Santuário

Na entrada das doze casas, próximos aos degraus da casa de Áries dois homens conversavam de forma casual. Ambos trajavam armaduras douradas e pareciam se conhecer há alguns bons anos. O mais velho, com longos cabelos negros e inúmeras armas acopladas em sua armadura se mostrava bem alegre por ver o rapaz. Alto e esguio, com olhos escuros e cabelo castanho, além de uma pele bem bronzeada, o mais jovem mantinha um brilho no olhar durante a conversa.

— Você sabe, senhor Shiryu. Eu só estou aqui por sua causa. – A nostalgia havia vindo com tudo em sua mente. – Se você não tivesse aparecido naquele dia, minha vila...

— Não se apegue ao passado, Ávila. Você está aqui porque é o seu destino, porque Athena te escolheu. E eu estive lá aquele dia pelo mesmo motivo. – O oriental sorria. – E não me chame de senhor, nós temos a mesma posição agora.

— Sim senhor. – O espanhol riu. – E seus filhos? Como estão se adaptando?

— Foi meio complicado no começo, aquelas questões que você ouviu.

— Sim, mas não é de se estranhar. É algo inédito na história do santuário.

— Eu sei, mas... Enfim... Eles estão bem, estão treinando para se tornarem mais fortes.

— Deve ser uma baita pressão ter você como pai. Hahahaha.

Antes que Shiryu pudesse responder, no entanto, sentiu o cosmo de Shoryu ao longe, no pátio do santuário.

— Falando no diabo. – O pai olhou na direção de onde vinha o cosmo. – Mas por que ele está treinando ali?

— Talvez esteja se exibindo para uma amazona.

O cosmo do garoto então diminuiu por alguns segundos até que novamente aumentou, ainda mais do que antes. E repetiu esse ciclo mais uma vez.

O semblante de Shiryu se fechou, virando seu corpo totalmente naquela direção.

— Sentiu isso? – O cavaleiro de Libra olhou para trás rapidamente.

— A variação de cosmo? É um treinamento?

— É um código. Uma emergência. Preciso ir até lá.

— Quer que eu vá junto?

— Reúna alguns cavaleiros de prata e bronze e nos encontre lá.

— Sim senhor.

E então ambos dispararam nas devidas direções de seus destinos finais, Shiryu para o encontro de seu filho e o cavaleiro de Capricórnio em busca de reforços.

Enquanto isso Shoryu, que já havia diminuído seu cosmo em definitivo, buscava por todos os lados a presença daquele homem, mas não conseguia encontrar nada. Nem mesmo um rastro de cosmo que pudesse lhe dar alguma pista.

Começando a ficar frustrado, seus olhos finalmente pegaram algo estranho. Voando no céu, na direção sul de onde havia visto o invasor, um rastro de fogo se movimentava como uma nuvem semi transparente.

— Shoryu! O que houve? – O cavaleiro de Libra finalmente havia chegado ao local.

— Pai, olhe! – O garoto apontou com o dedo para o local onde estava a nuvem. – Temos um invasor no santuário.

Shiryu se assustou, arregalando os olhos e procurando por algo na direção apontada, mas não havia nada. A nuvem havia desaparecido.

— Não tem nada lá, você tem certeza? – Indagou o pai.

— Sim, eu vi um homem com armadura vermelha e asas negras em cima do coliseu, ele estava olhando na minha direção. Quando eu o encarei ele desapareceu e então eu vi um rastro de fogo se movendo nos céus.

“Armadura vermelha?!” Um suor escorreu na lateral do rosto do cavaleiro de ouro.

Era a mesma cor da armadura daquele guerreiro que June havia enfrentado. Shoryu não poderia saber disso pois a informação estava sendo guardada em sigilo.

Foi quando um barulho foi ouvido atrás da dupla, que rapidamente se virou. O que viram, no entanto, era o mais puro vazio. Nada fora do normal, nenhuma presença, nenhum cosmo.

— O que diabos? – Shoryu começou a caminhar na direção onde o barulho parecia ter vindo e então tropeçou em algo, que rolou para sua frente.

Os olhos de Shiryu se arregalaram tanto quanto possível e então seu cosmo se aumentou instantaneamente, como um aviso para todos no santuário. Havia um inimigo ali.

— Não... – O cavaleiro negro caiu de joelhos, desesperado. – Não é possível. – Suas mãos se abriram e foram até o que causou tal comoção, mas o medo que penetrava todo o seu ser o impedia de tocá-la.

Aquela era a cabeça da amazona de Lebre que há poucos minutos conversava tranquilamente com Shoryu e Bedrich.

Pouco depois Ávila de Capricórnio chegou com os reforços que imediatamente receberam as ordens de Shiryu para patrulhar o local e mandar mensagens para Kiki e qualquer cavaleiro de ouro que estivesse fora do Santuário, ordenando um retorno imediato.

Passou-se algumas horas e nada havia sido encontrado, nenhum vestígio e nenhuma testemunha além do cavaleiro de dragão negro que, até aquele momento, encontrava-se de joelhos no pátio, encarando o corpo da amazona que agora havia sido colocado junto de sua cabeça e estava coberta com um lençol.

