Sadique
5 Nome
Notas iniciais
Deveria saber que aquilo era um sonho. Afinal, nada do que acontecera era minimamente coerente. No entanto, até que despertasse, deixou-se levar pelos delírios da inconsciência.
Pelo que se lembrava, de início estava inquieto ― terrivelmente inquieto. Parecia preocupado com alguma coisa, ou alguém, e à preocupação mesclava-se uma espécie de culpa. No entanto, por mais que Adrien pensasse, não encontrava o motivo pelo qual se sentia tão aflito. As pessoas ao redor a ignorá-lo completamente, todos dentre amigos, colegas e conhecidos, apenas reforçavam sua confusão e nervosismo.
Até que, de lugar algum que pudesse imaginar (talvez do céu?), ele surgiu. Numa primeira impressão, acreditou estar vendo a si mesmo como Chat Noir. Afinal, lá estava o spandex escuro, a cauda longa, as orelhas de felino. No entanto, haviam poucas, embora significativas, mudanças entre aquele e o seu uniforme. E mais importante, quem o vestia era ninguém menos que Félix.
Mas mais estranho do que encontrá-lo a vestir algo “preto e apertado”, mais ainda do que os fios loiros (que nunca percebera tão longos) desalinhados com liberdade, era sua feição de inegável satisfação. Diversão até, poderia dizer. Aquele sorriso ― um sorriso largo, atrevido, com uma ligeira malícia ― era incomum demais para que não estancasse com o espanto. Tanto que não reagiu quando ele o apanhou entre os braços, aninhando-o como a uma criança.
― Estou pegando emprestado ― ouviu-o justificar-se aos restantes.
Contudo, ninguém pareceu notar que ele fora basicamente sequestrado. Ou que havia mais um Chat Noir em Paris. Quem percebeu algo foi o próprio Adrien, logo que se viu no colo do rapaz. As memórias, ou como aquela espécie de pensamentos se chamavam durante um sonho, vieram de uma vez.
Lembrou-se do vilão, The Alchemist, que enfrentara, cujo poder envolvia mesclar substâncias ou até mesmo pessoas para conceber súditos a partir destas quimeras. Por descuido seu, acabara deixando que o anel escapasse de seus dedos, e durante o breve intervalo entre perder e recuperar o acessório, o inimigo se aproveitara de seu momento de fraqueza e unira Plagg à Félix. Todavia, antes que pudesse assimilar o restante, a excêntrica versão de Chat Noir indagou, ao vislumbrar a névoa a encobrir seu rosto de arrependimento:
― Por que essa cara?
― Você está assim por minha culpa.
― É, talvez. ― E, de maneira ainda mais surpreendente, ele gargalhou. O som era caloroso, e jovial, ainda que deixasse transparecer certa irresponsabilidade. ― Quem diria que heróis cometem erros também.
― Você e Plagg... Foram atingidos. ― Enrubesceu um tanto antes de prosseguir, utilizando da expressão que ele mesmo dissera para que o deixasse cônscio da gravidade da situação: ― E está usando... uma fantasia de stripper. Por minha causa.
― Não é tão desconfortável quanto eu imaginava. ― Deu de ombros.
― E não está zangado comigo?
― Nem um pouco.
Era inacreditável. Nunca passou pela sua cabeça que ele poderia ser tão... permissivo. No geral o rapaz era tão rígido, tão centrado e ciente das regras ― embora não soubesse bem que regras seriam estas. Era aquilo o resultado da junção com Plagg, com seu jeito descontraído? E o principal foco de sua perplexidade: não compreendia como ele, sendo fruto do poder de The Alchemist, manifestava vontade própria. Como quando ele o soltou muito delicadamente sobre um dos gramados do Jardim de Luxemburgo¹, mesmo que não fizesse ideia de como haviam chegado lá.
― Então por que me trouxe para cá?
E o sorriso, ao qual ainda não se acostumara, converteu-se de zombeteiro a devasso. Um arrepio percorreu o seu corpo, e a origem não era nem de longe o suposto medo de encarar um adversário sem seus poderes de herói. Afinal, a última das intenções de Félix seria atacá-lo. Em seus olhos havia uma fome irrestrita, que o jovem conhecia, e uma ousadia petulante, que não lhe era familiar.
