Sadists Lovers – Interativa
2 Capítulo Um – A Adoção, O E-mail e A Carta.
Notas iniciais
Em Algum Lugar do Japão
23h00min Sexta-Feira
Lua Cheia
Chovia intensamente. As gotas que caiam como um véu sobre a terra lavavam todas as impurezas das ruas. O choque da água contra o chão formava uma doce melodia que ressoava em seus ouvidos hipersensíveis, como uma canção de ninar tentadora. O céu, de um azul escuro preenchido por brilhantes estrelas como diamantes, parecia especialmente mais bonito nessa sexta-feira, embora chovesse.
Em frente a uma construção aparentando abandono, um misterioso homem encarava o prédio a sua frente. De todas as construções ao redor, aquele lugar sem dúvida parecia o mais pútrido e mal cuidado. Tinha dois andares, e sua estrutura parecia de segunda mão. As paredes soltavam tinta e descascavam, faltando de vez em quando pedaços de tijolos. Janelas contendo buracos do tamanho de pedras, com madeira carcomida as envolvendo. Como um lugar daqueles poderia se autoproclamar um orfanato? O homem suspirou com pesar, pena talvez? Não. Saber que aquilo era uma realidade em que viviam milhares de crianças em todo o mundo não o afetava, contudo, um pensamento não pode deixar de atingi-lo:
“Tão típico dos humanos...”.
Observou as gotas caírem por algum tempo. Um guarda chuva da cor preta escondia sua aparência e protegia-o da chuva. Ele levantou a cabeça para o céu, ainda com a proteção sobre seu corpo. Sorriu para a lua, sua companheira de séculos, a guardiã da noite, a mãe dos segredos escondidos sobre a escuridão. Em sua boca, caninos afiados brilhavam como duas navalhas.
— Ah! Que noite maravilhosa! — inspirou o ar a sua volta, sentindo o vento frio entrar queimando por suas narinas.
Não que alguém como ele precisasse de ar. Seu pulmão era tão inútil quanto a maioria de seus órgãos. Um amigo próximo lhe disse uma vez que ele estava a se parecer com os humanos. Talvez fosse verdade...
Seus olhos se focaram novamente no prédio em frente. Os pés apressando um passo...
(...)
Acompanhou as gotas descerem por sua janela, os olhos azuis atentos aos movimentos. Em sua mente, uma corrida de pingos se formava, mesmo sabendo que não importando o resultado, os dois iriam chegar ao ponto final. Resumindo, seu dia-a-dia, principalmente perto da chegada do inverno, era baseado em ficar olhando para uma estupida corrida na janela.
Aquele era, sem dúvida, um dos piores castigos. Queria sentir a adrenalina, o pulsar do seu coração batendo forte contra o ouvido, sua respiração ofegante. Depois que chegou nesse orfanato, sua vida se tornara pacata e repetitiva. O mesmo quarto, as mesmas pessoas, o mesmo cotidiano. A não ser por raras vezes, quando aquele velho portão de ferro rangia, significando a entrada de um novo coitado. Uma vida sem perigos era tão... Irritante. Porque os anos não podiam passar mais rápidos? Assim, completaria dezoito e se veria longe daquele lugar.
“Só mais dois anos...” Pensou.
Bocejou, botando a mão automaticamente rente a boca. Os olhos em uma briga para se manter acordados fechavam e abriam. Porque raios todo vez que a pessoa estava com sono, suas pálpebras pareciam pesar toneladas?
Desencostou-se do batente da janela, sentindo as costas estalarem por culpa do tempo na mesma posição. Apoiou os pés na parede e jogou seus braços ao lado do corpo. A cadeira onde estava sentada inclinou-se para trás, balançando com a força exercida para manter o corpo em cima e não ir ao chão. Colocou seu pescoço sobre o assento. E como em um balanço, começou a empurrar de leve os pés. Fechou os olhos. A brisa leve que o movimento de vai e vem causava lhe levando para os lugares mais profundos de sua mente.
