Notas iniciais
O Santuário entra em uma nova fase com a chegada do Grande Mestre Kazuo e decisões que podem mudar o rumo da guerra contra os deuses. Enquanto Seiya busca recuperar seu poder em um intenso confronto contra Shaula, ameaças surgem nas sombras: um misterioso inimigo derrota Cavaleiros em Rodório, e forças ocultas começam a se mover em silêncio. Sem saber, Satoru também passa a fazer parte de um plano muito maior do que imagina.


Vilarejo de Rodorio

O vilarejo de Rodorio permanecia envolto por um silêncio doentio. A névoa rastejava pelas ruas como uma entidade viva, contornando paredes quebradas, atravessando portas abertas e encobrindo os vestígios de destruição. O ar era pesado — não apenas pela umidade, mas pela sensação constante de que algo observava… esperando.

Os passos de Kin, Sophia e Hugo ecoavam baixos contra o chão irregular de pedra. A corrente de Andrômeda vibrava. Não era um movimento comum. Era agressivo. Instintivo. Hostilidade absoluta.

— Ele está perto… — murmurou Kin, os olhos atentos, o corpo inteiro em alerta.

A praça central surgiu aos poucos através da névoa. A estátua de Atena, quebrada ao meio, parecia observar em silêncio o que restava da vila. E ali… entre as estruturas destruídas… havia uma figura. De costas. Imóvel.

Um Cavaleiro de Prata caía de sua mão no chão com um som seco, o corpo largado como algo sem valor. O trio parou. A corrente de Andrômeda estalou no ar, se erguendo sozinha.

O jovem então virou o rosto… e depois o corpo inteiro. O tempo pareceu desacelerar por um instante. Ele tinha a mesma idade que eles. Altura mediana. Corpo forte, definido — músculos marcados sob a pele exposta, já que vestia apenas uma calça escura, suja de poeira e marcas de combate. Seus cabelos eram vermelhos, intensos como brasas vivas… e seus olhos, cinzas, profundos e vazios, carregavam uma presença inquietante, quase predatória. Não havia raiva ali. Nem loucura. Só… vontade. Vontade pura.

— Quem é ele…? — sussurrou Sophia, sentindo o corpo gelar. Kin não respondeu de imediato. Observou mais. Mais um segundo… mais um detalhe… E então seus olhos se arregalaram levemente.

— Eu conheço ele… — disse, baixo.

— O quê? — Sophia virou o rosto, surpresa.

— Ele… — Kin franziu o cenho. — Ele é aluno da Shaula.

— A Amazona de Escorpião? — Sophia perguntou, incrédula.

— Sim… — Kin assentiu. — A gente já viu ele no Santuário… antes de desaparecer. Era aquele garoto que só arrumava problema… vivia sendo punido… Depois disseram que ele foi treinar com a Shaula por um tempo…

Hugo estreitou os olhos. — Aquele…?

— É… — Kin confirmou.

O jovem, agora completamente virado para eles, abriu um sorriso. Mas não era um sorriso amigável. Era… divertido. Perigoso.

— Heh… — ele soltou uma risada baixa. — Então vocês são Cavaleiros…?

Nenhum dos três respondeu. A tensão era densa demais.

— Pelo jeito… — ele continuou, analisando cada um — Cavaleiros de Bronze.

Hugo deu um passo à frente, o cosmo começando a subir. — Olha tudo que você fez! Quem você pensa que é?!

Sem esperar resposta, avançou. Rápido. Direto.

Mas… num piscar de olhos — Kotaru sumiu. E reapareceu na frente dele. Sua mão fechou no pescoço de Hugo com uma precisão absurda.

— Lento… — murmurou.

Antes que qualquer reação fosse possível — BOOM. Um soco seco, direto no espaço aberto da armadura de Hugo. O impacto afundou o ar ao redor. Hugo perdeu o ar instantaneamente, os olhos arregalados… e então seu corpo simplesmente apagou, caindo mole no chão.

— HUGO! — gritou Sophia, desesperada.

Ela olhou de volta para o jovem. — Se você é aluno da Shaula… então é um Cavaleiro! Por que está fazendo isso?!

Kotaru a encarou. E sorriu. — Eu sou um Cavaleiro… muito mais do que vocês.

Kin deu um passo à frente, a corrente vibrando ainda mais. — Então responde. Por que está fazendo isso?

O sorriso dele se alargou. — Quero testar… minha força.

E então ele se moveu. Direto para Sophia.

Mas — a corrente de Andrômeda disparou. CLANG! Enrolou-se no braço de Kotaru, prendendo-o com força. Ele parou.

— Chicote do Camaleão! — Sophia atacou.

Seu golpe cortou o ar, preciso e rápido. Mas Kotaru ergueu o outro braço — e segurou o chicote. Agora, preso de um lado pela corrente… e do outro pelo golpe de Sophia… ele ficou imóvel por um segundo.

Então fechou os olhos. Seu cosmo explodiu. Vermelho. Intenso. Denso. Como chamas vivas pulsando ao redor do corpo. O ar tremeu.

— Sophia, cuidado—! — Kin começou.

Tarde demais. Kotaru puxou o chicote com violência — Sophia foi arrastada para frente — CRACK! Uma cabeçada brutal. O impacto ecoou seco. Sophia caiu no chão, desacordada.

— SOPHIA!

Kin puxou a corrente, tentando intervir — mas Kotaru puxou de volta. A força era absurda. Kin foi arrastada alguns passos, mas conseguiu se firmar, bloqueando o golpe seguinte com o antebraço. THUD! O impacto a fez deslizar para trás.

Kotaru arqueou uma sobrancelha, surpreso e reconhecendo Kin. — Hm… então você…

Seus olhos cinzas se fixaram nela. — É a discípula do lendário Shun…?

Kin não respondeu. Seus olhos estavam firmes. Determinados. Ela soltou a corrente —

— Corrente de Andrômeda!

As correntes dispararam em múltiplas direções, rápidas, imprevisíveis, cortando o ar como serpentes vivas. Mas Kotaru desviava. Um passo. Um giro. Um movimento mínimo. Era como se ele já soubesse.

Kin arregalou os olhos. — Ele… está acompanhando…?

Num instante, Kotaru se afastou, deslizando para trás. Seu cosmo voltou a crescer. Mais intenso. Mais perigoso.

— Não achei… que usaria isso aqui…

Ele ergueu o olhar.

— Ilusão da Cauda de Fogo!

O mundo ao redor pareceu distorcer. Chamas azuis surgiram. E de dentro delas — múltiplos Kotarus. Dezenas. Todos com o mesmo olhar. O mesmo sorriso.

Kin atacou. As correntes atravessaram uma… duas… três cópias — vazias.

— O quê…?

