Sadique

6 Posse - Parte I


Notas iniciais
...Hey? Sim, sim, eu sei que sumi por um tempão. MIL DESCULPAS MESMO. Na verdade eu nem deveria estar aqui porque estou na metade da minha defesa de trabalho de conclusão de curso (esse ano me formo yey), MASS a boa notícia é que nesse final de ano consegui escrever a fic até o final. Postagens semanais a partir de agora. Muito obrigada por cada review e favorito até agora e divirtam-se~~

De madrugada, ao recordar-se dos acontecimentos daquela noite (e corar em reflexo), Adrien soube que tudo começara logo ao chegar. Félix não estava na varanda como na noite em que se beijaram pela primeira vez, fazia pouco mais de três meses. Muito menos na sala ou na cozinha, visíveis através das esquadrias.

Foi a luz a derramar-se do corredor que levava ao quarto dele que chamou sua atenção em primeiro lugar. Sempre cumprimentava o rapaz antes de entrar no apartamento, mas apenas desta vez concedeu a si mesmo o direito de adentrar sob o pretexto de encontrá-lo.

E ele estava realmente lá. Em meio a uma faxina, aparentemente. O chão e as paredes estavam limpos como de costume, o que lhe fez pensar quanto tempo tomava dele para que assim se mantivessem. Duas das três portas do armário foram abertas, escancarando o espaço ainda por ser preenchido. Duas pilhas de roupas dobradas ocupavam uma ponta do colchão, e as restantes já haviam sido penduradas em cabides, sem um único vinco. O restante dos objetos eram poucos, espalhados pela porção restante da cama. Meia dúzia de livros, um tablet, alguns enfeites sóbrios.

Corrigindo: ao final de uma faxina.

― Te deixaram sozinha quando foram ao baile, Cinderella? ― indagou, divertido, apoiando-se contra o batente da porta de braços cruzados.

― Ao menos o príncipe veio me ver. ― Foi a réplica quase imediata. Ergueu os olhos então do montante de camisas sociais que estava prestes a mover e arqueou uma das sobrancelhas, de maneira provocativa. ― Que honra.

Não fora assim tão silencioso ao procurá-lo se Félix conseguira prever sua chegada. E acima de tudo, não imaginara que sua tática seria usada contra si mesmo: ao implicitamente chamar o rapaz de princesa, não esperava corar ao ser denominado príncipe.

Tossiu para disfarçar o próprio embaraço e perguntou-lhe, de modo galante ao curvar-se: ― E você aceitaria minha ajuda para a nobre tarefa de arrumar o seu quarto?

― Se você se oferece com tanto entusiasmo... ― permitiu o rapaz diante do sorriso aberto de Adrien. ― Mas não é tão divertido quanto parece.

O herói deu de ombros e seguiu suas instruções à risca para que ele se livrasse mais rapidamente das exigências domésticas. Não durou muito, mas enquanto auxiliara na organização percebeu o quanto o quarto de Félix era neutro. Sem qualquer bagunça ou acúmulo de pertences pessoais, parecia dizer muito pouco de quem vivia ali, porém era o inverso.

Dizia muito de seu desapego. De sua redução ao essencial. De sua organização. Um ambiente previsível, em que qualquer objeto poderia ser encontrado com facilidade. Porque ele queria que a própria vida fosse previsível, e isso era tudo que Chat Noir não era.― Sempre quis saber porque tem tão poucos livros. ― Deixou que a curiosidade se manifestasse ao alinhar os poucos volumes em uma das prateleiras.

― Eu literalmente trabalho em uma biblioteca ―confessou ele. Não que o jovem já não soubesse.

― Mas não faz questão de ter seus favoritos com você?

Essa total falta de apego lhe passava a impressão de uma indiferença, tão profunda que o assustava. Por que, afinal, Adrien era importante em sua vida o suficiente para superar tanto desprendimento?

― Muito pó para limpar ― explicou Félix, ao abrir a última das portas do armário.

― Seu maníaco por limpeza ― brincou, observando-o de esguelha.

