Sadgirl
4 BURN!
Deitada no chão, admirando o teto.
Cega pega luz branca do lustre pendurado no centro, parecia tão perto, parecia que se esticasse um pouco a língua, conseguiria tocar a lâmpadazinha, que saia do centro do lustre se destacando das outras. Sem calcular a distância entre o lustre pendurado no teto, e ela deitada no chão, ela estica a língua numa tentativa vã, sem muito esforço, de encostar a ponta na lâmpada quente. Isso não é divertido. E ela quer se divertir, está cansada daquele tédio da sala, daqueles móveis sempre iguais, daquele lustre chato, daquela mesa linda, daquelas bonecas pintadas, daqueles quadros e daquelas esculturas, estava cansada de brincar na sala.
Respira fundo, enquanto, numa piscada longa, ergue o tronco elasticamente, fica sentada como uma boneca no chão, uma boneca entediada, encarando as outras bonecas, elas se olhavam nos olhos, os olhos das bonecas eram castanhos e pretos, lágrimas vermelhas, secas, que escorreram nas faces de porcelana borrando a maquiagem antes de secar, algumas tinham maquiagem desbotada, não importava, elas eram lindas. Mas onde estava sua boneca? Ela tivera que se livrar dele há algumas semanas atrás. Semanas... já fazia tanto tempo. Levantou-se e foi até a mesa, do lado do caderno, como sempre, uma caneta, abaixo deles, a gaveta onde a amiga repousava, junto com a amiga, o isqueiro de prata, ela abriu a gaveta, pegou o isqueiro, passando o dedo indicador sobre ele, analisando os detalhes entalhados na prata, lembrando dele, imagens vieram a sua mente, uma lareira, o leve cheiro das suas roupas queimando, o cheirinho do chocolate invadindo a casa, o cheiro do sangue, escorrendo do corte que ela abrira provocante na mão dele, e as sensações, a entorpecência, o desejo, o prazer e a alegria, de simplesmente, estar abraçada com ele... Daí ela acordou. Se sentir em casa, se sentir confortável com alguém, não era um privilégio favorecido a ela, ela chorou, a mente dividida entre o “voltar correndo para os braços dele” e o “sair dali naquele exato momento e nunca mais voltar”.
Ela precisava de uma distração.
Devolveu o isqueiro à gaveta, pegou a adaga e, com agilidade, atirou-a na porta, onde a amiga repousou após o leve chacoalhar do impacto da ponta enterrando na madeira. Passou a mão na borda da mesa, distraída, enquanto olhava para a maquiagem organizada em cima de um lenço, lembrou-se da sua boneca, e do tic-tac, e derepente sem se dar conta, a mente voltou-se novamente para o isqueiro.
Ela precisava de uma distração.
Então, foi enquanto que admirando a maquiagem sobre a mesa, ouvindo a voz da amiga adaga, gritando e vibrando na porta, que ela teve uma grande idéia.
Noites de sexta, merecem um bom vinho...
A água escorria pelo corpo, caia e batia no chão, fazendo um barulho gostoso, deixava ela mais calma, depois, aquilo de sempre, se vestir, arrumar a bolsa, qual batom será que ela usaria hoje? Antes de sair, arrancou a amiga adaga da porta, desceu até o porão, o cheiro do vinho adocicava o ambiente por ali, os barris entalhados, enfileirados, tombados, encostados na parede de um lado, do outro, uma grande prateleira, com garrafas de vinho sobrepostas, que provavelmente nem fora ela quem organizou. No centro, encostada na parede do fundo, uma mesa, onde ela colocou de forma simétrica, uma garrafa de vinho, duas taças, e a adaga, um lenço preto, e um castiçal, uma caixa de fósforos, e um pacotinho de velas.
Completando o cenário no porão, do lado oposto à mesa, uma poltrona preta, larga, reclinável, ao lado da escada, virada para o interior do cômodo, ao lado da poltrona, um criado alto de madeira.
Subiu as escadas, pegou a bolsa e saiu.
Dentro do carro, fechou os olhos, pensou um pouco e sorriu, o lugar é perfeito. Ele estaria lá.
Vinho caseiro e barato. Se você fosse um bom degustador, ou pelo menos soubesse como se aprecia um bom vinho, o Castelluche não serviria sequer para entrar como “o último da lista”. Música alta, gente feliz e bêbada, dançando sobre um palco de madeira que parecia querer ceder a qualquer momento, uma adega que produzia todo o tipo de vinho, com água na mistura pra render, paredes e tetos de madeira, aqui ou ali, ocos por cupins, o único detalhe mais arrojado, era o barril gigante que ficava no meio do salão, onde as pessoas podiam entrar e sentar numa das dez mesas espalhadas no centro do grande barril, foi de lá que ela escolheu observar.
Algumas horas depois e alguns minutos antes, ela escolheu. Estava estampado em seu rosto e, com alguns minutos de conversa, ela teria certeza.
E ela teve.
Em alguns minutos, aquela pobre criatura fizera jus aos seus olhos irritantemente verdes, avermelhados ao redor da íris pela bebida, tristes e perdidos, com aquele brilho da ponta de esperança que ela logo apagaria.
Ficou por ali conversado com ele, esperando um momento oportuno, não é tão difícil convencer esse tipo de gente, uma carinha fofa, um sorrisinho meigo e o jeito certo de falar, já bastam para que, em alguns minutos, ele vá parar no seu carro e, conseqüentemente no seu porão, baforejando aquele cheiro nojento de vinho barato no seu pescoço.
