Safe And Sound
8 Rosas - Parte I
Notas iniciais
Sr. Muñoz me entregou um copo de suco de cor amarelada.
– O que é? – Perguntei, abraçando meu próprio corpo.
– Suco de maracujá. Beba, você se sentirá melhor. – Ele disse.
Peguei o copo; minhas mãos ainda tremiam um pouco. Beberiquei o líquido, e soltei o copo na mesa.
– Obrigada. – Murmurei.
– Eu poderia falar com ela? – Baltazar apareceu ao meu lado. – Se o senhor não se importar...
Meu professor se levantou, e assentiu.
– Fique à vontade, doutor.
– Sou apenas um enfermeiro que deu sorte. – Baltazar respondeu, se sentando na cadeira que antes era ocupada pelo meu professor.
Nos encaramos, em silêncio.
– Entende agora? – Ele começou. – Entende por que tantos médicos largaram o caso dela?
Afastei uma mecha de cabelo do meu rosto.
– Ela é boa em enlouquecer os outros, Mellione. – Baltazar continuou. – Ela já descobriu seu medo?
– Não. – Eu disse. – Ela sabe qual é meu medo, mas ela não pode fazer nada com ele.
– Não foi o que me pareceu. É suco de maracujá?
Assenti.
– Beba um pouco. – Ele ordenou. Beberiquei mais um pouco o suco.
– O que você quer? – Perguntei.
– Como assim?
– Por que você está aqui, Baltazar? Você não deveria estar observando sua paciente?
Ele suspirou, bagunçando um pouco seus cabelos.
– Deveria. Mas me preocupei com você.
Fechei as mãos em punho.
– Não se preocupe. – Disse, controlando meu tom de voz.
Ele sorriu, constrangido.
– Eu sei que não deveria me preocupar. Mas eu me preocupei. – Ele ficou em silêncio, respirando fundo. – E por que eu não deveria me preocupar?
– Não somos amigos. – Respondi, uma ponta de dúvida na minha afirmação.
– Você não é minha amiga. – Ele corrigiu. – Mas eu a considero minha amiga.
– Não considere. – Falei.
– Melli, não quero discutir com você. Vamos, irei levá-la para casa. – Baltazar se levantou, e me ofereceu sua mão.
– Eu posso ir sozinha, obrigada. – Me levantei, e comecei a andar para fora da lanchonete.
– Não, você não pode. Olha o seu estado. Você está nervosa. Você mora sozinha? – Baltazar estava me seguindo.
– Não. – Respondi. – Ainda moro com minha mãe.
Chamei um táxi, e fui entrar nele, quando senti Baltazar pegar em meu pulso.
– Mellione, isso é sério. Você não pode ir sozinha.
– Por quê? – Perguntei.
– Você estava delirando. Saiu correndo do quarto de Mellione, gritando para que, por favor, calassem a outra.
– Mas ela estava falando! Dizendo que os... Você não ouviu? – Perguntei.
– Mellione, ela não estava falando nada.
•••
Baltazar estacionou o carro dele na porta da minha casa. Minha cabeça ainda estava girando com as informações. Conforme ele, eu estava delirando. Haveria saído do quarto correndo, gritando para que parassem Mellione, mas que ela estava em silêncio o tempo todo.
– Obrigada. – Falei, abrindo a porta do quarto. Baltazar segurou minha mão, me impedindo de sair.
– Qualquer coisa, me ligue. – Ele disse. – Se ver algo de estranho, tiver pesadelos ou qualquer coisa, ligue-me sem nem pensar uma segunda vez.
Assenti, soltando minha mão e saindo do carro.
Caminhei lentamente até a porta de casa, e a abri. Ela se arrastou com um rangido, e minha mãe olhou por entre a parede falsa da cozinha.
– Oi, querida. Como foi seu dia? – Ela perguntou.
– Bom. – Respondi, sorrindo, e fechando a porta. – E o seu?
– O mesmo de sempre, filha. Hoje Hoje os Parks apareceram aqui. Acabaram de sair. Charlotte estava te procurando. – Ela despejou.
– O que eles queriam? – Perguntei, indo à cozinha e pegando uma maçã.
– Falar com você, você não me ouviu? – Ela disse, rindo um pouco.
– Desculpe, não havia prestado atenção. – Falei, sorrindo. – Amanhã vou até a casa deles. Preciso mesmo conversar com eles.
– Charlotte me lembrou muito Mellione. – Minha mãe sussurrou, guardando uma panela.
– Elas não se parecem, mãe.
– Não é isso. É a forma de falar. Ela agiu como se já me conhecesse.
