Saint Seiya: Big Will - A Saga dos Deuses

9 Ecos do Olimpo, Sombras da Rebelião


Notas iniciais
O Santuário entra em um momento de tensão silenciosa. Enquanto rumores sobre uma guerra iminente se espalham, decisões inesperadas começam a moldar o destino dos Cavaleiros. Atena escolhe trilhar um caminho arriscado, dividindo opiniões até entre os Cavaleiros de Ouro, enquanto forças ocultas se movimentam nas sombras. Entre treinos intensos e conflitos internos, Satoru se vê cada vez mais envolvido no centro desses acontecimentos, descobrindo verdades sobre seu avô, se aproximando de lendas como Seiya e presenciando o peso real de ser um Cavaleiro. Ao mesmo tempo, ameaças desconhecidas surgem: um inimigo misterioso, alianças perigosas e um ritual secreto que pode mudar o equilíbrio de poder dentro do próprio Santuário. No meio de tudo isso, uma certeza começa a tomar forma: a próxima batalha não será como nenhuma outra.

Santuário

O sol nascia lentamente sobre o Santuário, tingindo o céu com tons dourados e alaranjados que refletiam nas colunas antigas de mármore. A luz atravessava os campos de treinamento, desenhando sombras longas no chão de pedra já marcado por anos — séculos — de batalhas, quedas e superações. O ar da manhã ainda era fresco, mas a energia do lugar já estava em movimento.

Aspirantes se espalhavam pela arena, treinando em duplas, trocando golpes, correndo, tentando elevar seus cosmos sob os olhares atentos dos instrutores. O som de impactos, respirações pesadas e gritos de esforço preenchia o ambiente.

No meio de tudo isso, Satoru estava sozinho, afastado dos outros. Seus pés firmes no chão, o corpo levemente inclinado para frente, desferindo socos no ar com ritmo constante. Não era força bruta — era controle, aquecimento. Mas sua mente não estava ali.

— Grande Mestre…

O punho hesitou por um instante antes de continuar.

— Meu avô… por que ele não me contou?

Outro golpe. Mais forte.

A imagem da noite anterior voltou com clareza — a Casa de Áries, Shun, Híades… a confirmação. E então… Seiya.

Seu corpo travou por um segundo. A presença, o cosmo, a sensação de estar diante de uma lenda viva. Mas essa lembrança logo foi engolida por outra.

Kin. Seus movimentos desaceleraram.

Ela caída. Imóvel. O cosmo fraco.

— Será que ela tá melhor…? Sophia… Hugo… vocês conseguiram ajudar ela?

O som ao redor parecia distante, até que—

— EI!!

A voz cortou o campo como um trovão. Todos pararam. Os olhares se voltaram imediatamente para Geki de Urso, que estava com os braços cruzados e o peito estufado, observando todos com um olhar pesado, experiente. Um leve sorriso surgiu em seu rosto.

— Hoje pode ser o dia de sorte de vocês.

Os aspirantes começaram a se entreolhar, curiosos.

— O Santuário recebeu uma atualização oficial.

Ele fez uma pausa, criando expectativa.

— A Armadura de Bronze de Pégaso… está disponível.

Por um segundo, houve silêncio. Então o campo explodiu em reações.

“O quê?!”

“Sério?!”

“A armadura do Seiya?!”

“Eu posso lutar por ela?!”

A energia mudou completamente. Excitação, ambição e nervosismo tomaram conta do ambiente. Alguns já se imaginavam vestindo a armadura. Outros apenas sentiam o peso da oportunidade. Satoru ficou em silêncio, mas levantou lentamente o olhar.

— Pégaso…

A imagem de Seiya voltou forte. Tudo fazia sentido agora.

— É por isso que ele voltou.

O Cavaleiro de Pégaso não existia mais. Agora ele era Sagitário. E aquela armadura… aguardava um sucessor.

Geki ergueu a voz novamente, impondo silêncio.

— Mas não se iludam!

O burburinho cessou quase que instantaneamente.

— Cada um de vocês nasceu sob a proteção de uma constelação.

Ele começou a caminhar entre os aspirantes.

— Pégaso pode estar entre vocês… ou pode não estar.

Alguns engoliram seco. Outros apertaram os punhos.

— E mesmo que esteja… isso não significa que você é digno da armadura.

O peso das palavras caiu sobre todos.

Mais afastado, encostado parcialmente em uma estrutura de pedra, Ichi de Hydra observava em silêncio. Seu corpo ainda carregava os ferimentos da noite anterior, perceptíveis em sua postura levemente rígida. Mas seu olhar não estava nos aspirantes.

Estava calculando.

— Reunir o máximo possível…

A voz de Thomas ecoou em sua mente. Seu olhar percorreu o campo lentamente. Analisando. Escolhendo. Enquanto isso, Geki continuava:

— Ainda hoje vamos avaliar vocês.

O clima ficou tenso.

— Se eu julgar que alguém aqui está pronto… essa pessoa poderá disputar a Armadura de Pégaso.

Os corações aceleraram. Alguns aspirantes ajustaram suas posturas, outros respiraram fundo tentando se concentrar. Agora não era só treino. Era uma oportunidade real. Era destino.

Satoru permaneceu imóvel por um momento, olhando para o chão. Então levantou o olhar novamente, mais focado. Mas não por Pégaso. Seu pensamento ainda estava em outro lugar.

— Kin…

O vento soprou pelo campo, levantando poeira. E enquanto todos pensavam na Armadura de Pégaso… outras coisas muito mais perigosas começavam a se mover dentro do Santuário.

Sala do Grande Mestre

A Sala do Grande Mestre estava mergulhada em uma atmosfera solene e densa, como se o próprio Santuário antecipasse o peso das palavras que seriam ditas ali. As colunas altas projetavam sombras longas sobre o chão de pedra polida, e a luz que entrava pelas aberturas superiores era suave, quase contida — como se até o sol respeitasse aquele momento.

