Sadique
10 Encontros
Notas iniciais
Enquanto o orador da turma discursava sobre obstáculos e conquistas, Adrien deixou seu olhar vagar pela plateia. Ainda que já prevista, a ausência do pai não deixou de afetá-lo. Custaria tanto a ele folgar por poucas horas para testemunhar aquela ocasião importante? No entanto, havia compensações ― Nathalie estava lá, o orgulho mal disfarçado sob a máscara do profissionalismo. E, diluído entre os familiares e amigos emocionados de seus colegas, um rosto conhecido era enfatizado entre os demais.
O jovem recém-formado sorriu para Félix, que retribuiu de maneira sutil.
― Seu mal gosto é inacreditável, Adrien ― ouviu Chloé cochichar ao seu lado, profundamente decepcionada.
― Não acho que meu namorado tenha que preencher as suas expectativas ― respondeu no mesmo tom baixo, deslocando-se o mínimo possível em seu assento.
A filha do prefeito manteve inflexível a contrariedade, e Adrien deixou escapar um suspiro. Já faziam bons anos que ela desistira das intenções românticas para com ele ― começara a se achar patética por insistir tanto em algo sem retorno. Contudo, sua amiga de infância ainda se julgava no direito de interferir em sua vida amorosa. “Não, ela não tem nenhuma classe.” “Ele é grosseiro demais.” “Mas ela nem ao menos está no seu nível.”
E com relação a Félix, a alegação era categórica: “Ele definitivamente não serve para você.”
Como de costume, o herói ignorava todos os inúmeros motivos com que ela pretendia convencê-lo de que aquela era uma péssima escolha. Não lhe interessava o fato de que o namorado estava longe de ser abastado, era mal humorado, ou, segundo as palavras de Chloé, “insípido e vulgar”. E, apesar do esforço em preservar a boa educação, já estava acima do irritante a bendita mania que todos tinham de se meter em suas decisões.
Durante seu devaneio, o aluno encerrou o discurso e a cerimônia prosseguiu, rumo ao seu final. Um a um, os estudantes foram chamados para cumprimentar os professores e apanhar o diploma de Estudos Técnicos Posteriores. Foi um longo e repetitivo processo, a que ele acompanhou inquieto até sua vez. Enfim, ouviu seu nome e seguiu o mesmo caminho que todos os vinte jovens antes dele.
Ao virar-se para o público, após trocar apertos de mão com toda a mesa de honra, Adrien reparou que Nathalie estava gravando cada momento desde que subiu ao palco. Provavelmente o vídeo foi um pedido de Gabriel Agreste, e a pequena esperança de que o pai ainda poderia aparecer sumiu por definitivo. Encarar Félix entre todos que o aplaudiam, porém, melhorou e muito seu ânimo. O que mais queria era poder descer dali e abraçá-lo de uma vez.
Porém ainda restava o discurso do paraninfo. E as homenagens. E o encerramento. E fotos, uma infinidade delas.
Adrien já convivia há bastante tempo com as câmeras para não se intimidar com elas, mas isso não tornava o procedimento menos cansativo. Estava ansioso para se livrar das formalidades e aproveitar o pouco tempo disponível antes de outro compromisso, este monótono e solitário.
E quanto afinal supôs concluído o registro fotográfico da formatura, Chloé o puxou para uma última selfie juntos. Seu pretexto era de que ele lhe devia por isso há um bom tempo, ainda que o modelo não recordasse de qualquer promessa nesse sentido. A formanda eliminou toda a distância entre os dois, abraçando-o com mais intimidade do que o restante dos colegas fizera para a foto da turma. Visivelmente incomodado, Adrien desaprovou enquanto ela sorria para o celular:
― Chloé, não acha que isso já é demais?
― Nem chega perto ― asseverou ela, e olhou de maneira zombeteira e convencida na direção de alguém em específico.
Alguém que encarava a garota muito, muito zangado. Não foi difícil encaixar as peças: ela não fizera aquilo para reforçar a proximidade entre os dois, ou por enxergá-lo como um pretendente de novo. Porque ela não esquecera a maneira indiferente com que o bibliotecário procedera na ocasião em que interagiram diretamente pela primeira vez. Porque ela iria, com toda a certeza, exibir a oportunidade que ela tinha como colega de turma enquanto Félix podia apenas assistir.
Porque Chloé Borgeouis não perdoava quem não a tratava como rainha.
