de armaduras e armas incompletas, porém Marcus logo se levantou partindo para o ataque novamente. Marcus movimentou seus braços rapidamente, dando a impressão de que possui mais de mil braços, e avançou contra Daidalos aplicando uma poderosa sequência de socos.
— Punhos sangrentos!
— Apesar de não ter conquistado uma armadura, seu cosmo e sua técnica são promissores. Eu não posso baixar a guarda. — pensou Daidalos enquanto desviava dos socos.
Marcus continuou avançando e Daidalos seguia desviando dos punhos dele facilmente.
— Vamos rapaz, desista. Seus punhos não irão me acertar.
Mas Orphée surgiu diante do prateado e bloqueou o punho de Marcus com apenas uma mão.
— Não adianta querer dialogar, Daidalos. Eles já tomaram suas decisões. Nada do que você falar fará com que eles mudem de ideia. — o cosmo de Orphée se elevou e Marcus foi repelido. — Aprenda uma coisa, Daidalos... A gente só conversa com quem está disposto a ouvir. — Orphée levou a mão até a Lira. — Acorde noturno!
Uma maravilhosa melodia foi tocada e ondas cósmicas foram emitidas, descarregando um poder esmagador sobre Marcus e Gaius. Os desertores foram arremessados para o alto envolvidos pelo som da melodia e acabaram colidindo fortemente contra o teto, desabando próximo aos Autômatos.
— Sinceramente... — disse Gaius tentando se levantar. — Eu não espero que o senhor entenda os nossos sentimentos.
Orphée encarou Gaius.
— Então é por isso... — o cosmo de Gaius se elevou. Seus cabelos loiros e curtos se agitaram e seus olhos cor de âmbar brilharam com seu cosmo.
Gaius e Marcus lançaram rajadas de cosmos contra os dois prateados que bloquearam facilmente, porém o objetivo deles era outro. Eles também lançaram seus cosmos contra os Autômatos a fim de ativá-los. Por um momento nada aconteceu, e eles acharam que haviam falhado. O sentimento de angústia apertou o peito diante da possibilidade de todos os esforços terem sido em vão. Daidalos e Orphée então se lançaram para capturar os desertores, mas um forte brilho emanou dos autômatos e uma rajada de cosmo atingiu e arremessou os dois prateados contra a parede da Oficina.
De dentro dos autômatos podia ser ouvido o ranger de engrenagens. Aquilo era sinal de que os trajes bestiais haviam sido ativados. Os Autômatos começaram a se desmontar e voaram em direção aos corpos de Marcus e Gaius.
Marcus recebeu em seu corpo o autômato Khryseos. O cão dourado. E Gaius foi escolhido pelo autômato Argyreos. O cão prateado.
—...—
Curiosidades:
* Sakra: é uma referência ao deus budista de mesmo nome que participa da lenda da lebre, na forma de um velho viajante.
* Ryoshi: significa "caçador" em japonês.
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