Notas iniciais
Ainda colocando a história nos trilhos. Acredito que fluirá bem daqui pra frente.

Santuário

A noite caia sobre o santuário. Um céu sem nuvens deixava aquela lua cheia ainda mais extraordinária do que o comum. No topo das doze casas, a mulher de cabelos púrpuras se escorava no para peito de seu templo, observando seus domínios como de costume. Seu semblante demonstrava preocupação.

Por mais que tivesse recebido o título de Deusa da Guerra, gostava mais quando a referenciavam como Deusa da Sabedoria. Guerrear era provavelmente a última coisa que gostaria de fazer desde que fora concebida por Zeus. E mesmo assim nunca pôde evita-las.

A lua parecia ficar mais brilhante a cada segundo, como se estivesse se aproximando. Após alguns momentos a luz intensa foi o bastante para causar estranhamento na Deusa que voltou sua atenção aos céus. O que viu, no entanto, não era a lua e tão pouco uma luz qualquer. Uma figura masculina de cabelos e aura branca se aproximava do santuário batendo as asas de sua armadura de uma forma bem semelhante ao que Seiya fazia.

— O que? – Levou sua mão até próximo de seu rosto, surpresa.

Não demorou muito para aquela figura alcançar a sacada do templo, parando no ar à poucos metros de Athena enquanto suas asas continuavam a bater. Seu rosto possuía traços finos, assim como seus olhos e lábios. Ele observava a mulher com certa curiosidade, como se analisasse uma conhecia que não via há muito tempo.

— Athena! Como é bom te ver.

— Desculpe, nós nos conhecemos? – A figura aparentemente não demonstrava perigo, acalmando os ânimos da divindade.

— Você se esqueceu de mim, garota? Sou Hermes! – O homem sorriu. – Sei que não nos vemos desde que você era uma garotinha, mas eu não aceitarei isso como desculpa.

— Hermes, meu irmão! Me perdoe, eu não o reconheci. O que faz aqui? – Franziu as sobrancelhas, imaginando que a presença do mensageiro dos deuses não era mera coincidência. – Sua visita tem algo a ver com Apolo?

— Mas é claro que sim, irmã. Eu tenho duas mensagens para você. Uma de seu irmão, Apolo, e... bem... uma de nosso pai.

— Zeus?! Nosso pai nunca se comunica conosco.

— Eu também me assustei quando ele me convocou. Fazia eras que eu não o via. Ele está meio acabado... Me parecia triste.

— Será que foi pelo que fiz à Hades?

— Talvez sim, talvez não. Os dois nunca se deram tão bem de qualquer forma. Talvez ele apenas esteja velho e cansado, sabe? Sua mensagem dá indícios disso, inclusive.

— Conte-me o que nosso pai disse.

— Acho que é melhor começar com Apolo. Me permite?

— Por favor, irmão.

— Pois...

Antes que Hermes pudesse falar, o templo de Athena havia sido invadido por Seiya que voou com tudo na direção de Hermes, tomando o lugar de sua deusa aos gritos, abrindo suas asas para que estas cobrissem o corpo dela e, de alguma forma, a protegessem.

— Não se preocupe, Saori! Eu vou derrotar este invasor!

Hermes imediatamente fechou seu rosto, passando a mão sobre ele como se não acreditasse naquela cena. Um suspiro forte e uma revirada de olhos antecederam suas palavras.

— Mortal... Você não é dos mais inteligentes, não é? Eu estou aqui há uns cinco minutos já, se eu fosse fazer alguma coisa... Eu já teria feito.

— Então... Saori?

A deusa saiu de trás de suas asas, tocando o peito de Seiya e o afastando do parapeito.

— Não se preocupe, Seiya. Este é meu irmão Hermes. Ele veio apenas trazer algumas mensagens para mim.

— Hermes?

— Eu não luto, humano. Nunca. Jamais. – Hermes observava aquela cena com uma pitada de vergonha alheia.

Seiya se jogou no chão, ajoelhando-se perante os dois deuses.

— Me desculpem! – Implorou. – Eu fui completamente desrespeitoso com os senhores. Peço que me perdoem.

— Não se preocupe, Sagitário. Muito obrigada por vir me proteger. – Tentou ser cortês para não evidenciar seu relacionamento com o cavaleiro. – E então, Hermes. Pode continuar?

— Vai deixa-lo aí? – O mensageiro levantou uma das sobrancelhas, desconfiado.

— Ele é o meu guerreiro mais leal e comandante de minhas tropas. Creio que possa ouvir o que tem a dizer.

— É... Bem, cada um tem a derrota que merece, não é mesmo? – Murmurou para si mesmo. – Então vamos lá.

