Saint Maria
6 Capítulo 6
Eu era o motivo da discussão, mas mesmo depois de tantos xingamentos, Bill passou por nós com o vidro baixado e sorriu para mim, sem que meus pais vissem. A noite acabou com desentendimentos, mas nada que mudasse nossa distante amizade, que se aproximava mais e mais.
O garoto que no inicio me fazia belas caretas, e que naquele momento me sorria, parava sua moto e descia dela. Caminhava até a luz do poste mais próximo e se virava para a minha janela. Muitas vezes o peguei fazendo isto. Afinal, o que ele pretendia com a minha pessoa, me assustar, me alegrar ou me seqüestrar? Muitas coisas passavam na minha cabeçinha de anjo. Aquilo me consumia todos os dias, não sabia se ria ou se chorava. Até nas aulas isso me desconcentrava. Mas no fim sempre dava um jeito de me entreter com alguma coisa.
Era começo do inverno e meu aniversario de seis anos estava chegando. Meus pais sempre faziam uma festinha em casa para meus familiares e amigos mais íntimos. E sempre dava muito certo, a diversão era garantida. Os preparativos sempre era o máximo. Mal sabia ajudar, mas mesmo assim me metia a fazer doces, principalmente os brigadeiros. Mais comia do que fazia, e isso era uma virtude minha: comer muito. O bolo sempre eu que escolhia, e ainda me lembro como que fosse hoje, o bolo deste aniversário de seis anos tinha formato de leque e a cor era rosa. Íamos fazer uma festa na escola onde eu estudava e outra em casa. A decoração de casa foi toda rosa e a da escola foi simples, um tanto normal, com um enorme feliz aniversário e a mesa das guloseimas bastante enfeitada. Não se podia bagunçar muito a sala de aula, mas com certeza iria ter alguma traquinagem por algum canto.
Posso dizer que meus pais me mimavam demais, e até meus irmãos que eram muito mais velhos, faziam as minhas vontades. Toda criança fazia bagunça, mas eu era uma menina que ficava sempre em um canto, não gostava de muito tumulto. Preferia brincar sozinha.
Lembro que ganhava muitos presentes, flores, bonecas, roupas. Os tempos eram muito bons, e meus pais sempre me proporcionaram estas maravilhosas coisas. Fotografias era o que mais tirava. Tinha muitos álbuns, cada aniversário, havia um. E em relação a meus trajes de festa, mamãe sempre mandava fazer roupas lindas, inspiradas na apresentadora de um programa de televisão infantil que era meu preferido. Cada ano era um conjunto diferente, e isso encantava todos meus convidados.
Essa festa era uma das mais importantes, pois nossa vida havia mudado muito. Mesmo sem emprego, meu pai nunca havia me deixado sem festa. Meus pais estavam felizes pelos novos trabalhadores de casa: meus irmãos. E eles ajudaram na despesa da festinha, pois ainda meu pai não tinha tantas condições assim. Fizemos convites e me encarreguei de distribuí-los. Cada pessoa que dava, confirmava sua ida. Aquilo me deixava muito feliz. Obviamente não eram muitos, mas os que realmente eu gostava e que gostavam de mim, receberam o convite com muito carinho.
No entanto, tinha uma pessoa que eu queria convidar, mas mamãe não iria permitir. Mesmo assim fiz um em especial escondido. Sabia que aquele rapaz que me fazia sorrir não iria aparecer, mas fiz um convite para ele. Coloquei meu nome e endereço. Onde eu morava é claro que ele sabia, só não imaginava como era meu nome, e nem eu o dele. Se era Bill, ou se era Tom, tanta fazia, pois o que eu queria era convidá-lo. Pensei no convite, mas não pensei como entregá-lo. Sempre passava por eles com minha mãe ou meus irmãos, e era impossível fazer isto. Eu tinha certeza que aquele convite não ia lhe servir de nada, e que nunca um rapaz daquela idade, iria ir a uma festa de criança, por isso resolvi o convidar, por saber que não apareceria. Nem sabia por que estava fazendo aquilo, só pensava que seria uma gentileza.
