Sagira
24 Capítulo 24 - Não se apaixonarás por uma vida
Notas iniciais
Cronos me mantém fechada o resto do dia embora tenha dito que eu poderia sair do quarto.
A luz do sol não entra mais pelas barras de metal e eu estou sentada na cama, tendo desistido de chutar a porta e rosnar.
É em vão lutar e eu tenho plena consciência disso.
Mas ficar enjaulada não é meu hobby e meus instintos não são a favor disso.
A porta se abre e cada nervo do meu corpo se contrai.
— Não seja tímida — Cronos sorri.
Arrisco encará-lo.
Ele veste terno feito sob medida e seus olhos dourados observam cada movimento meu.
Reparo que logo atrás do titã há um carrinho igual aos de restaurante.
Sinto o cheiro de carne mal passada e meu estômago ronca, mas não me movo um centímetro.
Cronos alarga o sorriso e leva o carrinho até a mim.
Ele se senta ao meu lado e luto contra o instinto de atacá-lo, sabendo que isso seria insensato.
Além disso meu corpo está pesado.
É engraçado como as pessoas falam dele como se fosse uma criatura feia e de fato ele deveria (ou deve) ser.
Mas o semideus, que aos poucos morre enquanto hospeda o titã, é lindo.
— Você deve ter percebido que não me resta muito tempo neste corpo — ele cutuca o próprio peito — que pena.
Olho para frente.
Tento ignorar o fio fraco de vida do semideus, mas ele é chamativo demais para mim.
O tempo que passei com Tanatos me fez aprender sobre os detalhes da morte.
Encaro o desenho do papel de parede dourado.
São lanças negras e hipnóticas.
Pisco.
Não é hora de ficar apenas parada ouvindo Cronos e sentindo pena do meio-sangue hospedeiro.
Sei que nada que ele diga me ajudará a sair daqui, tampouco conseguirei persuadi-lo a algo ou salvar a vida do garoto.
Meus pensamentos se rebelam contra mim, indo até Tanatos e sinto um aperto no peito.
Se ele vier, nunca o perdoarei.
Percebo que Cronos me observa em silêncio, de pé ao meu lado e com as mãos nos bolsos.
Sinto seu poder opressor já não ter tanta influência sobre mim.
Ele faz de propósito, tentando ganhar minha simpatia.
— Gosto da sua resistência — ele toca meu rosto de leve — é mais sedutora do que quando gritam por socorro.
Não me retraio.
— Tanatos logo virá, mas lamento por ele já que você continua nos meus planos — ele sorri.
Afasto sua mão com um tapa, mas não lhe dirijo o olhar.
— Ele não virá — rosno.
Cronos fica diante de mim, com a expressão de alguém extremamente curioso.
— Você realmente acha que a maldição te persegue? — ele pergunta, divertido.
Franzo o cenho.
Sei que não devo ouvir uma palavra do que ele diz.
Não devo confiar.
Mas a curiosidade fala mais alto.
— Sagira — ele vira a cabeça de lado e sorri — a maldição que deveria te impedir de se apaixonar já foi quebrada a muito tempo…
Meu coração bate rápido.
Minha confiança desaba.
Durante tanto tempo apostei na maldição, dizendo a mim mesma que não podia me apaixonar, então estava tudo bem a proximidade entre Tanatos e eu.
Entre Hórus e eu.
Entre Eros e eu.
Agarro o lençol negro da cama e Cronos afaga minha cabeça.
— A maldição foi quebrada no momento em que conheceu Tanatos — ele diz, parecendo solidário — você jamais poderia se apaixonar uma vida, lembra? Acontece que seu querido deus é a própria morte.
Desvio o olhar.
— Vou te deixar sozinha por um momento — ele diz e aponta para o carrinho com o queixo — sirva-se a vontade, deixo avisado que ainda hoje voltarei.
Não levanto o olhar quando o titã sai do quarto.
Suas intenções são claras: me deixar confusa.
Mas sei que ele não mente.
Não no momento.
Não há necessidade: a verdade é o suficiente para me confundir agora.
Ainda mais quando estou presa com meus próprios pensamentos, longe de qualquer lugar que eu possa chamar de CASA.
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