Safe And Sound
5 "Nós somos a mesma pessoa"
Notas iniciais
Abri a porta lentamente, tentando ver onde estava a garota.
O quarto dela era uma solitária, mas sem as paredes acolchoadas. Tinha uma grande janela de vidro dando para o corredor. O vidro era escuro, portanto, do lado de fora era possível vê-la, mas ela não via quem a observava.
- Doutor? – Ouvi uma voz suave vinda de debaixo da maca.
- Olá, eu sou... – Comecei, mas fui interrompida.
- Eu conheço você. – A ruiva saiu de debaixo da maca, me olhando. Seus cabelos estavam bagunçados, e seu olhar, elétrico. Fiquei sem palavras, vendo no que ela havia se transformado. – Melli. – Ela sorriu. Seus dentes estavam um misto de branco e vermelho.
- Você está sangrando. – Comentei inteligentemente, esquecendo da “postura profissional” que deveria ter.
- Que inteligente da sua parte reparar. – Ela falou sarcasticamente. – Ouvi falar que você está fazendo psiquiatria. Charlotte sempre me fala de você. Como você está bonita. Como você tem uma postura profissional incrível. – Mellione se ergueu e se sentou na maca. – Ela tem a observado, sabe?
- Pude perceber. Charlotte é uma menina incrível.
- Não, ela não é. – Mellione adquiriu uma expressão séria. – Você não a conhece. Eu não sei o que tem aquela garota. Sei que é melhor manter distância dela.
- Ela é sua irmã. – Falei, fechando a porta atrás de mim.
- Por isso mesmo que você deveria manter distância dela.
- Não estou entendo.
- Você a conheceu. Ela vê coisas. Ouve. Não venha me dizer que ela é apenas uma criança. Até uma criança pode ser perigosa. – Mellione estava de pé, o sangue de sua boca escorrendo pela sua camisa de força aberta. – Mas posso dizer que você não veio aqui para falar da Char.
- Não. Eu vim aqui falar de você. – Falei, assumindo minha postura profissional.
- Então, sente-se, doutora. As acomodações não são luxuosas, mas são fortes. – Ela disse sarcasticamente. Andei lentamente até a maca, o olhar dela me acompanhando. Me sentei, e apontei para a maca para que ela fizesse o mesmo.
- A conversa será longa, Mellione. – Falei. – Desde quando que você está aqui mesmo?
- Quatro anos. Sou a única que conseguiu ficar esse tempo todo aqui. Admita, eu sou uma vitoriosa.
Balancei a cabeça, tentando clarear meus pensamentos.
- Sabe por que não há muitas pessoas que ficam além de dois anos em um sanatório? – Ela perguntou.
- Isso não vem ao caso. – Falei.
- Vem sim. Coloque isso na sua ficha. Os remédios vão nos matando aos poucos. Até que, em um belo dia, ninguém mais aguenta, e então vem o suicídio. – Ela falou, enfatizando o “suicídio”. – Esse é o caminho para todos nós. E se você não se suicida, eles tentam te matar aos poucos. É isso o que está acontecendo comigo e...
- Pare! – A cortei. – Não quero saber disso! – Me levantei, indo até o criado-mudo que havia ao lado da maca, e observei as cartelas de remédios que haviam ali. – São os seus remédios? – Perguntei.
- Claro.
Mexi rapidamente na pilha de cartelas de remédios, e consegui identificar o cloridrato de fluoxetina – antidepressivo e calmante –,serdolect sertindol — antipsicótico – e um terceiro que não pude identificar.
- Não são mais aqueles remédios fracos como da última vez. – Ela comentou.
- Não. – Falei, e me voltei para ela. – Será que podemos continuar conversando?
Ela assentiu, e eu voltei a me sentar na maca.
- Mellione, o que aconteceu depois daquele dia? – Perguntei. – Com Peeta.
- Não sei. Nunca mais o vi. Ouvi falar que foi morto. – Ela falou. – Mas eu enlouqueci. Literalmente. Comecei a ficar paranóica. Não saía de casa... Você lembra, não lembra?
Assenti, lembrando de um dia em que ela havia ficado assustada quando um garoto a tocou no ombro. Ela começara a gritar na rua, e atacou o garoto. Foram necessárias duas pessoas para controlá-la.
- Lembro. – Murmurei.
- Sabe como cheguei a esse ponto? – Ela perguntou.
- Primeiro foi a paranóia. Depois, o TOC. E o transtorno bipolar. – Comecei. – E então, fui proibida de falar com você.
- E então eu vim parar aqui. – Ela completou. – Esquizofrenia. Fui trancada aqui nesta sala, como um animal.
- Isso não é verdade. Você tentou ficar em casa por um tempo.
- Mas eu tinha crises. Crises realmente fortes. Então me trancaram aqui.
Um silêncio recaiu sobre nós. Mellione olhava no fundo dos meus olhos. Sangue ainda escorria pelo seu rosto.
- Não se assuste com o sangue. Minha boca está cheia de feridas. – Ela reparou que eu não conseguia desviar o olhar do sangue em sua boca.
- Já volto. – Falei, praticamente correndo para fora do quarto.
- Algum problema? – O médico perguntou quando abri a porta.
- Você tem um pano? – Perguntei. Ele me entregou o pano que continha o sangramento em sua testa mais cedo. – Obrigada. – Falei, voltando para o quarto.
- O que é isso? – Mellione perguntou quando viu o pano.
- Um pano. – Me aproximei dela e comecei a limpar o sangue de seu pescoço e rosto.
Quando terminei de limpar todo o sangue, ela sorriu para mim.
- Por que tantas feridas? – Perguntei.
- Imagine alguém que morde a boca por acidente. Agora imagine isso repetidas vezes o dia inteiro. – Ela respondeu.
- Não preciso imaginar. – Falei secamente e coloquei o pano em cima do criado-mudo.
- Por que você fez isso? – Ela perguntou.
- Seu sangue estava me incomodando. – Respondi sinceramente.
- TOC? – Ela riu.
- Não. Higiene. – Falei um pouco confusa.
- Melli, Melli... Não negue, você sempre teve TOC.
- Cale a boca. – Chiei. – Já estou por um fio de ser expulsa da faculdade! Quer que o médico ouça a nossa conversa e repasse para o meu mentor?!
Mellione sorriu.
- Então você está lá para se tratar? O que mais você esconde, Clark?
- Não estou lá para me tratar. Eu gosto de psiquiatria! – Afirmei, mais para mim mesma do que para ela.
- Ok, e eu finjo que acredito. Mas não vou discutir isso. Sei que você tem seus motivos.
Finji não ouvir o que ela dizia. Peguei minha ficha, e fiz o que deveria ter feito há muito tempo.
- Quando foi a sua última crise? A de que você lembra. – Perguntei.
- Dez minutos antes de você chegar. – Ela respondeu.
- Ok. Obrigada, Mellione. Até a próxima visita. – Falei, começando a sair.
- Ei, Melli. – Ela me chamou. Virei para ela, tremendo um pouco. – Não esqueça de vir. E não se assuste.
- Por que me assustaria? – Perguntei.
- Porque nós somos a mesma pessoa. E esse aqui é o seu destino.
- Como assim?
- Nós somos a mesma pessoa, Mellione. Você também vai parar aqui. Como uma louca. Como uma cadela. Não se preocupe, eu vou desocupar essa sala para você. – Ela piscou, e se deitou na maca. – Pode pedir para o médico apagar a luz, por favor? Quero dormir um pouco.
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