Saga: Herança de Ódio Livro 2: O Acorde Rebelde

4 ​Capítulo 4: O Silêncio das Estrelas


Lorenzo Vancamp-Moretti nunca tinha pisado na biblioteca da escola por vontade própria. Para ele, aquele lugar era um mausoléu de papel e silêncio. Mas as palavras de Maya no terraço ficaram presas na sua cabeça como um refrão de uma música ruim: "Você tem medo de descobrir quem você é sem o sobrenome".

​Naquela terça-feira, ele trocou a jaqueta de couro por um moletom preto discreto e deixou a Ducati no final do quarteirão. Ele queria entrar como uma sombra, não como um furacão.


​A biblioteca da Academia St. Jude cheirava a café e livros antigos. Lorenzo avistou Maya ao fundo, numa mesa isolada, cercada por pilhas de volumes sobre Física Quântica e Cálculo Avançado. Ela usava os óculos de leitura e estava tão concentrada que parecia estar em outra galáxia.

​Ele puxou a cadeira à frente dela. O som da madeira raspando no chão fez algumas pessoas olharem, mas Maya nem piscou.

​— Preciso de ajuda em Trigonometria — Lorenzo soltou, jogando um caderno amarrotado sobre a mesa.

​Maya levantou os olhos lentamente. Ela o estudou por cinco segundos — o tempo exato para ele se sentir desconfortável.

— Você tem um tutor particular pago pelo seu pai que ganha mais que um neurocirurgião, Vancamp. Por que está aqui?

​— Ele é um robô. Eu não entendo nada do que ele fala. — Lorenzo inclinou-se para frente, a voz baixa. — E você disse que eu tinha medo de ser eu mesmo. Bem, o "eu mesmo" está prestes a reprovar em matemática e ser mandado para um internato na Suíça pelo Dante.

​Maya fechou o livro de Astrofísica com um estalo seco.

— Trigonometria é lógica, Lorenzo. Coisa que você não usa muito quando está a 200 km/h numa moto.

​— Tenta me ensinar. Se eu for tão burro quanto você acha, você ganha o direito de me mandar embora e eu nunca mais te procuro.

​O Teste de Resistência

​Maya suspirou, mas puxou o caderno dele. Durante a hora seguinte, o que se seguiu não foi um jogo de sedução, mas uma tortura intelectual. Maya não facilitava. Ela explicava as fórmulas como se fossem leis universais e exigia que ele resolvesse os problemas sozinho.

​— Seno, cosseno, tangente... isso é como música, Lorenzo — disse ela, apontando para um gráfico de ondas. — São frequências. Ondas sonoras seguem funções trigonométricas.

​Lorenzo parou a caneta. Ele olhou para o gráfico e, pela primeira vez, algo clicou.

— Como uma corda de guitarra? — perguntou ele, os olhos brilhando com uma inteligência que ele raramente mostrava. — A distorção que eu crio no amplificador... é uma alteração na amplitude da onda?

​Maya parou de escrever. Ela o olhou de um jeito diferente. Não era mais o olhar de desprezo, mas de surpresa.

— Exatamente. Se você entender a matemática por trás da música, você para de apenas "barulhar" e começa a compor de verdade.

​A Fresta na Armadura

​Por um momento, o mundo lá fora — o império Vancamp, a pressão social, a rebeldia — desapareceu. Eram apenas dois adolescentes tentando resolver uma equação. Lorenzo percebeu que Maya não era apenas "CDF"; ela era apaixonada pela ordem do universo da mesma forma que ele era apaixonado pelo caos da música.

​— Por que você é assim? — Lorenzo perguntou, quebrando o silêncio. — Por que você não se importa com quem eu sou?

​— Porque nomes mudam, Lorenzo. Fortunas somem. — Ela guardou o material na mochila. — O que sobra é o que você tem na cabeça e o que você faz quando ninguém está olhando. Você tirou o casaco de couro hoje. Isso é um começo.

​Ela se levantou para sair, mas parou ao lado dele.

— Amanhã, no mesmo horário. Traga a sua guitarra.

​— Na biblioteca? — Lorenzo riu.

​— No auditório antigo. Se você quer aprender Trigonometria, vai aprender do meu jeito: através do som.

​Maya saiu sem olhar para trás, deixando Lorenzo com o caderno cheio de anotações e o coração batendo numa frequência que nenhuma fórmula matemática conseguiria explicar.