Então as esferas surgiram. Pequenas. Azuis. Incandescentes. E explodiram ao redor dela.

— AHH—!!

A dor não era só física. Era mental. Era como se algo invadisse sua mente… queimando… drenando… apagando tudo. Seus pensamentos sumiam. Seu foco desaparecia. Seu corpo não respondia.

— Não… consigo… pensar…

Seus joelhos tocaram o chão. Os olhos perderam o foco. E então… escuridão. Kin caiu.

Silêncio. A névoa voltou a dominar o espaço.

Kotaru observou por cima do ombro. Sem pressa. Sem emoção. E começou a se afastar, sendo engolido pela neblina.

— Cavaleiros… — murmurou, com desdém leve na voz.

E então… desapareceu.


Santuário de Atena — Campo Rochoso Isolado

O vento soprava constante entre as formações rochosas, cortando o silêncio daquele ponto afastado do Santuário. Era um lugar pouco frequentado — não por falta de beleza, mas pela intensidade. Rochas enormes se erguiam como pilares naturais, muitas delas quebradas, rachadas ou completamente destruídas. O solo irregular estava marcado por crateras e sulcos profundos, como cicatrizes de batalhas antigas… e recentes.

Ali, dois cosmos se chocavam.

— HAA!

Seiya avançou. Seu punho cortou o ar com precisão absurda, criando uma pressão que distorcia o ambiente ao redor. Marin recuou por reflexo, cruzando os braços para bloquear, mas o impacto veio pesado. O choque ecoou entre as rochas, levantando poeira. Ela deslizou para trás, os pés arrastando no chão.

— Você está mais rápido… — disse Marin, ajustando a postura.

Seiya não respondeu. Seu olhar estava focado. Sério. Diferente. Num instante, ele desapareceu.

Marin arregalou levemente os olhos — tarde demais.

— Aqui.

A voz veio atrás.

Seiya surgiu e desferiu um chute lateral. Marin tentou girar o corpo para amortecer, mas o impacto a lançou contra uma formação rochosa. A pedra se partiu no momento do choque, abrindo mais uma cratera no cenário já devastado. Um estrondo seco ecoou.

Por um segundo, tudo ficou em silêncio… até que Seiya pousou suavemente no chão, soltando o ar devagar.

— Você pegou leve — disse Marin, ainda caída.

Seiya sorriu de volta, caminhando até ela e estendendo a mão.

— Não o suficiente.

Ela segurou a mão dele e se levantou, limpando a poeira do ombro com um leve tapa. Seus olhos analisavam Seiya com atenção — não como mestra, mas como alguém que conhecia cada detalhe daquele garoto… que já não era mais um garoto.

— Hm… — ela cruzou os braços. — De fato… você não parece mais aquele menino que chegou à Grécia sem saber nem manter a guarda.

Seiya soltou uma leve risada, passando a mão na nuca.

— Faz tempo, né…

Marin continuou observando. Seu olhar ficou um pouco mais sério.

— Mas também não se empolgue. Contra mim… — ela inclinou levemente o rosto — uma Amazona de Prata… ainda é fácil.

Seiya ergueu uma sobrancelha, divertido.

— Tá me provocando?

— Estou sendo realista — respondeu ela, firme. — Você dominou o sétimo sentido há muito tempo. Já foi além disso… — ela desviou o olhar por um segundo — armadura divina, milagres… coisas que poucos sequer compreendem.

Ela voltou a encará-lo.

— Mas isso foi antes. Hoje… — pausou — você está instável.

O vento soprou mais forte entre as rochas. Seiya ficou em silêncio por um instante. Seu sorriso diminuiu… mas não desapareceu.

— Eu sei.

Ele olhou para o próprio punho, fechando-o devagar.

— Eu sinto isso… o tempo todo.

Seu cosmo oscilava. Não fraco… mas irregular. Como uma chama que ora queimava intensa, ora vacilava.

— Enquanto isso… — continuou Marin — os outros Cavaleiros de Ouro estão em atividade constante. O sétimo sentido neles flui naturalmente… puro.

Ela deu um passo à frente.

— Hoje… até a Shaula…

Antes que terminasse—

— Deve superar ele?

Uma voz cortou o vento. Ambos olharam para cima. No topo de uma das formações rochosas mais altas, uma silhueta estava parada.

Shaula. Ela saltou. O impacto de sua aterrissagem foi leve, mas firme. Poeira subiu ao redor de seus pés. Ela estava sem armadura — apenas vestes de treino justas ao corpo — e, como toda Amazona, usava sua máscara que cobria até o nariz e deixava sua boca visível. Ainda assim, sua presença era inconfundível.

Imponente e Segura. Ela cruzou os braços.

— Depois que eu vim pro Santuário… — começou, caminhando lentamente — alguns anos depois de ser adotada por você e pela Seika…

Seiya a observava com atenção. Havia orgulho ali. Muito.

— Eu treinei por sete anos — continuou ela — dos 11 aos 18.

Ela parou a poucos metros deles.

— E me tornei uma Amazona de Ouro.

O vento soprou, movendo levemente seus cabelos.

— Eu estava curiosa… — ela inclinou o rosto, encarando Seiya — pra ver você treinando.

Ela soltou uma pequena risada e olhou de lado para Marin.

— E… — completou — a Marin me convenceu e me chamou pra treinar com você

Marin deu de ombros.

— Talvez.

Shaula voltou o olhar para Seiya.

— Afinal… — sua voz ficou mais firme — o nível agora é de um Cavaleiro de Ouro.

O silêncio caiu por um instante. Seiya então sorriu. Não era um sorriso leve. Era confiante.

— Eu não vou pegar leve.

Shaula respondeu na mesma hora, sem hesitar:

— Eu não queria que fosse.

Os dois se encararam. Por um segundo… o tempo pareceu recuar.

— Parece que foi ontem… — disse Seiya, mais baixo — que você tinha sete anos… e treinava comigo no quintal de casa… lá em Taketomi.

Um breve silêncio. Shaula desviou o olhar por um instante. Só um.

— Chega de conversa.

Quando voltou a encará-lo… sua postura já era outra.

Fria. Focada. Determinada.

Ela avançou.

O chão se partiu sob seus pés no impulso, e Seiya sorriu antes de avançar também. O impacto do primeiro choque ecoou pelas rochas ao redor, levantando poeira e fragmentos. Shaula surgiu na frente dele com um soco direto — Seiya desviou por centímetros, girando o tronco, e respondeu com um golpe curto no abdômen. Ela bloqueou com o antebraço, o som seco reverberando no ar, e soltou um baixo “— Hm.” Antes mesmo do impacto terminar, ela contra-atacou com um chute baixo, mirando a base de apoio. Seiya saltou, girando no ar, e desceu com um chute descendente que raspou o chão quando Shaula recuou meio passo, abrindo uma fissura na pedra.

