Sadgirl
3 Ele...
Enfim sábado, não que os sábados fizessem alguma diferença, mas aquele sábado particularmente, ela esperara com certa excitação, o coração já saltava mais ansioso.
Já é a noite do sábado querida amiga, já é a hora de sair da gaveta...
O brilho da lâmina lhe deu a quase certeza de que, se fosse viva, a adaga estaria tão feliz quanto ela própria, animada por finalmente poder sair da gaveta e dançar sobre um corpo novamente.
Guardou a adaga na bolsa, junto com a maquiagem e foi se arrumar.
Botas, sobretudo, uma presilha com uma flor vinho, não muito grande, nem muito chamativa, só o suficiente para chamar a atenção de quem queria.
Olhou para o canto das bonecas, sentiu um certo vazio, ele já não estava mais lá, teve que se livrar do corpo, já havia perdido o brilho, a maquiagem estava aos poucos, desbotando e o mau cheiro logo se tornaria perceptível, já não lhe valia mais, então, livrou-se dele.
Mas chegariam outros... Ela sorriu com a idéia e saiu.
Entrou no carro e só então, percebeu que ainda era tão cedo, mal havia começado a escurecer, saiu mesmo assim, deu uma volta, e depois tomou o caminho mais longo que conhecia para o Desmoulins, não adiantou muita coisa, quando chegou, a casa ainda estava vazia, só algumas pessoas, adolescentes histéricos de riso estridente, que provavelmente estavam indo passar a primeira noite fora sem a supervisão dos pais. Sentou-se numa mesa, não muito colada ao palco, não muito distante, algumas fileiras antes do centro, na horizontal, mas exatamente no centro da vertical, era a mesa perfeita.
O Desmoulins não era bem um lugar que pudesse ser definido, não era um bar, nem uma casa de show, nem um festival na verdade, mas era o lugar em que ela chegava mais perto de se sentir confortável.
Uma iluminação baixa, bem puxada para o dourado, mesas arredondadas eram dispostas pelo grande salão, de maneira que, facilitava a circulação tanto do publico, quanto dos garçons, quanto dos artistas que, vez ou outra, desciam do palco e dançavam entre as mesas. As mesas eram cobertas por toalhas, tecidas com fios levemente dourados, que combinavam com a decoração do lugar, faixas pendiam do teto e uma grande lareira, de aproximadamente um metro de altura, que contornava todo o salão, pulando a parte do palco e da porta, esse era o Desmoulins.
Ela gostava daquela lareira, o fogo a encantava sempre, por isso, é que aquele sábado a atraíra um pouco mais q o normal ao Desmoulins. Ela sabia que naquele sábado, ele com certeza estaria lá.
O Desmoulins não era diferenciado só pelo ambiente, mas também pelo cardápio de apresentações, que não seguia um padrão, e variava em mais de cem artistas diferentes num único mês, era como um grande circo, que não mudava de lugar, tinha mais artistas e apresentações, e não parecia em nada com um picadeiro.
Ela ficou ali sentada, esperando o show começar, observando as chamas da lareira, fixamente, apesar do tamanho, a lareira não deixava o salão tão quente, o ar condicionado tornava tudo mais equilibrado, e nas noites de muito calor, os shows recebiam um toque tropical especial, e a lareira, um fogo azulado artificial.
Ela aproveitou o pouco movimento, para retirar a adaga da bolsa, e passar para um bolso de couro, costurado por ela mesma, dentro da bota.
Aos poucos, a casa foi enchendo, e em torno de duas horas, o palco já estava completamente pronto para receber os primeiros artistas, um grupo de odaliscas com roupas coloridas e medalhinhas penduradas nas barras das saias e nos cabelos, dançavam em volta de uma fogueira artificial montada no centro do palco, uma música de ritmo macabro, desciam do palco, contornavam o salão, e subiam ao palco novamente.
Depois do show, alguns minutos de espera, enquanto arrumavam o palco para a próxima apresentação, uma banda tocava em um palco alternativo.
Então começou a segunda apresentação, um intervalo, terceira apresentação, outro intervalo, quarta apresentação, intervalo...
Então o palco foi invadido por duas grandes chamas, vindas das laterais, se encontrando no centro, esse, era o show esperado.