“Miyuki, você precisa recolher e esticar as pernas, assim viu? —um riso suave se espalhou por sua mente.— Vamos, a mamãe vai te mostrar!”
A menina sorriu amargamente para o nada. Uma dor lacerante preenchendo seu coração.
“Miyu-chan, você sabe balançar?”
Novamente, uma pontada amarga atingiu seu peito.
— Sim, Aya-chan, minha mãe me ensinou... — uma lágrima ameaçou escorrer por sua face.
As palavras saíram sem sua permissão, e agora flutuavam no ar gélido do quarto. Só que dessa vez não haveria resposta. E o silêncio profundo fazia questão de lhe mostrar isso.
Interrompendo seus pensamentos, a porta foi aberta de maneira violenta.
— Menina! Arrume suas coisas, algum idiota decidiu te adotar! — gritou Moriko, a atual dona do lugar e como a apelidou carinhosamente, Fiona.
O porquê desse apelido? Bem, talvez o fato de ela não possuir nenhum atrativo (ou seja, ela é feia) e parecer um cão chupando manga, e possuir uma verruga gigante no nariz, cujo ela jurava que alguma hora iria criar vida, esteja relacionado. E não foi preciso queimar seus neurônios para criar esse apelido, no momento em que a viu pode perceber a semelhança com a princesa verde da Disney.
Tratava-se de uma mulher esguiamente esquisita, com seus 43 anos, olhos castanhos que transpareciam cansaço e cabelos negros presos em um coque mal feito, e cheio de creme, no intuito de não deixar obvio há quanto tempo aquele cabelo não via um pente. Seus dentes eram amarelos, e jurava que poderia sentir o bafo a quilômetros quando a mesma sorria — se é que sorria — ou falava. E é claro, a famosa verruga no nariz oleoso. Já conseguiu imaginar?
As crianças do orfanato acabaram pegando o apelido, e quando ela não estava presente, ou sim, para os mais corajosos, eles faziam brincadeiras e riam da cara da mulher. Ninguém gostava de Fiona naquele lugar. Ela era má, sim, o pior tipo de pessoa que se podia encontrar, e isso não é exagero. O máximo que fazia era alimentá-las — na maioria das vezes era algo como pé de defunto misturado com alguma gororoba verde —, o que já era mais para o lado da obrigação. Se quisessem coisas de higiene pessoal teriam de se virar. Em resumo, Moriko não fazia um grande esforço para ser amada, e funcionava do mesmo jeito quanto ao ódio. Podíamos dizer que ela alimentava-os e dava abrigo, isso bastava de relação entre as crianças e sua pessoa.
A mulher procurou Miyuki por todos os cantos do quarto.
Não era um cômodo muito grande. Vendo-se da porta, você tinha uma janela, a esquerda um armário pequeno, e a direita uma cama com um colchão desconfortável, e um lençol jogado por cima para (tentar) disfarçar o cheiro ruim que vinha da cama. Tudo feito de madeira. E bem no centro, deitada no chão, uma azulada incrédula encarava a mulher no meio da porta.
— O que você esta fazendo? — perguntou confusa. Suas sobrancelhas negras se erguendo ao ver a garota estirada no chão sobre uma cadeira, os braços abertos e cabelos azuis espalhados. O cachecol que usava tampando parcialmente seu rosto ao cair.
Mas a menina já não ouvia mais nada do exterior, seus orbes se alargando anormalmente.
E, talvez esses olhos estejam pregando uma peça em mim, caro leitor(a), mas eu podia jurar que uma chama de esperança se acendia naqueles olhos azuis.
— Eu fui adotada?
Tóquio
23h00min – Sexta-Feira
Estava de noite no Japão, em Tóquio todos já dormiam profundamente. O vento carregava as folhas para os quintais das casas, e latido de cães era algo comum, mas insuficiente para acordar aquela cidade. Todas as casas estavam apagadas, e as ruas escuras, por exceção de uma em especial. Da janela do segundo andar vinha uma luz, e de dentro podiam-se ouvir duas vozes.