Os dois não paravam. Soco, bloqueio, cotovelo, esquiva, chute, contra-ataque. A troca era rápida demais para olhos comuns, e o som dos golpes se misturava ao vento, criando uma sequência contínua de impactos secos. Shaula mantinha a base firme, o corpo compacto, cada movimento preciso. Apesar de seu estilo ter sido refinado como Amazona de Escorpião, havia algo ali — familiar. A base. Movimentos diretos, pressão constante, golpes rápidos. Seiya. Ele percebeu… e sorriu de leve.

— Então você não abandonou tudo…

— Eu evoluí — respondeu ela, já avançando novamente.

Seiya bloqueou um soco, desviou de outro, e então sumiu. O ar distorceu ao redor do ponto onde ele estava. Marin, ao fundo, estreitou os olhos. — De novo… Num instante, Seiya reapareceu ao lado de Shaula, girando o corpo para repetir o mesmo chute lateral que havia usado contra Marin. Mas antes do impacto, Shaula desapareceu. Seiya sentiu — tarde demais.

— Essa velocidade… — a voz dela surgiu abaixo.

Ela já estava abaixada. O cotovelo veio seco.

CRACK!

O golpe acertou o estômago de Seiya com precisão cirúrgica. O ar saiu dos pulmões dele instantaneamente, e seu corpo foi lançado para trás, atravessando o ar e quicando duas vezes no solo antes de deslizar até parar. Pedras se quebraram ao redor. Seiya apoiou um joelho no chão, respirando fundo, uma mão pressionando o abdômen.

— …Você tá muito forte…

Shaula caminhou na direção dele sem pressa, o olhar firme. — Isso não é nada. Ela parou a alguns metros.

— Eu vi sua luta contra o Híades. Seu olhar ficou frio. — No final… vocês dois estavam arfando.

O vento soprou, levantando poeira entre eles.

— Eu sou mais forte que ele.

Seiya soltou um pequeno riso, ainda recuperando o fôlego.

— É mesmo? Ele fechou o punho, e seu cosmo começou a subir.

— Eu avisei…

Ele ergueu o olhar, agora mais sério. — …que não ia pegar leve.

O ar ao redor dele vibrou.

— METEORO DE PÉGASO!

Centenas de socos dispararam em sequência, rasgando o ar como uma chuva de estrelas. Mas Shaula se moveu. Um passo. Um desvio mínimo. Outro. Outro. Os meteoros passavam por ela como se estivessem em câmera lenta. Seiya arregalou levemente os olhos.

— Ela tá… lendo…?

Num instante, ela já estava dentro da guarda dele e acertou um golpe seco no rosto. Seiya sentiu o impacto — mas reagiu no mesmo instante. Segurou o braço dela, girou o corpo, encaixou por trás.

— TURBILHÃO DE PÉGASO!

Os dois giraram no ar, executando o movimento clássico. O corpo de Shaula estava completamente controlado na técnica. Seiya travou por um instante.

“Se eu jogar ela de cabeça… vai se machucar.”

Seus olhos focaram. Ele mudou o movimento. Ao invés do impacto direto, girou o corpo para chutar o abdômen dela e lançá-la com o corpo inteiro, reduzindo o dano. Mas—

…não havia ninguém.

Seiya terminou o movimento no vazio.

— …?!

Ele aterrissou, o olhar se movendo rapidamente. Shaula estava no chão, alguns metros à frente. Em pé. Intacta.

— Você ainda tá subestimando.

A voz dela era baixa, mas carregada.

— Esses golpes… — ela deu um passo à frente

— talvez nem funcionem mais contra Cavaleiros comuns.

O vento pareceu parar por um segundo.

— Você é a pessoa que eu mais respeito no mundo todo…

A voz dela subiu, carregada de intensidade.

— MAS ISSO—

Seu cosmo oscilou violentamente.

— É UMA OFENSA!

O chão sob seus pés rachou.

— Eu sou um Cavaleiro de Ouro!

Ela avançou mais um passo.

— Você devia estar se preparando… pros confrontos que vão vir!

Seiya ficou em silêncio, absorvendo.

— E se aparecer outro anjo…?

O nome fez algo travar dentro dele. Um flash. Seika. O ataque. O desespero. Seus olhos endureceram.

— …Você tem razão.

Silêncio.

Então o cosmo de Seiya explodiu — diferente, mais denso, mais focado. Marin arregalou os olhos. — Agora sim…

Seiya sumiu novamente. Dessa vez, Shaula teve dificuldade de acompanhar.

— Tch—

Ele surgiu em ângulos diferentes, confundindo sua percepção.

— METEORO DE PÉGASO!

Os golpes vieram mais rápidos, mais pesados, mais precisos. Shaula tentou desviar — conseguiu escapar de vários — mas alguns acertaram. Impactos secos, sequenciais, empurrando seu corpo para trás enquanto seus pés arrastavam no chão. Ainda assim, ela não caiu. Estabilizou-se, respirando fundo.

— Finalmente… — disse, levantando o olhar. — Agora você tá sério.

Silêncio.

O cosmo dela começou a subir. E subiu. E continuou subindo. O ar ficou pesado, denso. Marin sentiu e estreitou os olhos.

— Não me diga que ela…

Shaula ergueu o braço, apontando o dedo indicador para cima. Seu cosmo pulsava como uma estrela concentrada.

— Mestre… — sua voz voltou a ser calma. — Essa é a minha principal habilidade.

O tempo pareceu desacelerar.

— AGULHA ESCARLATE.

Dois disparos. Invisíveis.

Seiya nem viu.

— GHH—!

Seu corpo travou. Ombro. Joelho. A dor veio absurda, atravessando não só o corpo, mas o sistema nervoso inteiro. Seiya caiu de um joelho, o corpo tremendo.

— Isso…!

Mas, no exato momento em que Shaula disparou, Seiya reagiu. Instinto. Experiência. Mesmo caindo—

— COMETA DE PÉGASO!

Um disparo único. Menor. Mais rápido. Mais concentrado. Shaula não viu. O impacto veio direto.

— UGH!

Ela foi lançada para trás, atravessando o ar e colidindo contra uma rocha, que se partiu no impacto.

Silêncio.

O vento voltou a soprar entre as formações destruídas. Seiya respirava pesado, apoiado em um joelho, o corpo ainda tremendo pela dor das agulhas. Shaula… se moveu. Lentamente. Ela se levantou, um pouco instável, mas firme.

— …Então é isso…

Ela limpou a poeira do ombro.

— Um Cavaleiro lendário…

Seus olhos focaram nele.

— Meu mestre.

Ela deu alguns passos à frente.