Com um risinho satisfeito, ela apreciou a imagem na tela e despediu-se de Adrien. Mais uma vez o herói suspirou ― livre, desta vez de verdade. Esticou-se para procurar pelo namorado entre a multidão, sem sucesso e sem necessidade: logo sentiu dedos longos a enlaçarem-se aos seus. Discreto como sempre.
― Preto realmente combina com você. ― O formando sorriu com a menção à cor de sua beca, dita num timbre baixo, somente ao alcance de seu ouvido.
― Seus elogios estão meowlhorando ― murmurou de volta, fitando-o de esguelha. Ternos combinavam com ele também.
― Não posso dizer o mesmo dos seus trocadilhos.
Deixou escapar uma risada, contente por tê-lo ali. Contudo, ainda queria comemorar com ele sem as limitações e sutilezas que aquele encontro social exigia. Além disso, sabia bem que um simples beijo, como os que suas colegas compartilhavam com os namorados, não seria tratado com naturalidade se entre os dois. Era injusto, retrógrado e incoerente, e isto o aborrecia.
Buscando maior privacidade, mesmo que não completa, o guiou entre todas as pessoas que confraternizavam. Seu destino eram as saletas que durante o período de aulas eram ocupadas pela administração do auditório, mas que durante a cerimônia estiveram vazias. E, conforme previra, também trancadas, para inibir quaisquer jovens com hormônios em fúria.
― Estava mesmo esperando que eles não pensassem nessa opção? ― indagou, cético, enquanto Adrien aparentemente procurava em vão por um recinto fechado. ― De qualquer forma, par-
Interrompeu-o quando o trouxera para perto pela gravata, unindo seus lábios aos dele de maneira eufórica. Eram os únicos na ala naquele momento, e alcançaram o trecho do corredor em que dificilmente seriam apanhados. Não demorou muito para que ele o reivindicasse com exigência, e sentiu as costas pressionadas contra a parede enquanto seus dedos avançavam para os quadris de Félix.
Com as carícias íntimas à sua nuca, somadas à língua quente em contato com a sua, Adrien ronronou entre os beijos. Não poderia dar menos atenção ao capelo que foi derrubado enquanto estava ocupado correspondendo a avidez espontânea do rapaz, ou à faixa que afrouxara com as mãos a envolvê-lo com voracidade.
O herói arfou quando a boca do namorado desceu desde sua mandíbula até a garganta, tombando a cabeça para trás. Deixou que as unhas se remexessem por sobre o couro cabeludo dele, apreciando a sensação úmida e cálida que tomava todo o seu pescoço. No entanto, o prazer impetuoso foi substituído por outro, diametralmente oposto ― o recém-formado gemeu pela primeira vez ao sentir os dentes fincados à sua pele.
― Por acaso você quer marcar território? ― ofegou, ciente de que a mordida poderia deixar marcas. Olhou para Félix, um tanto pretensioso: ― Sabe que ela fez aquilo de propósito, não é?
― É óbvio que Borgeouis faria algo desagradável de propósito. ― O mal humor respingava de suas palavras.
Porque ele sabia bem que tudo o que ela fizera fora proposital. Exatamente por isto se zangava consigo mesmo: por se deixar afetar pelos caprichos bobos de uma menina mimada. Já fazia bons meses que aceitara todo o sentimento que nutria por Adrien, mas ainda era (e talvez para sempre seria) insuportável se sujeitar àquele comportamento ligeiramente possessivo e sem sentido.
O modelo, ao contrário, divertia-se com a situação:
― Ah, mas te ver com ciúmes sempre vale a pena ― deliciou-se, afagando o rosto dele com ambas as mãos. Félix estreitou os olhos azuis:
― Você é terrível.
― Não ― insistiu, com um sorriso implicante. ― Eu sou o amor da sua vida.
― Também ― aceitou, diante do inegável, e acrescentou: ― Isso não te impede de ser terrível.
Assim como não impedira os dois de substituírem as provocações mútuas por mais contato físico. Durante as provas finais, Adrien mal pudera visitá-lo durante a noite, e ainda que pudessem trocar mensagens de texto, desejavam com veemência compensar as semanas distantes.
Escorando-se na parede, o herói enganchou-se aos quadris de Félix com as pernas, agarrando-se aos fios claros que já eram uma bagunça entre seus dedos. Sua capa, arrancada sem muito cuidado, estava no chão junto do capelo, e o casaco do rapaz em breve teria o mesmo destino ― se não fosse o celular a vibrar repentinamente em seu bolso.