― Não discordo do termo.

E o rapaz correspondeu ao seu sorriso de forma sutil.

***

Restava apenas aquela pequena porção da mobília, e Adrien não resistiu ao impulso de espiar um tantinho que fosse quando o rapaz foi ao banheiro. Esticou-se para dentro do armário e não foi necessário muito tempo para que compreendesse o que havia ali. Enrubesceu a ponto de ultrapassar os limites da máscara negra ao vislumbrar tantos... acessórios.

Vendas, chicotes, algemas. Tiras de couro conectadas a objetos esféricos; deveriam ser mordaças, embora nunca houvesse experimentado utilizá-las ― no escuro, ambos concordaram que era mais seguro que ele pudesse falar com liberdade se fosse necessário usar da safeword¹. Havia ainda prendedores, coleiras com guia, chibatas e um bocado de peças cujas quais Chat nem ao menos conhecia os nomes.

Contudo, sabia bem como se chamavam os metros de material firme que mais atraíram sua atenção. Ouviu os passos desde o corredor e enrijeceu-se ao ser apanhado como um bichano que praticara uma travessura. Foi para distrair o próprio nervosismo que não se virou quando ele voltou ao quarto.

― Você tem tantas cordas ― comentou, surpreso.

― É porque vou usar ― murmurou Félix, pouco atrás. Não notara que ele se aproximara tanto, e arrepiou-se com o quase contato. ― Todas elas. ― As últimas palavras foram apenas um sussurro em seu ouvido: ― Em você.

Adrien sentiu-se quente, muito quente por todo o corpo. E, apesar de não esboçar nenhuma reação externa, seu interior gritava para que ele prosseguisse. Queria, como queria. Como se não soubesse que havia dentro de si aquela vontade até que ele a exprimisse. Como se o desejo fosse tão intenso que a simples antecipação era capaz de deixá-lo excitado. Como se aquilo rapidamente se tornasse indispensável, e não somente um querer. No entanto, o rapaz interpretara de maneira errônea seu retesar:

― Eu não estava falando sério, não precisa se assustar.

― Não, não é- ― Respirou fundo antes de reformular-se e pediu de uma só vez: ― Nós podemos fazer?

― O quê? Até agora só amarrei seus pulsos. ― E com tecido na maior parte das vezes, acrescentou mentalmente. ― É muito diferente.

Paw favor... ― Os olhos do gato chegavam a brilhar em meio à imensidão verde.

― Não seria seguro fazer isso no escuro. ― Félix desviou os olhos diante de sua obstinação, e Chat Noir encontrou coragem para sugerir:

― Não precisa ser no escuro.

Seus olhares enfim se encontraram, e neles o jovem confirmou a resposta já óbvia. Porque era evidente que o rapaz não pretendia que ele se ferisse de maneira alguma, responsável como era. Era inegável que ele tinha muito cuidado ao experimentar cada prática nova, ao ensinar-lhe sobre cada procedimento. Assim como estava explícito que ele o desejava tanto quanto Adrien.

***

Ao atravessar o corredor, o que guiava seu ritmo não eram os passos, mas as batidas do coração, tão intensas. Afinal, tudo seria novo na situação, e ao mesmo tempo em que Chat Noir temia fazer algo de errado, também estava tomado pela euforia. Não seria no escuro. Eles poderiam se ver. Seria uma experiência inteiramente diferente. E ainda havia o objeto que carregava entre as mãos.

Uma coleira. Feita sob medida. Só. Para. Ele.

Apenas este acessório já divergia por completo de seus receios com relação ao desinteresse que presumira se aplicar ao envolvimento de Félix. Era perceptível a escolha cuidadosa dos materiais, desde o couro cuja textura e matiz condiziam com as de seu uniforme até os pequenos detalhes em prata. O pingente, cujo contorno remetia ao desenho minimalista de um gato, era uma das causas de seus batimentos acelerados.

Porque em poucos minutos seu pescoço seria envolvido por aquele mesmo fragmento de couro, que o bibliotecário pedira que fosse buscar por si mesmo. Selando o início de uma sessão. Marcando-o como posse. E naquela ocasião, pertencer a alguém era tudo o que Adrien mais queria.