— Nem eu vi aquele Cometa de Pégaso… Menor… mas perfeito.

Uma pausa.

— Você esperou o momento exato em que eu estava vulnerável.

Ela estendeu a mão — Dessa vez… — um leve sorriso surgiu — eu ganhei.

Seiya olhou para a mão dela… e sorriu. Segurou.

— Ficou forte…

Eles se levantaram. Ao fundo, Marin observava em silêncio, o olhar analítico, frio.

“Sem dúvida…” pensou. “O nível da Shaula… é de um dos Cavaleiros mais poderosos do exército de Atena.”

Seus olhos voltaram para Seiya.

“…Mas o Seiya…”

Ela fechou levemente os olhos.

“…ainda está longe do que já foi.”

O vento soprou entre as rochas destruídas.

“Mais de dez anos… sem lutar de verdade…”

Seiya soltou a mão de Shaula, ainda sorrindo. Mas seu cosmo…ainda oscilava.


Templo de Atena

No Templo de Atena, o silêncio tinha um peso diferente do habitual. Não era apenas a calma sagrada do Santuário, mas uma quietude carregada de decisões que poderiam mudar o destino de eras. Após o retorno de Lemnos, Atena, Saori Kido, permanecia sentada em seu trono, o olhar distante por alguns instantes, como se ainda estivesse absorvendo o peso da conversa que tivera com Hefesto. Diante dela, de pé com postura firme, Kazuo — o novo Grande Mestre — mantinha uma expressão serena, porém atenta a cada nuance do ambiente.

Saori respirou fundo antes de falar, quebrando o silêncio.

— Eu agradeço por ter aceitado o cargo, Kazuo. Foram muitas tentativas até finalmente conseguir trazê-lo de volta ao Santuário.

Kazuo soltou um leve sorriso discreto, quase imperceptível, como alguém que carrega mais passado do que permite transparecer.

— Até pouco tempo atrás… eu não tinha certeza se deveria aceitar. Faz muito tempo que me afastei do Santuário. Não estive presente nas últimas Guerras Santas… e muitos morreram enquanto eu apenas observava de longe. Esse peso não desaparece.

Ele fez uma pausa breve, como se cada palavra viesse acompanhada de lembranças que preferia manter enterradas.

— Só depois que você enviou Aix para me explicar a situação por completo… eu entendi que não havia mais espaço para hesitação.

Saori baixou levemente o olhar, mas sua voz veio firme, quase como uma contraposição silenciosa.

— Você já fez muito pelo Santuário… muito antes mesmo de eu nascer. Eu conheço seus feitos, Kazuo. Sei o que realizou em diversas batalhas, em tempos em que o mundo nem mesmo sabia o nome de Atena. Você foi discípulo de Dohko e Shion… entre todos, você é o mais adequado para esse cargo.

Por um instante, o ar pareceu pesar ainda mais. A menção aos antigos mestres trouxe uma sombra de respeito ao ambiente. Mas então, a expressão de Kazuo mudou sutilmente, ficando mais séria.

— E quanto a sua ida a Lemnos? — ele perguntou, com voz controlada, mas firme — Quais são seus pensamentos sobre essa possível guerra?

O semblante de Saori mudou imediatamente. Não foi brusco, mas foi perceptível — como se uma camada de deusa e humana entrasse em conflito dentro dela. Kazuo percebeu na hora.

— Hefesto… é irredutível. — disse ela após um instante. — Ele deixou claro que, se não nos juntarmos a ele na guerra contra o Olimpo, ele considerará os Cavaleiros uma ameaça direta.

Kazuo soltou um leve suspiro pelo nariz, quase um comentário contido.

— Isso é bem típico dele…

Saori fechou os olhos por um segundo, e quando os abriu novamente, havia uma decisão ali que ainda não tinha sido totalmente dita em voz alta.

— Eu já tomei minha decisão.

O ambiente pareceu congelar. Kazuo não respondeu de imediato. Apenas observou.

— Eu vou aceitar me juntar a Hefesto… mas sem envolver os Cavaleiros diretamente. Não vou arrastá-los para essa guerra.

O silêncio que seguiu foi pesado. Não era surpresa, mas era impacto. Kazuo finalmente falou, mas sua voz saiu mais baixa.

— Os Cavaleiros existem para te proteger, Atena.

Saori se levantou lentamente do trono, e agora sua presença preenchia o salão de forma ainda mais intensa.

— E eu sou Atena, deusa da guerra também. Desta vez… eu vou lutar.

Kazuo sustentou o olhar por alguns segundos, e então perguntou algo que parecia inevitável, mas perigoso demais para ser ignorado.

— E o que seus irmãos vão achar disso? Apolo e Ártemis…

O ar mudou. A expressão de Saori se fechou imediatamente. Não foi raiva, mas algo mais profundo — um tipo de tensão antiga, familiar, que não precisava ser explicada para ser sentida. Kazuo percebeu seu erro no mesmo instante.

— Perdoe-me… — disse ele, e então se ajoelhou diante dela, baixando a cabeça. — Não importa qual seja sua decisão… eu estarei aqui para servi-la até o fim.

O silêncio voltou, mas agora era diferente. Menos pesado. Mais respeitoso. Saori o observou por alguns segundos e então suavizou sua expressão, permitindo um pequeno sorriso.

— Amanhã… você será apresentado oficialmente ao Santuário. E eu explicarei a todos os Cavaleiros os próximos passos desta guerra.

Ela fez uma pausa breve, como se escolhesse cuidadosamente o que viria a seguir.

— Em uma das últimas cartas que você me respondeu, quando eu ainda tentava te convocar… você disse que, para vencer essa guerra, seria preciso fazer coisas que antes seriam impensáveis.

Kazuo levantou o olhar lentamente. E apenas assentiu. Não havia surpresa em seu rosto. Nem dúvida.

Era como se, no fundo, ele já soubesse que esse momento chegaria… e talvez, em silêncio, tivesse guiado Atena exatamente até ele.


Casa de Áries — Escadaria

A noite já tinha caído sobre o Santuário, e as Doze Casas estavam envoltas por aquele silêncio profundo que só existia quando a maioria dos Cavaleiros já havia recolhido seus treinos. As tochas ainda queimavam em pontos específicos, iluminando os corredores de pedra com uma luz dourada tremulante. Satoru caminhava sozinho em direção aos dormitórios, o corpo ainda marcado pelo treino do dia, mas a mente claramente distante pensando na conversa que ouviu. Ele apertava levemente os punhos enquanto lembranças recentes ecoavam na cabeça — fragmentos de conversa, nomes, decisões. Seu avô seria o novo Grande mestre do santuário.

