Saga: Herança de Ódio Livro 2: O Acorde Rebelde

2 ​Capítulo 2: Equações Mal Resolvidas




​O cheiro de sândalo e tabaco da mansão Vancamp foi substituído pelo aroma de limão e canela do apartamento de dois quartos de Maya. Era menor do que o closet de Lorenzo, mas ali tudo tinha um propósito. O silêncio era lei, interrompido apenas pelo arranhar da caneta de Maya no papel e o ronrom baixo de Newton, o seu gato preto.

​Dante e Aria estavam preocupados. O jantar beneficente da Fundação estava a chegar, e Lorenzo recusava-se a participar.

— "É tudo uma farsa, mãe. Uma forma de vocês se sentirem bem com o dinheiro que roubaram do mundo", Lorenzo gritara antes de sair para o estúdio.

​Mas, secretamente, Lorenzo tinha outro plano.

​O Grande Gesto (Parte 1)

​Naquela tarde, uma carrinha de entregas parou diante da casa de Maya. Dois homens uniformizados desceram e descarregaram uma caixa imensa.

​Maya estava no meio de um cálculo complexo quando a campainha tocou. Ao abrir a porta, deparou-se com uma caixa que quase a cobria. Preso nela, um envelope preto com um brasão de cera Vancamp-Moretti.

​Dentro do envelope, um cartão com a caligrafia rabiscada de Lorenzo:

​"Um passarinho contou-me que o telescópio da Julieta estava a pedir uma atualização. Este tem lentes de sílica fundida e é capaz de ver os anéis de Saturno com nitidez. Talvez assim os teus cálculos sejam mais precisos do que os teus insultos. — L.A."

​Newton, o gato, já estava a tentar usar a caixa como arranhador. Maya suspirou, tirando os óculos e esfregando os olhos. O telescópio era, de facto, o sonho de qualquer aspirante a astrofísica. Era o modelo mais caro e avançado do mercado. Mas não vinha dele. Era apenas Lorenzo a usar a sua conta bancária para comprar o seu caminho para a sua vida.

​O Grande Gesto (Parte 2: O Reencontro)

​À noite, Lorenzo estacionou a Ducati na entrada da garagem. Ele viu a carrinha de entregas ir embora e sorriu. Sabia que ela não resistiria. Era um Vancamp, e os Vancamp sempre sabiam como seduzir.

​Ele caminhou até à cerca de vidro que separava os jardins. O telescópio estava lá, montado no jardim dela, apontado para o céu escuro. E Maya estava sentada ao lado dele, não a olhar para as estrelas, mas para ele.

​Lorenzo encostou-se à cerca, o casaco de couro aberto, a pose de leão triunfante.

— E então? — perguntou ele, a voz rouca. — Os anéis de Saturno são bonitos ou a Julieta ainda está a tentar calcular o Efeito Doppler da minha ausência?

​Maya levantou-se lentamente. Ela não tinha os óculos, o que tornava o seu olhar ainda mais analítico. Ela não sorria. Ela apenas o observava com aquela frieza que o deixava tão nervoso.

​— É uma bela peça de engenharia, Vancamp — disse ela, a voz baixa. — Mas tu esqueceste-te de uma coisa fundamental sobre o universo.

​— O quê? — Lorenzo deu um passo em direção a ela, sentindo a mesma eletricidade que sentira na primeira vez.

​— As estrelas não se importam com o teu dinheiro. Elas brilham para todos, independentemente da herança. — Maya caminhou até ao telescópio e, com um movimento seco, inclinou-o para baixo, de volta para a terra. — E, sinceramente, Lorenzo... eu prefiro o meu telescópio velho. Ele tem história. Ele foi comprado com o dinheiro que o meu avô ganhou a trabalhar na construção civil. O teu... é apenas uma desculpa para não te sentires tão sozinho.

​Ela virou-lhe as costas e entrou em casa, fechando a porta com um estalo que pareceu um acorde quebrado.

​Lorenzo ficou parado no jardim, com a mão ainda no copo de uísque que Aria lhe dera (e que ele rejeitara). O grande gesto de sedução transformara-se numa humilhação pública. E, pela primeira vez na sua vida, Lorenzo Arthur percebeu que havia algo que o seu sobrenome e o seu dinheiro não podiam comprar: o respeito de Maya Thorne.

​Ele olhou para a janela dela, que permanecia escura. O "Acorde Rebelde" acabara de ser silenciado pelo gelo de uma CDF que não dava a mínima para ele. E, ironicamente, isso tornava-a a estrela mais fascinante que ele já vira.