Tentou a todo custo fingir que não percebera a melodia repetitiva da ligação, concentrado na fricção insinuante entre os corpos e no beijo que facilmente lhe confundia os sentidos. Contudo, a insistência do ruído e a consciência de que devia responder à Nathalie (porque sabia que era ela) faziam com que tendesse a atendê-la. Até mesmo o rapaz o advertira, embora não o soltasse de maneira alguma:
― Não pode ignorar as chamadas para sempre.
― Mas é você quem continua me distraindo ― zombou, pois os lábios dele não deixaram de roçar por sua garganta.
Cedeu, enfim, e respondeu às perguntas da mulher o mais breve possível para voltar ao toque agradável do namorado, ao sabor viciante da língua a esfregar-se na sua. De qualquer modo, tinha pouco tempo disponível: a secretária lhe avisara que partiriam em quinze minutos. Aproveitou seu tempo ao máximo, ansioso para o próximo encontro, que antecipara para aquela mesma noite.
― Talvez eu chegue exausto ― avisou, e Félix já conhecia sua teimosia bem o suficiente para não protestar. ― O jantar de hoje deve ser longo. ― E entediante, acrescentou mentalmente.
― Só não se force demais. ― E o rapaz acariciou sua bochecha, incomodado com seu baixo sentido de autopreservação.
― Mas é uma pena perder o baile da turma ― lamentou, pois os horários coincidiam. ― Seria divertido dançar com você.
― Você tem noção de que não sei dançar nem um pouco, não?
― É exatamente por isso que seria divertido ― provocou pela última vez, antes de alcançar o carro que o levaria para seu próximo compromisso.
Era um jantar burocrático entre os principais colunistas e críticos de moda e o estilista cuja marca era consagrada neste meio editorial ― no caso, seu pai. Como principal modelo e basicamente garoto propaganda, Adrien se viu obrigado a participar de conversas que lhe eram desinteressantes e a cumprimentar pessoas que, como todas as restantes, queriam ditar cada um de seus passos.
Com toda a gentileza possível, recusou as propostas que não as quais já estava compromissado, impaciente pelo fim daquele tédio. Definitivamente aquela não era a profissão que queria para o resto da vida, mas prosseguiria com ela em respeito ao pai, ao menos até encontrar algo que realmente valesse o seu esforço.
E, depois de quase três horas que se arrastaram quase intermináveis, pôde enfim voltar para casa. Até mesmo Plagg estava cansado, cochilando por dentro de sua roupa. Por isso, nem ao menos se transformou antes de sair de casa; apenas avisou por mensagem que estava a caminho e esgueirou-se à maneira antiga até lá.
Foi só ao adentrar no apartamento já tão familiar que notou algo diferente, ainda que bem sutil e não muito alto:
― ...Música?
― Você disse que queria dançar durante a cerimônia ― explicou Félix, e desviou os olhos rapidamente antes de voltá-los para o rosto do namorado recém-formado. Contudo, deixou avisado: ― Mas realmente sou uma negação nisso.
― Então quer que eu te ensine? ― O sorriso de Adrien alargou-se, presunçoso.
― Não me faça me arrepender tão rápido.
― Você vai é me agradecer por ser um ótimo professor ― garantiu o herói, estendendo a mão direita para que Félix a apanhasse.
Não era a primeira vez que conduzia alguém, mas Adrien agradeceu mentalmente pela escolha de melodia lenta e fácil de se acompanhar. Sua primeira lição foi sobre contato visual, e o manteve durante o restante das instruções: sobre como posicionar os braços, como mover as pernas e como seguir a batida com os passos.
Sua postura era confiante ao ensiná-lo, corrigindo-o com delicadeza para que deslizasse os pés em vez de levantá-los, ou para que se movimentasse de modo suave, sem tanta rigidez e principalmente sem pensar demais, já que não era uma coreografia fixa. No entanto, era até adorável vê-lo tão concentrado, o cenho franzido como se o vaivém em círculos pela sala fosse algo complexo.
― Viu? Não é tão difícil.
― Fale por si mesmo ― queixou-se, ainda que aos poucos cedesse das maneiras duras para algo mais flexível.
― Você não vê problemas em um arm binder ou square knot¹, mas mexer as pernas é assim tão complicado? ― Adrien arqueou uma das sobrancelhas, guiando-o para um giro enquanto erguia o rosto para aproximá-lo do dele.
