Sadists Lovers – Interativa
3 Capítulo Dois – A Notícia, A Surpresa e O Sequestro. Fim das apresentações
Notas iniciais
Alemanha — Berlim
07h01 – Sábado
Olhou para o relógio na parede. Estava à uma hora esperando sua mãe lhe chamar, para que pudesse conversar com ela.
Claro, porque ela não pode se dar o luxo de abrir um tempo na agenda para a própria filha!
Sentia-se como uma intrusa. Tendo de sentar na sala de espera, aguardando sua vez de entrar no escritório como se não pertencesse aquele lugar. Tudo porque o tempo de sua mãe era “precioso” demais para se gastar consigo. Em vez disso, ela tinha que acordar ás seis da manhã porque o horário marcado foi esse, ela tinha de esperar uma hora sentada, e como se não bastasse, ela receberia bronca como se fosse culpa sua o atraso.
Resumindo: sua relação com a mãe não podia ser pior.
A porta de madeira industrial se abriu.
Finalmente!
— Senhorita Elise, vossa Marianne lhe aguarda — disse o mordomo, Joseph era seu nome, um senhor com 75 anos de idade, que apareceu por entre a porta. Mantinha o braço esticado para deixar a porta pronta para ela passar.
Revirou os olhos. Sua mãe exigia que os mordomos falassem com essa voz de servos da idade média, de acordo com a mesma, era para mostrar como sua família tinha classe, ou sei lá o que.
Levantou-se, ajeitando sua roupa e passando pelo mordomo. Sussurrou um obrigado, lembrava-se como sua mãe dizia que devia ser rude com eles para mostrar a superioridade, e aquilo só lhe dava mais vontade de agradecê-lo. O idoso sorriu carinhoso, recolhendo o braço e adentrando a grande sala.
Conhecia Joseph desde que nasceu. Trabalhava na casa a mais tempo do que qualquer um, e era muito fiel aos seus pais, e um bom amigo quando precisava dele. Na verdade, melhor amigo. Acontece que Elise viveu todo sua vida na companhia de Joseph, era ele quem a ajudava quando estava com problemas. Uma pessoa muito boa e gentil.
— O que foi mãe? — foi direta. Não precisava de todas aquelas formalidades.
Atrás de uma grande mesa de mogno, uma mulher com seus trinta e dois anos, cabelos e olhos castanhos, estava sentada com as pernas cruzadas.
A mãe ignorou seu cumprimento mal educado.
— Sente-se Elise, temos muito que conversar — indicou com a mão uma cadeira a sua frente.
— Olha, se vim aqui para discutir sobre a minha roupa de novo — disse sentando-se — , saiba que esse é meu estilo, e eu não vou mudar.
Marianne fez um gesto com as mãos para que o mordomo se retirasse.
— Não, o assunto não é sobre seu... — a mulher lhe olhou dos pés a cabeça, Elise arqueou uma sobrancelha — modo peculiar de se vestir.
Olhou para seu corpo. Sua mãe vivia criticando suas roupas, falando que não era assim que uma filha de estilista devia se vestir. Qual o problema com seu estilo? Uma calça jeans, um college jackets vermelha, uma touca caída, e um vans vermelho. E uns óculos grande, quadrados, e preto para completar o visual. Estava normal! A jovem, com seus cabelos castanhos escuros, com uma franja caída de lado, olhos castanhos claros e uma linda pintinha na bochecha esquerda, decidiu ignorar a mãe, não seria a primeira vez que o fazia.
— Enfim, eu tenho uma grande notícia! — a animação na voz de Marianne parecia palpável... E assustadora. Nada de bom podia vir da alegria de sua mãe.
— Okay... E o que seria? — indagou, tomando o cuidado para não demonstrar muito interesse.
— Você foi matriculada na melhor escola do Japão! — sorriu orgulhosa. Os lábios se erguendo em uma linha fina de contentamento.
Saiu da sala de sua mãe depois de pedir licença “educadamente”.
