Sadique

11 Teste - Parte I


Notas iniciais
Hmm, olá? Dessa vez, demorei mais do que meu último hiato e eu explico melhor nas notas finais. Eu agradeço demais a todas as mensagens que recebi durante esse período e fico muito feliz com o carinho que vocês tem por essa história. Esse é o décimo primeiro capítulo, e faltam apenas dois depois desse para vocês conferirem o final da história. Boa leitura!

O ruído dos talheres soava irritante de tão alto em meio aquele silêncio. E o silêncio nem ao menos era a pior parte. A atmosfera pesava entre as três pessoas sentadas à mesa em sua sala de jantar, mas para Adrien a impressão era de que somente ele sentia o clima tenso. Afinal, o pai e o namorado agiam com a mesma calma fria durante o que deveria ser o primeiro encontro entre os dois, mas mais parecia ser o centésimo.

Desta vez, nem Nathalie os acompanhava durante a refeição, e eram apenas eles sozinhos no cômodo alto e comprido. Não sabia bem o que pensar da reação do pai à presença de Félix ― Gabriel Agreste não parecera incomodado pelo parceiro de seu filho ser um homem. No entanto, também não recebeu-o de maneira positiva, ainda relutante desde que Adrien contara-lhe a respeito do rapaz e de suas condições, diante da insistência do pai em conhecê-las.

Ao menos não expulsara seu namorado logo que chegara como já fizera diversas vezes, talvez porque vestindo terno e com os cabelos loiros penteados elegantemente para trás Félix exteriorizasse toda a sua conduta responsável. Depois de uma apresentação curta, seguiram logo para o jantar e felizmente o namorado conhecia bem as regras de etiqueta para apaziguar a implicância do senhor de idade.

― Não está com fome, Adrien? ― comentou Gabriel, interrompendo as divagações do filho. ― Mal tocou na comida.

― Eu só estou… um pouco nervoso.

― Por que estaria nervoso? ― Desta vez foi Félix a perguntar. Não era possível que eles não percebessem.

― Hm. Vocês dois são até que parecidos ― comentou, para arrepender-se logo em seguida.

Na verdade, não era aquilo o que queria dizer. Haviam semelhanças entre os dois, mas as diferenças eram tão significativas que mudavam completamente sua percepção a respeito dos dois. Félix permitira a sua aproximação depois de muita insistência, enquanto o pai nunca lhe deu o carinho de que mais precisava desde que a mãe partira. E, ao contrário do pai, o namorado nunca restringiu sua liberdade para “mantê-lo seguro dos males do mundo”.

Os dois também pareceram incomodados demais com a comparação e, mais que nunca, Adrien desaprovou sua bendita mania de abrir a boca. Contudo, Gabriel aproveitou-se da deixa para, enfim, introduzir o assunto que os reunira ali naquela noite de sexta-feira. Inclusive, daquela vez ele até mesmo havia adiado um compromisso para recebê-los naquele horário.

― Pois bem, Félix.

― Sim, senhor Agreste?

― Imagino que Adrien já tenha-lhe dito a respeito dos meus parâmetros com relação a ele ― supôs, educado demais para o tom da conversa.

― Sim, eu soube que sua lista de critérios é bem extensa. ― Era desconfortável ouvi-los com uma cordialidade tão afetada.

― E você acha que encaixa-se entre os requisitos mínimos dessa lista?

― Na verdade, não ― admitiu e a sinceridade soou quase bruta depois de tanta artificialidade.

― Ora, então o que faz aqui nesta mesa?

― Estou aqui porque ele me escolheu.

― Acha que isso basta? ― Gabriel arqueou as sobrancelhas diante do atrevimento.

― Ao menos para ele, sim ― reafirmou a escolha de Adrien. ― Até porque é só a opinião dele que importa.

― Pai ― censurou o jovem. ― Já falamos sobre isso. Nenhum de nós veio aqui para mudar de ideia.

― Corajoso da sua parte assumir que tem algum poder de decisão, meu filho.

Provavelmente com isso pretendia intimidar a Félix assim como intimidava-o. Até porque era ligeiramente constrangedor ser o motivo de uma discussão em família como a que desenrolava-se. No entanto, Gabriel não contava que a resposta do rapaz às tentativas de amedrontá-lo só faziam dele mais seguro e arrogante e, por que não, também abusado, porque conhecia bem o jogo em que estava inserido. Foi categórico ao responder:

― Obviamente ele tem.