Seiya continuou ajoelhado e de cabeça baixa, prestando atenção na rara conversa entre duas divindades. Havia cometido uma gafe, porém estava aliviado que Saori não corria perigo.

— Apolo. – Hermes retomou. – Sua mensagem foi a seguinte. – Ele retirou um pergaminho de sua cintura e preparou-se para ler o conteúdo. – “Minha querida Athena. Penso que já conhece minhas intenções. Encontrei dois mortais em um dos pontos de encontro de meus soldados e não pude deixar de notar que você não apenas destruiu Hades como também está utilizando o que restou dele em seu guerreiro. Que conveniente, não?”

— O que? – Seiya levantou o rosto, preocupado. – Hades ainda está dentro de Shun?

— Deuses não desaparecem facilmente, Seiya. Te explicarei em outra ocasião. Continue, Hermes. – Disse Saori calmamente.

— Pois bem. “Você recebeu o domínio da Terra e destes mortais há eras e, mesmo após todo esse tempo, nunca entrou em consenso com Poseidon e Hades. Nunca alcançou a paz e o domínio deste reino, destruiu nossa família sem dó e piedade e, por isso, merece punição. Eu esperei por muito tempo até que você alcançasse, durante sua vida humana, esse fragmento de paz. Agora você está fortalecida e talvez até confiante. E é por isso que eu acabarei com seu reinado. Eu chegarei em breve, me espere. ”

— O que ele quer dizer com isso? – Indagou Athena a si mesma.

— Eu achei a mensagem bem clara, você não? – Hermes soltou uma risada sarcástica. – Apolo dentre todos os deuses do olimpo é disparado o mais honrado. Ele jamais te atacaria fragilizada. Ele aguardou o momento em que seu exército está no auge e com a moral alta.

— Ele está nos subestimando. – Seiya voltou a conversa enfurecido. – Esses Deuses vivem nos subestimando e sendo derrotados, um por um.

Hermes novamente fechava seu rosto, dessa vez realmente incomodado.

— Olhe o que fala, mortal. Apolo não subestima ninguém. Ele simplesmente destrói o inimigo sem que haja motivos para questionarem sua vitória. E se, por algum milagre maldito, ele for derrotado, também cairá com honra. Ele é o sucessor de Zeus, não é como o fracassado de Poseidon ou o invejoso de Hades. Não os compare.

— Nós também derrotamos Odysseus.

Hermes rangeu os dentes ao ouvir esse nome. – Esse pecador é um ponto fora da curva. Algo inimaginável que nunca aconteceu antes e jamais acontecerá de novo. Vocês o venceram pelas circunstâncias, não fique arrogante.

— Ele está certo, Seiya. – Athena fitou seu soldado. — Apolo não deve ser comparado a qualquer outro inimigo que você já enfrentou. Inclusive, “nós” derrotamos Odysseus não deveria te incluir.

— Me perdoe, Athena.

— Então Hermes, agora a mensagem de nosso pai, por favor? – A deusa voltou-se ao irmão.

“Zeus?!” – Seiya se questionou mentalmente, levando seus olhos ao mensageiro.

O deus de cabelos brancos guardou o primeiro pergaminho e sacou o segundo, preparando sua garganta para a próxima mensagem.

— Vamos lá. “Minha filha. Tenho conhecimento de tudo o que está acontecendo, inclusive sobre sua posição no exato momento em que estará ouvindo esta mensagem. Como deve saber, nada escapa de meus ouvidos. Infelizmente eu permiti que Apolo iniciasse uma guerra contra você, porém isso tem um motivo. ” – Hermes sorriu, olhando para sua irmã como se estivesse surpreso pela moral recebida. — “Eu os considero, dentre todos os deuses do olimpo, os mais capazes e, por isso, o vencedor desta batalha tomará o meu lugar como Senhor dos Céus e Deus Supremo. Boa sorte. ”

— O-o que?! – Seiya e Athena dispararam ao mesmo tempo, completamente surpresos.

— Foi o que eu disse. Você tem a chance de ser promovida. – Hermes guardava o segundo pergaminho. – E é por isso que, além de sua aparência, eu achei que o velho estava cansado e acabado. Em breve os Deuses terão um novo líder. E eu, sinceramente, torço por você. Mas... – Seus olhos fitaram Seiya. – Eu tenho minhas dúvidas.

Os dois apenas fitaram o mensageiro de boca aberta, desacreditados do que acabaram de ouvir. Apolo não apenas havia esperado o momento certo para “punir” sua irmã como gerou uma disputa pela sucessão do trono divino.