— Por favor, Onee-san! Eu quero brincar mais!
Pegou o brinquedo do chão — um carrinho de corrida vermelho—, colocando-o na estante perto de algumas pelúcias.
— Não, e não! Já são—, mirou o relógio na parede —, onze horas! Hora de criança estar na cama!
— Eu não quero dormir! Conta uma história!
Parou de juntar os brinquedos, olhando seu irmão mais novo sobre a cama. Era moreno, um pouco baixo e de olhos castanho escuro. E por mais que ele tivesse doze, seus olhos exoticamente brancos viam apenas um garotinho de cinco.
Ela estava cansada. Tinha passado o dia inteiro brincando com Jake (seu irmão), e cuidando da casa. Embaixo dos olhos, enormes bolsas roxas de insônia se faziam presente, denunciando o quanto estava cansada. E ele sabia disso, entretanto, a necessidade de um carinho materno gritava mais alto. O que não faria por seu irmãozinho?
— Tudo bem — suspirou em desistência. — Só uma e boa noite! Entendeu?
— Sim, sim!
Sentou-se sobre a beirada da cama, sua mão acariciando os cabelos morenos dele.
— Sobre que é a história?
— Hm, deixa eu ver... — rodeou o quarto com os olhos, procurando alguma referência.
O espaço era retangular. Da porta via-se a cama, no lado esquerdo, e os brinquedos e armários ficavam para a direita. O quarto era colorido e com alguns pôsteres de desenhos animados. Bem infantil para alguém de doze.
Viu um livro antigo sobre monstros na prateleira perto da cama — Jake o recebeu de aniversário de um coleguinha quando completou nove —, na capa, o desenho de um vampiro estava estampado.
— Que tal uma historinha sobre vampiros? — animou-se.
Conhecia Jake com a palma de sua mão. Se começasse a contar, ficaria noite a fio sem parar. Ele pediria por mais, com aquela carinha de cachorro perdido, e não saberia dizer não. Mas se tinha algo que o faria dormir, era sem dúvida, um conto de terror.
— S-sim! — sua voz soava desencorajada, no entanto, seu rosto lutava para manter-se seguro de si.
Segurou o riso, tão obvio que ele estava com medo!
Okay, ela estava sendo má, entretanto, estaríamos sendo hipócritas ao dizer que nunca fizemos algo parecido. Não tinha intenção de assusta-lo, só amedrontar um pouco, para que Jake fosse dormir.
— Era uma vez...
Levantou-se da cama em silêncio, temendo acordar o garotinho que agora dormia tranquilo, em algum mundo dos sonhos por aí.
Cobriu-o corretamente, não queria que pegasse um resfriado. Depositou um selinho em sua testa, como ela costumava fazer consigo.
“Uma das poucas lembranças que tenho...”.
— Onee-san — chamou-a Jake com a voz fraca de sono, quando estava prestes a se retirar do quarto, a mão na maçaneta. — Você promete nunca me abandonar, nem eu e papai?
E aquela pergunta foi o suficiente para esmigalhar seu coração.
“Não prometa, não prometa!”
Gritava a voz de sua cabeça, porém seu coração contestava.
Virou-se, dando o sorriso mais nojento que tivera de dar, os olhos fechados para esconder a verdade.
— Eu prometo — e ela se odiou.
Odiou como sua voz saiu falsa; odiou sua mente por gritar tais coisas; odiou-se por não poder prometer aquilo. Contudo, odiou ainda mais como ela saiu do quarto, dando as costas ao seu irmão depois de ter prometido algo impossível.
— Oyasumi, Jake...
— Oyasumi, Sawa-onee-san.
(...)
Fechou a porta atrás de si.
Escorregou até sentar contra a entrada do seu quarto. Puxou seus cabelos, de cor branca misturada com cinza, com tanta força que poderiam começar a sangrar. Apertou a calça do pijama (da direita), em uma tentativa frustrada de liberar sua agonia.