― Isto não te diz respeito. ― A voz de Gabriel já denunciava sua indignação. ― Você é tão somente um convidado nesta casa.

― Não nego que não me diga respeito ― concordou, com a mesma paciência de antes. Naquele momento, contudo, ela soava debochada. ― No entanto, também não é algo que se refere ao senhor.

― Oh, agora eu entendo o que viu neste rapaz, Adrien. É tão insubordinado quanto você.

Aquilo era demais. Já assistira o suficiente da discordância entre os dois para permanecer quieto como sempre estivera. E como o apoio de Félix o encheu de coragem, Adrien ergueu-se da cadeira, apoiando as mãos na mesa ao interferir:

― Não sou insubordinado porque não sigo ordens suas. ― Diante da mera insinuação de que o pai iria rebatê-lo, foi muito tranquilo e firme ao insistir: ― Espere eu terminar. Eu sou adulto, inclusive, em pouco tempo, faço 20 anos. Não sou incapaz de tomar minhas próprias decisões ― continuou, para desta vez respirar fundo antes das próximas palavras. ― Você, a mamãe e a Nathalie me educaram durante esses anos para que eu pudesse andar por minhas próprias pernas, não foi? É o que estou fazendo agora.

Para Félix, aquele discurso era a repetição do que já havia ouvido outras tantas vezes, durante todas as vezes que ele ensaiara diante do espelho para transmitir ao pai o que queria fazer e o que o desagradava. Estava muito mais sucinto do que a longa e exagerada primeira versão, mas era eficiente o bastante para deixar a mensagem clara. Não deixou de sentir orgulho, todavia.

Gabriel, para quem as palavras eram inéditas, estava verdadeiramente embasbacado. Acompanhara o processo de amadurecimento do filho ao longo dos anos, mas ao que parecia, havia pulado algumas etapas porque ele nunca soara tão seguro de si e das próprias escolhas. Talvez porque antes ele não soubesse o que escolher e não tivesse como resistir às propostas do pai porque não existia alternativa.

De todo modo, era realmente impressionante o posicionamento maduro dele naquela conversa e, pela primeira vez, o enxergou da maneira com que ele sempre quisera ser visto: como alguém que era capaz de lidar com a própria autonomia. Porém, não era o suficiente, não quando não era apenas por ele que agia daquela forma com seu único filho.

― Uma fala muito independente dada a situação de sua própria mãe ― expressou ao recuperar a compostura.

― Eu sei que sua intenção é me proteger, pai. ― Pelo visto, ele tinha mais a dizer e estava preparado para qualquer réplica sua. ― E fico muito grato por isso. Mas não posso e não vou deixar de viver porque me quer sob uma redoma de vidro.

Antes que pudesse responder, Nathalie entrou pelas portas duplas da sala bem a tempo de ver Adrien de pé, diante do pai e do rapaz que dissera ser seu namorado sentados.

― Senhor Agreste, o grupo acionista deseja o seu parecer a respeito de- Oh, perdão. Estou interrompendo algo?

― Não, Nathalie, o que era para ser discutido já foi dito ― encerrou Gabriel, erguendo-se de seu assento com a postura adequada de sempre. Por alguns segundos, Adrien pensou que ele iria relevar todos os seus argumentos e manter-se irredutível. ― Leve-me até essa reunião, já que eles não são capazes de decidir nada sozinhos. Até meu filho saberia lidar melhor com essa questão. ― E isso arrancou do jovem um sorriso bobo e aliviado. Pouco antes de deixar a sala, o homem virou para trás a cabeça e cumprimentou: ― Oh, prazer em conhecê-lo, Félix.

― O prazer é meu. ― Até mesmo Félix tinha um sorriso no rosto. Mínimo, mas um sorriso.

E foi ele quem rompeu o silêncio que seguiu-se:

― Como vai ser quando disser para ele que pretende morar sozinho em alguns meses?

― Vou deixar que a poeira abaixe para não traumatizá-lo de uma vez ― Adrien murmurou baixinho, talvez com medo de que ele retornasse. Isso seria impossível de explicar com apenas uma conversa. ― E ele já deveria esperar por algo do tipo. Até porque é incoerente exigir autonomia plena estando aqui.

― E quase 20? ― Havia alguma diversão em seu tom. ― Não me avisou que seu aniversário estava próximo.

― Você também nunca contou o seu ― contestou e mostrou-lhe a língua brevemente.