Não sabia o que pensar sobre essa “grande” notícia. Por um lado, ela poderia terminar seus estudos no Japão, longe das críticas da mãe; por outro, ficaria separada de seu irmão Sebastian, e isso ela não queria.
Quem iria manter as vadias atiradas longe do seu irmão? Além de que a relação entre Sebastian e Marianne não andava muito bem. Não sabia o que poderia acontecer se não estivesse lá. Era muita coisa em jogo.
Passou pelo corredor, ignorando as pinturas assustadoras que pareciam lhe vigiar.
Quando iria pisar na escada para se dirigir ao seu quarto, algo lhe chamou a atenção. Não algo, e sim alguém. Uma menina de cabelos meio alaranjados e olhos castanhos olhava a casa, sentada no sofá da sala. Observava tudo impressionada.
Ergueu a sobrancelha. Puxou um mordomo que estava passando do seu lado, esse era mais jovem que o anterior, com cabelos morenos e olhos azuis escuros.
— Quem é aquela garota? — o homem não soube dizer ao que se referia, até apontar para ela.
— Ah! Aquela deve ser a namorada do Sr. Sebastian — Elise fez um barulho estranho com a boca, o mordomo pediu licença, mas ela não estava ouvindo.
— Namorada, hã? Interessante.
Deu passos para trás, dirigindo-se a sala onde a garota estava sentada.
Jogou-se com tudo no sofá ao lado da garota, ela lhe olhou estranho. Controlou a vontade de dizer “Vadia se você esta incomodada saia daqui!”.
— Oi!
— O-oi! — respondeu timidamente. Todas eram assim, fingiam serem as filhas virgens perfeitas, só para causar boa impressão.
— Tudo bem?
— H-hn, sim. Você deve ser a irmã gêmea do Sebastian, não é?
— É, e você seria?
— Ah, eu sou uma amiga da escola. Já deve ter me visto, estudamos na mesma s...
— Hm... nunca vi não! — cortou-a, a mesma sorriu amarelo.
Na verdade, agora que a via tão de perto, reconhecia aquele rosto. Aquela menina se chamava Bella, cujo significado era “casta”, mas não iria cair nos truques daquela garota! Suas notas eram boas, mas na média. Chegava a ser a número quatro na lista dos ídolos da escola.
Essa lista era uma coisa besta inventada por uns garotos babacas sem nada para fazer, se tratava de uma lista de beleza, para ver quem era a mais bonita da escola. Acontece que a coisa acabou pegando, e se você não estivesse, pelo menos, na décima posição para cima, os meninos não dariam credito nenhum para você. Muitas garotas tinham saído da escola por sofrer Bully, por isso a lista foi proibida, mas ainda rolava boatos sobre meninos dizendo que transaram com “a três ou a dois” e o que mais lhe deixava puta “eu peguei a número um”. Não preciso nem dizer quem é a numero um.
— Er... Você sabe se o Sebastian vai demorar muito? Marcamos de estudar na biblioteca.
— Não sei... Biblioteca, hn...
— Q-que foi?
Seus olhos brilharam perigosos, ela tinha caído na armadilha. Ajeitou-se na cadeira, pronta para vencer aquela "partida".
— Cê sabe, meu irmão tem um gosto “estranho”...
— Como assim “estranho”?
— Ué você... — cortou sua fala, esperando causar certo desespero em sua vítima. E funcionou, então, como se estivesse surpresa questionou: — Não vai me dizer que você é virgem?
— B-bem, sim, mas tem algum problema?
— Sabe, meu irmão tem um problema desde novo, ele é meio... — olhou de relance para Bella, podia sentir um ar tenso vindo de sua vítima —, sádico...
Lá estava, a reação que queria! A menina arregalou os olhos, e encarou profundamente. Podia estar buscando alguma coisa dentro dela, algo que denunciasse a pegadinha.
— V-você esta f-falando sério?
— Seríssimo. Teve uma... qual era o nome? — deu três batidinhas no queixo, fingindo pensar. — Ah! Evelin era o nome! Coitada, saiu toda machucada daqui de casa, ela teria nos denunciado se minha mãe não tivesse intervindo.