Ela observou bem, um por um dos dançarinos, procurando aquele que havia escolhido há tempos atrás, quando o achou, fixou-lhe o olhar, e gravou cada detalhe, ele reparou na maneira como ela olhava, retribuiu algumas vezes, e assim o show passou, os dançarinos subiam e desciam as escadas, soprando as tochas, aumentando as chamas, fazendo-as parecer aterrorizantes e dominadoras, às vezes, algumas pessoas se assustavam, e algumas adolescentes davam gritinhos e pulinhos quando um deles soprava e passava perto delas, ela nem se mexeu quando ele veio em sua direção, soprando uma chama que passou rente ao seu rosto, a isto, respondeu levantando uma taça de vinho calmamente, fechou os olhos, e saboreou um único gole,sentindo o calor do fogo perto dela, e ele dançava em volta dela, tentando arrancar algum tipo de reação, ela nem se movia, olhava fixamente as chamas, como se estivesse hipnotizada. Ele deu um beijo rápido em seu pescoço, que a pegou de surpresa, antes de subir rapidamente ao palco e finalizar o show, todos os dançarinos reunidos no palco, formando um circulo, e no ultimo segundo, todos juntos, soprando o fogo para cima, e para o meio da roda, fazendo as chamas colidirem e se espalharem, cobrindo o palco. E saíram.
Depois disso, mais um intervalo, depois de alguns goles de vinho, ela já estava completamente recuperada, seu coração, antes acelerado pelo susto, agora batia no ritmo da música suave que tocava no palco alternativo.
Pouco antes do termino do intervalo, um homem, sentou-se a sua mesa, sorriu pra ela, chamou o garçom e pediu um pouco de vinho, ela assistiu tudo em silêncio, sem esboçar nenhuma reação, ele era uma pessoa interessante, ela sabia, já haviam passado por isso antes, ela estreitou os olhos, tomou mais um gole de vinho, pôs a taça sobre a mesa, tombou a cabeça levemente, encarando-o, todos os movimentos, lentos e pausados, cada detalhe, de cada segundo, saboreado atentamente.
O vinho chegou, ele bebeu um primeiro gole, vagarosamente, depois virou a taça e bebeu todo o resto de uma vez só, daí pôs a taça sobre a mesa e imitou-a, tombando a cabeça, estreitando os olhos, encarando-a, assim ficaram, ela não soube quanto tempo, até que finalmente cedeu e sorriu um sorriso largo, seguido de uma gargalhada rápida, então ele também sorriu, e começaram a conversar e a beber como velhos amigos, que não se viam há muito tempo, assistiram aos outros shows e conversaram mais nos intervalos, contando todos os problemas, e medos, e rindo deles.
Depois do último show, era de costume do Desmoulins, algumas horas de música e dança livre, de tema aleatório, diferente a cada sábado, o público invadia a pista e os palcos, e dançava até a hora de fechar.
Ele a puxou para a pista, eles dançaram, ele pôs a mão direita em sua nuca, a esquerda em sua cintura, e a puxou num abraço apertado, beijando-a com a delicada euforia que, aos poucos, ia se tornando recíproca.
Fora do Desmoulins caía uma chuva terrivelmente forte, as pessoas corriam para os carros, ou para o abrigo de algum ponto de ônibus ou loja para esperar cessar, eles não ligavam para a chuva, caíssem raios e trovões, e eles gostava, tanto quanto ela.
Sem perceber, ela caminhou com ele na chuva, às vezes ele parava derepente e a beijava, ela já não relutava mais, e ela não viu quando ou como, chegara na casa dele.
Meia-luz, uma lareira, uma mesa de madeira, com um abajur, um caderno, uma caneta e um...Isqueiro? Um sofá e duas poltronas azuis, com um criado ao lado de cada poltrona, e um abajur em cada criado, um livro em cima de um dos criados, “fogo e sangue, arte de matar” em cima de um dos criados, dispostos, criados, poltronas e sofá, em volta de um tapete preto e azul, o tapete na frente da lareira, e em cima da lareira, uma coleção de doze isqueiros prateados, encaixados em quadradinhos feitos no cimento, faziam parte da decoração da sala.
Ela se sentou em uma das poltronas, o corpo frio, logo começou a se aquecer, ele trouxe duas canecas com chocolate quente, lhe entregou uma, e se sentou no tapete, de frente pra ela, segurando a outra.
