Saint Maria
25 Capítulo 25
Olhando para o verde do planalto, as boas lembranças tomaram conta de meu pensamento: as brincadeiras com a Ana, a festa de despedida de meus colegas na escola, as noites que eu ficava olhando pela janela Bill andar com sua moto na frente de minha casa, as caretas que fazia quando eu passava por aquela esquina. Tudo me fazia dar risada, até que em uma delas mamãe acordou.
- Por que está rindo Anie? – perguntou ela.
- Nada não mãe. – respondi.
- E essa corrente em sua mão? – questionou novamente. – Para mim ela é muito misteriosa. Quem foi que te deu afinal?
- Não posso falar. – respondi outra vez.
- Anie, você não pode me esconder isso. – disse mamãe. – Tenho o direito de saber. Você é tão novinha para guardar segredos. Não vou brigar com você. Confia na pessoa que mais te ama nesse mundo.
- Está bem. – comecei. – Foi Bill. Ele esteve lá em casa na noite de minha festa.
- Bill? – disse minha mãe. – Mas como?
- Indo mamãe. Ele apareceu do nada lá em casa e ficamos conversando por um bom tempo. Ele disse que não era para eu contar sobre a sua visita, pois ele ainda não tinha saído do hospital.
- Meu Deus! – exclamou ela com cara de assustada. – Filha, Bill não podia ir lá em casa. Isso é um absurdo.
- Mas ele foi. – respondi mais uma vez. – Juro que ele esteve lá. Mas por que ele não poderia ter ido lá?
- Ora por que. – disse mamãe enrolada. – Ele ainda estava internado. Queria saber como ele conseguiu fugir do hospital. Realmente eu tenho que acreditar em você, pois os fatos coincidem uns com os outros. Simone disse que estava com seu presente depois ele aparece em suas mãos, e você nem saiu de casa. É isso é bem possível. Mas agora esquece esse rapaz. Você não vai mais poder vê-lo.
- Por que não mamãe?
- Por que não sabemos se voltaremos para Saint Maria. Isso pode não ser mais possível. E você não pode ficar pensando nisso. Certo? Você vai conhecer novas pessoas e ele também. Sinceramente não sei o que vocês dois tem em comum, pois são tão diferentes, não sei como pode dar certa essa amizade. Pra começar, ele é bem mais velho, uns doze ou treze anos de diferença. Outra, ele era totalmente estranho, usava aquele tipo de roupa e coisas assim.
- Ele é muito legal. – interrompi. – Nunca vou esquecer ele. Eu vou voltar quando ficar maior e ele vai estar aqui.
- Filha, — começou novamente mamãe. – entende uma coisa: vocês não vão mais se ver. Infelizmente é assim que vai ser. Certamente nunca mais voltaremos para Saint Maria. Desculpe a mamãe por isso, mas é verdade.
Naquele momento eu queria abrir a janela do ônibus e me atirar dele. Senti um aperto tão grande no coração que logo as lágrimas começaram a cair. Percebi que tudo aquilo não era mentira. Realmente era coisa de criança, coisa minha. Deitei sobre o colo de mamãe e olhando a paisagem de fora fiquei lembrando dos bons momentos que passei junto das duas pessoas que mais me identifiquei naquela cidade.
Lembrei das brincadeiras, sorrisos e até mesmo do meu seqüestro. Pela primeira vez depois daquele episodio, deu-me um frio na barriga. Senti medo ao passar pela minha mente que estávamos saindo de nossa casa por causa de dois homens fugitivos da polícia. Era tortura demais pensar naquilo. Tinha que tirar da cabeça essas coisas ruins, mas o futuro não iria apagar as coisas que aconteceram no passado. De certa forma, me sentia culpada por tudo, mesmo sabendo que eu não tinha culpa nenhuma.
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