Diante do trono, nove Cavaleiros de Ouro estavam ajoelhados, alinhados em formação. Suas armaduras douradas refletiam a luz em tons distintos, cada uma carregando não apenas poder, mas história. Kiki de Áries mantinha o olhar calmo, atento. Hiades de Touro, firme como uma muralha. Karkinos de Câncer, com um leve ar despreocupado, embora seus olhos observassem tudo. Raiden de Leão, o mais jovem, claramente tenso. Shun de Virgem, sereno como sempre. Shaula de Escorpião, postura rígida, olhar afiado. Aix de Capricórnio, silencioso e centrado. Hyoga de Aquário, frio e analítico. E Adonis de Peixes, elegante, mas inquieto.

À frente deles, Atena estava de pé. Seu manto branco descia suavemente até o chão, e seu báculo repousava firme em sua mão. Ao seu lado, Kazuo — o Grande Mestre — observava todos com um olhar experiente, pesado de responsabilidade.

Ele deu um passo à frente.

— Agradeço a presença de todos.

Sua voz era firme, mas não autoritária. Era o tipo de voz que não precisava se impor para ser ouvida.

— Convocamos esta reunião porque uma decisão foi tomada. E ela definirá o rumo do Santuário nos próximos tempos.

Um breve silêncio pairou.

— Antes de tudo, informo que Shiryu de Libra está em Rozan, cumprindo uma missão. Seiya de Sagitário encontra-se em treinamento. E Zyon de Gêmeos…

Kazuo hesitou por um instante. Pequeno, mas perceptível.

— …não responde aos chamados do Santuário há algum tempo. Mas isso não é o foco agora.

Alguns olhares se cruzaram, mas ninguém interrompeu.

— Como todos sabem, Atena esteve recentemente em Lemnos. — ele continuou — Um encontro direto com Hefesto, o Deus do Fogo.

O ambiente pareceu pesar ainda mais.

— Uma nova guerra se aproxima. Seja contra o Olimpo… ou contra Hefesto.

Agora, todos estavam completamente atentos.

— Muitos boatos têm circulado pelo Santuário. Mas a partir deste momento, vocês ouvirão a decisão oficial.

Kazuo respirou fundo.

— E deixo claro desde já: não aceitarei questionamentos. Esta decisão foi tomada por Atena.

O olhar de alguns Cavaleiros endureceu.

— Atena se aliará a Hefesto… em sua guerra contra o Olimpo.

Silêncio.

Um silêncio pesado, quase sufocante.

— E os Cavaleiros de Atena permanecerão no Santuário. Sem se envolver diretamente no conflito.

O impacto foi imediato.

Os olhares se cruzaram. Tensos. Confusos. Incrédulos.

Atena manteve a postura… mas seus olhos denunciavam o peso da decisão.

Adonis foi o primeiro a reagir. Levantou parcialmente o corpo, sem esconder a incredulidade.

— Isso… é algum tipo de teste?

Hiades franziu o cenho, o tom subindo levemente.

— Qual o sentido disso? Ficar no Santuário enquanto Atena vai para a guerra?

Seu olhar era direto.

— Nós existimos para proteger o amor e a paz na Terra. Para proteger Atena.

Shaula inclinou levemente a cabeça, os olhos estreitos.

— Eu raramente concordo com ele… — disse, seca — mas dessa vez…

Ela levantou o olhar para Atena.

— Se houver luta… nós lutamos ao seu lado. Não faz sentido deixar você ir sozinha.

Raiden parecia dividido.

— Não tem… outra alternativa?

Karkinos soltou uma leve risada pelo nariz, apoiando a mão atrás da cabeça, observando a tensão com um certo deboche contido.

Enquanto isso, Hyoga e Kiki permaneceram em silêncio. Mas seus olhares… eram diferentes. Eles já sabiam.

Antes que mais vozes se levantassem—

O cosmo de Atena se expandiu.

Suave… mas absoluto.

Ele envolveu todos na sala como uma presença acolhedora… e ao mesmo tempo inquestionável.

O silêncio voltou.

— Eu pensei muito antes de tomar essa decisão.

A voz de Saori era firme… mas carregava emoção.

— Hefesto me deu um prazo. E foi claro… se eu recusasse… ele entraria em guerra contra o Santuário.

Os olhares mudaram. A tensão ganhou outra forma.

— Eu não quero mais… — ela continuou — pelo menos por agora… que vocês entrem em guerra.

Uma pausa.

— Nosso exército ainda está em reconstrução. Muitos de vocês carregam batalhas recentes. Uma guerra contra o Olimpo neste momento… poderia ser fatal.

Ela abaixou levemente o olhar.

— Eu sei que… até agora… estive limitando vocês. Impedindo Cavaleiros de classes inferiores de sair em missões. Tentando proteger… reconstruir.

Seus olhos voltaram a eles.

— Mas depois de ver o exército de Hefesto… eu entendi.

O tom mudou.

— Talvez… não seja necessário arriscar todos vocês nessa luta.

Silêncio absoluto.

— Se algo acontecer comigo…

Alguns olhos se arregalaram levemente.

— O Santuário estará completo. Forte. Pronto.

Ela apertou levemente o báculo.

— Vocês poderão proteger o mundo… até o meu retorno.

O peso daquelas palavras caiu como uma lâmina.

— Eu sei que vocês não vão concordar.

Um leve sorriso… triste.

— Mas eu preciso que entendam.

Ela respirou fundo.

— Antes de sair de Lemnos… eu perguntei a Hefesto… se poderia deixar vocês fora disso.

Os olhares se fixaram nela.