— M-machucada?
— Sim, isso varia de menina a menina, as virgens sempre saem mais machucadas, sabe, meu irmão não se controla. Fiquei sabendo pela ex da ex dele que ele usa chicotes para puni-las!
Bella parecia em seu limite de informações, e se levantou com um olhar assustado.
— Desculpe-me, mas eu não posso lidar com isso! — levantou-se do sofá e recolheu sua bolsa, despediu-se silenciosamente, andando depressa até a porta. Sem esperar pela boa vontade de Elise se levantar, saiu.
Sorriu triunfante, dando um tchauzinho.
— FOI UM PRAZER CONHECER, QUERIDA! — Gritou, fazendo questão de dar ênfase no querida.
Esperou ter certeza de que a mesma estivesse longe, então, um acesso de gargalhadas. De todas as garotas, essa tinha tido a reação mais cômica que já vira.
É... Talvez não tivesse que se preocupar por um tempo com as vadias que dariam em cima de seu irmão. Já podia imaginar os boatos correndo pela escola.
Agora, como vou explicar para ele que as pessoas pensam que é um sádico?
Bem, ela daria um jeito.
Japão
07h05min
Estava de manhã. O vento estava fresco, um tempo perfeito para caminhar pelo parque, e sentir o cheirinho de pão que vinha das padarias. E parece que muitas pessoas compartilhavam dos meus pensamentos. Principalmente ela.
Se tratando de atividade saudáveis, Solange era uma expert. Você acha que manter aquele corpinho era fácil? Que seus cabelos castanhos Chanel se tornaram sedosos sozinhos? Ou que seus olhos verdes estavam sem olheiras por mágica? Ou até mesmo que seus lábios vermelhos e carnudos eram assim por natureza? E sua pele levemente rosada se hidratava sozinha? Bem, se você pensou isso, está errada! Claro que desde pequena, a menina demonstrava uma beleza natural, de causar inveja em qualquer modelo internacional por aí. Mas ainda gastava muito tempo em frente ao espelho para tornar o resultado possível, ela ainda era uma humana, afinal.
E agora estava correndo no parque, queimando as gorduras que tinha adquirido ontem. Uma festa que seu tio deu para parentes próximos, ela não resistiu e pronto! Acabou comendo um pedaço de bolo... Tá, tudo bem, uns cinco pedaços! Alguns docinhos (lê-se vinte) e sete copos de guaraná. O que podia fazer? Não conseguiu resistir à tentação de várias guloseimas chamando por seu nome!
Agora encare as consequências Solange!
Então, acordou às seis horas, colocou sua roupa de treino verde, seu tênis branco e veio caminhar no parque. E claro, seus fones de ouvido para relaxar enquanto corre.
Embora a música que tocava, ainda conseguia ouvir os sons externos, como o barulho dos pássaros cantando e conversas alheias de algumas pessoas que passavam próximas a si. A conversa de dois meninos em especial — por volta dos dezessete e dezoito, um moreno de olhos pretos e outro albino de olhos cinzas — lhe chamou a atenção, justamente por ser o alvo dela. Não podia ouvir claramente por culpa dos fones, mas com certeza era sobre si, podia ver de relance os olhares que lhe mandavam. Algo como “olha que bonita!” ou “eu vô lá falar com ela!”. E ele veio.
Não tinha tempo para lidar com babacas, mas porque não?
Parou a caminhada quando percebeu a aproximação do moreno. Ele sorria galante, contudo não era tão bonito assim.
— E aí gata? — perguntou, usando o cumprimento mais tosco que existia dentre os homens do nosso planeta.
Não que eu queira começar uma polemica aqui, mas gata? Sério mesmo homens? Não tem nada melhor nessa cabeça de vocês? E sim eu me refiro a de cima! Se você esta afim da menina e achou ela bonita, a pior coisa que pode dizer é “e aí gata!”. Não que eu tenha algo contra as meninas que acham isso legal, mas em minha opinião totalmente inútil para esse capítulo, isso se iguala a uma cantada de pedreiro. E cai entre nós, não são lá muito boas!