― Que maduro da sua parte.

― Espere até ver o meow quarto.

Depois da refeição, foram até o cômodo cujo tamanho equivalia ao do apartamento do bibliotecário. Mantinha-se quase igual ao que era desde a infância, com algumas reduções necessárias com avanço da idade, como a ausência de brinquedos e o acréscimo de mais roupas e premiações conforme a carreira de modelo progrediu.

Pôde mostrar ao namorado a coleção invejável de Bluray’s, os quais em sua maioria eram de animação japonesa. Como Félix descobrira (e já vinha supondo fazia um bom tempo), o jovem era o tipo de otaku que passava madrugadas assistindo animes, contrariando as recomendações de dormir bem todos os dias.

Realmente, muito maduro.

― Não me diga que você tem um dakimakura também.

― Olha só, você até conhece o nome ― brincou e agradeceu por ter escondido os piores pôsteres no armário. ― E tenho, sim. Um do Ikuto.

― Está me dizendo que você tem um travesseiro em tamanho real de um personagem que também se transforma magicamente em um gato? ― Félix não se aguentou e deixou escapar uma risada.

E como era lindo ao cobrir a boca para esconder a gargalhada!

― Eu deveria ficar muito ofendido por você zombar de mim, logo na primeira vez em que te trouxe aqui. ― Nem ao menos conseguiu fingir estar chateado, com um sorriso bem largo no rosto. ― Mas o som da sua risada é tão gostoso de ouvir…

― Eu também adoro te ver feliz.

Acompanhado das palavras suaves, fez um carinho na bochecha de Adrien, erguendo levemente o queixo dele para encarar seus olhos, devido a diferença de altura entre os dois. O jovem recebeu bem o gesto, inclinando a cabeça para esfregar-se contra as mãos que já eram-lhe tão familiares.

― Incluindo meus trocadilhos? ― perguntou, esperançoso.

― Aí você já está pedindo demais…

Ao mesmo tempo, um esticou-se um tantinho enquanto o outro baixou o rosto, para que assim os lábios pudessem encontrar-se à mesma altura. Compartilharam um beijo tão doce quanto a sobremesa que haviam acabado de comer e a mão que o acariciara continuou a roçar em círculos lentos pela pele bronzeada do rosto do modelo.

Afastaram-se depois de provarem do sabor um do outro, mas era muito pouco perto das intenções reais dos dois. Por sorte, teriam ainda o resto da noite juntos quando Adrien o visitaria como sempre fez e foi pensando nisso que conseguiram manter-se minimamente distantes da boca um do outro, para que ninguém os apanhasse em uma situação íntima.

― Mas quando eu vou conhecer sua irmã? ― questionou mais para distrair-se da vontade de, como um gato, sentar no colo dele, pedir por carinho e ronronar.

― Vocês já se falaram por telefone.

Como podia esquecer? Afinal, havia sido difícil lidar com os dois contando os seus podres um para o outro, como se fossem dois velhos fofoqueiros. Fleur, como já era o esperado, adorou o jovem e apegou-se a ele muito rápido, e Adrien parecia mais que disposto a aceitá-la também.

― Quero dizer pessoalmente.

― Não sei dizer, mas hoje Fleur pretende me ligar. ― Adrien fez um bico, porque sabia o que isso significava. ― Vai ter que dividir minha atenção com ela, seu mimado.

A ideia veio-lhe de repente.

― Na verdade, pensei em uma maneira de compartilhar a sua atenção entre os dois ― disse em tom conspiratório e o sorriso em seu rosto era muito perigoso.

***

― As coisas continuam as mesmas desde a última vez que você entrou em contato ― informou ao celular, pouco além da impassibilidade costumeira ao conversar com a irmã. ― Não, eu não adoeci. Sim, estou comendo direito.

De sua posição, Adrien remexeu-se o mais quieto possível para não atrapalhá-lo. Seguia com os olhos o namorado que andava de um lado para o outro do quarto. Tentava não esboçar nenhuma reação, mas estava tão difícil...

― E como vai você? Só pergunta de mim e não me diz como está.

Adrien contorceu-se um pouco mais e, pela primeira vez desde o início da ligação, Félix encarou a figura sentada sobre os calcanhares no chão. Bastou um breve olhar de aviso para que o jovem enrijecesse o corpo e se empenhasse ao máximo para não emitir nenhum ruído, por mais baixo que fosse.