— Mesmo querendo todo o poder do Santuário… ele aceitou.

Kazuo observava em silêncio, atento a cada reação.

— Eu me comprometi a lutar com tudo.

Uma pausa.

— E, apenas em último caso… vocês seriam chamados.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era só choque… era conflito interno.

Shun foi o primeiro a falar novamente.

— Ainda assim… é arriscado.

Sua voz era calma, mas firme.

— Mesmo que Hefesto não seja maligno… ainda é um deus. E essa guerra… não é simples.

Ele a encarou.

— Deixar você ir sozinha… é perigoso demais.

Atena assentiu levemente.

— Eu não irei completamente sozinha.

Ela virou o olhar.

— Levarei um Cavaleiro comigo.

Os olhos se moveram automaticamente.

— Aix de Capricórnio.

Aix não reagiu de forma exagerada. Apenas ergueu levemente o olhar… aceitando.

— Ele esteve ao meu lado durante toda a reconstrução do Santuário. É experiente… confiável.

Shaula soltou um leve suspiro pelo nariz, levantando-se parcialmente.

— Então eu vou também.

Direta. Sem rodeios.

Atena sorriu de leve.

— Não será necessário.

Shaula franziu o cenho, mas não insistiu.

— Eu preciso que todos vocês cumpram seus papéis aqui.

Raiden abaixou o olhar, ainda processando.

Karkinos apenas observava, agora mais sério.

Hiades cruzou os braços, visivelmente insatisfeito… mas em silêncio.

Kiki manteve o olhar baixo, pensativo.

O ar ainda estava carregado.

Então—

Hyoga falou.

Calmo. Direto.

— Seiya já sabe disso?

O nome pairou no ar.

Lemnos

Lemnos respirava como uma fornalha viva sob o céu escuro. O calor que emanava das entranhas da ilha não era apenas físico — era espiritual, denso, antigo. Dentro de uma das câmaras mais elevadas do complexo forjado por Hefesto, o ambiente contrastava: iluminação suave, pedras esculpidas com perfeição absoluta e um silêncio que só era quebrado pelo leve tilintar de uma taça de vinho sendo girada lentamente.

Hefesto estava sentado, relaxado à sua maneira, com o corpo robusto inclinado para trás em uma cadeira de pedra moldada como um trono artesanal. Sua barba branca, espessa e levemente desalinhada, refletia a luz do fogo próximo, e seus olhos carregavam aquele brilho incomum — não de arrogância divina, mas de alguém que sempre pensava três passos à frente. Vestia roupas simples, porém refinadas: uma túnica escura de tecido pesado, com detalhes em bronze nas bordas, como se até o que usava tivesse sido moldado por suas próprias mãos. Ao seu lado estava Aglaia.

A mais jovem das Três Graças parecia deslocar o próprio ambiente ao redor. Sua presença suavizava o calor bruto de Lemnos. Vestia um longo vestido fluido em tons claros — entre o branco e o dourado suave — com tecido leve que se movia mesmo sem vento, como se reagisse ao seu cosmo.

As mangas eram delicadas, caindo suavemente pelos braços, e pequenos detalhes cintilantes acompanhavam o tecido, lembrando estrelas refletidas na água. Seus cabelos longos e dourados desciam em ondas suaves pelas costas, parcialmente presos por uma tiara fina e discreta. Seus olhos eram gentis… mas naquele momento, havia preocupação neles.

Ela se inclinou levemente e levou a mão ao rosto de Hefesto, tocando-o com delicadeza.

— Eu tenho orgulho de você… — disse, com um sorriso suave — de tudo que construiu… de tudo que está fazendo.

Hefesto não respondeu de imediato. Apenas a observou por um instante, como se medisse o peso daquelas palavras.

— E eu apoio você nessa luta… — ela continuou, mas hesitou — mas…

O silêncio entre as palavras dela disse mais que qualquer frase.

— Você está pensando em Lemnos — respondeu Hefesto, sem desviar o olhar da taça.

Aglaia abaixou levemente os olhos.

— Quando vocês partirem… o que pode acontecer aqui…

Hefesto soltou um pequeno suspiro pelo nariz. Não de impaciência — mas de alguém que já havia antecipado aquela preocupação há muito tempo.

— Eu não construí um império para vê-lo ruir na minha ausência.

Ele girou levemente a taça antes de continuar, sua voz carregando um tom mais firme, quase metálico.

— Cada pedra aqui foi pensada para resistir. Cada chama, para proteger. Cada guerreiro, para segurar o que for necessário.

Ele então virou o rosto para ela.

— Mas você… não vai ficar aqui.

Aglaia ergueu o olhar, surpresa.

— Quando Atena chegar… — continuou ele — vou pedir que você vá para o Santuário.

Uma pausa.

— Lá… você estará sob proteção dos Cavaleiros.

Os olhos de Aglaia suavizaram, mas havia um leve constrangimento no gesto.

— Você acha que… Atena aceitaria?

Hefesto soltou uma leve risada baixa, quase imperceptível.

— Ela já aceitou coisas mais difíceis.

Ele apoiou o braço no encosto, relaxando.

— Quando ela pediu para poupar os Cavaleiros… eu entendi.

Seus olhos se estreitaram levemente.

— Aquilo não foi só estratégia. Foi o que faltava para ela decidir.

Aglaia inclinou a cabeça.

— Então você acha que ela virá…

— Tenho certeza.

Hefesto se levantou.

O simples ato fez o ambiente parecer menor. Mais pesado.

Ele caminhou alguns passos, o som de seus pés ecoando suavemente na pedra.

— Eu reuni deuses. Forjei guerreiros. Construí um exército que o Olimpo sequer considera possível.

Ele abriu levemente a mão, como se sentisse algo invisível ali.