Solange fingiu o melhor sorriso que podia.
— Oi — e adeus!
— Então, tava pensando se não queria sair comigo qualquer di...
How can you see into my eyes... Like open doors... (Evanescence; Bring Me To Life)
E esse era o seu abençoado toque de celular lhe salvando de um possível pervertido.
— Foi mal, tenho que atender! — afastou-se do garoto que lhe olhava com cara de retardado, e atendeu a ligação.
— Alô?! — ouviu a voz de seu tio do outro lado, parecia estar em um lugar fechado, carro talvez.
— Alô... Tio?
— Onde cê tá Solange?
— Tô dando uma volta no parque, por quê?
— Tem como voltar para casa, tem uma surpresa para você!
— Sério? — ouviu um riso do outro lado, estava animada com a novidade! — o que é? — Gritou praticamente, chamando a atenção das pessoas ao redor.
Suas bochechas se tornaram vermelhas por causa da atenção que recebia.
— Vai ter que ir pra descobrir!
— Ah não! Conta!
Ouviu um suspiro do outro lado.
— Vou desligar!
— Que? Não tio! Tio! — silencio do outro lado. — Aff!
Bem, ela que não iria perder aquela oportunidade!
Despediu-se do garoto com um simples “bye!” e deu meia volta, retornando por onde veio.
Demorou alguns bons trinta minutos para chegar à casa, o carro de seu tio estava estacionado em frente, ou seja, ele já tinha chegado!
Depois de ser bem recepcionada por Adam, o mordomo gatinho de olhos verdes como os seus e cabelos loiros, foi procurar seu tio pela enorme casa, achando-o sentado na sala, juntamente de Louis — seu priminho fofo de olhos azuis e cabelos castanhos, igual ao pai — e Ann, a esposa do seu tio. Acalme-se, a história dessa mulher viria no tempo certo. Mas para saciar a vontade: Ann era uma típica japonesa, de olhos e cabelos pretos, e uma mulher inegavelmente muito bonita, embora a carranca não deixasse que a beleza transparecesse.
— Oi gente! — cumprimentou-os alegremente, recebendo um sorriso de seu tio e de Louis, Ann limitou-se a fechar a cara.
— Oi Ange! — gritou Louis, abrindo os braços para receber um carinho da prima. Solange pensou que devia estar mimando ele demais.
— Oi garotão! — Abraçou-o, seu primo agia como se não tivessem se visto por hoje de manhã. É, ele acordava bem cedo para uma criança tão pequena, mas aquele garotinho podia ser bem enérgico quando queria. Demorava pras pilhas dele se gastarem.
— Então, quais as novidades? — soltando-se de seu primo, mal aguentou de ansiedade quando finalmente perguntou.
— Bem, eu e sua tia pensamos muito nessa decisão. Você está indo para o terceiro ano, um ano muito importante para a vida de um adolescente. Então... Bem, não vou falar mais nada, leia isso — e jogou um pedaço de papel sobre a mesa, com um sorriso largo na face, os olhos azuis pareciam emocionados.
Ange mal se aguentando no lugar agarrou o papel no minuto em que ele tocou a mesa. Começou a ler devagar, mas cada linha que era lida, a velocidade com que “devorava” o papel aumentava.
E gritou!
Nem um pouco dramática, em minha opinião. Entretanto, a emoção era óbvia, e a alegria não tinha fim, ela simplesmente não acreditava nos seus olhos.
— Eu não acredito! — declarou, por fim.
— Eu também não... — ouviu um sussurrar de Ann, ignorou. Se Pietro, seu tio, escutou ou não, preferiu ignorar também.
Abraçou seu tio “meio” que lagrimejando de felicidade.
— Obrigada tio! É a melhor surpresa de todas!
— Do que está falando? É o mínimo que posso fazer pela minha sobrinha! — riu, afagando seus cabelos ao se separarem.
Virou-se para a sua tia, mesmo que tivesse a certeza de que ela tinha sido contrária aquela decisão, abraçou-a.