Como pudera?! Prometer aquilo sabendo que não iria cumprir. Sentia-se uma traíra, egoísta, ingrata. Como seu irmão e seu pai, aquelas pessoas que sempre lhe amaram e deram carinho, reagiriam ao saber? Provavelmente a odiariam por toda a eternidade!
Sua cabeça latejava de dor como se alguém estivesse a bater um martelo dentro dela. E ficava pior toda vez que pensava no E-mail.
“O E-mail!”
Levantou a cabeça para a escrivaninha posicionada logo a sua frente, especificamente falando, o computador.
Ficou em pé depressa, apoiando-se nas paredes por causa da dor latente nas têmporas. Andou rapidamente até seu computador, empurrando a cadeira e se sentando novamente. Seus dedos longos e ágeis — nem passava tanto tempo no computador, todavia o desespero é capaz de despertar “coisas” nas pessoas — se mexiam contra o teclado, os olhos atentos a tudo que parecesse com a mensagem que recebera essa manhã.
“Onde está?”
Perguntou-se mentalmente. Procurou na caixa de entrada; no Spam.
Sua mente gritava que devia estar em algum lugar; seu coração respondia suavemente que era melhor assim.
Soltou um muxoxo. Apoiando-se sobre o teclado, pouco importando se estava pressionando a teclas, e se iriam quebrar com a força da pressão. Balançou seus pés para frente e pra trás, algum movimento de relaxamento, talvez? Acabou atingindo algo com o pé esquerdo.
— Ah! O lixo!
Juntou os papeis e tacou-os novamente na lixeira, levantando-a.
Ficou encarando, e encarando, encarando... Tinha alguma coisa errada — ou certa? — ali.
Espera...
Lixo. É isso! Em um acesso de estupidez — culpe o coração! — tinha jogado para a lixeira eletrônica, por não saber o que fazer com aquele “texto”. Devia estar lá! Tinha de estar!
Moveu o mouse para a lixeira, clicando.
Escola: Meus sinceros parabéns!
Suspirou de alívio, e ao mesmo tempo de repulsa de si mesma. Estava em um impasse. Por um lado, realizaria seu maior desejo; em outro, magoaria sua família, e quebraria a promessa do seu irmão.
Apertou o botão esquerdo.
“Eu sou a pior pessoa do mundo!”
Clicando na mensagem, o coração pulsando violentamente contra o peito.
Meus Parabéns!
Há mais de anos nossa escola foi fundada para oferecer um caminho aos jovens, um futuro brilhante pelo qual lutar. Um lugar onde artista, famosos, músicos, pessoas podem batalhar por seus ideais, e quem sabe, você poderá ser o próximo a mudar o mundo com invenções, musicas, comidas?
Por isso, ficamos honrados de receber uma aluna tão dedicada em nossa escola. Confesso nunca ter visto nota tão boa em minha vida, e realmente espero que tome essa decisão com carinho e responsabilidade.
Esperamos que goste de nossa humilde escola, e aceite fazer parte de nossa sociedade!
(Por favor, responda por E-mail se tiver interesse!).
Remetente: Escola
Podia ouvir sua própria respiração ofegante, batendo na tela e voltando para seu rosto. Os dedos paralisados nas teclas.
Então começou a escrever, tão rápido que parecia socar as pobres letras.
“Você promete nunca me abandonar, nem eu e papai?”
A voz ecoava em sua mente, parecia o fazer de propósito. Seu corpo se opondo ao que estava prestes a cometer.
“Eu prometo”
Parou de escrever.
Levou a mão ao botão do Enter.
Sua respiração desregulada, o coração palpitando forte.
Enviar.
23h00min – Sexta-Feira
Andava por entre as ruas frias da cidade. Seus pés dentro da bota pareciam congelados por culpa do tempo frio, que misturado com a chuva tornava-se insuportável. Mesmo que tivesse usando uma roupa apropriada para o inverno — um sobretudo preto que batia em seus joelhos, jogado por cima de uma blusa canelada rosa. Na parte inferior, uma bota preta até os joelhos adornava seus pés, e uma calça social de lã preta. Assim como um cachecol de lã marrom.