Chegou à sala, onde o rapaz o esperava, ajustando e testando as cordas. Entendia a razão pela qual ele não optara pelo quarto ― havia muito mais espaço disponível no ambiente de estar. Ou ao menos o herói pensava que era este o motivo. Sua presença atraiu de imediato a atenção dele, e sentiu nascer um rubor que era um misto de vergonha e entusiasmo.

― Era só isso o que faltava? ― Ergueu a coleira minimamente, não muito seguro de como agir em seguida.

― Venha até aqui ―murmurou, de maneira quase suave, e o jovem foi convencido de imediato. ―Não, não assim. ―O herói retesou-se diante do tom perigoso. E ele completou, a separar as sílabas devagar: ― Ras-te-jan-do.

Adrien não sobreviveria àquela noite, tinha certeza.

Sob o olhar atento de Félix, no entanto, pareceu encontrar todo o incentivo de que precisava para obedecê-lo. A coleira ainda pesava entre seus dedos, e não demorou a lhe vir a opção óbvia para carregá-la. Abaixou até posicionar-se sobre as mãos e os joelhos; a porção de couro entre os dentes. E se ele queria um espetáculo, seria com um espetáculo que iria impressioná-lo.

Porque Chat Noir era especialista em se exibir.

Cedeu aos instintos que por vezes o dominavam, arrastando-se como o felino travesso que era. Sobre suas patas. Movia-se com a destreza e o charme característicos da espécie que representava, inclinando o torso nos momentos certos para que mantivesse o movimento atrativo e quase hipnótico. E foi a coleira que mordia que o impediu de sorrir para o rapaz tão interessado em cada mínima oscilação de seu corpo.

Ao alcançá-lo, decidiu estender sua performance um pouco mais, esfregando-se contra suas pernas como um gato faria ― com direito ao ronronar e ao jeito manso. Quando se sentou sobre os calcanhares, os joelhos unidos e olhos fixos no parceiro, Félix puxou o couro de sua boca sem pressa. Manteve os lábios entreabertos após desobstruí-los, ansioso para o momento em que com eles cobrisse a pele do rapaz. A constatação dele era retórica:

―Gosta mesmo quando te digo o que fazer, não é?

― Estou sempre ansioso para agradar ― concordou, e com ligeiro atrevimento esticou-se para lamber a mão mais próxima.

Começou pela palma, tracejando-a com a língua antes de alcançar os dedos. Contornou um deles lenta e provocativamente antes de engolir dois ao mesmo tempo. Sugou-os com vontade, simulando o gesto semelhante a algo... maior. E logo sentiu que ele reivindicara o controle dos próprios dedos, pois passara a mexê-los ele mesmo, arrastando-os sobre a umidade de sua língua. Era deliciosa a maneira com que ele os retorcia, explorando os estímulos que era capaz de proporcionar ao jovem.

― Sabe usar bem dessa boca quando não está desperdiçando saliva com trocadilhos idiotas, Chat Noir. ― A voz dele era insinuante, e ao escorregar para fora da boca o polegar roçou de leve sobre seu lábio inferior.

Adrien não conseguiu evitar a si mesmo de gaguejar envergonhado: ― I-isso foi um elogio?

Deliberadamente, Félix ignorara sua pergunta para questionar ele mesmo, acariciando sua bochecha:

― Então você quer ser um bom garoto para mim hoje?

― Q-Quero ―balbuciou o herói, distraído pela lascívia. Corrigiu-se rápido: ― Sim, senhor.

― Tão obediente. ― E este era um elogio inequívoco, assim como um incentivo para que continuasse assim. E sem nenhuma dúvida o gato consentiria com isso, porém havia ainda um pequeno impedimento que eles logo ultrapassariam: ― O que você deve dizer se quiser parar?

― Turquesa.