― Por acaso você quer ser punido pelo que fez, Adrien? ― sugeriu, muito entusiasmado com a ideia, ao aproximar-se e por-se entre suas pernas.
― O q...!
Por mais incomum que fosse o seu comportamento naquela situação comparado à maneira com que agia habitualmente, nada disso o aturdiu mais do que ouvi-lo falar seu próprio nome. Como ele poderia saber...?! E, junto da perplexidade havia também uma satisfação que não imaginava ser tão contundente. Interrompendo quaisquer pensamentos, o rapaz garantiu, num tom leve:
― Vai ser um prazer atender à sua vontade. ― E segurou seu rosto com suavidade entre os dedos, vencendo o espaço que os separava.
― F-Félix... ― gemeu, pois a perplexidade se foi, substituída por uma sensação gostosa a expandir-se quando ele passou a acariciá-lo na nuca, puxando para trás seus fios.
Além disso, a proximidade atiçava seus instintos e o deixava ansioso para que os lábios fossem tomados.
― Hm?
― Você não se sente... ― Suspirou quando ele desceu antes de alcançar seus lábios, rumo ao pescoço. ― Diferente?
― Diferente como? ― Sentiu mordidas superficiais o arranharem de maneira muito tentadora e convidativa, e respondeu num único ofego rápido:
―Completamente diferente.
E ele enfim o beijou. De modo familiar e ao mesmo tempo novo, com uma impetuosidade abrasadora somada à maneira sutilmente dominante com que apanhava a boca de Adrien entre a sua. No entanto, desta vez não havia nenhum controle: era apenas prazer sem moderação, uma explosão de instintos, entusiasmo e liberdade. Liberdade a tal ponto que o jovem foi envolvido por ela e sentiu-se livre para correspondê-lo na mesma intensidade.
Tomou-o num beijo violento, selvagem, e as mãos de Adrien agarraram-se aos seus cabelos loiros enquanto ocupava as unhas a arranhar as laterais de seu corpo. Era tanto a se explorar... E mesmo em meio ao beijo, o herói suspirava e ofegava, corado como nunca. Involuntariamente, o envolveu com as pernas delirantes, e ele não demorou a fincar os dedos nas coxas saborosas, quase a ponto de marcá-las com seu toque áspero, mesmo que sobre da calça.
E sua recompensa eram aqueles gemidos lindos e excitantes que o jovem não conseguia conter, mesmo ao morder os lábios. Contorcia-se para aliviar a torrente de sensações, mas isto apenas o fazia presa do rapaz ávido. Foi sobre os lábios que mordera e chupara com tanta voracidade que murmurou:
― Me sinto rendido. Completamente. ― Usou do mesmo termo que ele, com o sorriso zombeteiro que adquirira, e completou, num timbre que reforçava o que acabara de dizer: ― É impossível resistir quando você é tão adorável.
Na verdade, era ainda mais delicioso que ele fosse tão delicado; atiçava sua vontade de devorá-lo até saciar-se (e saciá-lo) por completo.
― V-Você não costuma dizer... esse tipo de coisa ― indicou, distraído, ainda que levemente consciente do estranhamento que aquela situação deveria lhe transmitir.
Tão logo o disse, sentiu lábios quentes a consumir a garganta exposta em chamas. Não apenas eles, mas a língua também fazia seu percurso, num rastro de prazer insano, assim como os dentes mordiam-no com voracidade. Assim, enquanto o enlouquecia com a boca em seu pescoço, os dedos ousados metiam-se entre suas vestes, arranhando-o provocativamente.
Impaciente, desceu os lábios rumo à clavícula, lambendo a superfície cujo gosto era seu preferido. Excitava-o não apenas o sabor, mas também o sexo do jovem contra o seu, e aqueles gemidos tentadores que apenas atiçavam sua vontade de fazê-lo gritar a plenos pulmões. Era difícil elaborar uma resposta quando suas costas eram arranhadas com destreza e sua pele, castigada por uma língua faminta.
― Hm? Não gosta de ouvir minha voz, Adrien?
― Eu n-
― Adoro ouvir a sua ― sussurrou naquele tom rouco e excitante, e mesclada à malícia havia um contentamento por provocá-lo. ― Principalmente quando te ouço gemer. ― Enquanto descia, murmurou entre as carícias, instigando-o por mais: ― Me enche de vontade de te fazer só meu.