A respiração de Satoru ficou mais pesada. Ele deu um passo para trás, depois outro… até virar completamente o corpo. E então, sem pensar, começou a correr. Corria mais rápido do que o próprio pensamento conseguia acompanhar. As casas passavam borradas ao lado, o vento cortando seu rosto, até que ele parou bruscamente em frente à Casa de Áries.

Hiades estava ali, e ao ver o garoto ofegante, franzindo o cenho imediatamente.

— Quem é esse pirralho?

Satoru ainda tentava recuperar o ar, mas manteve os olhos firmes. Hiades cruzou os braços, analisando-o de cima a baixo.

— E essas roupas de treino… o que um aspirante está fazendo na área das Doze Casas a essa hora?

Shun se aproximou no mesmo instante, e sua expressão mudou ao reconhecer o garoto.

— Satoru…? O que houve? Por que você está aqui assim?”

Satoru ignorou o ambiente, ignorou Hiades, ignorou até o próprio cansaço. Ele foi direto até Shun, como se fosse a única pessoa que pudesse lhe dar uma resposta.

— Senhor Shun… é verdade? — a voz dele saiu mais baixa do que o esperado, mas carregada de tensão. — É verdade que o meu avô é o novo Grande Mestre? Por que ninguém me contou isso?

Hiades estreitou os olhos imediatamente. A ficha caiu.

— Então você é o Satoru… — disse ele, agora com um tom diferente. — Kazuo comentou sobre você na última reunião. Disse que, se você aparecesse aqui… era pra te mandarem embora pra continuar seu treinamento.

Satoru apertou os punhos.

—Eu não quero ir embora. Eu quero ver ele.

Hiades soltou um suspiro curto.

—O Grande Mestre está nos aposentos dele. E esses aposentos são proibidos para Cavaleiros, a menos que ele convoque alguém. Imagine para um simples aspirante.

Shun tentou intervir, tocando levemente o ombro de Satoru.

—Satoru, volte para o dormitório. Em breve tudo será explicado. Não é o momento.

Mas Satoru não se moveu.

Ele olhava para cima, como se pudesse atravessar todas as casas até chegar ao topo.

Foi quando novos passos surgiram. Marin, Shaula de Escorpião e Seiya estavam retornando de treino. Shaula vinha com sua postura relaxada, roupa de treino ainda marcada pelo esforço recente, enquanto Marin observava tudo com atenção silenciosa.

Shaula foi a primeira a falar, olhando diretamente para Satoru.

— Quem é esse garoto?

Hiades respondeu sem hesitar.

— Neto do Kazuo.

Shaula franziu a testa.

—Ele? — disse, olhando Satoru de cima a baixo com um certo desprezo leve. — Esse garoto franzino? Kazuo disse que treinou ele por anos… não parece grande coisa.

Satoru engoliu seco, mas não respondeu. Marin, mais neutra, cruzou os braços.

— O que um aspirante está fazendo aqui?

Antes que Satoru pudesse falar, seus olhos se moveram. E pararam em Seiya. O mundo pareceu reduzir o som.

Seiya.

O lendário Cavaleiro de Pégaso.

Satoru ficou imóvel. A respiração falhou por um instante. Era como se todas as histórias que ele ouviu durante a vida estivessem agora em carne e osso na frente dele. Ele tentou falar algo… qualquer coisa…

—…Seiya…

Mas a voz não saiu direito. Ele travou completamente. Seiya ficou levemente sem graça, coçando a cabeça.

—Ei… o que houve? Você está bem?

Hiades, ignorando a situação, retomou o controle da conversa.

— Ele quer ver o Kazuo e não quer sair daqui.

Shaula soltou um riso curto.

— Hiades, você é patético.

Em um piscar de olhos, ela desapareceu da posição onde estava. E reapareceu atrás de Satoru. O garoto ainda estava congelado, preso entre o choque de ver Seiya e a confusão da situação.

—Seiya… — ele ainda tentava repetir.

Shaula apenas ergueu a mão. Um golpe seco na nuca. Satoru desabou imediatamente. O corpo caiu sem reação.

Seiya suspirou.

— Isso… é bem a cara dela.

Shun se aproximou rápido, preocupado, se ajoelhando ao lado de Satoru.

— Ele está bem…

Hiades cruzou os braços. Shun suspirou e pegou Satoru com cuidado, colocando-o sobre os ombros.

— Eu levo ele para os dormitórios.

Mas Hiades o interrompeu.

— Melhor não. Deixa isso com outra pessoa. O Grande Mestre foi bem claro sobre não querer Cavaleiros saindo das Doze Casas.

Marin se aproximou.

— Eu levo o garoto.

Sem esperar resposta, ela pegou Satoru com facilidade. Hiades olhou para Shaula com irritação.

— Se o Grande Mestre souber o que você fez com o neto dele…

Shaula apenas deu de ombros e sentou nos degraus da escada, cruzando as pernas.

— Pff. Cuida da sua vida.

Marin já se afastava com o garoto desacordado nos braços.

— Volto amanhã para continuar o treino, Seiya.

E desapareceu pelo caminho dos dormitórios. O silêncio voltou por alguns segundos. Até que novos passos surgiram descendo as escadas.

Hyoga e Kiki apareceram.

Kiki parecia cansado, mas atento. Hyoga mantinha sua habitual calma gelada. Ao ver o grupo reunido, Kiki perguntou:

— O que aconteceu aqui?

Hiades respondeu primeiro, direto.

— E vocês? Como foi em Lemnos?

Hyoga respondeu sem emoção.

— Hefesto não mudou de ideia.

Seiya, ao ouvir isso, ficou tenso de imediato.

— Atena voltou?

Sem esperar resposta, ele já virou o corpo.

— Eu preciso vê-la.

E começou a correr.

— Seiya!” Hyoga chamou. — Ela está no templo! E o Grande Mestre está com ela.

Hyoga continuou, firme.

— Ele não vai permitir que ninguém entre lá agora.

Hiades completou:

— Ele é rígido demais para isso.

Seiya parou, cerrando os punhos.

— Eu não quero saber. Eu quero ver a Saori.

Mas antes que ele se movesse novamente…Uma presença diferente surgiu.

Todos sentiram.

O ar mudou.

Kazuo.

Ele apareceu no topo dos degraus com calma absoluta, observando todos ali reunidos como se já soubesse exatamente o que estava acontecendo. Seiya foi o primeiro a encará-lo.

— Você é o Grande Mestre?

Kazuo assentiu lentamente.

— Sim.

Ele caminhou alguns passos e parou.

— Atena está segura. E descansando.

Shun franziu o cenho.

— O que o senhor veio fazer aqui?

Kazuo olhou ao redor, um por um.

— Eu senti seis Cavaleiros de Ouro reunidos fora de suas Casas… conversando. Quando deveriam estar em suas posições.