— Eles ainda vivem na ilusão de que governam o mundo como antes.

Um leve sorriso torto surgiu.

— Isso acabou.

Ele virou o rosto por cima do ombro.

— Essa guerra… não será como as outras.

Seus olhos brilharam.

— Será a Titanomaquia da nova era.

O ar pareceu vibrar.

— Sem Zeus… — ele continuou, com desprezo contido — aquele patético do Apolo tenta manter o equilíbrio…

Um breve silêncio.

— Mas ele não entende o que está vindo.

Hefesto ergueu levemente o queixo.

— Eu me preparei por séculos.

O cosmo dele… mesmo contido… parecia preencher o espaço.

— Até Hermes sentiu.

Uma pausa.

— Meu cosmo envolveu o dele.

Aglaia observava em silêncio. Não com medo… mas com a consciência do que aquilo significava.

Então, Hefesto voltou a falar, mais baixo.

— Falta apenas uma coisa.

Ele fechou a mão lentamente.

— Uma relíquia.

Seus olhos focaram em algo distante.

— Algo que eu mesmo criei.

Aglaia deu um passo à frente, a preocupação voltando.

— Você… vai pedir isso para aquele Cavaleiro?

Hefesto respondeu sem hesitar.

— Já pedi.

O silêncio que seguiu foi mais pesado que qualquer palavra.

Aglaia baixou o olhar por um instante.

— Essa… é realmente a única forma?

Ela hesitou.

— Me desculpe… eu não deveria—

— Não se desculpe.

A voz dele a interrompeu, mas não foi dura.

Foi firme.

Ele se aproximou dela, o olhar suavizando levemente.

— Diferente de outros deuses… você ainda sente.

Uma pausa.

— E isso não é fraqueza.

Aglaia ergueu os olhos, tocada.

— Você também sente.

Ela sorriu de leve.

— Por sua causa… tantas crianças que perderam tudo… agora têm propósito.

— Você deu a elas força… mas também um caminho.

Por um breve instante… Hefesto não respondeu.

Mas seu olhar… dizia que aquelas palavras importavam.

Então—

A porta de pedra se abriu.

O som ecoou pelo salão.

Cedalion entrou.

Seu corpo era firme, postura impecável. Vestia uma armadura escura, com detalhes incandescentes que pulsavam como magma contido. Seus olhos eram sérios, focados, carregando a disciplina de alguém que não apenas servia… mas acreditava.

Ele parou a alguns passos e inclinou levemente a cabeça.

— Senhor.

Hefesto não se virou completamente.

— Fale.

— Os Cabírios estão prontos.

Sua voz era direta.

— Todos os destacamentos posicionados. Aguardando ordens.

O silêncio durou um segundo.

— Mantenha-os assim.

Hefesto respondeu, simples.

— Sem avanços. Sem erros.

Cedalion assentiu.

— Sim, senhor.

Hefesto então completou, olhando novamente para o horizonte além das paredes de Lemnos.

— Em breve…

Uma pausa.

— Atena chegará.

O fogo ao redor pareceu responder.

E o mundo… silenciosamente… caminhava para a guerra.

Olimpo — Templo do Sol

Acima das nuvens, onde o céu deixava de ser apenas céu e se tornava domínio, erguia-se o Monte Olimpo — um reino suspenso entre o infinito e o eterno. Seus palácios, moldados em cristal translúcido e ouro puro, refletiam a luz de forma quase viva, como se cada estrutura respirasse a própria essência divina.

As colunas eram altas e perfeitas, esculpidas com precisão absoluta, adornadas por relevos que narravam eras esquecidas pelos mortais. Não havia vento, não havia chuva — apenas uma atmosfera serena, imutável, onde o tempo parecia curvar-se à vontade dos deuses. Ecos distantes de música e celebrações ainda pairavam no ar, como lembranças constantes da supremacia olímpica.

No coração desse domínio, erguia-se o Templo do Sol. Diferente dos demais, sua estrutura não apenas refletia a luz — ela a emanava. As paredes eram formadas por camadas de ouro polido intercaladas com cristal solar, criando um brilho contínuo, quente, quase palpável. O teto se abria em uma abóbada elevada onde correntes de luz desciam como rios luminosos, convergindo para o centro do salão. Ali, um trono imponente, talhado em ouro branco com inscrições arcaicas, repousava sobre um pedestal circular, envolto por uma aura constante de energia solar.

De pé ao lado do trono, de costas para a entrada, estava Apolo.

Seus cabelos vermelhos caíam até a altura dos ombros, lisos, com um brilho que lembrava brasas vivas sob luz intensa. Sua pele era clara, impecável, quase luminosa por si só, e seu corpo possuía proporções perfeitas, esculpidas como uma obra divina. Vestia uma túnica longa de tecido dourado claro, leve, que se movia suavemente mesmo na ausência de vento, presa por ornamentos solares nos ombros. Sua postura era ereta, absoluta, e seu olhar estava voltado para cima, como se contemplasse algo além do próprio Olimpo — ou talvez além do tempo.

O silêncio no templo não era vazio. Era autoridade. Então, sem que a porta emitisse som, outra presença adentrou o salão. Ártemis.

Seus passos eram leves, quase inexistentes. Seus cabelos louro-acinzentados desciam longos e perfeitamente lisos pelas costas, com um brilho frio, semelhante à luz da lua refletida na água. Sua pele era pálida, suave, contrastando com seus olhos — completamente negros, profundos, com um brilho peculiar, quase alienígena, lembrando a superfície facetada de olhos de inseto. Havia algo neles que não pertencia ao mundo comum.

Sua vestimenta era composta por um manto longo em tons prateados e azulados, com detalhes finos que lembravam constelações, ajustado ao corpo com elegância e sobriedade. Sua presença trazia consigo uma quietude diferente — não calorosa como a de Apolo, mas fria, precisa.

