Sadgirl

2 chuv e sangue...


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Lá fora, a chuva começa a cair, forte e devastadora.

Como lágrimas de dor e ódio, ela pensa.

Lá dentro, ela está sentada em sua cadeira, o caderno pousado sobre a mesa.

Sozinha, no claro-escuro da sala, há tanta coisa a ser escrita, mas nada sai.

Pega a caneta, encosta a ponta no papel, nada sai, então volta a descansar a caneta sobre a mesa.

Olha para os vários rostos espalhados pela sala, o mais recente, ainda está no canto das bonecas, seus olhos verdes que começam a perder o brilho, continuam fitando o tudo e o nada. A maquiagem começou a desbotar, dando uma aparência triste ao seu rosto, agora, parecia só uma boneca suja e velha, logo teria de ser substituído.

Volta a encarar a folha em branco sobre a mesa, nada sai.

Fecha os olhos e se concentra no barulho da chuva, que parece cair cada vez mais forte la fora. Como lágrimas de dor e ódio.

Abre os olhos lentamente, olha pra baixo, fica um tempo encarando a gaveta fechada, abre-a, pega a adaga de prata, ergue-a na altura de seus olhos, examina a lâmina por algum tempo, como é linda, logo estará dançando novamente.

Guarda o punhal na gaveta, a cada minuto, seus pensamentos vão se tornando mais lentos, levanta, olha pela janela, admira a chuva, de repente, uma lagrima escorre pelo seu rosto, no vidro, o reflexo da lágrima, cai acompanhando um pingo de chuva.

Dor e ódio

Ela corre pra fora, em direção à chuva, sente a água batendo em seus rosto, escorrendo, molhando seu corpo, fica algum tempo parada, de olhos fechados, sentindo a chuva, então se deita no chão.

Ficou imóvel por um breve momento. Trovejava forte, e a noite ficava azul com os relâmpagos que acendiam vez ou outra, dizem que é perigoso ficar exposto assim, e que esses raios podem matar se você for atingido, mas ela não se sentia tão sortuda a ponto de ser morta, não, ela não tinha essa sorte.

E pensando na sorte foi que riu, um riso histérico que brotou no fundo do estomago e subiu pela garganta dolorido, e foi a dor que fez com que chorasse amargamente, e as lágrimas faziam cócegas, então ria, e chorava, chorava e ria, dobrando-se e contorcendo-se pela dor e pela alegria, ali, no chão, na chuva, sendo iluminada pelos raios, e ouvindo os trovões ensurdecedores.

Derepente a seriedade voltou ao seu rosto, e o riso e o choro, sumiram, como se sempre tivessem sido limitados, como se fossem um fio que fora cortado por uma tesoura derepente.

Levantou-se, entrou em casa, pegou na adaga parando um momento para admirar a lâmina, enfim seu “logo” chegou, e já é hora de pôr-se a dançar novamente, então sorriu, seu riso de criança, que inocente, esconde o brinquedo na mochila, no seu caso, na bolsa, pega o guarda chuva, calça as botas, e sai.

Anda, sem se preocupar com o “Onde”, inconscientemente, os pés já sabem onde ir, a rua está vazia, e a noite molhada traz um sentimento bom, uma sensação cresce nela, deixando-a excitada e já consegue sentir o cheiro do sangue, sente vontade de rir, como se algo invisível enchesse-a de cosquinhas, nada incontrolável, só, bom.

Para em frente a uma casa, olha um pouco, certeza, atravessa a rua, há um portão trancado, baixo, pula-o silenciosamente, caindo no quintal como um gato, nada que carrega a incomoda, é como se tudo já fizesse mesmo parte dela, vai até uma janela, do lado direito da casa, olha por ela, e la está ele, deitado na cama, olhando o tic-tac, ouvindo-o como se esperasse algo do mesmo, já esteve ali muitas vezes, já o vira admirando o tic-tac muitas vezes, olhando o vazio do teto, como se esperasse que algo caísse de lá, talvez a felicidade, talvez algum sentimento, ou só, qualquer coisa que fizesse alguma diferença.

Ela vai até o lado esquerdo da casa, outro cômodo, outro quarto, a janela está encostada, ela abre silenciosamente, e pula para dentro, com a mesma graça e agilidade com que pulou o portão, tira as botas, e coloca o par junto, embaixo da cama, com os canos empinados encostados na lateral e a bolsa em cima da cama, tirando somente a adaga, e uma proteção, enfia a adaga na proteção e a prende na perna por baixo da saia e vai para outro quarto.

Quando encosta na porta, o homem senta na cama, com um susto, não esperava nem um ruído além do barulho da chuva, não esperava ela, encostada em sua porta, e não esperava ela, vindo em sua direção em silêncio levantou-se, e antes que pudesse terminar de gaguejar, um beijo, também inesperado, fez com que esquecesse o que tentava perguntar, então, não conseguiu tentar dizer nada, talvez, aquilo que ele esperava, enfim tivesse chegado, não do teto, mas sim da porta, não importava, importava, que ela estava la.

Eles se abraçaram e se beijaram, encostavam em um móvel ou outro, derrubando uma coisa ou outra, até que acharam a cama novamente, rapidamente, ela ficou por cima, distraindo, enquanto automaticamente, tirava a tira da perna, e colocava a adaga atrás dele.

E ele a puxava pra si, e o corpo dela se camuflava no dele, e eles se amavam, não, ele a amava, talvez ela também o amasse, mas sabia que isso ia passar logo, o amor, é um sentimento eterno que só dura cinco minutos verdadeiros.

Então, chegou a hora, ela respirou fundo, pegou a adaga, e num segundo, sentia o quente-gelado do sangue, escorrendo pelo corpo dele, passando pelo corpo dela, molhando, encharcando e tornando os lençóis brancos, vermelhos, riu, A morte tem essa cor, e admirou o vermelho se estendendo ao seu redor.

Deitou o corpo na cama, e fez a sua arte, o sangue ainda escorria, sujando mais os lençóis, deixando-os cada vez mais vermelhos, agora são mais bonitos, ela sorria, como uma criança que brinca com uma hidrocor, ele é o papel, e a lâmina é a caneta.

Limpou o corpo, os lençóis ela deixou como estavam, dava um ar mais bonito, o quarto ficava mais alegre assim, não gostava daquele tom branco hospitalar. Foi pro banheiro e se lavou, depois foi até o outro quarto, vestiu as roupas, e pegou a bolsa, foi até o quarto onde estava o corpo, este, ganhara um sorriso vermelho, que combinava com os lençóis, admirou, uma pena que não poderia acompanha-la até em casa, realmente, uma pena que não posso levar você pra casa, minhas bonecas iam gostar de você. E então, seu riso inocente e infantil volta, ela saltita feliz até o outro quarto, calça as botas, e sai pela mesma janela, já não sente dor, e até a chuva parece rir, lágrimas de alegria.

Então ela volta pra casa, entra, guarda o punhal na gaveta, olha novamente a chuva na janela, sim, está mais feliz agora, já não troveja, nem relâmpeia, só, chove. Lágrimas de alegria, então volta a se sentar na cadeira, esta chuva é boa pra se escrever, fecha os olhos, respira fundo, pega a caneta, abre os olhos, e põem-se a escrever, agora se sente inspirada, mais feliz, ela ri, e a chuva ri com ela.

Agora, ela se sente bem.

Por enquanto…