— Agora, se me dão licença. Eu tenho que avisar Artemis desse acontecimento. Ela foi ordenada a voltar para o Olimpo para que não se metesse nessa guerra.

— E quanto à Poseidon e Hades? – Questionou a mulher.

— Eles podem fazer o que quiserem, afinal, eles também fazem parte destes domínios. Poseidon nos mares, Hades no submundo. Ou era o acordo original. Enfim, não é problema meu. Boa sorte, querida irmã, e adeus.

— Muito obrigada, Hermes.

A dupla observou aquele ser divino bater suas asas de volta aos céus, voando mais uma vez na mesma direção que a luz do luar, desta vez afastando-se cada vez mais e escurecendo um pouco aquele belo céu estrelado.

Seiya se levantou e caminhou até sua amada, tocando a lateral de seus braços gentilmente. Estava ainda mais preocupado com antes. Essa conversa não havia sido nada animadora. O destino de algo muito maior do que a Terra estava em jogo.

Ela o abraçou, ainda sem palavras, e os dois ficaram naquela posição por um tempo, contemplando o silêncio.

Manhã seguinte.

Santuário.

No pátio do santuário costumeiramente os jovens cavaleiros se encontravam para conversar, contar sobre suas rondas, treinamentos e as missões que haviam cumprido, além, é claro, de suas vidas e projeções para o futuro. Muitos deles já estavam sabendo por cima do que estava acontecendo, mas já era consenso entre eles que algo muito grave estava para acontecer.

E era nessa onda que, naquela manhã ensolarada, três jovens se sentavam na fonte central do pátio para conversar.

— E então, Shoryu. O que o seu pai disse sobre essa coisa toda? – O rapaz de pele escura trajava a armadura de prata de Baleia.

— Que coisa, Bedrich? – O rapaz oriental de cabelos longos e levemente espetados vestia uma armadura completamente negra com o formato de um dragão.

— Você sabe, aquilo que aconteceu com o Senhor Shun. Eu te contei do que aconteceu. Me dá alguma informação, poxa. – O cavaleiro de prata esticava suas pernas durante sua pergunta. Logo mais teria que voltar para o seu posto.

— Já tem alguns dias que eu não vejo meu pai. Ele não me contou nada, apenas me disse que eu e Ryuho precisamos ficar mais fortes.

— E como está seu irmão? – Perguntou a terceira jovem, uma moça alto e de longos cabelos castanhos. Sua máscara era prateada com detalhes azuis que começavam em seus olhos e desciam até o queixo. Ela trajava a armadura de bronze de Lebre.

— Ele está bem. Está em uma missão com o senhor Jabu e o senhor Geki.

— Uuh, foi levado pelos veteranos. – Bedrich riu.

— Devemos muito a eles, vocês sabem.

— Sim sim, aqueles soldados babacas que rejeitaram vocês pelas armaduras negras. – O cavaleiro de prata terminava seu aquecimento.

— Não foram apenas eles, Bedrich. – A garota se irritava. – Vários cavaleiros de bronze e alguns de prata foram reclamar. Um deles inclusive foi até o senhor Kiki.

— O que?! E o que aconteceu?

— Eu fiquei sabendo disso também. – Disse Ryuho.

— Não temos certeza, só sabemos que Kiki o mandou voando de volta para o coliseu. – A garota começava a se afastar.

— Bem feito. – Bedrich também seguia seu caminho. – Bom, de volta ao trabalho, certo? Até mais pessoal.

— Até. – Shoryu parecia triste.

O oriental observou seus amigos se afastando enquanto ele permanecia estático. Ainda não havia sido designado para nenhuma tarefa e passava todos os seus dias treinando sozinho desde que Ryuho havia saído. Ele ainda não se sentia parte do santuário.

Em meio a esses pensamentos, seus olhos viram algo estranho. No topo do coliseu estava uma figura de pé sobre a construção. Ele trajava uma armadura vermelha e possuía asas negras. Estava de braços cruzados e parecia olhar diretamente para o cavaleiro negro.

Chocado, Ryuho olhou ao seu redor, procurando por mais pessoas que estivessem vendo aquela cena, mas não havia ninguém. Todos seguiam seu caminho.

Ele voltou o seu olhar para lá e o homem agora flutuava. Ele moveu sua mão lentamente até o dedo indicador tocar seus lábios, como se pedisse silêncio e, de repente, desapareceu. Deixando apenas um rastro de fogo no ar.

Quem era aquele sujeito? O que ele estava fazendo ali? Esses e vários outros questionamentos passavam pela cabeça do filho de Shiryu.

As respostas, porém, não seriam nada agradáveis.