Apolo não se virou.

Ainda assim, falou.

— É raro que a senhora da noite abandone o seu domínio para cruzar os salões da luz.

Sua voz era suave, mas carregada de autoridade natural, cada palavra escolhida como se fosse parte de um ritual.

— Devo supor… que a saudade tenha superado a habitual reserva?

Ártemis não respondeu de imediato. Aproximou-se alguns passos, observando-o.

— Curioso — disse, com um tom calmo, quase cortante — pois o que me parece verdadeiramente raro… é encontrá-lo em seu próprio domínio.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Especialmente agora… que se tornou o eixo de sustentação do Olimpo na ausência de nosso pai.

Apolo moveu-se pela primeira vez. Um passo lateral, elegante, calculado. Sua mão deslizou sobre uma superfície próxima, como se buscasse algo específico — um pequeno artefato dourado repousava ali, que ele tomou entre os dedos com naturalidade.

— Palavras que orbitam o óbvio raramente justificam uma visita — disse, sem pressa — portanto, poupe-as.

Ele ergueu levemente o olhar, ainda sem encará-la diretamente.

— Diga-me, irmã… o que verdadeiramente a trouxe até mim.

Ártemis respirou de forma quase imperceptível. Sua expressão não mudou… mas o ambiente ao redor dela pareceu esfriar.

— A Terra se move — disse.

Uma pausa.

— E não de forma natural.

O nome veio em seguida.

— Hefesto.

O templo pareceu reagir. Não com som… mas com tensão.

Um silêncio se formou.

Ártemis continuou.

— As movimentações são claras. Ele prepara-se.

Seus olhos escuros fixaram-se em Apolo.

— Diga-me… como pode um dos doze voltar-se contra os seus?

Apolo finalmente virou o rosto, parcialmente.

Um leve sorriso — não de alegria, mas de compreensão fria.

— Hefesto jamais se viu como um de nós.

Ele caminhou lentamente, cada passo ecoando suave no chão de cristal.

— Ele se permitiu… contaminar.

Seus olhos brilharam de leve.

— Séculos entre humanos… ilhas… miséria… emoção.

Uma pausa.

— Tudo aquilo que nós transcendemos… ele absorveu.

Apolo ergueu levemente o queixo.

— E, como consequência… libertou aquilo que sempre carregou.

Seus olhos se estreitaram.

— Ressentimento.

Ártemis permaneceu em silêncio por um instante.

— Ainda assim… — disse — é preocupante.

Ela deu um passo à frente.

— Ele não está sozinho.

Seus olhos escureceram ainda mais.

— Nossa irmã… Atena… aceitará a aliança.

Uma breve pausa.

— E Hermes…

Um leve traço de incômodo atravessou sua expressão.

— Foi envolvido. Subjugado pela obstinação de Hefesto.

Ela desviou o olhar por um instante.

— Desde então… permanece isolado. Envergonhado.

Ártemis voltou a encarar Apolo.

— E tudo isso… apesar do que fizemos.

Uma pausa carregada.

— Treze anos… e ainda assim… as memórias de Atena retornaram.

O silêncio se aprofundou.

Apolo então se moveu.

Sem pressa.

Sem hesitação.

Aproximou-se de Ártemis com autoridade absoluta e, de forma inesperadamente íntima, levou a mão até a nuca dela, puxando-a levemente para perto em um gesto que não era apenas afeto — era domínio, proteção, superioridade.

— Não carregue o peso do que não lhe cabe.

Sua voz suavizou… mas não perdeu força.

— Diga-me, irmã… o que deuses como nós têm a temer?

Ele a soltou e continuou andando, como se o assunto já estivesse resolvido.

— Julga que minhas ações são aleatórias?

Ele ergueu levemente o artefato que segurava.

— Enviei dois anjos.

Uma pausa.

— Ao encontro do Cavaleiro de Pégaso.

Ártemis franziu levemente o cenho, pela primeira vez demonstrando dúvida.

Apolo fechou os olhos por um instante.

— Para que retornasse.

Sua voz caiu um tom.

— Para o que está por vir.

Ele parou.

— Não tema.

Um silêncio pesado antecedeu suas próximas palavras.

— Hefesto não marchará sobre o Olimpo.

Ártemis o encarou, agora atenta.

— A guerra… será travada entre ele… e Atena.

Apolo abriu os olhos.

— E será inevitável.

Seus olhos brilhavam com algo além de certeza.

— Eles se destruirão.

Uma pausa.

— E quando estiverem… reduzidos ao limite…

Ele sorriu.

— Eu intervirei.

Ártemis deu um passo à frente, o olhar penetrante.

— E o que o leva a tal convicção?

Uma pausa.

— Procurou novamente as Moiras?

Apolo parou. Lentamente, virou o rosto.

Um sorriso — agora levemente ofendido.

— Supõe que dependo exclusivamente delas?

Ele ergueu o queixo.

— Eu também sou o deus das profecias.

Uma pausa.

— Ainda assim…

Seus olhos se estreitaram.

— Sim.

Ele voltou a caminhar.

— Foi… necessário.

Sua voz ficou mais baixa.

— Sacrifícios são inevitáveis quando se sustenta o equilíbrio.

Ele parou diante do trono.

— Preciso garantir a integridade do Olimpo.

Uma pausa.

— Até o retorno de nosso pai.

Ártemis abaixou levemente o olhar.

O silêncio agora era diferente.

Apolo então falou, sem olhar para trás.

— Confie em mim.

Uma última pausa.

— Nada ameaçará aquilo que somos.

Seus olhos brilharam intensamente.

— Pois somos deuses.

E o Templo do Sol… permaneceu em silêncio, como se o próprio destino tivesse acabado de ser selado.