Ela bebeu o líquido, queimando de leve a ponta da língua, sentindo ele descer esquentando a garganta, já não estava mais com frio, mas as roupas ainda estavam úmidas, então ela as tirou.
Ajoelhou-se na frente da lareira, pra se aquecer, ele a abraçou por trás, passando a mão em seus ombros, e dando um beijo de leve na nuca dela, passando para o lado direito do pescoço, ela encarava as chamas fixamente, como se não percebesse o que ele queria, então, ele resolveu chamar sua atenção de outra forma, levantou-se, foi até a cozinha, voltou com um copo de água, pegou um dos isqueiros de cima da lareira, ela continuava observando o fogo, as chamas dançando hipnotizadoramente, ele a abraçou de novo, o corpo dela estava muito quente agora, por ficar tão perto do fogo, ele enrolou uma das mãos no cabelo dela e puxou pra trás, com certa violência e, enquanto beijava delicadamente o pescoço dela, pegou o copo e deixou a água cair devagar, passando entre os seios, descendo pela barriga, molhando um pouco a calça, e por fim, se acumulando numa pequena poça no tapete, então rapidamente ele pegou o isqueiro e deixou que a chama pulasse no laço que pendia do sutiã, arrebentando e consumindo as ligações, uma a uma, então ele molhou a palma da mão na pequena poça, e pousou de leve sobre a chama, apagando-a, com o calor da chama queimando de leve a pele, ela despertou, tirou a adaga da bota, e passou a lâmina com agilidade, abrindo um corte superficial na mão pousada sobre seu peito, com o susto, ele levantou de um salto, com o isqueiro na mão, ela também levantou, tão rápido quanto ele, agora de costas para a lareira, armada como um gato acuado, os olhos estreitos, encarando os dele, adaga apertada na mão dela, como o isqueiro na mão dele, o sutiã arrebentado caído no chão, a sombra de sua silhueta, desenhada no corpo dele pelas chamas que dançavam agitadas atrás dela.
Novamente, ela não soube quanto tempo, ficaram ali parados se encarando, não soube a que momento ele a agarrou pelo pulso, não percebeu quando a adaga e o isqueiro caíram no chão...
Algumas horas depois, acordou nos braços dele, deitada sobre o tapete, encostados no pé do sofá, ele ainda dormia, ela foi até a janela, abriu o vidro e se debruçou no peitoril, o sol começava a nascer, uma brisa leve beijou seu rosto e fez as cortinas dançarem em suas costas, ela fechou os olhos, e respirou fundo, fechou a janela, e ficou de costas pra ela, analisando a sala detalhadamente, pegou as canecas da noite anterior, levou-as para a cozinha, voltou com uma caneca limpa, cheia de chocolate bem quente, e deixou em cima do criado, foi até a mesa, arrancou uma página do caderno, sem fazer barulho, escreveu, dobrou a folha, assinou, e colocou sob a caneca.
Vestiu a roupa, bem, as que ele não queimou, isso era, o sobretudo e as botas, pegou a adaga e o isqueiro, limpou a adaga e guardou os dois na bolsa, passou a mão de leve no cabelo dele, e saiu...
Quando ele acordou, ela já não estava mais em seus braços, o isqueiro e a adaga haviam sumido, o chocolate ainda estava quente, ele bebeu um gole, pegou o papel e leu, riu, foi até a janela, avistou uma figura de sobretudo e botas caminhando na direção do Desmoulins, ele sorriu, admirou a silhueta contra o sol nascente por alguns segundos, deu as costas para a janela, sentou-se na poltrona, bebeu mais um gole do chocolate, leu novamente o que ela havia escrito, um trecho respondendo o que ele havia perguntado a ela da ultima vez que estiveram juntos...
Se eles voltariam a se ver, nem mesmo O Autor ou O escritor sabiam...
Ele fechou os olhos e respirou fundo, não queria deixá-la ir, não queria deixá-la sair dali nunca, queria tê-la em seus braços para sempre, mas sabia que ela não podia ficar, e a incerteza de sua presença o excitava, ele era O Autor, mas quem escrevia era ela, ele queria vê-la, mas se ela o veria... Nem mesmo ele, nem mesmo ela sabia...
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