Ele desceu mais um degrau e, sem pressa, sentou na escada. O gesto deixou todos em silêncio.

— Então… — sua voz saiu calma, mas firme. — O que vocês pensam sobre essa guerra?

Shaula, quase inaudível, murmurou:

— Me diz você… é o Grande Mestre.

Mas ninguém ouviu.

Shun foi o primeiro a responder com seriedade.

— Nossos inimigos… os Cabiros… parecem extremamente poderosos.

Hiades bufou.

— Você ainda nem viu todos eles. Só aquele tal de Deva de Agni que apareceu no Santuário trazendo a mensagem pra Atena.

Kiki completou:

— O cosmo dele era muito poderoso. Ele envolveu todos nós.

Hiades cruzou os braços.

— Ainda assim… alguns de nós poderiam lidar com todos eles. Talvez devêssemos ir direto pra Lemnos e acabar com isso de uma vez.

Kazuo observava cada um em silêncio. Seus olhos analisavam, não apenas as palavras, mas as pessoas.

Hiades então virou para Shaula.

— E você? O que acha?

Shaula ficou em silêncio por alguns segundos, sentada de forma relaxada, olhando o chão.

Hyoga perguntou:

— Você não vai falar nada?

Ela finalmente respondeu, sem levantar o olhar.

— Não tenho certeza se seria tão fácil assim.

Hiades riu.

— Olha só… a grande Shaula de Escorpião com medo?

Ela levantou o olhar na mesma hora.

— Eu não tenho medo de nada. Você que é idiota demais pra usar a cabeça.

O tom ficou mais sério.

— Aquele Cabiro que veio ao Santuário… foi forte o suficiente pra parar o golpe do meu mestre com um dedo.

Seiya franziu a testa, lembrando imediatamente.

Hiades deu de ombros.

— Sem desrespeito, Seiya, mas você ficou mais de dez anos sem lutar. Não é parâmetro.

Shaula respondeu na hora.

— E ainda assim você não conseguiu derrotá-lo naquela palhaçada de impedir o Seiya de subir as Doze Casas. E no final você ainda estava ofegante.

Hiades cerrou os dentes.

Kiki continuou, ignorando a tensão.

— O cosmo daquele Cabiro era gigantesco. Comparável ao de Shun… talvez até maior. E ele parou um golpe com um dedo.

Shun ficou em silêncio ao ouvir isso.

Kiki continuou:

— E como reparador de armaduras, eu consigo ver padrões. Falhas. Aberturas… mas a clâmide dele… era diferente.

Ele respirou fundo.

— Forjada pelo próprio Hefesto. Não parecia ter falhas. Era perfeita.

Todos ainda permaneciam em silêncio após a última fala de Kiki. O ar parecia mais pesado, como se cada palavra dita tivesse deixado uma camada invisível de tensão no ambiente. Hiades cruzou os braços, Shun manteve o olhar distante, Hyoga observava com frieza analítica, e até Shaula, que normalmente quebrava o clima com ironia, ficou estranhamente quieta por alguns segundos.

Kiki ainda estava levemente inclinado para frente, como se tivesse acabado de soltar algo que não deveria ser dito em voz alta. O silêncio que veio depois foi quase absoluto.

Kazuo, que até então estava sentado na escada com calma, lentamente levantou o olhar. Ele não demonstrava surpresa, mas havia algo mais profundo ali — uma análise silenciosa, como se estivesse conectando peças de um quebra-cabeça que só ele enxergava por completo.

Um a um, os olhos dos Cavaleiros começaram a se mover entre si, como se cada um estivesse processando o peso daquela informação.

Shun foi o primeiro a baixar levemente o olhar.

Hyoga permaneceu imóvel.

Seiya cerrou os punhos de leve.

Hiades soltou um leve estalo de língua, mas não disse nada.

Shaula cruzou os braços, agora com uma expressão mais séria do que o habitual.

Kazuo ficou alguns segundos em silêncio… até finalmente se levantar.

O movimento foi lento, controlado, mas imediatamente todos prestaram atenção.

— Acabou o bate-papo. — disse ele, com um tom firme, porém calmo. — Voltem para suas respectivas Casas.

A ordem não soou agressiva, mas carregava autoridade absoluta. Shun ainda parecia querer falar algo, mas se conteve. Seiya, no entanto, deu um passo à frente.

— Espera… eu preciso saber sobre a Saori

Kazuo o interrompeu imediatamente.

— Seiya.

O simples chamado fez o Cavaleiro de Sagitário parar.

— Vá para a Casa de Sagitário. Atena está bem. Em breve eu mesmo conversarei com você.

Ele fez uma breve pausa.

— Fiquei sabendo há pouco tempo que você voltou a ser um Cavaleiro. Isso é bom.

Seiya hesitou por um segundo, como se quisesse insistir, mas acabou fechando os punhos e recuando. Kazuo então virou o corpo lentamente. Sem olhar para trás, começou a caminhar para fora das Doze Casas. O silêncio se estendeu novamente.

Shun acompanhou o movimento com os olhos.

— Onde o senhor vai…?” perguntou baixinho.

Kazuo, já se afastando, respondeu sem parar de andar:

— Dar uma volta.

Kiki, ainda curioso, deu um passo à frente.

— Quer companhia?

Kazuo nem sequer virou o rosto.

— Não sou tão velho assim.

A resposta arrancou um leve silêncio desconfortável… seguido de um quase imperceptível alívio em alguns. Seiya permaneceu parado, observando o Grande Mestre se afastar até desaparecer entre as colunas iluminadas pelas tochas. Shaula soltou um suspiro curto e então se aproximou de Seiya com sua postura relaxada de sempre.

Ela colocou a mão no ombro dele.

— Vem. Mestre… eu te levo até os aposentos da Casa de Sagitário.

Seiya piscou, ainda meio perdido.

— Aposentos?

— Sim. — ela respondeu. — Cada Casa tem locais de descanso para os Cavaleiros. Você não precisa ficar andando igual um perdido por aí.

Hiades, ao ouvir isso, soltou uma risada baixa.

— Olha só… Shaula sendo fofa só com o Seiya.

O olhar dela mudou imediatamente. Ela virou levemente a cabeça, encarando Hiades por cima do ombro.

— Repete.

Hiades deu de ombros, provocando ainda mais.

— Fofa. Só com ele.

Shaula soltou um sorriso frio.

— Mais uma palavra e eu te apago daqui.

Hiades riu, mas deu um passo para trás, sem levar totalmente a sério… embora soubesse que ela não estava brincando.

Shun suspirou, tentando amenizar o clima.

— Vamos voltar também…

Hyoga apenas virou o corpo e começou a subir as escadas sem dizer nada.

Kiki ajeitou sua postura e olhou mais uma vez na direção onde Kazuo havia sumido.