Santuário — Zona dos Cavaleiros de Prata

O fim da tarde tingia o Santuário com tons dourados e alaranjados, mas naquela região mais afastada — a zona reservada aos Cavaleiros de Prata — a luz parecia mais fria, mais opaca. As construções eram mais austeras, menos ornamentadas que as Doze Casas, e o silêncio carregava uma tensão constante, como se cada sombra observasse.

Sophia caminhava à frente, a armadura de Camaleão refletindo discretamente a luz do entardecer, enquanto Hugo vinha logo atrás, carregando Kin desacordada nos ombros. O corpo dela balançava levemente a cada passo, ainda vestindo a Armadura de Andrômeda, seu cosmo quase imperceptível.

— Você é maluca… — murmurou Hugo, olhando ao redor com cautela. — Essa área não é pra gente. Esses caras… não seguem regra nenhuma.

Sophia não diminuiu o passo.

— A gente não tem escolha. — Sua voz saiu firme, mas havia tensão ali. — A Kin ainda não acordou… e o cosmo dela tá fraco demais. Se alguém pode ajudar… é o Nicolas.

Hugo respirou fundo, ajustando o peso de Kin.

— Só espero que ele esteja mesmo aqui…

Eles dobraram um corredor estreito entre construções de pedra, e então avistaram o dormitório que procuravam — uma estrutura simples, mas bem conservada. Porém… havia alguém ali.

Um garoto.

Cabelos vermelhos, intensos como brasas. Vestes simples de treino. E nas costas… uma urna de armadura.

Sophia estreitou os olhos imediatamente.

— Espera…

Os dois recuaram por instinto, se escondendo atrás de uma coluna de pedra parcialmente destruída.

— Aquela urna… — sussurrou Sophia, focando o olhar — …é de Raposa.

O garoto estava de frente para a porta, batendo com os dedos na madeira com impaciência.

— Anda logo…

A porta ainda não havia sido aberta. Ele virou o rosto levemente, irritado.

Foi o suficiente.

Sophia congelou.

Seus olhos se arregalaram.

— …Não pode ser…

Hugo franziu o cenho, tentando enxergar melhor — e então também travou.

— …É ele.

Kotaru.

Antes que Hugo pudesse dizer qualquer coisa—

Sophia se levantou.

— O QUE SIGNIFICA ISSO?!

A voz dela cortou o ar. No mesmo instante, a porta do dormitório se abriu.

De dentro saiu um jovem mais velho do que eles. Devia ter por volta de vinte anos. Seus cabelos eram escuros, um pouco mais longos, caindo de forma despretensiosa sobre a testa. O olhar… calmo, experiente, mas pesado — como alguém que já viu mais do que deveria. Seu corpo era mais desenvolvido, mais sólido que o dos outros jovens, e mesmo sem armadura, sua presença carregava autoridade natural.

Ele fechou a porta atrás de si com tranquilidade, girando a chave.

Nicolas.

Sophia avançou alguns passos, furiosa.

— O que você tá fazendo com esse lixo?!

Kotaru e Nicolas viraram ao mesmo tempo.

Kotaru estreitou os olhos por um segundo… tentando reconhecer.

Então sorriu.

— Ah… vocês.

Sophia já vinha avançando.

— Você—

Ela atacou.

O chicote do Camaleão cortou o ar com velocidade.

Mas—

Antes que atingisse—

Nicolas apareceu no caminho.

Segurou o braço dela. Firme.

Sem esforço aparente.

O golpe parou.

Sophia rangeu os dentes, tentando forçar.

— Me solta!

Kotaru inclinou a cabeça, com um sorriso provocador.

— Podia ter deixado… — disse, tranquilo. — Acho que ela quer revanche.

Nicolas não olhou pra ele. Seus olhos estavam em Sophia.

— O que tá acontecendo?

A voz dele era calma. Controlada. Mas havia peso. Autoridade de quem não precisava levantar o tom. Sophia respirava rápido.

— Ele… — apontou com o queixo — atacou a gente em Rodorio! Eu, o Hugo e a Kin!

Hugo surgiu ao fundo, ainda carregando Kin.

— E ela tá assim até agora!

Nicolas finalmente olhou para Kin. Seus olhos mudaram levemente. Mais atentos. Mais sérios.

Sophia continuou:

— Ele derrotou até um Cavaleiro de Prata!

Silêncio.

Kotaru fechou os olhos por um instante.

Suspirou.

— Vocês me atacaram.

Sophia abriu a boca—

— E eu não matei nenhum de vocês. — continuou ele, abrindo os olhos novamente.

— Vocês sequer perguntaram por que eu derrotei aquele Cavaleiro de Prata.

Hugo avançou um passo.

— Porque você tá atacando cavaleiros!

Kotaru olhou pra ele.

— Eu derrotei um.

Uma pausa.

— Um.

Ele deu um passo leve à frente.

— E ele era um rebelde.

Sophia hesitou por um segundo.

Hugo franziu o cenho.

— Tá mentindo.

— Tô? — Kotaru inclinou levemente a cabeça. — E os outros? Sabe quem eram?

Silêncio.

— Bronze. — ele respondeu por eles. — Recrutados.

Os olhos dele ficaram mais frios.

— Vocês não fazem ideia do que tá acontecendo no Santuário.

Nicolas respirou fundo.

— Depois a gente resolve isso.

Ele cruzou os braços.

— Agora a gente tem um compromisso.

Sophia estreitou os olhos.

— Que compromisso?

Nicolas abriu a boca, mas—

— O Círculo de Sangue. — disse Kotaru.

Nicolas fechou os olhos por um segundo.

— …Eu não queria que você falasse isso.

Hugo olhou de um pra outro.

— O que é isso?

Kotaru deu de ombros.