― São anos de experiência com bondage contra... ― Fez um cálculo aproximado para fundamentar sua justificativa: ― Dez minutos com dança.
― E durante esses dez minutos você não pisou nos meus pés nenhuma vez ― elogiou, pressionando de maneira mais íntima os braços ao redor da cintura do namorado. ― Parabéns, monsieur Félix.
O rapaz deixou escapar um dos pequenos sorrisos a que o herói não resistia e aproveitou a posição estratégica de seus braços, apoiados sobre os ombros dele, para sussurrar em seu ouvido o que quisera dizer antes de ser interrompido no corredor:
― Parabéns pela formatura, monsieur Adrien.
***
Félix entregou o passe à menina, cujo uniforme pertencia ao ensino fundamental de um dos colégios conceituados de Paris. E informou, de maneira educada e informal, como repetira tantas vezes no setor de atendimento:
― A seção de artes visuais fica na sala F, no segundo piso.
Virou-se na direção contrária do balcão para organizar as fichas e catálogos com os quais não estava acostumado ― seu lugar era em contato direto com o acervo, e de qualquer forma estava ali apenas para suprir a ausência de um dos funcionários. De costas, percebeu que outra pessoa esperava por seu auxílio, e perguntou em reflexo antes de vê-la:
― O que deseja, senhor...?
― Agreste, mas pra você posso abrir uma exceção. ― Adrien piscou para ele, satisfeito diante do aturdimento do bibliotecário. Inclinou-se contra a bancada, com ar sugestivo: ― E sua pergunta abrange qualquer desejo ou só os relacionados a esta biblioteca?
― Restrito ao acervo. ― Manteve o profissionalismo, mas acrescentou, erguendo uma das sobrancelhas: ― Ao menos durante meu expediente.
― Então quanto falta pra que eu possa te chamar pra sair?
― Quarenta minutos. ― Não é como se estivesse contando.
― Nossa, tanto tempo... ― lamentou, de brincadeira. Então um sorriso genuíno alargou-se em seus lábios, e cochichou para que apenas Félix ouvisse: ― Eu disse que queria te apresentar à Ladybug. Então, ela vai passar aqui mais tarde.
E neste momento Ladybug surgiu através da fachada envidraçada, enfrentando um adversário no pátio interno da biblioteca. A mais nova vítima de Hawkmoth tinha dedos afiados que mais se assemelhavam a facas, e parecia muito ansiosa para testar cada um deles na joaninha.
― Oh, droga ― Adrien deixou escapar.
De despreocupado e galanteador sem rodeios, o herói assumiu uma postura tensa, preocupado diante do perigo da situação e impaciente para juntar-se à parceira. E não era o único apreensivo: Félix também notara as facas e bem sabia quem deveria enfrentá-las. Assim como sabia que alguém naquele relacionamento deveria manter a calma, porque Adrien já preenchera a cota de nervosismo pelos dois:
― Não fique aqui olhando pra mim, vá pra onde é seguro!
― Eu sei me cuidar ― garantiu, encarando-o nos olhos para lhe transmitir sua própria segurança. ― Boa sorte.
Desejar boa sorte para o símbolo do azar era uma tremenda incongruência, mas não foi capaz de se conter. Quando seguiu com as demais pessoas para as longas escadarias de acesso que contornavam todo o complexo das torres, olhou para trás a tempo de avistar o momento em que o gato preto saltou para o jardim para combater a mulher possuída pela akuma.
Junto de sua supervisora e do restante dos empregados, contiveram o pânico entre a multidão que de outra maneira acabaria pisoteando uns aos outros. Isso os tomou no mínimo meia hora, e não poderia recusar uma forma de empregar seu tempo. Encontrou de novo a garotinha de uniforme impecável, que mais parecia prestes a chorar. A convivência com Adrien fizera dele, ainda que pouco, mais suave que antes; afagou brevemente o topo da cabeça da criança, embora seu tom se mantivesse sério ao consolá-la.
Dissera que sabia se cuidar, mas estava realmente receoso por ele. E havia mais de um motivo, desde a imprudência com que Chat Noir sempre agia ao defender a cidade até ao nível de periculosidade incomum até mesmo para um inimigo. Sentiu as unhas a arranharem sua carne, enquanto esperava de braços cruzados, porque não havia nada ao seu alcance com que pudesse ajudá-lo. Era tão frustrante.
