O reencontro em Londres foi apenas um suspiro. O destino, porém, gosta de complicar as partituras. Maya precisou ficar na Europa por mais alguns meses para finalizar seus compromissos, e a comunicação com Lorenzo — que sempre fora errática e baseada em impulsos — esfriou sob o peso de segredos não ditos.

​Quando Maya finalmente pisa em Chicago, cinco meses depois, ela não encontra o rapaz romântico da neblina de Londres. Ela encontra um império.


​A sede da Vancamp-Moretti Holding era um arranha-céu de vidro e aço que parecia tocar as nuvens. Maya entrou no saguão sentindo-se deslocada com seu casaco de sarja e mochila de couro. Ela esperava encontrar Lorenzo no jardim da casa na árvore, como a coordenada sugeria, mas ele não apareceu. Ela veio buscá-lo no seu terreno.

​— Tenho uma reunião com o Sr. Vancamp-Moretti — disse ela à recepcionista.

​— Nome, por favor?

— Maya Thorne.

​A expressão da recepcionista mudou instantaneamente de profissional para curiosa.

— Oh. A Dra. Thorne. Um momento.

​Maya foi guiada até o último andar. Quando as portas do elevador se abriram, ela viu o "novo" Lorenzo. Ele estava de pé, de costas para a porta, vestindo um terno de três peças azul-marinho que custava mais do que o telescópio que ele lhe dera na adolescência. O cabelo ruivo estava perfeitamente cortado, e ele falava ao telefone com uma frieza que lembrava assustadoramente os primeiros dias de Dante.

​— ... se eles não aceitarem os termos, compramos a empresa e liquidamos os ativos. Não perca meu tempo.

​Ele desligou e se virou. O olhar de Lorenzo brilhou por um milésimo de segundo ao vê-la, mas a máscara de homem de negócios voltou logo em seguida.

​— Maya. Você demorou para voltar para casa.

​— Eu tinha uma carreira, Lorenzo. Diferente de você, que parece ter herdado uma — retrucou ela, escondendo o nervosismo.

​O Terceiro Elemento

​Antes que ele pudesse responder, uma porta lateral se abriu. Uma jovem loira, de uma elegância impecável e sorriso ensaiado, entrou na sala carregando um tablet. Ela era Bianca D’Avilla, herdeira de uma gigante do aço brasileira.

​— Querido, a logística do noivado está... — Ela parou ao ver Maya. — Oh, não sabia que tínhamos visita.

​"Querido". "Noivado". As palavras atingiram Maya como um vácuo no espaço.

​— Maya Thorne, esta é Bianca — apresentou Lorenzo, a voz desprovida de emoção. — Minha noiva. Bianca, esta é a vizinha de quem meus pais gostam tanto.

​A humilhação foi silenciosa, mas profunda. Bianca estendeu uma mão perfeitamente manicurada.

— Prazer, Maya. Lorenzo me contou que você é uma cientista brilhante. Espero que possa ir à nossa festa na próxima semana. Será o evento do ano em Chicago.

​O Acerto de Contas no Estacionamento

​Maya não ficou para o café. Ela saiu do prédio sentindo que o oxigênio de Chicago estava rarefeito. Ela estava chegando ao seu carro quando ouviu passos rápidos atrás de si.

​— Maya! Espera! — Lorenzo a segurou pelo braço.

​Ela se soltou com violência.

— "Vizinha"? Sério, Lorenzo? Depois daquela noite na casa na árvore? Depois de me procurar em Londres?

​— Você sumiu, Maya! — Lorenzo gritou, e por um momento a máscara caiu, revelando o rebelde ferido. — Eu fui a Londres, eu te dei a música, eu te dei as coordenadas... e você me mandou um e-mail dizendo que precisava de "espaço para a sua pesquisa".

​— Eu estava assustada! Minha mãe tinha acabado de morrer na clínica em Londres, Lorenzo! Eu estava sozinha tentando entender quem eu era!

​— E eu entendi quem eu era aqui — ele disse, aproximando-se, a voz agora baixa e perigosa. — Eu entendi que para proteger o que meus pais construíram, eu não podia ser o garoto da guitarra. Eu precisava de uma aliança estratégica. A Bianca é o que a empresa precisa.

​— E o que o seu coração precisa, Lorenzo? — Maya perguntou, os olhos cheios de lágrimas de raiva. — É de uma "aliança estratégica" ou de alguém que conheça a frequência da sua alma?

​Lorenzo hesitou. Ele olhou para o anel de noivado de Bianca na sua mente e depois para a garota que conhecia todos os seus segredos.

— O que o meu coração precisa não importa mais, Maya. Eu tenho um império para gerir.

​Ele deu as costas e voltou para o prédio de vidro, deixando Maya sozinha no asfalto quente. O "Acorde Rebelde" agora era uma nota dissonante, e a guerra entre o dever e o desejo estava apenas começando.