Não era uma amante de frio, o jeito como sua pele ficava gelada e seus pelos se arrepiavam não lhe agradava. A única razão de estar fora da sua cama quentinha, e macia, fora por pedido de suas tias: que por algum motivo ilógico decidiram que queriam comer pão. E como não tinha desse recurso em casa ela foi comprar. Agora esta a pergunta que possivelmente assola suas cabecinhas nesse exato momento, onde caralhos ela vai achar uma padaria aberta — devo lembrar que são onze horas da noite? — há essa hora? Bem, eu não sei. Apesar disso, sua personalidade a impedia de negar qualquer coisa para qualquer pessoa. Ela daria um jeito de conseguir. E por um milagre, descobriu uma padaria não muito longe de sua casa que estava fazendo hora extra. O rapaz foi muito simpático com sua pessoa, e disse que iria escolher os melhores pães para ela. Com certeza voltaria na padaria mais vezes!
Agora estava ali, no meio de uma rua escura, e assustadora, sem saber exatamente onde se encontrava. Como qualquer adolescente comum, temia que algum homem esquisito aparecesse e quisesse, bem, aproveitar-se da sua pureza, ou assaltá-la — e só para deixar claro ela preferia, caso chegasse a acontecer, a segunda opção. Baste era uma menina de cabelos loiros escuros, olhos rosa, seios fartos e corpo com belas curvas, não teria homem que a olhasse e não se encantasse com sua beleza, e sua gentileza, o que a tornava alvo de muitos admiradores secretos na escola. Bem, agora sabemos o porquê da gentileza súbita do rapaz da padaria, certo?
Colocando o guarda-chuva rosa que levava na mão apoiado em seu ombro — curvando um pouco o pescoço para fazer pressão para que não caísse —, soprou uma baforada de ar em suas mãos, esfregando uma na outra. Ainda sim ela não sabia o porquê da ação. Via pessoas fazerem isso em filmes, então devia significar que estavam se esquentando ou algo assim? Se estiverem, os diretores deviam parar de colocar isso em filmes, porque realmente não funcionava!
Ajeitou o guarda-chuva, e prosseguiu com o tour para achar sua casa, temendo que demorasse demais e acabasse encontrando pessoas “indesejáveis” pelo caminho. Demorou no máximo um quarteirão para que começasse a reconhecer as construções, estava chegando à rua de sua casa.
Quanto mais perto estava do seu lar, mais forte um pressentimento ruim invadia seu coração.
Porque ela sentia que algo estava errado?
Parou de andar e enfiou a mão no seu bolso, procurando pela chave. A sacola de pão balançando em sua mão. Tirou a chave e ajeitou-a no buraco.
— Vamos, não faça isso comigo portão! — praguejou.
A chave caiu na calçada molhada, fazendo um tilintar chato ao chocar-se contra o chão.
Agachou-se para pega-la. Dessa vez colocou com mais firmeza, torcendo um pouco para abrir. Ouviu um tic vindo do portão.
“Finalmente!”
Virou-se e fechou. Podia finalmente aquietar-se, estava a alguns passos de sua casa. Nada daria errado...
Observou a casa a sua frente. Possuía dois andares. Era uma casinha simples, pintada da cor creme com branco, e alguns lugares madeira.
Sua mão voou na maçaneta em um tipo de movimento desesperado, foi automático o sentimento de medo quando girou a maçaneta e descobriu que estava aberta a porta. Em sua cabeça tentava se convencer que devia ter sido Helena, sua tia de 45 anos — era uma mulher muito doce, com olhos verdes e cabelos morenos —, que deixara a porta aberta. Não seria a primeira vez que aquilo acontecia.
— Tias, eu cheguei! Desculpa a demora, sabe, é difícil achar padaria aberta há essa hora! — gritou, fechando a porta, e colocando a chave na mesinha do lado da porta em seguida.