Sentado na poltrona, bêbado, falando asneiras, palavrões e outras coisas sujas, enquanto ela estava de costas pra ele, os olhos fechados, homem sujo, tentava se acalmar, porco sujo fedorento, a mão direita a centímetros da adaga, porco sujo imundo, chamando ela, convidando-a para uma “noitada”, porco sujo nojento, ela podia até sentir a mão nojenta dele passando pelo seu corpo, acariciando seu cabelo, não era ele que ela queria, sentia as mãos desajeitadas de bêbado dele, puxando e machucando o corpo dela, foi tomada pela raiva, o ódio, o nojo...PORCO IMUNDO NOJENTO!
A adaga atravessou o porão, voando certeira na direção do coração dele, atravessando o peito, fazendo escorrer o cheiro doce, encharcando a camisa, disfarçando sutilmente, o cheiro da bebida.
Calado...
De fato, calado ele agradava bem mais, ela concluiu, sentando na mesa.
Fechou os olhos, o silêncio é muito agradável às vezes, o cheiro doce do sangue fez com que se lembrasse do vinho, não seria adequado desperdiça-lo, mas agora a amiga lâmina a convidava para brincar, e ela não podia recusar o convite.
Subiu as escadas, pegou a bolsa que estava na sala, desceu e começou a brincar.
Como sempre, a lâmina fizera um ótimo trabalho, e a maquiagem ficara muito bem feita, ele quase poderia ser confundido com a última boneca, a diferença era simples e sutil, os olhos, o outro tinha os olhos mais claros e brilhantes, mas com o sorriso, os olhos perdiam um terço de sua importância.
Ainda com o batom na mão, admirou sua arte, de fato, ficara muito bem feito, o sangue fresco ainda escorria pela pele, sujando um pouco, mas depois de limpo com certeza ficaria ótimo, a maquiagem ficara perfeita.
Enquanto admirava sua obra, lembrou-se do vinho que a esperava sobre a mesa, deixou a adaga e o batom com a bolsa em cima do criado, foi até a mesa, pegou o vinho e encheu uma taça, experimentou o vinho e então olhou para outra taça vazia, e se sentiu tão vazia quanto ela, ela queria que a outra taça estivesse cheia, queria que ele estivesse ali, ou melhor, queria estar lá, com ele, era lá que ela se sentia bem, era lá que ela se sentia em casa, era com ele que ele que ela queria estar.
E a raiva a tomou de novo, o ódio e a frustração foram crescendo dentro de si, ela olhou pro corpo sentado na poltrona, e de repente ele já não parecia mais tão bonito, não passava de uma boneca imunda, ela caminhou até ele num impulso enfurecido e bateu com a boca da taça na cabeça dele, o vinho desceu molhando os cabelos, descendo como fios pelo rosto, borrando a maquiagem, por um instante, ele pareceu chorar, lágrimas de sangue...
Ao ver sua obra derretendo, a raiva que já não era pouca, tornou-se maior ainda, a ponto de se tornar insuportável, ela cravou os dedos no cabelo dele e arrastou o corpo, degraus acima, até a sala, jogou-o no canto das bonecas, e lá ele ficou, já não se assemelhava ao outro, parecia só mais uma boneca, mesmo sendo novo, já parecia velha e surrada, como as outras.
De frente para as bonecas, ela foi se agachando até encostar no chão, os cotovelos apoiados nos joelhos, olhou pra elas, olhou pra ele jogado entre elas, a raiva foi diminuindo aos poucos, enquanto que a frustração, só se fazia cada vez maior e maior, até que um choro histérico, dolorido, brotou em sua garganta e choveu dos seus olhos, por que ela não podia simplesmente sair dali? Por que ela tinha que estar tão longe de todos? Tão longe deles? Ela não queria mais, não queria estar ali...
Derepente ela percebeu que... a única coisa que a prendia a aquele lugar era ela mesma, e a única resposta para suas perguntas, era bem simples, ELE.
Ela precisava estar com ele, ela queria estar com ele, e ele era a única necessidade que ela sentia agora, por ele...
Levantou-se, foi até a mesa, pegou o caderno, a caneta, o isqueiro, desceu até o porão, jogou tudo dentro da bolsa, pegou uma garrafa de vinho, apoiou as mãos com firmeza nas bordas da prateleira, e empurrou-a, fazendo um grande barulho de vidro estilhaçando no chão, abriu os barris e deixou o vinho vazar, enquanto subia carregando a bolsa e a garrafa, arrumou uma mala, pequena, com coisas simples, algumas blusas, algumas saias, algum dinheiro, e mais uma coisa ou outra. Tudo pronto, levou as coisas pra fora, tirou o isqueiro da bolsa e pôs no bolso do sobretudo, entrou de novo, tudo o que encontrava pela frente, ia ao chão, prateleiras derrubadas, mesas viradas, estantes, potes, vidros estilhaçados, e aos poucos tudo o que era inflamável ia tomando seu espaço na bagunça, escorrendo por entre os móveis, papéis, e cacos espalhados, a última garrafa de álcool que encontrou, ela gastou derrubando o líquido na porta de entrada enquanto saía, foi até a bolsa, arrancou uma página do caderno, voltou até perto da porta, pois fogo na pontinha do papel e... Soltou-o.
Deu alguns passos para trás, de costas, em direção à mala, vendo o fogo do papel, vagarosamente passar para a porta, da porta para dentro de casa e derepente, portas e janelas explodindo, um calor sem igual tomando os arredores da casa, em algumas horas, tudo o que restaria ali, seriam cinzas.
Ela assistiu, por mais alguns segundos a casa queimando, depois sorriu, deu às costas ao fogo, pegou a mala e a bolsa, e se foi...
Foi pra ele...
Pra junto dele...
Enfim...
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