Safe And Sound
6 Medos.
Notas iniciais
- Como foi sua conversa com ela? – O médico perguntou simpaticamente.
- Surpreendente. – Respondi. – Ela pediu para que apagasse a luz.
O médico foi até um painel ao lado da porta e mexeu em algumas pequenas alavancas. A luz do quarto de Mellione se tornou mais fraca.
- Ela a assustou? – O médico perguntou.
- Um pouco. – Respondi.
- Conseguiu o que queria?
- Mais ou menos.
Nos olhamos em silêncio. O médico parecia ser jovem, mas não poderia falar com certeza por causa do ferimento e da baixa luz.
- Se precisar de ajuda, você pode falar comigo. – Ele ofereceu.
- Acho que aceitarei a ajuda. – Respondi.
- Pode aguardar alguns minutos? Daqui a pouco meu turno acaba, e então poderíamos ir a uma lanchonete no centro da cidade. Não é o melhor lugar do mundo para conversar, mas é melhor do que esse.
•••
Após meia hora, saímos do hospital psiquiátrico e pegamos um táxi.
- Desculpe a pergunta, mas qual é seu nome? – Ele perguntou.
- Mellione. – Respondi. – E o seu?
- Baltazar. – Ele estendeu a mão. Não a apertei. – Você tem o mesmo nome de sua paciente... – Baltazar disse, recolhendo sua mão.
- Sim. – Desviei o olhar para a estrada.
- Isso a incomoda?
- Um pouco. – Falei. – Mas o que você fez para ficar com aquela paciente?
- Fui designado. – Ele respondeu, se tornando furtivo. Um sorriso brincou em meus lábios.
- Acho que nossa conversa não será produtiva se sermos furtivos. – Objetivei.
Ele riu, e assentiu.
- Na verdade, eu pedi por ela. – Ele respondeu. – Eu a conhecia antes de se tornar...
- Louca? – Sugeri.
- Doente. – Ele completou.
- Você não pode se envolver com pacientes que sejam conhecidos seus.
- Quem falando. – Ele respondeu. – Sabia que aquela sala tem áudio externo?
Senti meu rosto ficar mais pálido que o natural.
- Você vai... – Não terminei a frase.
- Não vou contar. Na verdade, estamos no mesmo barco sem remos.
•••
- Quando você a conheceu? – Perguntei, dando uma bebericada no meu café.
- Na terceira série. – Ele respondeu. – Ela foi minha única amiga por anos. E você?
- Nossas famílias eram amigas. A conheço desde sempre, que eu saiba. Como nunca ouvi falar de você?
Baltazar deu de ombros.
- Não éramos realmente próximos. Ela era minha amiga, mas éramos amigos meio distantes... Os caras com quem ela se envolvia não gostavam de mim, e isso a foi distanciando. Fiquei por cerca de três anos sem entrar em contato com ela, e quando a reencontrei, ela estava adoecendo. Um mês depois, veio parar no hospital. Fazia visitas frequentes a ela. E então, após subornar alguns médicos e adiantar muitos períodos da faculdade, consegui ser o médico dela.
Não fingi surpresa pela história que ele havia me contado.
- Ainda assim, estou surpresa por nunca ter ouvido falar de você.
Ele assentiu.
- Você era a melhor amiga dela. – Baltazar afirmou. Eu sorri. – Às vezes, durante a noite, ela chama por você.
- Como?
- Ela fala o seu nome. – Ele disse, como se isso resolvesse tudo. – Também chama pela irmã dela. Você conhece Charlotte?
- Sim, é uma garota bastante interessante.
- Tenho que concordar com você. – Baltazar sorriu. – Agora, Mellione, eu não posso deixar de me preocupar.
- Com o que?
- Mellione já enlouqueceu muitas pessoas. Médicos que trabalhavam com ela, e que de médicos passaram a pacientes. Não é confiável deixá-la falar muito.
- Você não a deixa falar?
Ele balançou a cabeça.
- É por isso que ela me joga coisas. – Ele apontou para seu novo arranhão. – Mas, no geral, ela é uma paciente bastante calma.
- Como ela enlouquece quem está interagindo com ela? – Perguntei.
Baltazar, de repente, achou seu café demasiado interessante.
- Baltazar? – Chamei sua atenção.
- Sabe quando... Ah, você sabe de alguns casos que os pacientes... Conhecem seus medos?
- Sim, já ouvi falar de casos assim.
- Mellione é assim. Ela descobre seus medos. E os usa contra você.
- Ela já fez isso com você?
Ele negou.
- Você sabe qual é meu maior medo? – Baltazar disse.
- Não. – Respondi.
- Tem certeza? – Ele reforçou.
- Mal o conheço. Como posso saber do seu medo?
- O meu medo é me apegar às pessoas. – Ele respondeu. – É olhar para dentro delas, e descobrir algo de que não goste. Meu medo é amar, Mellione. E digamos apenas que foi isso que aconteceu, quando aceitei trabalhar como médico dela.
•••
Fui para casa pensando no que Baltazar havia me dito.
Não havia conseguido pensar em mais nada. As palavras dele giravam em minha mente, se repetiam, e sumiam. E então, voltavam. Meu medo é amar, Mellione.
Meu medo é amar.
Ele disse que, para ter Mellione no lugar em que a quero, no lugar de paciente, devo domar os meus medos.
Mas quais são os meus medos?
Meu maior medo era de descobrirem que a conheço... Não era exatamente um medo que eles pudessem usar contra mim.
-
A noite havia sido péssima. Os móveis da minha casa haviam resolvido estalar, fazendo um barulho catastrófico. Os pesadelos resolveram me assombrar, e, ao despertar, eu havia jurado ver um vulto a me observar da janela.
Apenas uma consequência da noite mal-dormida.
Eu esperava, ao menos.
Minha mãe não tinha tido uma noite melhor que a minha.
- Filha – ela disse, no café da manhã –, não vá mais falar com aquela garota. Estou com um péssimo pressentimento. Por favor, me escuta agora.
- Bobagem, mãe. Ela está num hospital. Não representa nenhum perigo.
Eu não havia a convencido.
Saí para a universidade mais cansada do que o normal. Eu tinha poucas informações realmente úteis sobre Mellione, e as que eu tinha, começavam a fazer com que um certo pânico florescesse no meu peito.
Mas eu precisava manter o controle. Ao menos dentro da universidade.
Fiz todas as anotações em uma ata rascunhada, e entreguei a três professores diferentes, que haviam me liberado de suas avaliações para que eu pudesse pegar o caso de Mellione.
Ao chegar à aula do Sr. Muñoz (que era a última do dia), eu já estava me sentindo um pouco mais desperta.
- Srta. Clark, como foi sua visita? – Ele perguntou assim que entrei na sala.
- Aproveitável. – Falei, o entregando uma última cópia da ata rascunhada. – Escrevi o que era de mais importante nesta ata.
Ele passou os olhos pela folha, e me devolveu.
- Posso pedir só uma coisinha? – Ele disse.
Assenti.
- Não olhe tanto pelo lado científico. Procure um pouco o outro lado. O lado alternativo.
- O senhor quer que eu envolva lendas e superstições em meu trabalho? – Perguntei.
- Se é assim que você entende... Mellione, eu sei que você tem condições de fazer isso. – Dito isso, ele acrescentou, um pouco mais baixo. – Eu sei que essa garota é sua amiga.
Senti um arrepio percorrer minha espinha, e soube que estava completamente, com o perdão da expressão, fodida.
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