Não recebeu nenhuma resposta, deviam estar dormindo.
Retirou seu casaco, jogando-o sobre o cabideiro do lado esquerdo da porta.
Encaminhou-se para a cozinha. Não era muito grande, assim como o resto da casa, mas o suficiente para três pessoas.
Colocou o pão em cima da mesa, checando a temperatura para ver se tinha se esfriado. Continuava quente.
— Acho que vou comer um — disse. Andar todo aquele caminho, ainda no frio, tinha lhe aberto o apetite.
Abriu a sacola e sorveu o cheiro delicioso que o pão tinha. Deveria ligar para a padaria mais tarde, eles faziam um pão de dar água na boca só de sentir, aquele trabalho devia ser elogiado. Pegou a manteiga na geladeira, e um queijo, e uma faca na gaveta do armário e abriu o pão. Terminou-o rapidamente, seu estômago rocando por alimento.
Deu uma mordida no sanduíche, sentindo o gostinho harmonioso que tinha a manteiga junto do queijo.
Dirigiu-se a sala, iria assistir alguma coisa antes de dormir. A maioria dos programas bons passava de noite, de qualquer maneira. Sentou-se no sofá e ligou a TV, um filme qualquer passava na tela.
(...)
O filme tinha acabado. Acabou descobrindo que era um filme que se passava na idade média, sobre vampiros que andavam matando, e estuprando, jovens dos vilarejos mais pobres, o rei descobriu e mandou seus guerreiros mais fortes para matá-los. Acabou que um menino de um vilarejo, que teve sua amada estuprada e assassinada na sua frente, se tornou um caçador em busca de vingança, e acabou com o rei dos vampiros. Admitia ter chorado na parte em que Daniel gritou por Katherine, a jovem que foi assassinada. Ainda podiam-se ver vestígios de lágrimas em seus olhos rosa.
Contudo, não era apenas isso que a preocupava. Mesmo com o barulho da Tv, suas tias não deram as caras, a única explicação plausível seria que elas estivessem cansadas demais para vir reclamar.
Desligou a TV. Estava tarde, deveriam ser umas duas horas da manhã. Úrsula lhe mataria se soubesse que foi dormir tão tarde assim. Diferente da mais nova, Úrsula — uma mulher de 59 anos com seus olhos igualmente verdes e cabelos ruivos —, era mais exigente com horários, todavia sabia ser gentil quando queria e quando mereciam sua gentileza.
Ao passar do lado da mesa — onde deixara a sacola horas atrás —, viu uma carta sobre ela.
Curiosa, colocou seu prato com farelos de pão ao lado, pegando a carta.
Querida Sobrinha!
Eu e sua tia Helena fizemos uma viagem de negócios urgentes para a Itália. Sentimos muito por ter ido sem avisar, mas uma despedida partiria meu coração, e isso não é um adeus. É um até logo. Não pense que está sendo fácil para nós te deixar sozinha, porque não está. Meu coração dói tanto que sinto que vai partir, contudo, isso é um sacrifício necessário. Nós pensamos muito nessa decisão, foi difícil, mas chegamos a uma conclusão de que seria o melhor. Amanhã, às sete horas, um empregado da escola em que foi matriculada virá te buscar. O diretor te explicará todos os detalhes quando chegar.
Desejamos Boa Sorte na nova escola!
Com amor, Úrsula e Helena.
Seus olhos correram ligeiros pelo papel, a cada letra lida os olhos pareciam arregalar-se mais.
Espera! O que significa aquilo, uma viagem urgente para a Itália? Elas não tinham negócios na Itália, o trabalho delas não envolvia viagens!
Sua cabeça latejava, seu corpo parecia pesar duas toneladas, porque mal conseguia ficar de pé. O máximo que conseguiu foi cair de joelhos no chão da cozinha, seus orbes ameaçando uma chuva de lágrimas naquele lugar.
— O que... Significa isso?
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