– Ela é uma criança, mãe. E provavelmente os Parks já falaram da senhora para ela.
– Ela falou do seu pai.
Deixei a maçã cair.
– Os Parks não o conheceram. – Ela continuou. – Ela disse o nome dele. E quando perguntei como ela sabia disso, ela disse que haviam dito a ela.
– Nunca toquei no nome dele para ninguém. – Falei, pegando a maçã do chão. – Como ela poderia saber?
Josh Clark, meu pai, havia morrido enquanto minha mãe estava com alguns meses de gravidez. A fábrica onde ele trabalhava explodiu, e não havia sobreviventes.
– Não sei. – Ela respondeu. – Essa garota tem algo de estranho, Melli.
– Não, mãe. Ah, já sei. Saiu no ano passado uma homenagem àqueles que morreram na explosão no jornal. Provavelmente eles viram o sobrenome, e imaginaram que fosse ele. Mãe, por favor. Ela é apenas uma criança.
Minha mãe se virou, ficando de frente para mim.
– Filha, por favor, me escuta. Larga esse caso. Eles têm algo de anormal... É assustador.
Joguei o restante da maçã no lixo.
– Superstições, mãe. Eu já aceitei esse caso. Eu comecei a estudar psiquiatria por ela, mãe. Não vou desistir assim. Já vou me deitar. O dia hoje foi cheio. – Dei um beijo no rosto dela. – Até amanhã. Boa noite.
– Boa noite, Melli... Sonha com os anjos.
Fui até meu quarto. Peguei meu pijama, e uma toalha, e fui tomar um banho.
Enquanto a água quente percorria meu corpo, à minha mente vinham as lembranças de hoje.
Ao fechar os olhos, vi Mellione contando-me tudo o que ela sentia. Tudo o que ela via. E lembrei-me do suposto delírio que eu tive. O reflexo aqui é você.
Abri meus olhos. Observei a névoa formada pela água quente demais. Observei as espirais de fumaça branca se formando, crescendo, se unindo com outras, para então sumirem ao chegarem próximas demais da luz.
Molhei meus cabelos, e observando enquanto alguns fios se prendiam em meus dedos e caíam. Lavei-os, e desliguei o chuveiro. O banheiro estava branco pelo vapor, e minha pele, avermelhada pela água quente. Me enrolei na toalha, e saí do box.
Comecei a me vestir, e ouvi alguém batendo na porta.
– O que houve, mãe? – Perguntei alto.
– Nada, filha. Por quê? – Ouvi-a gritando, provavelmente da cozinha.
– Você bateu na porta, mãe? – Gritei de volta.
– Não, filha. – Ela respondeu. Senti um arrepio na coluna.
Olhei no espelho; o vapor estava denso demais... Tomava forma de alguma coisa...
Un, deux, trois. – Sussurraram.
Me virei rapidamente, não acreditando em meus próprios olhos. Como não vi nada, voltei a me virar para o espelho.
Un, deux, trois. – Ouvi novamente. Comecei a entrar em pânico. Peguei meu pijama, e corri para fora do banheiro. Procurei pelo meu celular, e sem pensar duas vezes, disquei o número de Baltazar.
– Alô? – Ele atendeu, a voz sonolenta.
– Desculpa, Baltazar. Você pode... Vir aqui? – Perguntei baixinho.
– Claro, aconteceu alguma coisa?
– Aconteceu. Vem logo. – Desliguei o telefone e coloquei o pijama.
Fui até a sala esperar por ele. Minha mãe já se preparava para ir dormir.
– Você vai ficar acordada, filha?
Assenti. Ela se dirigiu ao seu quarto, só me desejando um “boa noite”.
•••
Minhas mãos tremiam, sentia meu sangue circular gelado em meu corpo. Meus olhos não paravam de ir de um lado para outro. Qualquer ruído já era motivo de susto. E, quando ouvi as três batidas ritmadas na porta, senti meu coração bater mais forte.
– Melli? Sou eu. – Ouvi. Corri até a porta e a abri.
– Baltazar... – Sem nem mesmo o convidar para entrar, joguei meus braços ao seu redor.
– O que aconteceu? – Ele me perguntou, me abraçando de volta.
– Não sei. – Falei, me separando do abraço dele. – Entra. Lá dentro vai ser melhor de explicar. E está frio aqui fora.
Baltazar entrou, observando a sala.
– Sua mãe...? – Ele perguntou.
– Está dormindo.
Ele se voltou para mim.
– O que aconteceu?
– Sente-se. – Apontei para o sofá. Baltazar se sentou, sem interromper nosso contato visual.