Neste mesmo dia que fiz o tal convite, achei a solução para entregá-lo. Todos os dias à noite ele passava em frente de minha casa, então o amarrei em uma pedra e decidi tocá-la quando passasse. Às vezes ele descia da moto, mas tinha noites que apenas passava. Estava torcendo para que ele parasse e descesse da moto. Mal agüentava ansiosa para chegar a noite. Precisava deixar a janela destrancada para quando abrisse não fazer barulho.
A noite tão esperada havia chegado e fui deitar. Meu pai colocou-me na cama e foi verificar se a janela estava trancada, por causa do vento forte que poderia chegar. Tremi igual à vara verde quando ele se enveredou para o lado da janela. Chamei-o e disse a ele que Nico, meu irmão mais velho, antes de sair para o trabalho havia fechado. Papai hesitou no primeiro momento, mas acabou por acreditar na minha pequena mentira. Depois disso, ele me beijou na testa e saiu fechando a porta do meu quarto. Tanto eu esperei o barulho da moto, que acabei adormecendo.
Foi meia noite e alguns minutos, a hora que acordei com o barulho de pneu escorregando no asfalto. Fiquei escutando por algum tempo, até saber se eram eles de verdade, mas os arranques dos motores pararam. Decepcionei-me, pois achei que eles já haviam passado e tinham ido embora. Levantei-me e fui à direção da janela. Fiquei olhando para a rua, mas nem um movimento se sucedeu. Quando novamente estava indo deitar, vi um clarão e também um pequeno barulho de algo se aproximando. Era ele, o reconheci mesmo com capacete, mas seu sobretudo preto de couro não deixavam me enganar. Abri a janela sem fazer barulho e inclinei-me para frente com a intenção de ele parar. Ao chegar perto, a moto começou a diminuir a velocidade. Provavelmente deve ter me visto. Parou, desceu da moto, caminhou até a luz do poste e tirou seu capacete, e não tive a menor dúvida de que era ele mesmo.
Ele baixou seu rosto para um lado e sorriu. Depois largou o capacete no chão e fez sinal, perguntando-me por que não estava dormindo. Eu me impressionei na hora, pois a coisa que eu menos esperava que ele fizesse, no entanto fez. Nunca imaginei que ele ia me mandar sair da janela e dormir. Muita audácia da parte dele, mas não fiquei brava, muito pelo contrario, ele tinha razão. Respondi seu sinal, pedindo para esperar um segundo. Sai da janela e fui pegar o convite que estava amarrado em uma pedra. Quando voltei, olhei para o poste e não o vi, porém sua moto ainda estava lá. Ouvi um “psiu” mais perto da minha janela, bem na grade que dividia minha casa da calçada. Mais uma vez ele fez um sinal, pedindo para eu ir dormir por que já estava tarde. Eu fiz sinal de positivo com a cabeça e joguei-lhe a pedra. Ele se assustou no mesmo momento. Acho que deve ter pensado que eu estava o correndo dali, mas ao ver que nela estava amarrado algo, a pegou e abriu o convite. Fiquei esperando ele ler para saber o que pensava, mas fui surpreendida novamente. Depois de ler, ele sorriu com o canto da boca e balançou a cabeça negativamente. Colocou no bolso e sem me olhar virou-se de costa, já colocando o capacete, caminhou até a moto, subiu nela e saiu rua a fora. Neste mesmo momento um vento forte começou a sacudir as folhas das árvores e isso fez com que eu fechasse a janela rapidamente antes que algum barulho acordasse meus pais. Senti-me triste, pois a impressão que fiquei foi de, ele rir de mim por que o convidei para minha festa onde só iriam estar crianças.
Fiquei pensando depois que deitei: “será que ele vai implicar comigo depois dessa?” “Seria melhor se eu achasse alguma garota bonita que fosse mais ou menos de sua idade, para não achar que a festa era somente para crianças bagunceiras.” Nesta hora, varias coisas passaram diante de minha mente, e novamente acabei por adormecer.
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