Safe And Sound
7 Espelhos.
Notas iniciais
– Não entendi. – Fingi um riso. – Ela não é minha amiga. – Isso não era exatamente uma mentira.
– Repare que você disse que ela não é sua amiga. Mas não disse que não a conhecia. Ouça, Srta. Clark, eu não falei disso para ninguém, e nem direi. – Sr. Muñoz me tranquilizou. – Mas isso deve fazer com que você a conheça muito bem.
Assenti.
– O senhor não vai falar, não é? – Perguntei.
Ele balançou a cabeça.
– Só gostaria de acompanhá-la na próxima visita à garota. Pode ser?
Assenti novamente.
– Vou ir hoje, após a aula. – Murmurei. Ele assentiu, e apontou para a carteira à sua frente.
Me sentei, coloquei a ficha de Mellione acima de meus cadernos, e enquanto o professor falava, eu começava a revisar as informações que eu já tinha.
Paciente: Mellione Park
Idade: 22 anos
Doença(s): A paciente se encontra em um avançado estágio de esquizofrenia crônica em conjunto com epilepsia, com curtos estágios de sanidade – especialmente quando alguns psicóticos não estão mais agindo em seu organismo – seguidos por crises intensas, onde a paciente se torna um perigo para a equipe médica e para ela mesma. A paciente também se encontra com um caso de Transtorno de Bipolaridade e sofre de delírios intensos.
Tratamentos utilizados: Remédios controlados (antipsicóticos – ficha em posse dos enfermeiros) e antiepiléticos (ficha em posse dos enfermeiros).
Primeira crise: Conforme os pais, a primeira crise ocorreu três dias antes de a paciente ser internada. Ela acordou durante a madrugada com convulsões intensas e tendo visões de supostos “fantasmas”. Teria agredido seus pais. Uma ambulância fora chamada, e ela fora removida até o hospital mais próximo.
Comecei a destacar pontos importantes na ficha, e escrevê-las em um caderno à parte onde eu pudesse comentar sobre o caso dela sem me importar em manchar os documentos. E embora o assunto que o Sr. Muñoz estava tratando em sua aula fosse importante, eu não conseguia prestar atenção. Na verdade, ainda estava pensando no assunto “medos”.
E quais medos realmente seriam os meus. E o que Mellione poderia fazer ao conhecê-los.
•••
– Este é Baltazar, o médico responsável por Mellione. – Apresentei-o ao meu professor. Sr. Muñoz o cumprimentou, e perguntou a quantas andava o tratamento de Melli.
– Ela está respondendo bem aos novos remédios... Embora suas crises sejam intensas, hoje saí sem nenhum arranhão da primeira. – Baltazar disse, sorrindo.
Me balancei de uma perna para outra, já um pouco desconfortável.
– Algum de vocês se importa se eu entrar no quarto? – Perguntei, apontando para o quarto de Mellione.
– Tem áudio externo? – O Sr. Muñoz perguntou. Baltazar foi até um painel na parede e mexeu em algumas alavancas.
– Tem. Melli, pode entrar na sala. – Baltazar disse, entreabrindo a porta.
Adentrei o quarto. A luz estava apagada. Logo, ela foi acesa, e Mellione levantou sua cabeça.
– Já é hora dos remédios? – Ela perguntou.
– Não. Eu vim aqui falar com você. – Andei até a maca dela e me sentei.
– Conversar sobre o que? – Ela perguntou.
– Sobre você. – Sorri. – Como foi mesmo a sua primeira crise?
Mellione se sentou e me encarou.
– Você não quer saber disso.
– Se eu não quisesse saber, eu não perguntava. – Respondi.
– Eu vi demônios. – Ela disse. – Por todos os lugares. Senti alguém me prender na cama. Foi a pior sensação da minha vida.
– Você sabe que foi apenas uma crise epilética, não sabe? – Comentei.
– Mellione, eu sei a diferença entre crises epiléticas e o que aconteceu naquela noite.
Arqueei uma sobrancelha.
– Você não está querendo falar em possessão, não é? – Sorri.
– Não sei. Mas sei que aquilo não foi crise epilética. Me prenderam na cama; sussurraram coisas em meus ouvidos. Eu via rostos deformados, rostos demoníacos.
– Melli, suas visões são consequências do seu interior. Poderia dizer que estes rostos que você via, são na verdade personificações de seu interior...
– E então, o que você vê como a sua personificação do seu interior? – Ela me cortou.
Parei por um momento, pensando.
– Como assim? – Perguntei.
– Conforme você, eu vejo demônios. E você?
– Não vejo nada. – Respondi.
– Você não é uma boneca, embora se pareça com uma. – Ela sorriu. – Você não é oca. Ou você é? Vamos, Melli, converse comigo. – Ela pegou em minha mão. – Eu ainda sou sua amiga, não sou?
Recolhi minha mão.
– Não, não aqui. – Respondi.
Ela levou suas mãos aos seus cabelos ruivos, e os enrolou por cima de um dos ombros.
– Você nunca reparou – Mellione falou, pegando um pequeno espelho em sua cômoda. – em como quando você olha para o espelho, ele está sempre olhando para você? Eu pareço saudável, não pareço? Mas olha, eu sei que é mentira. Meu reflexo me diz isso. – Ela sorriu. – O seu reflexo não te diz nada, Mellione?
– Meu reflexo é apenas meu reflexo. – Respondi, tirando das mãos dela o pequeno espelho.
– Tem razão, você não precisa se olhar no espelho... O seu reflexo sou eu. Ou melhor, você é o meu reflexo.
– Não somos a mesma pessoa, nem sou o seu reflexo. Tire essa ideia da cabeça. – Falei, alterando um pouco o meu tom de voz.
– Você pode negar, Melli. Mas você sabe da verdade. Olhe para si mesma. Eu sei que você vê os mesmos demônios. Venha, Mellione. Eu posso ouvir eles te chamando. Você não pode? – Ela sussurrou, um arrepio percorrendo por minha espinha. – Eu posso te mostrar como eles agem...
– PARE! – Gritei, e saí do quarto rapidamente. Baltazar e Sr. Munõz me esperavam do lado de fora. – Me tirem daqui, por favor. – Falei nervosamente.
– Não adianta fugir, Melli. Nós vamos te encontrar, queridinha. – Ouvi ela falar pelo áudio.
– Me tirem daqui, ela vai me enlouquecer!
– Você nos conhece...
Me atrevi a olhar para ela pela janela do quarto. Ela estava parada, de pé, no meio do quarto.
Mellione começou a caminhar até a janela, colocando uma de suas mãos no vidro.
– Você prometeu, Mellione. E eu também. Nunca vamos nos abandonar... Un, deux, trois. Lembra? Un, deux, trois.
– Pare... – Sussurrei, colocando as mãos em meus ouvidos. – Alguém a faz parar. – Pedi.
A encarei; ela me observava fixamente.
– Melli, eu estou te esperando. Não fuja dos espelhos, o reflexo aqui é você.
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