— Algumas vezes por semana… os Cavaleiros de Prata — e alguns de Bronze — se reúnem.

Ele olhou diretamente pra eles.

— Pra treinar de verdade.

— Simular combate real. Sem regra. Sem limite.

Seu sorriso voltou.

— Pra não ficarem fracos.

Uma pausa.

— Porque o Santuário… anda protegendo demais vocês.

O olhar dele desceu levemente.

— E isso deixou muitos cavaleiros… mal treinados.

Ele encarou Sophia e Hugo.

— Como vocês.

— Como é?! — Hugo avançou.

— Já chega. — disse Nicolas, firme.

Ele soltou o braço de Sophia.

— Isso é segredo.

Kotaru deu um leve sorriso de lado.

— Relaxa… são nossos irmãozinhos.

Sophia fechou os punhos.

— A vontade que eu tenho é de quebrar a sua cara…

Ela respirou fundo.

— O que você fez com a Kin?

Kotaru olhou pra ela. De verdade, dessa vez.

Se aproximou. Observou.

— Eu usei a Ilusão da Cauda de Fogo.

Ele falou sem orgulho. Sem culpa.

— Esferas de energia… que atingem o alvo e drenam a mente.

Sua voz ficou mais baixa.

— É como se algo invadisse… queimasse… apagasse tudo.

Sophia sentiu um arrepio.

— Os pensamentos somem. O foco some. O corpo… para.

Silêncio.

— O efeito é temporário. — completou ele. — Eu não tava tentando matar ela.

Ele se aproximou mais. Colocou a mão na cabeça de Kin.

Hugo tensionou.

Mas não impediu. Uma leve pulsação de cosmo.

Sutil. Controlada.

Kotaru retirou a mão.

— Pronto.

— Eu acelerei a recuperação.

Ele deu de ombros.

— Não vai ter sequela.

Sophia e Hugo se entreolharam. Confusos. Desconfiados.

Mas… sem resposta.

Sophia voltou o olhar pra Nicolas.

— Então por que vocês tão indo pra esse tal de Círculo… se não são rebeldes?

Nicolas respondeu sem hesitar:

— Porque a gente precisa entender o que eles tão fazendo.

— E por quê.

Ele cruzou os braços novamente.

— A gente tá investigando.

Sophia deu um passo à frente.

— Eu vou com vocês.

— Não. — respondeu Nicolas, direto. — Você não tá pronta pra isso.

Kotaru riu de leve.

— Eu acho interessante.

Nicolas olhou pra ele.

— Mais gente… mais confiança.

Uma pausa.

Nicolas pensou.

Seus olhos voltaram pra Kin.

— Ela não tá em condição.

— Eu fico. — disse Hugo.

Os dois olharam pra ele.

— Eu cuido dela.

Ele ajustou Kin nos ombros.

— Se ela melhorar… eu levo ela depois.

Silêncio.

Kotaru virou de lado.

— Fica nas ruínas do vale leste.

Ele olhou por cima do ombro.

— Só falar que foi chamado por mim… e pelo Nicolas.

Nicolas fechou os olhos por um segundo.

Então falou.

A voz dele mudou.

Mais pesada.

Mais séria.

— Não é um treino comum.

Sophia ficou em silêncio.

— Lá… não tem regra.

— Não tem limite.

— Eles não vão pegar leve só porque você é Cavaleiro de Bronze.

Ele deu um passo à frente.

— Você pode sair de lá quebrada.

— Ou nem sair.

Silêncio.

— E além disso… — ele continuou — a gente não tá indo pra lutar.

— A gente tá indo pra descobrir.

O olhar dele ficou mais intenso.

— O que eles querem.

— E até onde isso vai.

Uma pausa.

— Então se você for…

Ele encarou Sophia diretamente.

— Vai ter que usar a cabeça.

— Não o orgulho.

O vento passou entre as construções.

Sophia ficou em silêncio.

Mas seus olhos…

Já tinham decidido.

Santuário — Local Isolado

A noite cobria o Santuário com um silêncio profundo, quebrado apenas pelo som distante do vento atravessando colunas antigas e rochas espalhadas pelas encostas. Em uma área mais isolada, longe dos dormitórios e das zonas de treinamento comuns, pequenas elevações de pedra formavam um terreno irregular — perfeito para quem buscava treinar sem ser interrompido.

Satoru subia um pequeno monte, os passos firmes, mas a mente longe dali. Seus pensamentos estavam embaralhados: o avô como Grande Mestre, a conversa que ouviu escondido, Kin desacordada… e, acima de tudo, aquela sensação de que tudo ao seu redor estava mudando rápido demais.

Ele parou por um instante no topo. Respirou fundo.

— …Não dá pra dormir mesmo.

Ergueu os punhos, pronto para começar a aquecer — quando sentiu.

Um cosmo.

Forte.

Familiar… mesmo sem nunca ter sentido antes.

Satoru virou o rosto. E viu.

Mais abaixo, entre formações rochosas, uma figura estava de pé. O corpo relaxado, mas firme. O vento leve movimentava seus cabelos, e mesmo à distância, sua presença era impossível de ignorar.

Seiya.

Satoru ficou imóvel. Seiya fechou os olhos por um breve instante… e então—

Seu cosmo explodiu.

Não era descontrolado.

Era direto. Intenso. Vivo.

— METEORO DE PÉGASO!

Os socos dispararam como uma chuva de estrelas, cortando o ar com velocidade absurda. O impacto contra uma grande rocha foi instantâneo — a pedra se partiu em vários fragmentos, que se espalharam pelo terreno com estrondos secos.

O eco se espalhou pela noite. Seiya fechou o punho.

Respirou. E então… sentiu. Virou o rosto.

Seus olhos encontraram Satoru no alto do monte.