— Aquele homem… — murmurou. — não está apenas preocupado com essa guerra.

Shun olhou para ele.

— O quê quer dizer?

Kiki não respondeu de imediato. Apenas ficou em silêncio por alguns segundos… antes de começar a descer também.


Em um Local isolado no Santuário.

No topo de uma montanha isolada dentro do Santuário, onde o vento soprava mais forte e o céu parecia mais distante, Kazuo estava parado em silêncio. O lugar era alto o suficiente para que as Doze Casas fossem vistas parcialmente ao fundo, iluminadas pela luz da noite. Ele não se movia. Apenas esperava. O vento batia em suas vestes com leveza, mas ele permanecia firme, como uma montanha ainda mais antiga que o próprio Santuário.

Então… uma presença surgiu. Sem barulho de passos. Sem anúncio. Apenas uma distorção sutil no ar. Uma figura apareceu ali, carregando uma urna de armadura nas costas. A constelação era clara.

Gêmeos.

Kazuo não precisou virar completamente o rosto para reconhecer.

— Você demorou. — disse ele, seco.

Zyon deu um leve sorriso.

— Não esperava que você aceitasse o cargo de Grande Mestre depois de tantas recusas.

Kazuo finalmente virou parcialmente o rosto.

— Não importa.

Seu tom era direto.

— Você tem aparecido menos no Santuário. Isso só aumenta suspeitas sobre você.

Zyon de Gêmeos deu de ombros, despreocupado.

— Suspeitas não me interessam. Só o sucesso da missão importa.

Kazuo estreitou o olhar levemente.

— Sobre isso… — disse ele. — Quando você pretende parar de ganhar tempo e começar a agir de verdade?

O Cavaleiro de Gêmeos permaneceu em silêncio por um instante. O vento ficou mais forte por um segundo.

Então ele respondeu:

— Em breve vou visitar o Deus do Sol.

Kazuo franziu levemente a testa.

— Deus do Sol…?

Ele estreitou ainda mais os olhos.

— Você está falando do Apolo?

Kazuo ia continuar a frase… mas Zyon o interrompeu calmamente.

— Hélio.

O nome cortou o ar.

Kazuo piscou, por um instante claramente confuso.

— Helio…? — repetiu ele, como se estivesse reorganizando a informação na mente. — O Deus do Sol…aquele que tudo vê...

Ele finalmente entendeu. O silêncio voltou por um instante.

Kazuo então perguntou, mais sério:

— Você sabe o que está fazendo?

Zyon — o Cavaleiro de Gêmeos — deu um leve sorriso de canto.

— Sim.

Ele virou o corpo lentamente, já começando a se afastar.

— E sou o único que pode fazer isso.

Kazuo permaneceu imóvel, observando. O vento entre os dois ficou mais pesado. Zyon continuou andando, sem olhar para trás.

— Eu te mantenho atualizado.

E então desapareceu na distância da montanha, como se nunca tivesse estado ali. Kazuo ficou sozinho. O Grande Mestre permaneceu em silêncio por alguns segundos. Seu olhar se perdeu por um instante no horizonte… como se aquela conversa tivesse aberto mais perguntas do que respostas. E o vento do Santuário continuou soprando.


Dormitório dos Cavaleiros e Aspirantes

Os dormitórios dos Cavaleiros e aspirantes estavam mergulhados em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som distante do vento batendo nas janelas de pedra. A iluminação era fraca, vinda de algumas tochas já quase se apagando nos corredores. O ambiente tinha cheiro de ervas medicinais e tecido queimado — típico de quem havia voltado de uma luta recente.

De repente…

— SEIYA!

Satoru acordou em um sobressalto, sentando-se bruscamente na cama, com o peito subindo e descendo rápido, como se ainda estivesse preso em uma batalha. O eco do próprio grito morreu no quarto. Ele piscou várias vezes, tentando entender onde estava.

E então viu.

Sophia estava sentada próxima, com curativos no braço e no rosto, o olhar cansado mas atento. Hugo estava encostado na parede, também com faixas pelo corpo, marcas claras da última luta. O clima era de exaustão, como se todos ali ainda estivessem se recuperando de algo muito maior do que apenas um treino. E então ele percebeu algo ainda mais preocupante.

Kin.

Ela estava deitada em outra cama, ainda com a armadura de Andrômeda parcialmente danificada, o corpo imóvel. O rosto tranquilo demais para alguém que deveria estar consciente.

Satoru arregalou os olhos.

—...O que aconteceu aqui?

Ele olhou ao redor, confuso, respirando rápido.

— Onde está o Seiya? E os outros?

Hugo ergueu o olhar, franzindo o cenho.

— Do que você está falando?

Sophia soltou um suspiro curto, ajeitando os curativos no próprio braço.

— Você foi trazido pra cá apagado… algumas horas atrás. Marin te trouxe.

Satoru engoliu seco, tentando organizar as memórias.

—Eu… estava na Casa de Áries… depois…

Ele passou a mão na testa, confuso.

— Tá… mas o que aconteceu com vocês? E a Kin?

Ele olhou diretamente para ela, agora com mais preocupação evidente. Sophia ficou em silêncio por um segundo antes de responder.

— Recebemos uma missão pra deter uma pessoa que estava causando caos na vila de Rodório.

Hugo completou, sério.

— Quando chegamos lá… vimos que esse cara tinha derrotado até um Cavaleiro de Prata.

Satoru apertou o lençol da cama.

— Quem…?

Sophia respondeu antes mesmo dele terminar a pergunta.

— Kin reconheceu ele.

Hugo cruzou os braços, a expressão mais dura.

— É o Kotaru.

O nome caiu no quarto como uma pedra. ophia continuou, mais baixa.

— Antigo aprendiz da Shaula de Escorpião.

Hugo completou, sem hesitar:

— Irmão dela.

Satoru ficou em silêncio por um instante, processando tudo aos poucos.

— …Shaula de Escorpião…

Ele repetiu como se a informação estivesse se encaixando lentamente. E então, de repente, a tensão voltou ao seu olhar.

— Espera… ele derrotou vocês três juntos?”

Hugo soltou um leve riso seco.

— Isso é óbvio.

Sophia abaixou o olhar, séria.

— O pior foi a Kin.

O quarto ficou mais pesado.

— Ela tá desacordada desde então… e o cosmo dela tá fraco. Ela não reage. Não é como se estivesse morta… mas também não parece totalmente aqui.

Satoru virou imediatamente o rosto para Kin. Agora havia preocupação real no olhar dele.

Sophia continuou, mais tensa.

— E agora que o Mestre Shun não pode sair das Doze Casas… a gente não sabe o que fazer.

Hugo apertou o punho.

— Estávamos pensando em ir atrás da única pessoa que pode ajudar.