E ele enrubesceu inteiro da maneira mais adorável possível.
***
Naquele dia em específico, o Lycée Saint-Louis² levara seus ex-alunos à Biblioteca Nacional de Paris, tanto pelo encontro quanto para confirmar as aspirações profissionais de cada um. No entanto, estava tão distraído que pouco importava o destino: fosse uma biblioteca, uma catedral ou um museu, os pensamentos estavam voltados para o sonho. Aquele sonho estranho ― estranhamente vívido.
De maneira automática, seguiu o restante dos ex-colegas por entre as intermináveis sequências de ambientes, das quais a professora discorria em igualmente intermináveis descrições. Durante a manhã, compartilhara com Plagg alguns detalhes dos quais lembrava, e recebeu em resposta um revirar de olhos já típico. O kwami não compreendia como ele era capaz de passar tanto tempo pensando em Félix ― afinal, ele representava apenas um bom estoque de queijo à disposição durante algumas noites.
Para Adrien, contudo, o sonho ― e o rapaz ― significavam algo diferente. Algo mais importante. E por alguma razão, os momentos em que ele dissera seu nome lhe retornava a mente sucessivas vezes. Mais do que a atitude completamente oposta à real, mais do que as reações incomuns que proporcionara, mais do que a lembrança de Félix no traje de Chat Noir. O que realmente se fundira como uma memória permanente (ainda que fictícia) foi ouvi-lo dizer aquela palavra de seis letras que ele absolutamente desconhecia no mundo 'real'.
A visita permaneceria um borrão indefinido e facilmente esquecível se não fosse uma peculiar circunstância, quando chegaram ao que deveria ser o equivalente de uma recepção que antecipava parte do acervo em si. Foi ali que a antiga turma iria se estabelecer durante meia hora ― e ali que encontrou Félix.
A roupa social era inconfundível, mesmo neste ambiente no qual ela não mais parecia excêntrica ou antiquada. Vestir-se daquela maneira era normal entre os inúmeros funcionários da biblioteca, e comparado a alguns, o rapaz poderia até ser descrito como 'ligeiramente casual'. Estava concentrado em uma pilha de exemplares relativamente antigos, e uma prancheta e lápis ocupavam suas mãos.
Numa breve apresentação, a senhorita que acompanhava sua antiga professora e os ex-alunos o apresentou como um estagiário ou voluntário ― Adrien não estava prestando atenção no que ela dizia para distinguir o termo exato. Com um breve aceno de cabeça, Félix cumprimentou os visitantes ao ouvir o próprio nome e voltou os olhos para os livros.
Durante o momento fugaz, encarou as íris azuis com uma intensidade que poderia denunciá lo, se alguém estivesse prestando atenção. Ele estava mesmo ali. Contudo, o rapaz não pareceu identificá-lo, ou ao menos distingui-lo dentre os alunos que ocupavam aquela sala. Apenas Adrien sabia que compartilhavam o mesmo ambiente.
E desta vez, não havia o disfarce de Chat Noir entre eles.
Ainda receoso sobre o que deveria fazer diante de uma oportunidade como aquela, recusou gentilmente o café que uma das funcionárias lhe ofereceu. Ao seu lado, ao contrário, Chloé foi inequívoca ao recusar a bebida, após provar um gole.
― Como alguém consegue beber isso?
Pela maneira com que o dissera, o sabor da bebida lhe era ofensivo a nível pessoal. E o objetivo da declaração era, evidentemente, atrair o coitado que preparara aquilo. Para humilhá-lo? Talvez. Para tirar satisfações por fazê-la provar algo tão repugnante? Sem dúvidas. Todavia, este 'coitado' era ninguém menos que Félix. E mesmo as ferroadas daquela abelha-rainha orgulhosa e mimada não eram capazes de perfurar o escudo de indiferença com que o rapaz lidava com desconhecidos. Ou ligeiramente desconhecidos, porque até mesmo ele sabia quem era a filha do prefeito.
― Não é muito cortês ofender o gosto do café dos outros, senhorita Bourgeois.
― Foi você quem fez esta porcaria? ― Cruzou os braços e o fuzilou com os olhos. ― É completamente amarga!
― Existe essa incrível invenção humana. Chama-se açúcar. Pode usar à vontade. ― Apontou com o lápis em mãos para o recipiente sobre a mesa meticulosamente posta, ainda que em nenhum momento tenha desviado a atenção de seu trabalho para fitá-la quando a respondeu.