Por um segundo, silêncio. Satoru ainda estava parado, olhando… completamente tomado pela cena. Admiração pura.

Seiya arqueou levemente a sobrancelha.

— Posso ajudar?

Satoru demorou meio segundo pra reagir.

— E-Eu—

Seiya inclinou a cabeça, observando melhor.

— …Ah.

Uma lembrança.

— Você é o garoto de ontem.

Uma pausa.

— Neto do Kazuo… não é?

Satoru desceu o pequeno monte com cuidado, tentando controlar o nervosismo. Quando se aproximou o suficiente, parou diante dele e, quase travando, estendeu a mão.

— S-Sim! Eu sou o Satoru!

Seiya olhou a mão por um instante… e apertou.

— Seiya.

Satoru assentiu rápido, quase sem jeito.

— Eu… desculpa pelo dia anterior… eu acabei… aparecendo do nada…

Ele respirou fundo, tentando organizar as palavras.

— É que eu cresci ouvindo histórias sobre você… e os outros Cavaleiros… meu avô sempre falou muito de vocês.

Seiya ficou em silêncio por um segundo.

— O Grande Mestre, em…?

Um leve sorriso surgiu no canto da boca.

— Ainda é estranho pensar nisso.

Ele então olhou de volta para Satoru.

— Mas… como você me reconheceu ontem?

Satoru coçou levemente a cabeça.

— Então… depois da batalha das Doze Casas… meu avô voltou pro Santuário bem preocupado.

Seiya ouviu em silêncio.

— Ele soube que vocês… e Atena… estavam no Japão, se recuperando.

Satoru continuou:

— Aí ele foi até lá… com o meu pai. Eles encontraram o Aldebaran… e a Atena também.

Seiya abaixou levemente o olhar, pensativo.

— O velho ainda lembra de mim…

Satoru assentiu.

— Ele pediu desculpa pra Atena por ter ficado afastado por tanto tempo… foi aí que ela começou a procurar mais sobre os Cavaleiros que não estavam mais ativos.

Uma pausa.

— E… meu pai tirou uma foto de vocês no hospital…

Seiya congelou por um segundo.

— …Ele fez o quê?

Satoru deu um sorriso sem graça.

— É… não foi muito legal…

Seiya soltou uma leve risada, passando a mão na nuca.

— Realmente não é muito legal tirar foto de gente desacordada…

— Meu avô brigou com ele depois. — completou Satoru, rápido.

Seiya riu de leve.

O clima suavizou.

Satoru então olhou pra ele com mais atenção.

— E… como você tá se sentindo?

Seiya inclinou a cabeça.

— Hm?

— Agora que… virou Cavaleiro de Ouro…

Satoru hesitou.

— E… sua Armadura de Pégaso vai ser passada pra outra pessoa…

Seiya ficou em silêncio por um momento.

Olhou para o céu.

As estrelas estavam claras.

— Pra ser sincero… — começou ele — eu não pensei muito nisso.

Ele deu de ombros.

— Acho que… é só o caminho que eu sempre segui.

Uma pausa.

— O destino… ou a vontade das constelações.

Seus olhos suavizaram.

— No fim… eu só quero proteger quem é importante pra mim.

— Minha irmã…

Uma pausa breve.

— …E a Saori.

Satoru ficou em silêncio.

Absorvendo.

Então respirou fundo.

— Eu posso… treinar com você?

Seiya piscou.

— Hm?

— Só um pouco! — disse Satoru, rápido. — Se puder me ensinar alguma coisa…

Ele abaixou levemente a cabeça.

— Eu vou lutar pela Armadura de Pégaso em breve… e… seria uma honra ser seu sucessor.

Seiya abriu a boca para responder—

— Eu adoraria, mas eu preciso dormir—

Mas parou. Olhou pra Satoru. Depois… pro céu. Seus olhos estreitaram levemente.

— …Esse garoto…

Satoru inclinou a cabeça, confuso.

— Hã?

Seiya voltou a olhar pra ele. Um leve sorriso surgiu.

— Tá.

Satoru piscou.

— A gente tem alguns minutos.

O rosto de Satoru se iluminou.

— Sério?!

— Só alguns. — respondeu Seiya, levantando a guarda. — Então aproveita.

Satoru rapidamente assumiu posição.

— Obrigado!

Seiya deu um passo à frente.

— Menos papo… mais ação.

Eles começaram a se mover.

O vento passou entre as rochas.

Mas então—

Um cosmo. Diferente. Imenso.

Acolhedor… e ao mesmo tempo esmagador.

Os dois pararam no mesmo instante.

Seiya virou o rosto. Satoru fez o mesmo.

No topo do monte… uma figura surgia. Os cabelos longos sendo levemente movidos pelo vento. O manto branco. O báculo. A presença. Atena.

Satoru ficou imóvel.

Os olhos arregalados.

O coração acelerando.

— …A-Atena…?

Seiya ficou surpreso.

A presença divina envolvia o ambiente de forma quase palpável. O vento parecia ter cessado por respeito, e até o som das folhas ao redor havia desaparecido. Apenas o cosmo dela preenchia tudo — calmo, acolhedor… e ao mesmo tempo imensurável. Seiya deu um passo à frente, os olhos fixos na figura no topo do monte.

— Saori… — a voz dele saiu mais baixa do que o normal, carregada de surpresa. — …o que você…?

Atena o observava em silêncio por um breve instante. Seu olhar era firme, mas havia algo diferente ali — uma seriedade mais profunda, mais distante do habitual.

Então ela falou.

— Seiya… — sua voz ecoou suave, mas com autoridade natural — eu preciso falar com você.

Satoru permaneceu imóvel, ainda em choque, sem saber se devia sequer respirar naquele momento. E o clima mudou. O treino… já não importava mais.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.