Satoru levantou o olhar na hora.

— Quem?

Sophia e Hugo se entreolharam por um instante. O silêncio respondeu antes das palavras. Satoru percebeu. Ele respirou fundo, e sem dizer mais nada, levantou da cama.

Caminhou devagar até a beira da cama de Kin. Se agachou ao lado dela. O rosto dela estava pálido, o cosmo quase imperceptível, como uma chama prestes a se apagar. Satoru ficou alguns segundos em silêncio. E então, com cuidado, colocou a mão no rosto dela.

Frio.

Frágil.

Vivo… mas distante.

Hugo deu um passo à frente.

— O que você tá fazendo?

Satoru se assustou levemente e puxou a mão de volta, como se tivesse sido pego no flagrante.

— ...Nada.

Ele desviou o olhar por um segundo.

— Eu só… não quero ver ela assim.

Sophia observou em silêncio, sem interromper. O ambiente ficou pesado novamente.

Ela então falou, firme:

— Vamos cuidar disso.

Hugo cerrou os dentes.

— E o Kotaru… esse maldito vai pagar por isso.

O silêncio caiu mais uma vez, com o som distante do vento passando pelos corredores dos dormitórios dos Cavaleiros e aspirantes.


Em algum Lugar do Santuário

Numa área isolada do Santuário, longe dos corredores principais das Doze Casas e envolta por rochas quebradas e vegetação destruída por batalhas recentes, o ar estava pesado, carregado com restos de cosmo ainda pulsando no ambiente como ecos de um conflito que já havia terminado — ou quase.

O chão estava marcado por crateras pequenas e rachaduras profundas. Ali, jogado entre pedras partidas e poeira levantada, estava Ichi de Hydra. Sua respiração era irregular, pesada, e o corpo carregava ferimentos visíveis. A armadura de Hydra estava parcialmente destruída, com placas quebradas e rachadas, como se tivesse sido esmagada por uma força muito superior. Ele tentou se mover, mas o corpo não respondia totalmente.

À sua frente, parado com uma postura calma e quase indiferente, estava Thomas de Órion, o Cavaleiro de Prata. A luz da lua refletia levemente em sua armadura, destacando uma presença fria e controlada. Seus olhos estavam fixos em Ichi, mas não havia pressa, nem emoção aparente. Apenas certeza.

Ichi forçou um sorriso fraco, cuspindo sangue ao tentar falar.

— Cê… tá maluco…? Isso não faz sentido… esse ataque…

Ele respirou com dificuldade.

— Não tem motivo pra isso…

Thomas deu um leve sorriso. Um sorriso que não trazia humor.

— Acha mesmo? — Respondeu ele, tranquilo. — Faz mais sentido do que você imagina.

Ichi tentou se levantar novamente, mas o corpo falhou no meio do movimento. Antes que pudesse reagir, a atmosfera mudou. O cosmo de Thomas explodiu de forma abrupta. O ar ao redor começou a vibrar, como se o próprio espaço estivesse sendo comprimido.

— Chega. — disse ele, com calma

No instante seguinte, sua técnica foi liberada.

— Trovão Celestial!

O céu acima pareceu responder. Seis esferas de energia surgiram ao redor de Ichi, girando em velocidade absurda, cada uma carregando uma pressão esmagadora. O brilho delas iluminou as pedras ao redor, criando sombras distorcidas no chão rachado.

Ichi arregalou os olhos.

— Espera!

Mas não houve tempo.

As seis esferas dispararam ao mesmo tempo. O impacto foi devastador. Uma explosão violenta engoliu o espaço onde Ichi estava, levantando poeira, estilhaçando pedras e espalhando uma onda de choque que ecoou pela área isolada do Santuário.

Quando a poeira começou a baixar…

Ichi caiu.

Quase sem vida.

O corpo dele bateu contra o chão com força, completamente derrotado. homas caminhou lentamente até ele, sem pressa alguma. Ajoelhou-se e o pegou pelo pescoço, erguendo-o parcialmente do chão. Ichi mal conseguia manter os olhos abertos.

— Eu tive misericórdia. — Disse Thomas, com frieza controlada. — Não te matei. Então você me deve isso.

Ichi tentou falar algo, mas não conseguiu. Thomas apertou levemente.

— Pela primeira vez na vida… você vai fazer algo útil.

Ele aproximou o rosto.

— Vai reunir o máximo de Cavaleiros de Bronze possível. Para a missão que estamos planejando.

Ichi arregalou levemente os olhos, confuso, mas fraco demais para reagir.

— O… quê…?

Thomas o soltou um pouco, mas manteve o controle da situação.

— Quando chegar a hora… você vai saber.

Ichi respirava com dificuldade.

— Isso… não faz sentido…

Thomas já estava se levantando.

— Faz. Só ainda não é pra você entender.

Ichi, com esforço, conseguiu falar mais uma vez.

— ...O que você tá planejando?

Thomas parou por um segundo. Como se lembrasse de algo importante. Então virou levemente o rosto.

— Antes disso… — Disse ele, com um tom mais curioso. — O que você sabe sobre Satoru?

Ichi franziu o cenho, tentando se lembrar entre a dor e o cansaço.

— Satoru…? Ah… é aquele garoto… que chegou há pouco tempo…

Ele tossiu.

— Treinei com ele…

Thomas estreitou os olhos.

— Ótimo.

Ele soltou Ichi de vez, deixando o corpo cair no chão.

— Então vigie ele.

Ichi, ainda no chão, tentou entender.

— O quê…?

Thomas virou completamente o corpo.

— Ele também está nos planos.

Ichi arregalou os olhos levemente.

— Ele é neto do novo Grande Mestre…

Thomas parou por um instante. Então virou o rosto apenas o suficiente para responder.

— E daí?

Silêncio.

Sem mais palavras.

Thomas se virou e começou a andar, desaparecendo entre as sombras das rochas e do terreno destruído, como se nunca tivesse estado ali. Ichi ficou jogado no chão, respirando com dificuldade, sem forças para reagir. O vento passou pela área isolada do Santuário, levantando poeira ao redor de seu corpo ferido…

Notas finais
Fala pessoal, quanto tempo hein? Tô voltando a postar essa história que eu gosto muito, principalmente por se tratar de um universo que eu sou apaixonado. Confesso que deu uma saudade absurda de escrever isso aqui. Percebi que os sites de fanfic mudaram bastante de uns tempos pra cá, então qualquer sugestão, dica ou até feedback de vocês vai ser muito bem-vindo Mas, independente disso, decidi retomar a história. Não importa a quantidade de pessoas que vão ler, meu foco agora é desenvolver tudo que tenho em mente e me divertir no processo. E claro… espero que quem ler também se divirta junto comigo.