― Que bonitinho ― ouviu uma voz feminina. ― Ele parece preocupado com você.
Girou o corpo para trás e encontrou a dupla a encará-lo, sentada no topo da escadaria. Chat honrava seu título, agachado sobre as patas como um gato doméstico contente (e, Félix percebeu com alívio, nem nenhum ferimento). Já Ladybug, que mantinha os cotovelos apoiados sobre os joelhos e as mãos em concha sob o rosto, parecia estudá-lo de modo cuidadoso.
― Por que se preocupar se sou o herói mais poderoso dessa cidade? ― questionou ele, convencido ao falar de se si mesmo.
― Talvez porque seja o mais impulsivo também? ― retrucou Félix, ciente de que o conhecia bem.
― Então você deve ser o namorado por quem ele suspira toda hora.
O casal olhou para ela ao mesmo tempo ― as orelhas do felino eriçaram-se e seu rosto adquiriu uma coloração muito próxima do traje da parceira ao ter sua paixonite exposta daquela forma. Ladybug ergueu-se então, rodeando-o como se o examinasse. Não poderia negar que era desconfortável se submeter àquela análise repentina, e estendeu uma das mãos como um cumprimento educado:
― Prazer, Félix.
― É mais antiquado do que eu pensava também ― mencionou ela, embora tenha retribuído o aperto.
― Sinto muito se não atingi suas expectativas. ― Não conteve o sarcasmo desta vez.
― Quantos anos você tem? ― questionou a joaninha, de súbito. E sobrecarregou-o de perguntas, levemente desconfiada: ― Quais são as suas intenções com o Chat? Como vocês se conheceram? O que te levou a se apaixonar por ele?
Deveria ser um padrão entre as figuras femininas mais próximas de Adrien: nenhuma delas o considerava digno (ou o que quer que fosse) numa impressão inicial, mas ao menos Ladybug parecia disposta a rever sua opinião. E foi pensando nisso, porque não estava mesmo interessado em entrar em conflito com aquela que era verdadeiramente a heroína mais poderosa de Paris, que respondeu ao interrogatório improvisado.
Ouviu ela murmurar para si mesma “velho demais” quando disse ter vinte e dois anos, e Chat Noir contestou, afirmando que não era mais uma criança e já tinha dezenove. Reforçou o status do relacionamento dos dois, porque a intenção deles era mútua ao se tornarem namorados. Com poucos detalhes, descreveu como se conheceram em seu apartamento, e o gato corou mais uma vez com alguma lembrança específica. Encerrou, contrariado:
― E preciso mesmo responder a última?
― Tem sim ― requisitou o felino, com um sorriso atrevido. ― Essa eu quero ouvir também.
Foi salvo pelos brincos e anel deles a apitarem, indicando que restava pouco tempo até que a transformação se desfizesse. E pela primeira vez, Ladybug sorriu para o rapaz, satisfeita ao perceber que seus receios eram infundados.
― Foi bom te conhecer, Félix ― reconheceu ela, gentil. Mirou de esguelha o parceiro, com ar condescendente: ― E espero que você faça desse gato bobo muito feliz.
― Entendido, mamãe ― Chat bufou, revirando os olhos. Antes de seguir na direção oposta à dela, avisou ao namorado: ― E você, nem pense em sair daí até eu voltar.
Como se ele sequer cogitasse esta opção, quando passara a última hora apreensivo pela integridade física de alguém impetuoso como Adrien. Era problemático e cansativo lidar com estas circunstâncias, mas valeria a pena se fosse por ele, pensou logo que o namorado surgira mais uma vez, empolgado para alcançá-lo.
― Então, o que achou dela? ― Não deixou de implicar, o sorrisinho travesso a ilustrar suas palavras: ― Continua com ciúmes igual pela Chloé?
O semblante rabugento de Félix era uma resposta evidente, porém tentou expressar a impressão do breve encontro:
― O relacionamento de vocês é mais... fraternal do que eu imaginava. ― Deixou claro também, porque somente Adrien era capaz de conviver com ela: ― E pela Borgeouis só existe desprezo mútuo.
― Então espere até conhecer meu pai ― alertou-o, após uma risada. ― Chloé é fácil de lidar perto dele.
― Quer que eu sinta medo do seu pai? ―O timbre de Félix era completamente cético.
― Você já não sente? ― brincou, bem humorado. ― Deveria.
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