— Não pense que eu apoiei isso! — Ann sussurrou no seu ouvido, claramente incomodada com o contato físico.
— Eu nem cheguei a pensar nessa possibilidade! — esclareceu em um falso tom amigável. Duas poderiam jogar aquele jogo.
Quando quebraram aquele contato, voltou-se para Pietro novamente.
— Quando eu vou para a escola?
— Hoje mesmo, eu não posso porque estou muito ocupado com o trabalho, mas nosso chofer lhe levará até lá.
— Ótimo, vou começar a fazer as malas imediatamente.
Saiu da sala saltitando, arco-íris poderiam se ver em cima da menina enquanto dirigia-se a escada da casa. Alguns empregados olhavam curiosos, e ao mesmo tempo contagiados pela felicidade da menina, enquanto ela subia os degraus.
Mal podia esperar para ver a escola!
Solange sentia no fundo do seu coração, que “algo”, não sabia dizer o que, mas alguma coisa iria acontecer naquele colégio que mudaria sua vida.
Inocente, mal sabia que sim, sua vida mudaria, mas não era para melhor.
Não... Com certeza não era... Ou talvez sim...
Quem sabe?
Ainda Japão
09h21min
Acordou se sentindo tonta, muito tonta.
Não sabia aonde estava. Não sabia que horas eram. Que dia era. Se já estava de noite ou era dia. A única coisa que sabia naquele momento era que: o lugar estava escuro, e fedia a bicho morto e água de esgoto.
Oh, estava assustada sim! O medo era evidente em seu movimento vã de tentar livrar-se das cordas que lhe prendiam. Também tinha a dor, as cordas machucavam seus pulsos, a mordaça, e venda (a culpada pelo breu do cômodo) ardiam-lhe as partes que tampavam, e a falta de visão lhe causava pânico. Sem um dos sentidos mais precioso dos seres humanos, a única opção era chorar, rezando para deus que alguém desse sua falta.
Quem? Seu pai?
No seu íntimo, uma voz debochada ria de sua cara, mostrando-lhe nada mais que a verdade. Sim, não tinha ninguém para dar de sua falta, alguém que se importasse com ela para vir lhe buscar desse pesadelo. Aconteceria como da última vez, e apenas seria capaz de chorar em um canto, pensando em como seria se tivesse feito “aquilo” de um modo diferente, pegado outro caminho talvez. Isso se conseguisse sair viva!
Esse pensamento assustou Izabela. Um momento muito inoportuno para pensar em sua própria morte.
Devido a experiências passadas, Izabela aprendeu a reconhecer o mal nas pessoas. Sendo dona de uma beleza estonteante, com seus lindos cabelos castanhos um pouco abaixo dos seios, e olhos castanhos, com uma pele alva macia, chamava a atenção de muitos homens com intenções nada puras.
Queria chorar, gritar, e bater em tudo que estava na sua frente — se conseguisse enxergar o que tinha na frente —, ainda sim, seria algo inútil gastar suas forças. Ela só chamaria a atenção do sequestrador para si, ou sequestradores, não sabia exatamente.
Inspirou profundamente o ar pútrido a sua volta, sentindo uma dor na caixa torácica ao se mexer, e o nariz torcer de nojo com o cheiro. Choramingou. A ardência nas costas finalmente aparecendo depois de ter acordado. Em meio ao turbilhão de coisas que aconteceram em seu sequestro, devia ter batido as costas em algum lugar, com os puxões nada delicados dos homens — sim, ela tinha a absoluta certeza de que os sequestradores eram do sexo masculino — que a levaram para aquele cômodo.
Tentou se manter calma na atual situação, algo essencial para uma vítima era a paciência. Mesmo assim, a dor não parecia querer cooperar, e começava a pensar que não era apenas uma contusão, e sim que alguma costela havia quebrado no processo. Manteve-se quieta, se movesse ou gira-se o corpo, a dor iria piorar. Sua mente gritou algo que preferia ignorar, mas concordou silenciosamente que sim, a dor nas costas era melhor do que aquela dor.
