Saga: Herança de Ódio Livro 2: O Acorde Rebelde
5 Capítulo 5: A Frequência do Desejo
O auditório antigo da Academia St. Jude era um lugar esquecido, com cheiro de madeira velha e veludo empoeirado. A luz do fim de tarde entrava pelas janelas altas, criando feixes de poeira dourada que dançavam no ar. Era o cenário perfeito para o que estava prestes a acontecer: a colisão final entre o cálculo e a emoção.
Lorenzo estava sentado na beira do palco, os pés balançando no vazio. Ele segurava uma Gibson Les Paul preta, desgastada nos cantos. Ao lado dele, um pequeno amplificador roncava baixo. Ele não parecia o herdeiro intocável; parecia apenas um rapaz tentando encontrar uma saída para o que sentia.
Maya apareceu na porta lateral. Ela carregava o seu caderno de anotações, mas parou ao ouvir os primeiros acordes. Não era o barulho de garagem que ela costumava ouvir da janela. Era uma melodia limpa, melancólica, que subia e descia como uma maré.
— Trigonometria, lembras-te? — disse ela, aproximando-se e sentando-se no chão, à frente dele. — Mostra-me a função seno nessa corda.
Lorenzo sorriu, mas era um sorriso diferente. Sem deboche.
— Observa, professora.
Ele tocou uma nota límpida e deixou-a vibrar.
— Isto é uma onda pura. — Ele girou o botão de distorção do amplificador e atacou as cordas com força. O som tornou-se sujo, agressivo, preenchendo o auditório. — E isto é o caos que eu sinto aqui dentro. A matemática diz que é apenas uma alteração na forma da onda. Mas, para mim, é a única forma de não sufocar.
A Aula Invertida
Maya ficou em silêncio por um longo tempo. Ela percebeu que, enquanto ela usava a ciência para entender o universo, Lorenzo usava a música para sobreviver a ele.
— Toca aquela música de novo — pediu ela, a voz quase um sussurro. — A que estavas a tocar quando eu cheguei.
Lorenzo começou a tocar a melodia suave. Ele fechou os olhos, e a música parecia contar a história de um rapaz que tinha tudo, mas não se sentia dono de nada. Maya levantou-se e subiu no palco, sentando-se ao lado dele. Ela estendeu a mão e, com as pontas dos dedos, tocou as cordas vibrantes da guitarra, sentindo a eletricidade passar para a sua pele.
— Sabes qual é o problema da tua música, Lorenzo? — perguntou ela, os olhos castanhos fixos nos dele, agora sem o escudo dos óculos.
— Qual é? — Ele parou de tocar, a respiração ficando pesada pela proximidade.
— É que ela é solitária demais. Tu passas o tempo todo a tentar afastar as pessoas com o barulho, mas o que tu realmente queres é que alguém entenda a melodia por baixo dele.
O Acorde Perfeito
O silêncio que se seguiu não era o de uma biblioteca. Era o silêncio que precede uma tempestade. Lorenzo largou a palheta e pousou a guitarra cuidadosamente no chão. Ele olhou para Maya, vendo a rapariga que o desafiara, que o chamara de vazio e que, agora, parecia ser a única pessoa no mundo capaz de ver a sua alma.
— E tu, Maya? — Lorenzo sussurrou, aproximando o rosto do dela. — Tu calculas tudo. Sabes a distância das estrelas, a velocidade da luz... mas sabes qual é a probabilidade de isto acontecer?
— É estatisticamente impossível — respondeu ela, mas não se afastou. — Nós somos dois elementos que não deviam reagir.
— Então vamos provar que a ciência está errada.
Lorenzo levou a mão à nuca de Maya, os dedos mergulhando no cabelo escuro dela, e puxou-a para o beijo. Foi um encontro de fogo e gelo. O beijo de Maya era hesitante no início, mas logo se tornou intenso, uma resposta a toda a tensão que vinham acumulando desde o primeiro insulto na janela.
Para Lorenzo, aquele beijo tinha o peso de uma sinfonia. Não havia sobrenome, não havia herança, não havia rebeldia. Havia apenas Maya. E, para a rapariga que amava as estrelas, Lorenzo Arthur tinha acabado de se tornar o centro do seu próprio universo.
Eles separaram-se lentamente, as testas encostadas, as respirações misturadas. No auditório escuro, o único som era o pulsar de dois corações que tinham finalmente encontrado a sua frequência comum.
— Acho que vou passar a Trigonometria — murmurou Lorenzo, com um sorriso genuíno.
— Cala-te, Vancamp — respondeu Maya, puxando-o para outro beijo.
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