Como esperado, Chloé irritou-se ainda mais ao ser ignorada. Como aquele projeto de bibliotecário ousava tratá-la daquela maneira? Agarrou-se ao braço de Adrien e lamentou a maneira rude e insensível com que foi tratada, esperando que o jovem concordasse com ela. Como o restante da antiga turma, foi levado para as acomodações seguintes. E nem sequer pensara em uma forma de falar com ele, de tão aturdido com a coincidência repentina.
Mas não estava tudo perdido. Foi fácil desvencilhar-se dos ex-colegas ― as habilidades que desenvolvera com a vida dupla como herói eram muito úteis. Provavelmente o rapaz estaria sozinho, agora que o restante das pessoas se deslocara. Não poderia estar mais correto: apenas ele estava lá. E, pela primeira vez, ele o viu.
A ele. Não Chat Noir, mas Adrien Agreste. Sem máscaras ou uma identidade secreta. Somente Adrien e Félix, dois parisienses loiros de personalidades opostas cujo relacionamento ainda era confuso e indefinível.
Ainda.
Sabia bem o que Plagg dissera quando adquiriu o anel: não podia contar sobre ele para absolutamente ninguém. Contudo, não era isso o que pretendia ao encará-lo, ou quando ele o encarou de volta. O primeiro motivo era um tanto bobo, talvez até um pouco infantil. Queria que ele o visse. Pusesse os olhos sobre ele sem o traje, como não era capaz de fazer no quarto escuro. Guardasse na memória o rosto do jovem. Ao contrário, o segundo motivo era mais complexo. E exigia bem mais do raciocínio de Félix.
― O que houve? ― indagou, confuso diante do jovem a fitá-lo. ― Está perdido?
Sou eu. Me reconheça.
― Não, eu...
Queria lhe dizer o próprio nome. Queria ouvi-lo falar seu nome. Sentiu os batimentos a acelerarem, as mãos a se comportarem inquietas, o corpo a retesar-se. E a origem do nervosismo não era a falta de palavras: sabia exatamente o que dizer, embora não pudesse dizê-lo. Há algumas noites, o rapaz admitira que era frustrante não saber quem ele era. Mas esta frustração nem de longe se comparava àquela pela qual passava Adrien no momento.
Interrompendo-o antes que pudesse articular qualquer frase, uma mulher cuja aparência lembrava vagamente a de Nathalie surgiu de uma das portas, chamando por Félix para que a auxiliasse. Apressada, ainda que educadamente, desculpou-se por tomar de seu tempo e retornou na direção que a ex-professora e os antigos colegas tomaram. Todavia, ao afastar-se, acreditou ver uma leve sombra de confusão nos olhos dele.
***
― Acabou de acordar?
Chat Noir recostou-se contra o batente, fitando bem-humorado a cena à sua frente. Não era a primeira vez, mas apanhar o leitor de pijamas, com uma bagunça no lugar dos fios penteados e expressão de leve retardo sonolento era sempre uma ótima visão. Quase o levava a acreditar que ele era um ser humano como todos os outros.
― Chegou a essa brilhante conclusão sozinho? ― ironizou, entre bocejos. Como se eles já não fossem provas o suficiente.
― Achei que era alguém de hábitos noturnos. ― Deu de ombros. ― Sabe, se alimentar de trevas e solidão, essas coisas.
― Não tive tempo de dormir bem nesses últimos dias. E pelo visto você também.
É, mesmo com sono ele era capaz de mirá-lo daquela maneira que fazia com que se sentisse completamente transparente. Além disso, a origem de noites mal dormidas, para ambos, era óbvia demais para que lhe escapasse ― sabiam que eram o motivo do cansaço um do outro.
― Félix, você- ― Interrompeu-se diante do olhar que dizia de maneira silenciosa 'não se atreva a se preocupar comigo'. ― Você prefere que eu volte amanhã?
― Eu não me... incomodo com sua presença. ― Desviou os olhos e acrescentou: ― Não mais. Então, considere-se um convidado e não um fardo.
De maneira terna, Adrien sorriu para o rapaz ofendido com a idéia de que pudesse considerar a si mesmo um empecilho. Assim como para a maneira furtiva, indireta, com que ele indicava os próprios sentimentos. Provocou-o, divertido:
― Eu sou um convidado?