Quebrando toda a sua linha de pensamento, ouviu um barulho de porta rangendo vindo de algum canto do quarto, não soube dizer qual.
— Quem esta aí? — percebeu apenas agora como estava com sede. Sua voz saiu tão baixo que duvidou que o indivíduo tivesse escutado. Bem, se escutou não dava à mínima.
— Seus idiotas! — gritou alertando Izabela. Sentiu vontade de chorar, porém não o fez. Tinha pulado com o susto do grito e isso lhe rendeu uma boa dor. — Imagine o que ele vai dizer se entregarmos a encomenda toda machucada? Torçam para que não nos mate!
Encomenda? Quem é ele?
Pensou em um momento de lucidez.
Então aqueles homens — que descobriu serem mais de um, devido ao grito do que estava ali — eram capachos? O verdadeiro criminoso por trás daquilo não estava ali? Por um momento se permitiu relaxar, se eles estavam apenas entregando-a, quer dizer que não iriam lhe tocar. Percebeu isso com o que o sequestrador disse, e como ficou por terem machucado ela. De certa forma era uma notícia boa.
Apurou seus ouvidos o máximo que pode, tentando ouvir outro homem falar de fora do quarto onde eles estavam mantendo-a em cativeiro.
— Mas nós demos a droga que o senhor pediu! — reclamou.
— Não foi uma dosagem suficiente, e isso não vai esconder as manchas de batida seu incompetente — rosnou ao que parecia o “chefe” daqueles homens.
Então é por isso que estou me sentindo tonta!
— Tanto faz! — ele suspirou. — Vamos levá-la logo, se demorarmos mais, não quero nem imaginar... — finalizou deixando a frase cortada, mostrando o quanto temia o ele que havia se referido anteriormente.
Sentiu seus braços serem puxados forçando a mesma a ficar em pé. Dessa vez não pode evitar a dor que a tomou, e começou a chorar, em parte pela dor; outra por temer pela sua vida.
— Anda vadia, não tenho o dia inteiro! — resmungou, empurrando-a para andar.
Depois de atravessar alguns lugares, sentiu-se sendo empurrada para dentro de um espaço, dessa vez menor do que o que estivera antes.
Os homens trocaram algumas palavras que não ouviu, e depois, um barulho de algo de metal descendo e escondendo a pouca iluminação que conseguia ver por entre a venda.
Estava com medo. Muito medo. Desejava estar na sua cama quentinha no orfanato, enfiada debaixo dos cobertores, enquanto escutava uma música. E que aquilo não fosse nada mais do que um pesadelo. Onde acordaria assustada e suada, entretanto, viva. Queria bater o pé e fazer birra, suas unhas arranhando a pele em desespero. Queria gritar e chorar até perder a voz, ou simplesmente morrer. Ter um ataque cardíaco sem nexo algum, e definhar em qualquer que seja aquele lugar.
Pelo menos seria uma morte meio indolor...
Sim, a morte parecia a melhor escolha para ela. Poderia morrer desde que aquilo não voltasse a acontecer. Mais uma experiência dessas na sua vida, e seu coração se quebraria em pedaços, não aguentaria.
Voltou a ser interrompida quando o carro onde estava — descobriu agora ser um automóvel — disparou serelepe, fazendo um barulho insuportável de pneu raspando contra o chão.
Seu corpo foi jogado contra a parede de aço do veículo, como se fosse feita de pano, uma simples boneca. E sua dor voltou mais forte como nunca, aumentando o choro da boneca. Onde estava aquele papo de “se entregarmos ela machucada ele nos mata!”? Bem, o motorista parecia ter se esquecido disso, ou o fazia de propósito.
Com a dor dilacerante em suas costas, o corpo foi amolecendo. Sentia-se dormente, como se tivessem duplicado magicamente o efeito da tal droga que mencionaram.
Não podia dormir! Tinha que se manter acordada!
“Não desmaie agora vadia! O que foi, perdeu a força?”
Uma última memória lhe invadiu a mente, levando consigo a última lágrima da menina.
E junto disso, veio o sono.
E o desmaio.
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