Shiryu abaixou-se ao seu lado, tocando seus ombros.

— Venha, garoto. Você precisa descansar.

— Eu não a protegi. Eu vi o invasor, eu deveria ter feito alguma coisa.

— Não tinha como você saber.

— Eu sou fraco. Inútil.

— Shoryu...

Templo de Athena

Athena estava sentada em sua cama de mármore, segurando o rosto com as mãos, desolada. Não bastavam as notícias que recebera a noite, uma de suas amazonas havia sido assassinada dentro de seus domínios como se fosse nada. Se ao menos tivessem encontrado algo, ela poderia tentar tomar alguma atitude. Mas nesse momento apenas as lágrimas queriam dar as caras.

— Athena. – Era Kiki, do lado de fora do quarto, escorado na parede de forma que não tivesse visão do interior.

— ...

— Eu encontrei algo.

— Diga-me. – Seu rosto se desvencilhou das mãos e um olhar de esperança, porém misturado com o medo, foi lançado até a porta.

— Na verdade, acho que a melhor definição seria de que eu fui encontrado.

— Como assim, Kiki?

— Enquanto eu usava minha telecinese para me mover rapidamente por todos os cantos do Santuário, alguém falou comigo por telepatia. O invasor, provavelmente.

— E o que ele disse? – Suas esperanças começavam a desmoronar novamente, jogando seu olhar para o chão.

— “Não adianta me procurar, eu já estou bem longe. Considere aquela cabeça uma declaração de guerra. Em breve nosso exército baterá em suas portas.”

— Apolo finalmente está chegando.

— É o que parece.

— Precisamos nos preparar para a guerra, Kiki... Eu não sei se consigo...

— Você irá conseguir, Saori. — O cavaleiro de áries finalmente adentrou ao quarto, mas se manteve na porta. – Meu mestre Mu sempre confiou em você, eu também confio. Todos os cavaleiros de ouro confiam.

— Mas será o suficiente?

— Se não for realizaremos um novo milagre. É por isso que somos chamados de santos, não é?

— Kiki... – A mulher finalmente sorriu, fitando o rosto de seu cavaleiro enquanto enxugava as lágrimas de seus próprios olhos. – Por favor, reúna todos os cavaleiros de ouro em alguns dias.

— Sim senhora. Tratarei disso imediatamente. Seiya poderá cuidar da data específica?

— Sim.

— Então estarei me retirando, com licença.

O cavaleiro de áries saudou Athena e se retirou, caminhando com passo largos até que estivesse fora do templo.

Saori se levantou e, como sempre, caminhou até o parapeito da sacada, encarando o santuário e o caos que havia se instalado ali enquanto imaginava o que seria da Terra e dos humanos daqui em diante. O que aconteceria se ela realmente perdesse esta guerra?

Tentou com todas as suas forças ignorar os pensamentos negativos, mas àquela altura parecia impossível e, assim, as lágrimas mais uma vez escorriam pelo seu rosto.

Casa de Virgem

— Eu o trouxe de volta. Logo ele estará aqui.

— Quem? – Indagou o cavaleiro de ouro.

— Você sabe quem. O único que restou algum pedaço para ser trazido de volta.

— Mas por que?

— Por que não?

— O que você quer?

— O que nós queremos?

— Quem é você?

— Quem nós somos?

— Eu não entendo.

— Nós iremos entender.

E então Shun acordou assustado, encharcado de suor. Sua respiração era ofegante e seus olhos procuravam algo, ou alguém, em seus aposentos. Aquele pesadelo não era algo comum, parecia completamente real, como se alguém realmente estivesse tentando se comunicar com ele. Mas... Quem havia sido trazido de volta? Quem era o único com restos mortais?

Não sabia responder aquelas perguntas e, quanto mais pensava nelas, pior era o calafrio que sentia em sua espinha.

Sentou-se em sua cama, tentando entender o que havia acontecido. Pensou na possibilidade de ser Shaka, mas este não aparecia desde o incidente, e também não faria muito sentido com o teor da conversa. Mesmo assim tentou entrar em contato com seu antecessor enquanto imaginava que pudesse ser resquícios de Apolo, que havia atacado sua mente, mas o sentimento era de algo mais próximo, mais íntimo.

Quando estava prestes a desistir, obteve resposta.

— Shun. – Era a voz de Shaka. – Tome cuidado.

— Por que, Shaka? Você sabe quem estava aqui?

— Não é com ele que você deve tomar cuidado. É com o inimigo.

Shun se levantou, observando o santuário pela janela. O suor continuava a escorrer pelo seu corpo e, após uma boa olhada para o horizonte, aquele calafrio que estava sentindo tomou conta de seu corpo de forma horripilante.

O céu azul estava se transformando, adquirindo uma cor avermelhada tão grosseira quanto a própria luz do sol. Como se um rio de sangue houvesse sido iluminado por dentro. Não conseguia ter reação além de ouvir as últimas palavras de Shaka antes do mesmo desaparecer novamente.

— Ele chegou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.