Respirei fundo, fechei a porta e a tranquei. Me sentei na frente dele, organizando meus pensamentos.
– Baltazar, estou assustada. – Consegui falar. – Sofri com um delírio há algum tempo, assim que saía do banho.
– Hoje?
– Alguns segundos antes de te ligar.
Ele suspirou, bagunçando seus cabelos.
– Como foi?
Expliquei tudo o que havia acontecido. Desde o que eu tinha ouvido no hospital, e do delírio da noite.
Baltazar permaneceu em silêncio.
– Melli, isso me soa familiar. – Ele disse. – Você ouviu alguma coisa? Uma frase? Qualquer coisa?
– Algo como un, deux, trois. Isso ajuda?
– Ajuda. – Ele apoiou as mãos em seus joelhos. – Na verdade, ajuda e muito.
– Eu ouvi Mellione falando isso na primeira vez.
– Nas crises dela, ela fala isso. Você sabe o que significa?
– Não.
– Significa um, dois, três.
– Apenas isso? – Perguntei incrédula.
– Algumas psicoses estão em contato direto com a fixação por certos números, Mellione.
– TOC?
Ele assentiu.
– Eu sugiro que você vá procurar por um psiquiatra. Eu posso te indicar um, se você quiser.
– Não. – Falei. – Ir ao psiquiatra enquanto estou na faculdade... Seria implorar para ser afastada do curso.
– Acho que você deveria se afastar do curso, Melli. Como amigo, aceite meu conselho. Ao menos se afaste do caso de Mellione.
– Não. – Respondi. – Não vou aceitar seus conselhos, Baltazar. Desculpe. É importante para mim.
Ele suspirou, contrariado.
– Não posso obrigá-la a largar tudo. Infelizmente. – Ele se levantou. – Está tarde, Melli. A vejo amanhã?
Assenti. Me levantei, o abracei e o acompanhei até a porta.
– Você não vai largar o caso? – Ele perguntou assim que passou pela porta. Balancei a cabeça. – Nem por mim? – Baltazar colocou uma de suas mãos no meu rosto.
– É importante para mim, Baltazar. – Retirei sua mão de meu rosto. – Nos veremos amanhã.
Fechei a porta, e desliguei as luzes. Caminhei até meu quarto, sentindo o ar denso e gelado do começo da madrugada.
Encontrei minha cama no escuro, me enrosquei nos cobertores e coloquei minha cabeça no travesseiro, tentando ignorar os estalos sem motivo aparente que agora envolviam a casa.
•••
Acordei tarde, era domingo. Fiquei na cama por mais tempo que o necessário. Pensei se realmente valeria a pena sair da cama. Na verdade, eu deveria sair. Hoje era dia de visitação no hospital, e eu poderia observar melhor Mellione.
Senti um leve cheiro familiar. Talvez, rosas. Era um perfume forte, mas suave. Me deixava um pouco embriagada. Fechei os olhos, e as imagens do pesadelo que eu havia tido surgiram em minha mente.
Eu caminhava pela casa de Mellione. Ela estava arrumada, o quarto dela estava em ordem, e a garota estava deitada na cama. Ela segurava um pequeno ramalhete de rosas vermelhas, e ao que foi me entregar uma delas, acabou se cortando com os espinhos.
– Desculpe. – Ela disse. – Misturar meu sangue nesta rosa não estava em meus planos. Mas ainda assim, peço que aceite.
Peguei a rosa com cuidado, mas mesmo assim acabei por me ferir. Minha mão sangrava, mas eu não sentia dor. Mellione me observava, e de repente, já não estava mais lá.
O quarto se transformava em um local bagunçado, com um cheiro podre. A única coisa que se mantinha no local era o ramalhete de rosas vermelhas. Mas, agora além das rosas, havia uma grande mancha de sangue.
A porta batia atrás de mim, e assim que eu me virava, via o espelho. Eu não tinha reflexo. Ao invés do meu rosto, eu via Mellione.
– Nós somos a mesma pessoa. – A garota do espelho dizia. Eu tocava em meus cabelos. Havia algo de diferente neles. Olhei para as pontas dele, e percebi que estavam ruivos. Olhava novamente para o espelho, e via ali meu reflexo.
Mas não era o meu reflexo.
Era ela.
Eu era Mellione.
•••
Voltei a abrir meus olhos, tentando apagar da mente as imagens dos sonhos.
O perfume de rosas ainda estava no quarto. Me virei lentamente, e senti algo estranho debaixo do meu travesseiro. Coloquei a mão, e senti como se espetasse algo em meu dedo.
Retirei o travesseiro, e ali estava a rosa vermelha do meu sonho.
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