Quem escolhera a safeword foi Adrien. O rapaz achara que ele tentaria alguma gracinha como as que deixava escapar todas as noites, contudo ele foi bastante sério ao lhe pedir ajuda, já que sua experiência não era vasta. Descreveu-lhe que tipos de palavras eram as mais adequadas: multissilábicas, facilmente compreensíveis, de preferência sem qualquer relação com sexo. E dentre todas, ele preferira o tom de azul. Curioso.

Sua primeira ordem foi executada quando comandou que lhe virasse as costas, para que pudesse ajustar a coleira à garganta de seu submisso. Apesar de não senti-la diretamente sobre a pele (porque a gola alta de seu traje não permitia), o jovem era capaz de entender todo o fascínio por aquele objeto tão simples.

Era indescritível sensação do couro a pressionar seu pescoço ― não apertado o suficiente para sufocá-lo, mas o bastante para que o pomo-de-adão se esfregasse contra ele durante a respiração. Deixava-o estranhamente ciente da intimidade daquele momento, mesmo que ainda estivessem completamente vestidos.

E uma breve, porém intensa imagem mental de si mesmo nu a usar apenas a coleira, sob a mesma expressão atenta de seu mestre, fez com que Adrien engolisse em seco. Sentiu o material a comprimir sua garganta mais uma vez, e desta vez o aperto lhe transmitira um prazer que o percorreu até as partes mais baixas de seu corpo.

― Ela combina muito bem com você, gatinho² ― apreciou ele sobre seu ouvido.

Deveria ser uma palavra carinhosa, mas dita por ele parecia obscena e ligeiramente sarcástica. Félix ergueu-se do estofado então, contornando-o até que pudesse encará-lo. Encaixou a guia ao que envolvia o pescoço do jovem aos seus pés, mantendo a outra extremidade em seu próprio punho.

― Quer que eu te ensine esta noite? ― Sim, por favor, é tudo que quero que faça. ― A manter essas mãos para si mesmo?

― Não sei se consigo manter minhas mãos longe de você ― admitiu, ainda que as tenha posicionado sobre o colo, comportadas.

― Não, vai ter que fazer melhor do que isso ― negou Félix, e era quase capaz de prever com exatidão sua sentença seguinte: ― Quero ouvir de você.

― E-Eu- ― Desviou os olhos, sem muita certeza.

― De joelhos, Adrien. ― Puxou-o pela guia, com firmeza o suficiente para que arqueasse o tronco. ― E olhe para cima quando eu falar com você.

Se a pressão sobre a garganta já era perceptível, tornou-se muito mais ao ser alçado. Sentiu a pele a formigar-lhe a pele por baixo do uniforme devido à tensão, e o calor a espalhar-se muito rapidamente. Os olhos verdes arregalaram-se ao vislumbrar toda a avidez e autoridade nos azuis. Sua boca ficou seca, as bochechas avermelharam-se, e uma vontade inquieta e irresistível apoderou-se dele inteiro.

― Me amarre, por favor ― pediu, num timbre débil e tímido.

― Mais alto.

― Por favor, me amarre.

― Mais uma vez. ―Félix era calmo, apesar de exigente, ao lhe ditar ordens.

― Por favor, por favor, me amarre! ― suplicou, sem disfarçar a intensidade de seus desejos.

Bom garoto.

Seu murmúrio fez com que o herói arfasse e contorcesse, pois a satisfação em sua voz o deixou profundamente excitado.

Notas finais
¹ Safeword é um termo, na maior parte das vezes sem nenhuma conotação sexual, que a comunidade BDSM usa pra indicar que a sessão deve ser interrompida. É equivalente a “não”, “pare”, “não aguento mais”. ² Gatinho foi a tradução mais próxima que encontrei para kitten, ou chaton em francês. A maior parte dos diálogos das cenas mais íntimas eu escrevo em inglês antes de traduzir para o que soa melhor em português, mas a expressão original é ‘kitten’ mesmo. Eu tava tão ansiosa pra escrever essa cena s2 Na verdade, todos os próximos capítulos foram muito gostosos de escrever. Espero que tenham gostado e nos vemos nos comentários ^^