Seria mais fácil se estivesse amordaçado ― mas isso seria fácil demais. Devia então morder os lábios para impedir-se de falar. Ou de gemer. Até que estava indo bem na tarefa, apesar de todos os inconvenientes. Como os braços algemados por trás de suas costas e a mesma coleira que usara da última vez. Ou ainda o plug anal, cujo controle estava nas mãos de Félix, com intensidade definida entre o baixo e intermediário.

Era tão, tão gostoso que nem ao menos conseguia distinguir o que ele falava, porque estava concentrado demais no próprio prazer. Em algum momento, o rapaz aumentou a velocidade remotamente e Adrien apertou também os olhos para não entregar sua presença.

― Oh, o Adrien? ― Ouviu seu nome ser chamado. ― Hoje não está aqui.

Foi por pouco ― muito pouco ― que não denunciou que aquilo era uma mentira, ao sentir o peso e a aspereza de um calçado sobre sua coxa direita. Ao abrir de novo os olhos, percebeu que seu senhor o encarava, à espera de algum sinal de obediência. Manteve os lábios unidos um outro e recebeu um aceno positivo de cabeça.

― Ocorreu um imprevisto e ele não pôde vir.

Félix pisou mais forte contra sua pele nua, olhando-o de cima com toda a certeza da autoridade que tinha. Não conseguiu controlar um breve suspiro de sua boca que entreabrira-se com o contato ríspido e, de alguma maneira, ele usou isso como justificativa para aplicar ainda mais força.

― Ele está ótimo. ― Ah, como ele degustara da palavra, assim como do sofrimento sexual do submisso. ― E aviso a ele, sim.

Depois de ajustar o controle para a intensidade máxima, Félix jogou-o na cama e apertou o punho contra a guia que também segurava. Num puxão firme, ergueu o corpo de Adrien até que estivesse de joelhos. Ao mesmo tempo, o modelo mal aguentava-se de tanto estímulo. A vibração por dentro fez com que revirasse os olhos de prazer e o rapaz pareceu muito satisfeito ao assisti-lo enquanto domava os instintos de gritar e esfregar-se em qualquer superfície até alcançar um orgasmo.

― Ele também está muito ansioso para falar com você ― avisou em um tom tranquilo, como se não estivesse torturando alguém enquanto conversava ao telefone.

Adrien já mal reprimia os gemidos súplicas por mais até que conseguisse o que queria.

― Até mais, Fleur.

Félix despediu-se enquanto olhava para baixo, bem dentro dos olhos verdes que acumulavam desejos sujos. Encarou o namorado muito satisfeito com o resultado: até a respiração descompassada ele tentou conter e, como o bom menino que era, não deixou escapar um ruído que fosse que os denunciasse. Estava sem fôlego, de bochechas ruborizadas, lábios inchados de tanto mordê-los e mais que tudo, ansioso para que o recompensasse. Estava lindo o bastante para ser fotografado, mas deixaria essa para a próxima se tivesse a permissão dele.

― Adrien ― disse do modo mais obsceno possível e Adrien não mais refreou os sons igualmente obscenos de deixarem sua boca. ― Não é indecente da sua parte estar desse jeito enquanto eu falo com minha irmã? E foi você quem pediu por isso.

Provocou-o ao puxá-lo mais pela coleira, ao que o jovem respondeu com mais gemidos necessitados. Todas as vezes em que tentava emitir algo além daqueles sons tão excitantes, acabava entregando-se mais às tentações. Inclusive, seu volume estava muito longe da quietude de antes.

― Parece que você quer dizer alguma coisa.

― Me fode, por favor ― Adrien implorou, sôfrego.

― Que boca imunda você tem, gatinho. ― Mas como dizer não diante de um pedido daqueles?

Notas finais
Espero que tenham gostado do encontro épico (...não) depois de tanto tempo. Mas, enfim, nesse meio tempo eu consegui me formar na faculdade no final de 2017, mas desde então me mantive afastada do fandom de MLB porque algumas declarações infelizes do diretor, Thomas Astruc, me deixaram chateada. Aí, não me senti confortável nem para assistir o desenho (se vi dois episódios da segunda temporada, foi muita coisa) e muito menos para escrever. MAS eu não queria deixar essa fic incompleta, e agora que encontrei motivação suficiente, vou levar ela até o final. A ideia inicial seriam 12 capítulos, mas serão 13 por conta da ligação desse número com o símbolo de azar e gatos pretos. Até a próxima!