Cansado demais para responder perguntas óbvias, Félix deixou-se esparramar sobre o sofá. 'Esparramar' não era bem a descrição exata, tendo em vista a postura ainda tão correta; mas comparada à maneira usual com que ele se sentava, aquele era um 'esparramar de Félix'. O gato preto ocupou o lugar a seu lado, e a ligeira sensação de culpa diante do sono dele o lembrou de seu sonho.
― Hoje sonhei com você. ― Enrubesceu um pouco, mas não o suficiente para que o denunciasse. ― Foi... estranho.
― Imagino que tenha sido.
― Nem um sonho sobre você desperta sua curiosidade? ― questionou, incrédulo.
― Pela sua reação ao falar sobre ele, consigo imaginar bem o que deve ter acontecido.
Desta vez a presença da máscara não foi o bastante para esconder o rubor de suas faces. Não diante do comentário proferido por aquela voz grave que era capaz de fazê-lo arrepiar-se e lembrar-se dos trechos menos apropriados do sonho em questão. Principalmente um em específico, aquele que se fixara à sua mente por todo o dia. Olhando para o piso, comentou baixinho:
― No meu sonho você me chamava pelo nome.
― Já disse que não tem como eu magicamente descobrir seu nome, Chat Noir. ― Apesar das palavras, a maneira com que o disse foi estranhamente suave. E, reclinado contra o sofá, era para o jovem que ele olhava ao dizer: ― A não ser que me conte.
A não ser que contasse.
E qual seria o problema em falar? Não era como se revelasse sua identidade, ou a presença de Plagg. Deveriam ter vários adolescentes chamados pela mesma forma em Paris. Imaginou que o nervosismo que sentira na biblioteca o atingiria de novo, dificultando sua resposta; porém, desta vez era quase um alívio lhe dizer aquilo, diante da atmosfera tão... Amigável? Íntima?
― ...Adrien. É esse o meu nome.
― Hm. Forma francesa de um cognome romano que significa originário de Hadria. Ironicamente ― Olhou para o traje do herói. ― traduzido como ‘the dark one’.
― Eu deveria saber que um dicionário humano iria dissecar a etimiaulogia ― brincou, ainda que não estivesse plenamente satisfeito.
Mas o que queria, então?
― Adrien... ― começou o rapaz, e o fitou muito brevemente antes de voltar os olhos em outra direção que não o herói. ― É um belo nome.
Durante alguns minutos, ambos permaneceram em um silêncio constrangido. Porque sabia que Félix também estava constrangido: quando arregalara os olhos verdes diante do que ele dissera, pôde enxergar bem a vermelhidão bem leve nas bochechas dele. E, ao menos para Chat, o embaraço não era vergonhoso ou incômodo: era um misto de timidez e alegria, tão profundamente relacionados que mais pareciam sentimentos intrínsecos.
Ainda que houvesse desejado ouvir a palavra tão simples ― palavra que, naquele momento, parecia conter tanto significado ― não imaginava que ficaria tão feliz. De modo um tanto desajeitado, agradeceu pelo elogio, pois pensou que algo que aquecera seu peito e o fizera sorrir como uma criança merecia um 'obrigado'. Diante da sinceridade a beirar a ingenuidade expressa no rosto de Adrien, o rapaz aceitou as manifestações efusivas com certo contentamento.
E, com a resposta positiva, Chat acabou por se entregar aos instintos felinos, deitando sobre o sofá e aninhando-se no colo dele. Aconchegou-se às pernas, ciente de que Félix não parecia nem um pouco incomodado em cedê-las como travesseiros. Ao sentir os dedos a afagar os cabelos ― cuja textura suave eram um convite a perder-se entre os fios ―, ronronou e remexeu-se contra eles. Ouviu o timbre levemente arrastado e indolente dele após a reação espontânea:
―Você faz isso de propósito?
― Por quê? ― Sorriu de maneira travessa. ― Você gosta?
Como era de se esperar, ele não respondeu. Apenas continuou com a carícia, em movimentos progressivamente mais lentos e demorados. Como se estivesse a, gradativamente, cair no sono. Antes que ele adormecesse de fato, não resistiu e lhe desejou 'boa noite', na expectativa de que ele lhe respondesse também.
― Boa noite, Adrien.
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